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CADUCEU

GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.

  • O atributo por excelência de Hermes é o caduceu, idêntico primitivamente à virga latina e ao rhabdos helénico (= varinha), sendo Caduceum o mesmo vocábulo que o grego Kerykeion (= emblema do Keryx, isto é, do arauto); em sua forma mais simples, é um ramo de árvore sagrada cujo mana transcendente, subjacente à aparência física, se comunica aos neófitos pelos golpes, pois a fustigação, parte integrante de todas as iniciações, nunca teve por objeto fazer sofrer ou castigar os noviços, mas incorporar-lhes a energia dinâmica própria a um ser divino (um vegetal, ou um animal, se o chicote é feito de tiras de couro); quando o sangue corre e o objeto sacro fustigador entra em contato com ele, a santificação é mais íntima e mais completa; a varinha iniciática, primeiro tipo do caduceu, é verdadeiramente uma varinha de ouro, faz penetrar no mundo ultrafísico quem ela toca, adormece os sentidos físicos, desperta a alma, encanta, atrai, guia, como uma espécie de ímã que faz surgir e circular nos homens as correntes da sobrenatureza; termina às vezes por uma flor, dois ramos, dois cotilédones, uma cruz, mais raramente por bandelettes que acentuam seu caráter sacrossanto (transformado mais tarde em caráter sacerdotal); na poesia homérica, essa varinha é a não só de Hermes, mas também de Atena e da grande iniciadora Circe, que numa dessas ilhas de mulheres diviniza os homens transformando-os em homens-porcos; o cetro dos arautos e dos reis se distingue, em Homero, desse rhabdos, embora tenha, sem dúvida, exatamente a mesma proveniência ritual.
  • Uma outra terminação do caduceu é a terminação lunar, mencionada anteriormente, que confere de maneira explícita à varinha sagrada o mana imortal da Mãe Lua.
  • A forma mais conhecida do caduceu é o caduceu com entrelaçamento de serpentes, raramente encontrada nas figurações helênicas antes do século V, mas referindo-se a realidades rituais extremamente antigas: segundo um venerável mito, Rhea ter-se-ia transformado em cobra para escapar à perseguição de Zeus, e Zeus, não menos hábil, ter-se-ia transformado em réptil, sendo Hermes quem os teria reunido; esse relato profundo menciona velhas iniciações pela Mãe neolítica (da qual Rhea foi uma das designações), segundo o costume frequente de disfarçar em serpente a mulher sagrada na qual a Mãe se hipostasia; o novo iniciado, identificado pelas cerimônias com a luz divina (Zeus) que brilha no recinto celeste da montanha, travestia-se liturgicamente também em ofídio, e a hierogamia se cumpria segundo as regras matriarcais da iniciação; mais tardiamente, é Zeus, vestido de réptil, que é o iniciador e realiza a união santificante com sua filha iniciática Perséfone, igualmente travestida em serpente, sendo o fruto dessa união um iniciado-serpente, Dioniso-Zagreus; retorna-se assim à unidade-dualidade característica das mais altas concepções neolíticas.
  • No caduceu a répteis, os corpos dos dois ofídios emergem de caudas que coincidem e, após descreverem um S, chegam a duas cabeças que se olham, tratando-se de dois seres que se diferenciam a partir de um só, ou mais precisamente de um único ser em dois Eus; o caduceu traduz assim, como os hermai, a ideia do Deus dois, do androgyne original, mostrando em obra a unificação transcendente que se efetua graças ao sagrado incorporado à varinha, tornando manifesto o retorno dos seres e dos objetos físicos à indivisão dinâmica e constituindo a representação adequada do grande sacramento neolítico, incluindo o disfarce litúrgico sob o qual esse sacramento se praticava mais frequentemente.
  • A figuração dos dois serpentes enlazados, embora recente na Grécia, data de período longínquo na Caldéia, como prova o célebre vaso de Goudea, e no Egito (ver os dois répteis estampados sobre uma folha de ouro que orna uma faca de sílex: de Morgan, Recherches sur les Origines de l'Egypte, fig. 136); o orfismo, tendo recorrido com predileção a essa antiga liturgia dos répteis acoplados, pode ter sido o veículo pelo qual o caduceu a serpentes se difundiu na Grécia.
  • A segunda tradição antiga relativa às serpentes do caduceu é igualmente reveladora: Hermes, tendo encontrado dois répteis que se batiam, teria os separado com sua varinha, em torno da qual eles imediatamente se enlazaram; a luta assim encarada insere-se no cursus das iniciações, referindo-se antes de tudo às fustigações santificantes que terminam, uma vez cumprida a sacralização, pela hierogamia unificante; deve-se considerar também o antagonismo do mana masculino e do mana feminino, antagonismo cultural de importância assinalada nos tempos longínquos; o super-homem primeiro ancestral tendo rompido a indivisão dinâmica primordial, o cosmos apareceu como composto fundamentalmente, em sua aparência espaço-temporal, de duas forças opostas e complementares que reencontram equilíbrio e harmonia graças à presença do sagrado manifestado pela varinha iniciática; a famosa doutrina chinesa do yang e do yin é uma das melhores expressões dessas concepções de origem neolítica; no caduceu a serpentes o homem e a mulher mostrados acoplados durante os ritos criadores encarnavam um o Céu e outro a Terra, de modo que a criação do cosmos se reduzia liturgicamente a uma separação da Terra e do Céu pelo primeiro ancestral, que rompia a penetração do phallos no kteis e introduzia a cisão espacial — figuração frequente nos sarcófagos egípcios —; para remediar essa desordem, era preciso, pela união hierogâmica, restaurar a cópula inicial, por cujo meio não só o homem e a mulher restabeleciam sua indivisão primeira, mas todo o universo recuperava sua unidade e sua euritmia, pois o cosmos físico, o mundo da maya, depende do pensamento humano decaído, do qual é a secreção.
  • Hermes beneficia por vezes do mesmo atributo que Poseidon, o tridente, emblema de significação iniciática muito precisa nunca antes entrevista: acompanha-se facilmente sua evolução desde os velhos petróglifos, onde representa um homem de braços levantados (atitude do orant) em pé na barca da salvação que o leva à Ilha Santa (ver os desenhos rupestres relevados por Hermann Wirth em Die heilige Urschritt der Menschheit, 1931, e em Der Aufgang der Menschheit, 1929); o tridente assinala a divinização do homem por sua penetração na terra pura, isto é, no recinto dos ritos iniciáticos, sendo por excelência a imagem do homem iniciado, o que legitima que Hermes o porte.
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