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MONTANHA — GRANDE MONTANHA
L’image du monde dans l’Antiquité
O aspecto iniciático do grande ritual diluviano se desvenda claramente enquanto servia de preâmbulo às cerimônias da iniciação. Assinalava porque uma montanha (mais raramente uma ilha) era santa; aí tinha se situado, depois da grande catástrofe, a arca ou cofre da salvação; daí partiu a recriação espiritual da humanidade. Os novos iniciados tomavam assim de idade em idade, sobre a colina sacralizada pelo ancestral iniciador, o lugar dos antigos iniciados. Eles beneficiavam dos mesmos ritos e se impregnavam da mesma substância divina. A altitude santa local, onde se imobilizou, para um povo determinado, o vaso guardador de radiância, se tornou, desde então, o polo eterno do mundo; ela se identificava ontologicamente com a grande Montanha primordial, constituída pelo renovador da teocracia; em todos os países, os novos iniciados participavam da mesma liturgia e se unificavam na mesma energia sobrenatural. Este ritual diluviano foi um dos mais grandiosos que nossa espécie conheceu.
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Enquanto a primeira teocracia foi aquela da Ilha nórdica, a segunda teocracia foi aquela da Montanha, e teve sua sede muito mais ao sul e a leste: ela se instalou neste canto do globo muito provavelmente nos últimos séculos do quinto milênio antes da era cristã. Ela desfrutou de um prestígio incomparável. A Montanha dos Deuses, a Montanha Branca, a Grande Montanha, não é ignorada de nenhuma tradição, e seu papel na Imagem do Mundo foi insigne. É ela que se tornou o polo fixo do universo, o lugar transcendente onde a terra se unia ao céu. Os dirigentes da teocracia neolítica foram os deuses por excelência da antiguidade. Foram eles que reorganizaram a Ilha Sagrada do noroeste, aí delegando um dos seus (aquele que a Grécia clássica conheceu sob a denominação de Poseidon). Eles beneficiaram de um culto tanto mais fervoroso quanto a propagação dos ritos divinizadores eles associaram à difusão da agricultura e o pastoreio. Todos os povos antigos fizeram, a justo título, ascender a eles sua civilização, suas artes, suas técnicas, assim como seus costumes religiosos. Tudo, na antiguidade, data deles, É somente por seu intermédio que é possível perceber o período paleolítico antecedente.
Todas as montanhas divinas do globo são filiais da Grande Montanha neolítica, onde se estabeleceu a segunda teocracia. Esta Montanha mãe se situava na região armeniana e caucasiana: as tradições egípcias, bíblicas, caldaicas, gregas e nórdicas concordam sobre este ponto; a epopeia de Gilgamesh, principalmente, prova.
Durante milênios, a altitude sagrada, onde tinha «desembarcado» o ancestral iniciador (v. Noé), se confundiu com o santuário. O templo, no início, não foi senão a colina ela mesma. Por vezes, formando terraços em seus flancos, onde se praticava o primeiro trabalho do solo como obra litúrgica: o ancestral revelou, com efeito, ao mesmo tempo que os ritos iniciáticos, a cultura ritual de um cereal e da vinha. A primeira pirâmide egípcia de Saqqara, tem sua origem em uma montanha-templo deste tipo, da qual oferece a esquematização: eis porque ela é em degraus. Na Índia, na Birmânia, no Camboja, em Java, na Insulíndia, em toda a Ásia do Sudeste, em China, no Japão, no México, no Peru, em todos os Índios da América pré-colombiana, e na Polinésia, a montanha-templo é igualmente o princípio da arquitetura.
A Montanha santa é frequentemente designada pelo tema-raiz KBR , assim se chegando a denominação Cabiros.
