evola:sexo-livre
LIBERDADE SEXUAL
EVOLA, Julius. L’Arc et la massue. Tr. Philippe Baillet. Paris: Pardès ; Éditions de la Maisnie, 1984.
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A sexualidade tornou-se objeto de atenção sem precedentes na época contemporânea, mas o movimento que a exalta opera paradoxalmente sob um clima de democracia, promiscuidade e dissolução que rebaixa sua concepção.
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A tendência pan-sexualista convive com o combate aos resquícios da moral burguesa.
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A sexualidade é tratada apenas em seus aspectos mais banais ou duvidosos.
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A partir do sexo, elaborou-se um ataque aos ideais e estruturas das civilizações superiores.
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E. Rattray Taylor propõe uma morfologia das civilizações fundada em bases sexológicas e psicanalíticas, interpretando a história como alternância entre atitudes “patristas” e “matristas”.
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Taylor é freudiano e parte da premissa de que o sexo é a força determinante do psiquismo humano.
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A chave interpretativa é a oposição entre quem se identifica com o pai (patristas) e quem se identifica com a mãe (matristas).
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Ao patrismo associam-se: autoritarismo, conservadorismo, patriarcado, ascetismo, intolerância sexual, ideia de que a humanidade é naturalmente má.
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Ao matrismo associam-se: democracia, progressismo, hedonismo, liberdade feminina, naturalismo, ideias à maneira de Rousseau.
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A historiografia de Taylor distribui as civilizações e períodos históricos segundo os polos patrista e matrista, com resultados sistematicamente deformados.
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O mundo medieval recebe o pior julgamento, classificado como auge do patrismo repressivo encarnado pela Igreja Católica.
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As heresias medievais, os Cátaros, os trovadores e a Renascença são classificados como matristas.
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A Reforma seria reação patrista e a Contrarreforma aprofundaria esse polo; o romantismo seria essencialmente matrista.
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A sociedade americana contemporânea é considerada, pelo próprio Taylor, essencialmente matrista.
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A principal objeção à historiografia de Taylor é que ela não explica sua própria premissa, permanecendo na superfície do fenômeno que pretende iluminar.
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Não se esclarece por que razão prevalece, em cada período histórico, a tendência paterna ou materna no indivíduo.
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J. J. Bachofen, citado por Taylor mas ignorado em sua importância, indicara a orientação correta: partir da metafísica e do cosmos, não do homem e de seus complexos psicanalíticos.
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As civilizações antigas operavam com princípios transcendentes – céu e terra, espírito e natureza, eterno masculino e eterno feminino – anteriores ao humano.
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A oposição entre civilizações do pai e civilizações da mãe, entre sociedades androcráticas e ginocráticas, é real na história, mas se deforma quando o sexo é absolutizado como fenômeno puramente humano.
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Wilhelm Reich, discípulo dissidente de Freud, coloca no centro de seu sistema o conceito de orgone ou energia orgonal, identificada como força universal manifestada na sexualidade.
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A intuição inicial de Reich – de que na sexualidade se manifesta uma energia supra-individual – coincide com ensinamentos tradicionais, como a doutrina indiana da kundalini e o conceito de Shakti.
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Reich, porém, não ascende ao plano metafísico: busca essa energia no universo físico, como uma espécie de eletricidade atmosférica, chegando a propor condensadores de energia orgonal e cabines orgonais para uso terapêutico.
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As neuroses, psicoses e até o câncer seriam causados por bloqueios (couraças) da energia orgonal, que impedem a descarga orgásmica completa.
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Reich generaliza a teoria dos recalques freudianos ao introduzir o conceito de impotência orgásmica, causa central de todos os males psíquicos e sociais segundo seu sistema.
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A impotência orgásmica, distinta da impotência erétil e ejaculatória, seria produzida por uma angústia do prazer que gera a couraça caracterial.
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Toda a história da humanidade civilizada seria marcada por couraças coletivas contra a descarga orgásmica plena.
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Reich identifica a perda do paraíso com a perda do funcionamento vital perfeito, obtido pelo pleno exercício da sexualidade.
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A vitalidade recalcada manifestar-se-ia nas psicoses, no crime, no alcoolismo e no desejo de nirvana como sucedâneo da satisfação genésica.
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O sistema de Reich desemboca em uma religião da vida fundada na sexualidade e em uma ética de abandono total a ela, condenando as estruturas das civilizações superiores como couraças histéricas.
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O fundamento tradicional coloca a sexualidade como um dos dois polos da díade metafísica: Shakti ou Prakriti, o princípio feminino, tem como contraparte Shiva ou Purusha, o princípio do ser.
