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"EROS" BIOLÓGICO E QUEDA DO "EROS"

METAFÍSICA DO SEXO

  • Diotima, em “O Banquete” de Platão, afirma que todos os homens tendem para o bem através do amor e que a essência eterna do amor consiste em possuir o bem, não a metade que falta ou o todo, sendo o “bem” entendido no sentido ontológico helênico como o que é perfeito e completo.
    • O amor toma a forma específica de “ardente solicitude e tensão” daquilo que tende para esse fim, em relação com a força criadora inata a todos os homens segundo o corpo e a alma, visando o “ato de procriação na beleza”, inclusive na união do homem com a mulher.
    • Na erotologia de Diotima aspira-se à imortalidade pela posse eterna do bem, mas ao mesmo tempo a doutrina conduz a uma física do sexo que antecipa curiosamente os pontos de vista de Schopenhauer e dos darwinistas: a natureza mortal, atormentada pelo fogo do amor, procura a imortalidade através da continuação da espécie.
  • A teoria de Diotima sobre a sobrevivência da espécie afirma que um homem quase supra-individual perdura através da cadeia eterna das gerações graças ao eros procriador, pois cada ser vivo se renova continuamente apesar da destruição de suas parcelas.
    • Diotima explica o impulso que impele os animais não só a acasalarem-se mas a praticarem sacrifícios para alimentar, proteger e defender a prole, antecipando a argumentação darwinista.
    • Não é por acaso que essa teoria se encontra na boca de uma mulher e que essa mulher seja Diotima de Mantineia, iniciada nos Mistérios, que remetem ao estrato pré-helênico, pré-indo-europeu de uma civilização telúrica e ginecocraticamente orientada.
    • Nessa civilização, que coloca o mistério da geração física quase no topo de sua concepção religiosa, o indivíduo não tem existência própria, sendo eterno apenas na substância cósmica em que se dissolverá e da qual ressurgirá eternamente, como folhas novas substituindo as mortas numa árvore.
    • Isso é o oposto do conceito da verdadeira imortalidade olímpica, que impõe o corte do elo físico e telúrico-maternal, a saída do círculo eterno da geração e a ascensão às regiões da imutabilidade e do ser puro.
  • Com a teoria do andrógino e a da sobrevivência da espécie têm-se duas concepções efetivamente antitéticas: uma de espírito metafísico urânico, viril e eventualmente prometeico, e outra de espírito telúrico, maternal e “físico”.
    • O ponto de transição entre as duas opiniões é mais importante ainda que as antíteses: a “imortalidade telúrica” ou “temporal” é pura ilusão, pois nesse nível o ser absoluto escapa indefinidamente ao indivíduo.
    • Kierkegaard observa que, embora os amantes formem na união um só Eu, no fundo são enganados, pois nesse momento a espécie triunfa sobre os indivíduos; o filho não é gerado como ser imortal que termina e transcende a série, mas simplesmente como ser idêntico aos que o geraram.
    • O demônio mítico schopenhaueriano da espécie engana os amantes: o prazer é o elemento motor da procriação, a fascinação e a beleza da mulher são instrumentos, e na embriaguez do ato sexual os amantes, julgando viver uma vida superior, estão de fato a serviço do ato procriador.
    • Os símbolos do enchimento inútil e eterno do tonel das Danaides e do inútil e eterno tecer da corda de Oknos ilustram essa vicissitude desesperada e vã do “círculo procriador”.
  • O impulso obscuro para o ser absoluto se transmite, degradando-se e desviando-se, ao que se dissimula sob o acasalamento animal e a procriação, tomando a forma de uma procura de sucedâneo para a necessidade de confirmação metafísica do Eu, e a fenomenologia do Eros segue essa queda.
    • O Eros, que era um estado de embriaguez, transforma-se cada vez mais em desejo extrovertido, sede e cobiça física, animaliza-se e torna-se puro instinto sexual, experimentando uma síncope no espasmo e no abatimento que se segue à voluptuosidade física.
    • O instinto genésico, inexistente como fato da consciência erótica, torna-se real como “Id” (para usar o termo da psicanálise), obscura gravitação e coação vital que escapa à consciência, não porque a “vontade da espécie” seja um fato, mas porque a vontade do indivíduo de superar seu fim nunca pode ser extirpada ou recalcada, sobrevivendo nessa forma obscura e demoníaca que fornece a dynamis, o impulso primordial no ciclo eterno da geração.
    • Michelstaedter é evocado a propósito da liquida voluptas como fenômeno de dissolução.
  • O processo explicativo habitual deve ser invertido: o inferior se deduz do superior, e o instinto físico procede de um instinto metafísico, sendo a tendência primordial a do ser, cujos impulsos biológicos de autoconservação e reprodução são “precipitados” e materializações que criam no próprio plano os seus determinismos físicos.
    • Esgotada a fenomenologia humana, que parte da embriaguez hiper-física e encontra seu limite inferior no orgasmo da função genésica, passa-se às formas de sexualidade dos animais como especializações degenerativas de possibilidades latentes no ser humano.
    • Rémy de Gourmont descreveu essas formas na “Física do Amor”, mas esse mundo de correspondências ilumina-se agora de uma luz diversa: não se revelam aqui antecedentes evolutivos do eros humano, mas formas liminares de sua involução e desintegração como impulsos automatizados, demonizados, lançados no ilimitado e no insensato.
    • No eros animal, onde se falaria da coação absoluta da “vontade da espécie”, a raiz metafísica se torna por vezes mais visível do que em muitas formas flácidas e “espirituais” do amor humano.
  • No plano da vida de relação, o homem precisa do amor e da mulher para escapar à angústia existencial e inventar um sentido à sua existência, procurando inconscientemente sucedâneos e alimentando ilusões.
    • Jack London é evocado a propósito da “atmosfera sutil emitida pelo sexo feminino”, cuja ausência cria um vazio crescente e uma angústia indefinível.
    • Esse sentimento serve de fundo à sociologia do sexo como fator da vida associada: do matrimônio ao desejo de ter filhos e descendência, manifestando-se tanto mais vivo quanto mais se degrada o plano mágico do sexo.
    • Esse domínio, em que o homem domesticado modernamente encerra habitualmente o sexo, pode denominar-se o dos subprodutos de segundo grau da metafísica do sexo, substituindo-se com ele um mundo de “retórica” pelo mundo da “persuasão” e da verdade no sentido de Michelstaedter.
    • Ainda mais à margem encontra-se a pesquisa abstrata e viciosa do prazer venéreo como estupefaciente e lenitivo liminal da falta de sentido de uma existência acabada.
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