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PROVA DO ORGULHO

MISTÉRIO DO GRAAL

  • Os significados confirmam-se em relação às figuras de Galvão e de Amfortas, sendo Trevrizent, irmão do rei do Graal decaído, retirado à vida ascética junto da «Fonte Selvagem», aquele que procura, pela ascese, aliviar o sofrimento do irmão e remediar a decadência do reino, representando pelo próprio nome — «trégua recente» — uma solução provisória à espera de restauração verdadeiramente heroica.
    • Trevrizent recorda a Parsifal a sorte de Lúcifer e das suas legiões após a decisão de aventurar-se sem Deus.
    • Indicação do limite decisivo: além de força excepcional, exige-se pureza de orgulho para guardar o Graal.
    • Advertência sobre a virtude da renúncia e evocação da miséria de Amfortas como recompensa do orgulho.
    • Queda de Amfortas ligada à violação da castidade na procura do amor, acarretando calamidades para ele e para o seu entorno.
  • Em Amfortas é figurado o rei ferido e impotente, cuja queda decorre de ter adotado como divisa um amor não concorde com a humildade, colocando-se ao serviço de Orgeluse de Logrois e realizando façanhas movidas por ânsia amorosa, até ser ferido nas partes viris por lança envenenada de cavaleiro pagão que ambicionava o Graal.
    • Morte do adversário sem eliminação da ferida.
    • Esvaimento da força e incapacidade de exercer a função régia do Graal.
    • Prostração e desolação do reino como consequência da impotência do rei.
  • O simbolismo erótico do episódio alude a desvio luciferino, entendido como ação guiada por cobiça e orgulho, sendo a castidade exigida pelo Graal não moralismo vulgar, mas superação do orgulho, pois não é proibida a união legítima, mas sim a consagração a qualquer “mulher” símbolo de orgulho, como Orgeluse.
    • Reis do Graal podem ter esposa designada pelo próprio Graal.
    • Cavaleiros podem aceitar favores femininos noutros textos.
    • União com Orgeluse implica envenenamento da virilidade heroica.
    • Ferida de Amfortas como punição análoga ao castigo de Prometeu.
    • Advertência de Trevrizent a Parsifal associada à queda de Lúcifer.
  • Galvão empreende aventura análoga à de Amfortas, mas com êxito diverso, seguindo o conselho de recorrer à “mulher”, encontrando em Oblilote aquela que o protege, guia e anima, prometendo-lhe paz, coragem e inseparabilidade no combate.
    • União com a dama definida como aliança interior e influência oculta.
    • Enfrentamento da aventura do «Castelo das Donzelas» ou Schastel Marveíl.
    • Aventura considerada a mais audaciosa e designada noutra tradição como “grande loucura”.
    • Sucesso de Galvão em contraste com a ruína de Amfortas.
  • A prova de Galvão consiste em suportar humilhações, escárnios e ingratidões, revelando domínio interior e superação da hybris, simbolizada pela travessia da «estroite Voie», caminho estreito de aço sobre rio sombrio, que outro cavaleiro não ousa enfrentar.
    • Prova entendida como teste do orgulho.
    • Caminho árduo equidistante do prometeísmo e de sacralidade não viril.
    • Êxito culminando no matrimônio com Orgeluse.
  • A saga apresenta duplo aspecto do tema da “mulher”, distinguindo entre cavalaria terrestre movida por mulher e cavalaria celeste orientada pelo Graal, sendo proibido levar mulheres na busca do Graal para transformar a cavalaria terrestre em espiritual.
    • Tentação de Lúcifer frequentemente figurada como tentação feminina.
    • Estranheza do símbolo se não considerado em chave espiritual.
  • Paralelamente, a saga retoma o tema de reinos conquistados graças à mulher obtida após provas heroicas, como ocorre com Gamuret, com Parsifal por meio de Condwiramur, e na interpretação de Gerbert sobre o abandono da dama como causa de insucesso inicial.
    • Invocação de Condwiramur assimilada à do Graal.
    • Branca-flor como dama cuja ausência explica fracasso.
    • Graal conduzido por virgens e mulheres coroadas com atributos próprios.
    • Feirefis, após batismo e união com Repanse de Shoye, alcança visão do Graal e funda linhagem.
    • Beijo de Antikonie inflamando ardor heroico e vinculando amor à conquista do Graal.
  • Em Heinrich von dem Turlin evidencia-se quase identificação entre mulher sobrenatural, Vrowe Saelde, e o Graal, sendo o palácio de Frau Saelde réplica simbólica do castelo do Graal e a sua busca condicionada por provas equivalentes.
    • Prova da Luva que torna invisível a metade direita do corpo dos puros e denuncia impureza nos demais.
    • Segunda luva concedendo assistência na busca do Graal.
    • Invisibilidade interpretada como poder de transpor-se ao invisível.
    • Galvão recebe votos de saúde, vitória e duração eterna do reino de Artur.
    • Prova de impassibilidade, sob pena de dissolução da corte.
    • Preferência pela juventude eterna em vez de posse de reino como escolha da vida sobrenatural.
    • Repetição simbólica da aventura do Castelo das Donzelas.
  • Esotericamente, a “mulher” enquanto força vivificante e potência transcendente é perigosa apenas enquanto objeto de cobiça, sendo sob esse aspecto tentação luciferina que causa a ferida na virilidade espiritual, ao passo que a castidade significa limite antititânico e superação do orgulho.
    • Referência ao mito de Kalki e à transformação de homens em “mulheres” ao desejarem.
    • Eros heroico como perigo quando impulso selvagem.
    • Desmesura nos desejos como único elemento intolerável pelo Graal.
  • A “paz triunfal” corresponde ao estado olímpico reconquistado pelo herói mediante ascese da potência e superação do elemento viril selvagem e do desejo, formando núcleo viril sideral apto a conquistar e contemplar o Graal sem destruição.
    • Combate como via para conquista da paz da alma.
    • Pureza na vitória como condição de visão íntegra do Graal.
  • Admite-se ainda possibilidade subsidiária de interpretação mais concreta do episódio de Amfortas, relacionada a eventual conhecimento de magia sexual nos ambientes da literatura amorosa medieval.
    • Dificuldade de determinar com precisão tal hipótese.
    • Indicação de pontos de referência essenciais dessa tradição.
  • Segundo tradições secretas, o homem possui força viril supra-material que, libertada da materialidade, se manifestaria como poder mágico, sendo paralisada pela sexualidade não orientada, pois o desejo e o ato procriativo ordinário atuam de modo mortal sobre essa força, configurando “morte sorvente” proveniente da mulher.
    • Transformação paradoxal do homem em “mulher” ao desejar e possuir sob signo do desejo.
    • Ato sexual sob abandono interpretado como castração da virilidade mágica.
    • Ferida envenenada nas partes genitais de Amfortas como possível imagem simbólica dessa lesão.
    • Mulher como força essencial e perigosa no plano espiritual e iniciático, devendo este plano permanecer referência principal.
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