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VISÃO PERSPECTIVA

A REVELAÇÃO PRIMITIVA

  • Nenhuma teoria da história deve ser descartada, mas quase todas partem do homem atual como ponto de referência, o que inviabiliza uma visão sintética e viva da evolução humana.
    • As teorias existentes iluminam nuances da evolução mental humana, mas nenhuma oferece uma visão completa.
    • Partir do homem atual para explicar a história equivale a supor que a fonte de um rio está no mesmo nível da foz.
    • Uma visão sintética exige partir de um ponto anterior ao homem atual, acompanhando a diferenciação progressiva dos elementos confundidos no fluxo inicial.
  • O exame atento dos relatos antigos, especialmente os da Bíblia, confrontados com dados etnológicos, impõe a conclusão de que o primeiro homem viveu em uma condição espiritual e mental radicalmente diferente da atual, tornando-o o fator explicativo por excelência da história, da filosofia e da religião.
    • O primeiro homem, o pai da raça, o primeiro exemplar do homo sapiens adâmico, é o verdadeiro ponto de partida para compreender a natureza e a evolução humanas.
    • Não é para o homem presente que se deve olhar, mas para esse ancestral primordial.
  • Não houve revelação primitiva no sentido estrito de ensinamento especial divino dado ao homem no mundo espacial atual, pois o primeiro homem foi constituído em estado de super-homem, com pensamento iluminado pela radiance da supernatureza, vivendo imerso no universo como matéria dinâmica e não como fenômeno.
    • O termo mais preciso para esse estado é prenatureza, reservando-se supernatureza, na teologia cristã, ao estado acessado pela Revelação em sentido próprio.
    • O estado primordial ou edênico consistia em uma imersão no universo apreendido em seu dinamismo, não como aparência fenomenal.
  • O que inaugurou a condição humana tal como se apresenta hoje foi uma ocultação abrupta do mundo resplandecente original, provocada pelo primeiro pecado, gerando o mundo crepuscular presente com seu tempo, seu espaço e sua matéria mecanizada.
    • A metamorfose foi instantânea.
    • Essa ocultação explica tanto a história humana quanto a natureza de cada indivíduo humano.
    • O termo revelação, em sentido preciso, só pode designar a doutrina que rasgou a névoa lançada sobre o pensamento humano pela ocultação do pecado.
    • O revelador responde ao ocultador, reparando sua obra nefasta e recolocando a humanidade na esplendor espiritual, mental e material de que foi despojada.
    • Toda a evolução humana gira em torno de dois homens: o primeiro ancestral, chamado por Paulo de homem antigo, e o homem novo.
  • A simples existência de uma mitologia em todos os povos demonstra a importância excepcional do primeiro ancestral como fator explicativo, pois o mito está sempre ligado a uma tradição e nunca se apresenta como invenção individual.
    • O mito se modifica ao longo dos séculos, mas toda modificação e toda adição se enxertam sobre algum relato anterior pertencente ao patrimônio ancestral.
    • Todas as noções que formam a ossatura da inteligência se fundavam originariamente nos mitos, ou seja, nos expostos tradicionais.
    • Remontando de geração em geração, chega-se inevitavelmente ao primeiro homem, em quem o fluxo se inaugura pela disparidade entre o estado inicial e o estado de queda.
    • As lembranças que Adão e Eva conservaram de sua condição anterior constituem as águas-mãe do grande rio da Tradição e o primeiro anel da grande cadeia.
    • Tradição e Tempo andam juntos: sem o desnivelamento entre o estado primeiro e o estado de queda, o funcionamento do espírito humano jamais teria se iniciado.
    • Ou o homem teria permanecido um prodigioso super-homem sem necessidade de Tradição, ou teria permanecido na animalidade, possuindo apenas tradição orgânica, isto é, instintos.
    • Se o homem tivesse simplesmente partido da animalidade, nela ainda estaria mergulhado, e o cimento intelectual chamado tradição jamais teria tomado consistência.
  • Nas profundezas do tempo e do espaço humanos esconde-se um mundo subterrâneo de luz, atualmente invisível e inapreensível, mas destinado a reaparecer, e essa é a substância da tradição primordial constituída no espírito do primeiro homem no instante da queda.
    • Esse mundo oculto é o fundo de todas as tradições humanas, designado sob nomes como Terra Pura, Montanha de Jade, Monte Meru, Albordj, Ilha Santa, Corte do Mundo, Polo, quintessência, ouro puro, Agarttha, Pedra Filosofal, entre outros.
    • A cristandade o denomina, segundo as parábolas evangélicas, Tesouro perdido, joia extraviada, Reino sepultado, que os homens devem fazer surgir das trevas.
    • Essa noção verdadeiramente primitiva fornece a chave do homem, da história, da religião, da magia, da arte, da ciência e de toda a grandeza e miséria humanas.
  • A situação atual da Terra e da humanidade é uma simples parêntese marginal na evolução do universo, destinada a se apagar sem deixar memória nem rastro quando o planeta e o homem recuperarem seu lugar normal na criação.
    • A Terra é transformada pelo homem em lugar de provações.
    • O homem perdeu momentaneamente sua grandeza inicial e não possui mais nada do ser prestigioso que era destinado a ser e que voltará a ser graças ao super-homem.
    • Recaído ao nível da animalidade, mostra-se incapaz de governar racionalmente o reino do qual é a criatura sintética e o senhor.
    • Criado livre, vive acorrentado; formado aderente ao ser, vive separado do ser; em vez de mover-se no seio das essências, alimenta-se de sensações; longe de alcançar existências, apega-se a reflexos.
    • O cosmos, onde tudo é irradiação, tornou-se para ele opaco e impenetrável.
    • O espaço e o tempo humanos formam ao redor do homem uma carapaça que o separa ao mesmo tempo de Deus e das criaturas, do ser e dos seres.
  • O que se propõe no presente trabalho é examinar brevemente alguns dos resultados que a ocultação teve para a espécie humana e mostrar que o universo luminoso soterrado na obscuridade da matéria espacial nunca cessou de ser o grande motor da atividade humana.
    • O que pôs o homem em movimento quando se abriu para ele a forma atual da duração foi a necessidade incoercível de reencontrar as claridades do mundo desaparecido.
    • Essa necessidade o agitará até que o mundo se restaure ou até que ele o perca para sempre.
    • Fora dessa busca, nada conta aqui embaixo; pode-se mesmo dizer que nada verdadeiramente existe.
    • O procedimento adotado não será didático, mas por sondagens, pois o assunto é tal que jamais se pode pretender mais do que aflorá-lo.
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