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Reich absolutiza apenas um dos dois princípios cósmicos, exaltando o polo feminino da vida contra tudo o que corresponde, no plano humano, ao polo masculino: forma, imutabilidade, ordem que transcende a natureza.
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O próprio Reich admite não saber explicar por que apenas a espécie humana teria desenvolvido suas couraças, reconhecendo implicitamente a limitação de seu sistema.
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A única explicação válida é a existência do outro polo da díade cósmica, que age nos homens, nas sociedades e nas civilizações com força tão primordial quanto o princípio feminino.
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A angústia diante do prazer, que Reich reduz a patologia, encobre na verdade o desejo legítimo de manter a personalidade diante do abandono passivo e naturalista ao sexo.
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Reich reconhece fugazmente que o desejo orgástico é uma expressão de impulsão para além de si mesmo, associando a ideia de morte ao orgasmo.
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A intuição correta concerne à impulsão à transcendência inscrita no eros, mas Reich a confunde com descarga de energia biológica.
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A distinção entre superação passiva – da qual é preciso guardar-se – e superação ativa e ascendente, elaborada pela tradição e explorada na obra Metafisica do Sexo, nunca ocorre a Reich.
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Os limites da visão reichiana resumem-se ao abandono passivo do eu e à descarga da energia orgonal pelo orgasmo completo.
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Reich reinterpreta a dualidade freudiana das pulsões para reduzir sadismo e masoquismo a complexos patológicos secundários derivados do recalque da pulsão orgásmica primária.
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Para Freud, existem duas pulsões fundamentais: o princípio do prazer e a pulsão de morte e destruição.
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Para Reich, apenas a pulsão orgásmica é primária; a pulsão destrutiva seria consequência de sua repressão por estruturas sociais e impotência orgásmica.
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No plano político e social, as tendências sádicas gerariam o autoritarismo; as masoquistas, a mentalidade gregária e o culto da personalidade.
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Reich coloca no mesmo saco o patriarcado, os regimes militaristas, o fascismo, o capitalismo e o comunismo soviético.
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Malinowski e Margaret Mead recorreram à etnologia para confirmar as teses reichianas, comparando um povo matriarcal pacífico e sexualmente livre com outro patriarcal e agressivo.
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A observação factual bruta não estabelece relações de causa e efeito, e só convence quem aceita explicar o superior pelo inferior e o civilizado pelo selvagem.
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Dumézil advertiu que nada há de que não se possa encontrar confirmação aparente nos materiais etnológicos com boa vontade.
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É absurdo supor que Alexandre, Tamerlão, César, Napoleão, Frederico II teriam sido diferentes com educação sexual não inibida.
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No plano individual, nenhum grande conquistador levou vida puritana, o que contradiz diretamente as premissas de Reich.
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As teses de Reich e seus seguidores constituem um conjunto de absurdos cuja origem está em uma concepção primitiva e banal do sexo, retornada contra seus próprios autores.
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Ao reduzir sadismo e masoquismo a complexos patológicos secundários, Reich revela ignorar as dimensões efetivas da pulsão sexual em suas manifestações mais profundas e intensas.
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Sadismo e masoquismo podem ser acentuações de aspectos inerentes a todo amor erótico intenso, que comporta um fator de destruição ligado à impulsão à transcendência.
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Os temas amor-morte e volúpia-destruição reaparecem em toda a história do eros: Ishtar, Durga, Hathor-Sekhmet foram ao mesmo tempo deusas do sexo, da morte e da guerra.
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A disposição ao mando e à obediência é intrínseca à natureza humana e nada tem a ver com fatos sexuais; libido dominandi e libido servendi são apenas suas formas degeneradas.
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Luigi De Marchi, situado na mesma corrente de Rattray Taylor e Reich, publica Sesso e Civilta com um animus semelhante contra os ideais das civilizações superiores, misturando críticas aceitáveis a absurdos igualitários.
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De Marchi ignora as referências doutrinais necessárias para analisar os aspectos históricos e espirituais da questão sexual.
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Algumas críticas e exigências reformistas de De Marchi são aceitáveis em si mesmas.
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Quando propõe algo positivo, cai em absurdos por aplicar uma perspectiva igualitária com fervor apostólico.
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De Marchi denuncia o complexo “sexofóbico” recorrendo à história e à etnologia para mostrar que muitas civilizações sacralizaram o sexo, rejeitando a equação puritana entre recalque erótico e civilização.
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Vilfredo Pareto já demonstrara com exemplos concretos que certa liberdade de costumes não implica necessariamente decadência das virtudes superiores.