GRANDE MONTANHA — QAF
Segundo os muçulmanos, uma elevação maravilhosa cerca a terra. É a montanha CAF (ou QÂF). Ela tem por fundamento uma pedra transcendente, feita de uma só esmeralda, — a pedra Sakhrat — que, por sua reflexão, colore de azul o céu. Esta pedra viva e divina é o polo e o motor do mundo. É ela que, por intermédio da Montanha — no meio da qual está situada a terra — garante a estabilidade de nosso habitat. Para alcançar a elevação sagrada, é preciso atravessar uma imensa extensão de trevas, uma espaço desmesurado, onde o sol não brilha jamais. Também os homens aí não podem penetrar sem guia. É aí, neste país, denominado Ginnistan, que estão confinados os Gigantes e os Dives, vencidos pelos primeiros heróis de nossa raça, aí também que habitam os Peris ou as Fadas. — Diremos que o monte Caf e as descrições encantadoras que dele dão, são simples cópias? Reconhecemos em realidade de uma maneira indubitável a elevação santa do neolítico, com sua Caverna (aliás seu mundo subterrâneo) e as personalidades que aí fazem sofrer provações, ao mesmo tempo guiando através de suas tenebrosas sinuosidades. Encontramos igualmente as mulheres divinas que residem no pico (prova que a influência matriarcal foi marcada fortemente nos árabes primitivos). Percebemos enfim como onfalos do mundo, uma pedra sacrossanta. Todas estas noções foram correntes em todos os povos, e são suficientes, junto com as práticas rituais, para explicar o advento na imaginação humana, do prestigioso monte Caf.
MONTE MERU
Na Índia, o onfalos e a síntese do cosmo é o sacrossanto Meru. Este vocábulo significa, segundo Burnouf, que tem um lago. Este lago é, com efeito, essencial. É formado pela água da divina Ganga, e leva o nome de Manasa-Sarovara (= excelente lago do espírito). É Brama que o criou de seu pensamento. A Montanha onde se situa marca o mais alto ponto da terra, aquele onde se alcança o céu. O Meru é, ao mesmo tempo, o centro de todas as coisas. É também o polo norte, quer dizer o polo fixo da terra. A água da vida se reúne na bacia superior da montanha; ela desce dos Sete Sábios ou Sete Rishis da Grande Ursa (que eram, primitivamente, sete ursos divinos); esta água sobrenatural, que reteve sempre seu caráter feminino neolítico, é a Ganga (o Ganges), fonte e rio transcendente, que corre do extremo norte para a Montanha dos deuses. Ela faz sete vezes a volta do Meru, e vai em seguida se despejar nos quatro lagos, postos sobre as quatro elevações que cercam a elevação das origens e lhe servem de contraforte para as quatro regiões do espaço. Sobre cada uma destes montes-sustentadores, se eleva, em um jardim encantado, perto de seu lago divino, uma árvore maravilhosa, que leva o nome genérico de Kalpavrikcha (Kalpadrouma ou Kalpatarou = árvore dos desejos, ou árvore dos períodos). Estas quatro árvores da juventude e da beatitude, graças a seu mana transcendente, conferem a vida sem fim e permitem trama perpétua do pensamento ao ser, de sorte que todos os quereres são instantaneamente realizados. Sobre o Meru ele mesmo cresce a árvore cósmica primordial, cujas quatro árvores de vida vizinhas são emanações: este vegetal das origens é a macieira, na espécie da macieira-rosa: jambu — a árvore cujo fruto (bû) serve para comer (jam), ou seja, é bom para comer. — Alimentados pelas águas que a Ganga aporta do lago supremo, os quatro lagos das quatro direções da cruz espacial dão nascimento à quatro rios terrestres, que se evadem pela goela de quatro animais divinos. — Estes quatro rios por sua vez banham as quatro grandes regiões da extensão, vistas como ilhas-continentes (maha-dvipas = grandes ilhas, grandes continentes); eles têm sua embocadura nos quatro mares; a ;este, ao sul, a oeste, e ao norte do Meru. Cada uma das quatro montanhas, e cada um dos animais sagrados que dão origem aos rios, são feitos de um metal diferente e possuem uma Cor especial (estas cores são as mesmas que aquelas que caracterizavam no início as quatro castas da Índia): a leste, branco ou prata, que corresponde aos brâmanes; — ao sul, vermelho ou cobre: Kshatriyas; a oeste: amarelo, cor de ouro: Vaicyas; ao norte, marrom-negro, ou de ferro: Shudras). Por outro lado os quatro lagos, os quatro rios e os quatro oceanos comportam líquidos diversos, em relação, eles também, com as quatro castas; estas, à quais se associam todo os povos da terra, provêm a princípio dos quatro rios originários do Meru. Discernimos assim, por trás desta cosmogonia grandiosa, um rito de criação análogo àquele dos oito Cabires que saem de uma Caverna e se sacralizam pela água de vida.
