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VOLUPTUOSIDADE

METAFÍSICA DO SEXO

  • A afirmação de Piobb de que o espasmo sexual escapa à fisiologia, a qual apenas constata seu mecanismo, condena ao fracasso as tentativas de explicação científica profana do prazer, pois estas confundem o conteúdo da experiência com as condições necessárias para sua verificação, especialmente ao estudá-las no campo fisiológico em vez do psicológico.
    • A fisiologia limita-se a constatar o fato do espasmo e seu mecanismo nervoso, sem explicá-lo.
    • As tentativas de explicação científica do prazer falham por não distinguirem a experiência em si de suas condições prévias.
    • O equívoco agrava-se quando as condições são estudadas apenas pela fisiologia, ignorando a psicologia.
  • A teoria positivista do século XIX, que considerava a necessidade genética uma necessidade de evacuação tornada agradável pela escolha, representa o auge da banalidade ao atribuir o prazer ao processo de emissão das secreções sexuais.
    • A teoria positivista define a necessidade genética como evacuação, com a escolha baseada no prazer da eliminação.
    • O prazer, segundo essa visão, seria causado pela evacuação das secreções sexuais.
  • A fragilidade da teoria da evacuação evidencia-se na sua inaplicabilidade à mulher, cujo orgasmo não está ligado à ejaculação, e na existência de prazer em sonhos sem polução, fatos que apontam para a possibilidade de um processo erótico independente dos condicionalismos fisiológicos habituais, como a persistência do prazer em homens senis ou traumatizados.
    • A teoria não se aplica à mulher, pois nela o orgasmo não exige ejaculação e as secreções vaginais são paralelas à excitação, podendo ser independentes do coito.
    • O prazer sentido em sonho, sem a contrapartida da ejaculação ou polução, contradiz a teoria da evacuação.
    • Esse prazer onírico pode ser mais intenso e extático que o do ato físico, sendo interrompido pelo despertar quando a correlação habitual com o físico se impõe.
    • O prazer em sonho ocorre mesmo na ausência de capacidade genésica ou ejaculatória, confirmando a independência do processo erótico.
  • Observações em animais e em humanos demonstram que o impulso sexual não é explicado pelo mecanismo vulgar de repleção e evacuação, havendo casos em que o desejo preenche os órgãos, subsiste após a castração, inibe a ejaculação quando intenso ou anseia por algo além do esgotamento físico, corroborando a complexidade do fenômeno.
    • Experiências com animais mostraram vasos seminais vazios antes da cópula, que se encheram durante o ato, invertendo a relação causal entre repleção e impulso.
    • Em castrados, a anestesia sexual não é regra, podendo o desejo subsistir e exacerbar-se.
    • O desejo extremo pode forçar os órgãos a produzir ejaculação sanguínea ou, ao contrário, inibir a ejaculação.
    • No amor-paixão, o esgotamento dos recursos físicos não sacia o desejo, gerando tortura por querer algo que a carne não pode mais oferecer.
  • Havelock Ellis concluiu pela independência do impulso para o prazer em relação às glândulas seminais, corroborada pela existência de centros sexuais cerebrais e pelo papel fundamental da imaginação, que ativa ou paralisa todo o processo de cópula, indicando uma base psíquica autônoma.
    • Havelock Ellis reconheceu que o impulso para o prazer independe do estado das glândulas seminais.
    • A existência de centros sexuais cerebrais, além dos espinhais e simpáticos, é a contrapartida anatômica dessa autonomia.
    • A imaginação desempenha um papel fundamental, podendo iniciar, acompanhar ou paralisar o ato sexual.
  • A teoria hormonal, ao explicar a excitação como intoxicação, incorre no mesmo erro de confundir a causa favorável (o terreno hormonal) com o conteúdo específico da experiência, pois a reação às hormonas, tal como a reação ao álcool, depende de uma “equação pessoal” que as transcende.
    • A teoria hormonal tenta explicar a excitação como intoxicação hormonal, base de toda a paixão.
    • Para não cair em círculo vicioso, seria preciso esclarecer a causa da intoxicação hormonal, que pode ser psiquicamente condicionada.
    • As hormonas, como o álcool, apenas fornecem um terreno favorável, cuja reação depende da “equação pessoal”.
    • Confundir a condição favorável com a causa determinante é um raciocínio ingênuo, análogo a atribuir à abertura de comportas a causa da água que jorra.
  • A teoria psicanalítica da libido, embora acerte ao reconhecer o caráter psíquico autônomo do impulso sexual e sua independência dos processos fisiológicos, falha ao tratar o prazer específico como um fenômeno negativo de alívio da tensão, aproximando-se da teoria fisiológica de Féré e reduzindo a satisfação a um mero apaziguamento, o que pode refletir uma visão decadente do eros.
    • A psicanálise acerta ao reconhecer a libido como psiquicamente autônoma e nem sempre ligada à fisiologia, como nos estádios pré-genitais.
    • A teoria psicanalítica do prazer, porém, equipara-se à de Féré ao considerá-lo um fenômeno negativo de alívio de tensão.
    • Tanto na visão fisiológica quanto na psicanalítica, o prazer sexual reduz-se à eliminação de um estado desagradável (tumescência ou tensão da libido).
    • O termo alemão Befriedigung, com seu sentido de apaziguamento, sugere que essa concepção pode ser um produto de uma época em que o eros se tornou primitivo e meramente físico.
  • O desejo sexual é um fenômeno complexo no qual o fisiológico é apenas uma parcela, sendo a excitação psíquica a provocadora da excitação física; apenas uma metafísica do sexo poderá esclarecer o assunto, permitindo desde já inferir que o ato físico é o mecanismo de um processo superior, fora do qual o “prazer” como satisfação carnal isolada é uma solução problemática.
    • O desejo sexual é complexo, com o fisiológico sendo apenas uma parte do processo.
    • A excitação psíquica provoca e comanda a excitação física e seus fenômenos.
    • Nem a psicologia nem a fisiologia, mas apenas uma metafísica do sexo poderá esclarecer o assunto.
    • A união física é o mecanismo que serve de suporte a um processo de ordem superior que a engloba.
    • O “prazer” reduzido à satisfação carnal e dependente de condicionalismos físicos é uma solução problemática.
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