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O recurso a populações selvagens é metodologicamente equivocado: os primitivos não são povos das origens, mas restos degenerados de uma humanidade primordial, e frequentemente conheceram tabus sexuais piores que os da sociedade burguesa.
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As simpatias de De Marchi vão quase exclusivamente às civilizações que Taylor chama matristas e Bachofen chama ginocráticas, afrodisianas ou demetrianas.
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A tese de De Marchi de que moralismo sexofóbico e misoginia são inseparáveis de toda civilização viril, patriarcal e guerreira é pura fantasia, contradita por inúmeros exemplos históricos.
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O Islã combinou organização social andocrática com grande importância atribuída ao amor e à sexualidade, e caráter guerreiro.
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A Roma antiga – os “prussianos da época” na expressão de R. Aldington – reconheceu a dignidade da mulher e da matrona sem cair na sexofobia puritana.
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Catão, o Velho, atacado por De Marchi por seu extremismo militarista, demonstrou conduta tolerante e digna nas Florália, segundo o exemplo lembrado por Pareto.
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As civilizações superiores puderam cultivar valores éticos e guerreiros severos sem confundir a colocação correta da mulher em seu lugar com o desprezo ao sexo feminino.
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A equívoco central do cristianismo consistiu em universalizar valores ascéticos destinados a uma minoria, aplicando-os como moral para todos.
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O mundo pré-cristão e não-cristão frequentemente sacralizou o sexo sem reduzi-lo à única via de transcendência disponível ao homem.
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A abstinência sexual, nos contextos ascéticos legítimos, não é recalque nem mortificação da carne, mas técnica objetiva para desviar a força profunda do sexo de seu objeto habitual em direção a outro fim.
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O mesmo equívoco está na origem de outros preceitos da moral cristã originária – oferecer a outra face, imitar os lírios do campo, abandonar todos os bens – que só fazem sentido no plano ascético.
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O casamento indissolúvel e sacramental só pode concernir a um tipo excepcional de união, não às uniões da esmagadora maioria dos homens e mulheres.
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Os fenômenos sexuais verdadeiramente negativos no Ocidente surgiram quando a religião se reduziu a simples moral e o mundo se aproximou da época burguesa, gerando o “vertuismo” descrito por Vilfredo Pareto.
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O vertuismo sexual converge hoje nos movimentos políticos mais opostos como dogma tacitamente admitido.
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A Revolução Francesa, o socialismo, o sindicalismo e a revolução comunista foram puritanos e sexofóbicos; Stálin consolidou essa orientação.
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O comunismo soviético reduziu a esfera sexual a um acidente físico bruto e saudável, excluindo toda paixão e profundidade do eros em nome da pátria soviética e dos planos econômicos.
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A China comunista foi ainda mais longe na mesma direção.
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A análise dos costumes americanos revela um mal-estar profundo na vida sexual, apesar das aparências, cuja origem remonta à concepção puritana que idealizou a mulher em base sexofóbica.
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Até a época vitoriana, a mulher foi concebida como ser superior e espiritual, ao qual se ofenderia supondo-lhe emoções sexuais.
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O clichê de dignidade e elevação moral colado à mulher gerou uma legião de mulheres sexualmente inibidas e frustradas.
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A contrapartida masculina foi o homem que se deixa dominar pela mulher ou que reage conformando-se ao tipo do durão, do violento, do gangster.
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Daí surgem compensações e defloramentos – excessos dos beatniks, alcoolismo, frenesi do jazz – que apenas agravam a situação.
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Quando De Marchi passa da crítica histórica à definição de uma nova moral sexual, incorre em absurdos igualitários ao pregar para qualquer pessoa uma ética que só convém a uma minoria.
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De Marchi pronuncia-se a favor do divórcio, posição aceitável diante do que se tornou na prática a ideia de união indissolúvel na sociedade burguesa.
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Apoia o controle de natalidade, embora as medidas anticoncepcionais mais seguras se alinhem mal com a espontaneidade sexual naturalista que ele mesmo prega.
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Combate a prostituição, vendo nela o correlato lógico do vertuismo burguês, e propõe a fórmula emancipação feminina mais liberdade sexual.
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Inclui a liberdade sexual entre os direitos inalienáveis da pessoa humana, ao lado das liberdades democráticas, sem distinguir liberdade de algo e liberdade para algo, na acepção nietzschiana do Zaratrustra.
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A liberdade sexual ilimitada difundida democraticamente é uma absurdidade, pois a perspectiva resultante seria o retorno às antigas sociedades afrodisianas indiferenciadas, naturalistas e pacifistas, com a dominação tácita da mulher.
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Nietzsche formulou de modo definitivo que um homem só pode se permitir certas coisas sem cair na corrupção e na decadência na medida em que é capaz de a elas renunciar e de se dominar a qualquer momento.
