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NASCIMENTO DE HERMES. HERMES E MÃE NEOLÍTICA.

GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.

  • O panorama sucinto do ritual neolítico fornece a ambientação necessária para a inteligência do mito de Hermes e permite sintetizar seus elementos, tendo em vista que o fundo das tradições relativas a esse deus é arcádio, o que significa que provém de uma região grega onde, por rara fortuna, os cultos e os costumes neolíticos dos Pelasges se perpetuaram ao abrigo de toda invasão (Pausânias VIII, 1, 4), tornando legítimo recorrer sistematicamente, como princípio de explicação, ao complexo mental analisado.
  • O nascimento de Hermes numa caverna, isto é, o nascimento do novo iniciado, não surpreende mais, pois era a regra então: essa caverna recebe no hino homérico a denominação de megaron (verso 65), corrente para as antigas grutas santas, e basta que seja o repouso do sagrado, fonte de todos os esplendores, para poder ser descrita como maravilhosa.
  • A personalidade iniciática cuja essência o recém-nascido absorve é — dado que se está no neolítico e numa região largamente influenciada pelo matriarcado — a Mãe Divina, cujo nome Maia significa Mãe: a Ma capadócia, a Mamma e a Maya da Índia têm a mesma origem; a Baba caldéia foi também apenas uma Mamma com pronúncia levemente diferente; essa Mãe, encarada como nutriz, foi frequentemente chamada Nanne, ou Anna, Anou, Ninni, Ininna, Ininni etc.; trata-se sempre de uma entidade feminina transcendente que, nas trevas das grutas, dá à luz os homens à sobrenatureza e lhes dispensa o alimento de imortalidade, essência e suporte de todas as forças e de todos os bens daqui de baixo; essa Mãe por excelência é aquela pelo quem se obtém o segundo nascimento, o único que contava, pois a vida orgânica ou fenomenal era tida por nada e não se sustentava fora dos dinamismos imortais subjacentes aos quais se suspendia.
  • No início, a Mãe dava à luz sem consorte masculino, sendo a Virgem Mãe neolítica; como presidia ao fundo das cavernas, tornou-se progressivamente a Mãe negra, convertida na muito reverenciada Virgem Negra do cristianismo; sua essência transcendente hipostasiando-se frequentemente numa pedra, era frequentemente uma pedra negra, e equivoca-se quem crê que as pedras negras fossem forçosamente de proveniência meteórica, pois isso só é exato em casos relativamente raros e de data tardia; a Mãe e a pedra em que se encarnava eram negras pelo mesmo motivo que Hades-Plutão: porque divinizavam os homens na obscuridade do mundo subterrâneo; por vezes a Mãe-pedra era uma concha em forma de vulva, razão pela qual nas tradições etnográficas encontram-se ancestrais iniciadores que engendram um povo desposando uma concha (ver Initiation Sexuelle et l'Evolution Religieuse, p. 157), relatos que têm sempre sentido muito pleno e se referem a realidades iniciáticas precisas.
  • Em numerosos países, a Virgem Mãe neolítica transformou-se em esposa ou concubina de um consorte masculino, reconhecendo-se nessa transformação a influência dos ritos fálicos; como as jovens iniciadas eram identificadas com a Mãe e se uniam hierogamicamente com uma personalidade masculina sacrossanta, era inevitável que o caráter virginal original se evanescesse, o deus tomou progressivamente o primeiro lugar e os novos iniciados passaram a ser considerados seus filhos; foi assim que Maia foi rebaixada ao rang de ninfa (= jovem), e que Hermes tornou-se filho de Zeus — o que certamente não era a situação local primitiva.
  • O hino homérico registra muito corretamente que Zeus visita Maia de noite, pois a hierogamia se realizava frequentemente, na alta época, na noite do mundo subterrâneo, operando-se mais tarde no recinto divino no cume da montanha.
  • A estreita associação primitiva de Hermes com a Mãe iniciadora da idade de prata se descobre em outros traços além de sua filiação de Maia: em Atenas, no santuário das Erínnias, sua estatura vizinhava com a de Ge e com a de Plutão, senhor do mundo subterrâneo (Pausânias I, 28, 6); uma antiga inscrição de Elêusis, que menciona as divindades às quais os iniciados dos Mistérios devem sacrificar, cita em primeiro lugar Ge e em segundo Hermes (sendo a vítima prevista uma cabra); Ésquilo, fervoroso iniciado, reúne em orações Ge e Hermes (Persas 629; Coéforas 124-127); numerosos ex-votos em baixo-relevo mostram ao lado de Ge metêr, ou sobre um montante de estelas, um pequeno personagem com caduceu que é seguramente Hermes (ver Daremberg e Saglio, Dict. des Antiq. Gr. et Rom. s. v. Mercurius); a conexão do deus com a Mãe sob sua forma de Mãe Lua é atestada pelo fato de que o emblema do qual é dotado, o caduceu, se encerra, na forma ordinária, por um globo encimado de um crescente, símbolo que era o da Astarté lunar e de Baal; em Arcádia e na Ática, Hermes estava associado a Hécate, essa antiga Mãe que conservou até o fim a seu caráter lunar, seu caráter terrestre e sua qualidade de Rainha do mundo subterrâneo; o vínculo com a Lua é tão normal quanto a relação com a Terra, pois esses foram os dois aspectos fundamentais da Mãe iniciadora do neolítico; em Hermes-crescente reencontra-se essa grande personalidade civilizadora, e a ligação não é de modo algum um detalhe aberrante; estudos anteriores examinaram os dois filhos celestes da Mãe Lua, assinalando que em muitos países a lua clara, ou primeiro crescente, hipostasiou seu mana no proto-iniciador e no proto-iniciado de uma tribo (ver Initiation Sexuelle et l'Evolution Religieuse, pp. 90 e 239-241).
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