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A liberdade sexual irrestrita é destinada a transformar-se em licença, dissolução e animalidade irrefreada para a maioria.
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Os perigos são ainda maiores para um povo como o italiano, que não apresenta, por razões mais raciais do que por preconceitos tradicionais, as disposições mais felizes no domínio sexual.
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A última guerra na Itália produziu apenas um aumento da corrupção banal ou mercenária, muito distante da mulher que aspira a uma liberdade genuinamente anticonformista.
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A crítica de De Marchi ao romantismo, ao nietzschianismo e ao fascismo revela os equívocos mais graves de seu sistema interpretativo.
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O romantismo e os movimentos decadentistas exaltaram o sexo em termos de transgressão, reconhecendo implicitamente seu caráter culposo, acrescentando crime, crueldade e perversão.
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A crítica de De Marchi a Byron e Nietzsche é que afirmaram liberdade para eleitos em vez de promover uma reforma global dos costumes sexuais – o que constitui um contrassenso.
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Quanto ao fascismo, De Marchi encontra a ver no fato de Mussolini desqualificar pessoas ou povos chamando-os de femininos, sem perceber que isso pressupõe que ser feminino seria algo excelente para o homem.
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O nacional-socialismo tolerou liberdade sexual considerável, formulou o lema Das Kind adelt die Frau e criou os centros Lebensborn, iniciativa que deveria entusiasmar De Marchi mas que seu antifascismo partidário o impede de reconhecer.
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Bosco Nedelkovitch, argentino de origem iugoslava, propõe em carta aberta uma nova ética sexual baseada na polivalência amorosa e na eliminação do exclusivismo possessivo e do complexo de ciúme.
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Nedelkovitch parte de uma concepção da vida sexual que não a reduz a necessidade fisiológica nem a instinto de procriação.
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Contesta que a capacidade de dar tudo de si no domínio erótico suponha relação exclusiva com uma única pessoa.
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Condena o exclusivismo possessivo como reflexo do obscurantismo patriarcal, embora suas considerações sejam geralmente livres de superfetações ideológicas.
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Relata ter encorajado a própria esposa a se dar a outros homens em atmosfera de liberdade consciente, com resultado de enriquecimento e intensificação da relação conjugal.
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A novidade da ética sexual de Nedelkovitch é relativa, pois civilizações anteriores já conheceram a poligamia e o concubinato legalmente reconhecido; a originalidade reside em reivindicar para a mulher a mesma liberdade que o homem se atribuía.
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A Roma antiga conheceu a esposa imperial que escolhia escravas belas para o marido; o Japão conheceu esposas que acompanhavam os maridos quando estes partiam com outra mulher no fim de semana.
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Se a nova ética fosse generalizada, o casamento se reduziria a uma cláusula preferencial entre os cônjuges, com liberdade de relações acessórias.
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A procriação representa um obstáculo objetivo: o adultério feminino pode introduzir progênie estranha na família, o que explica por que legislações formalmente igualitárias são mais severas com ele.
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A liberdade sexual sem exclusivismo tem valor ético efetivo apenas quando é antes de tudo liberdade em relação ao sexo, condição que pressupõe uma minoria qualificada e não pode ser prescrita universalmente.
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O indivíduo capaz de concentrar possibilidades eróticas em várias pessoas sem ciúme supera a passividade geralmente ligada ao amor e à paixão, tornando-se ativo no domínio sexual em vez de por ele possuído.
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Quando as transferências do eros não diminuem a plenitude e a intensidade das relações sexuais, um nível superior é alcançado.
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Para a mulher, restrições particulares se impõem: a natureza feminina é tal que uma experiência erótica profunda a compromete geralmente muito mais do que ao homem.
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A difusão da nova ética sexual entre as mulheres poderia facilmente resultar não em liberdade superior, mas em desagregação e banalização da sexualidade.
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Todo o movimento reformista e de revolução sexual é viciado desde a origem pelos erros do igualitarismo e da democracia, e sua associação ao ataque contra os ideais da civilização hierárquica e aristocrática o inscreve no processo global de regressão que caracteriza a época atual.
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Seus teóricos ignoram o plano em que certas exigências e valores superiores à pequena moral burguesa poderiam ser legitimamente afirmados.
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Múltiplos indícios revelam que esses autores se inspiram em uma concepção inteiramente indiferenciada, naturalista e rebaixada da sexualidade.
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A vinculação das reivindicações sexuais ao ataque contra os valores da grande moral – não da pequena moral – confirma o pertencimento desse movimento ao processo regressivo da época contemporânea.
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