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MATERIA SIGNATA QUANTITATE
REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS
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O conceito escolástico de matéria, derivado do termo hyle utilizado por Aristóteles, deve ser compreendido como substância e não como a matéria dos físicos modernos, constituindo a potência pura e o suporte passivo de toda a manifestação universal.
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A hyle, em seu sentido de princípio universal, equivale à Prakriti da doutrina hindu, sendo a potencialidade pura e indiferenciada onde nada está ainda atualizado.
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A substância em sentido relativo, ou matéria segunda, desempenha o papel de princípio substancial em ordens de existência delimitadas, em correlação com o eidos ou forma.
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A substância universal situa-se abaixo de todos os estados da manifestação, sendo o único princípio propriamente ininteligível por não possuir nada que possa ser conhecido em si mesmo.
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A distinção entre matéria primeira e matéria segunda estabelece que, enquanto a primeira é potência pura, a segunda possui determinações relativas que permitem sua atuação como suporte de mundos ou seres específicos.
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Na hierarquia da existência manifestada, o que é matéria em um determinado nível pode tornar-se forma em outro, dependendo da relação de subordinação considerada.
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A explicação das coisas deve proceder do polo essencial para o substancial, ou de cima para baixo, o que evidencia a carência de valor explicativo da ciência moderna ao tentar o caminho inverso.
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A pretensão do cientismo moderno de eliminar o mistério resulta em uma contradição, pois fundamenta suas explicações naquilo que é o mais obscuro e menos inteligível do ponto de vista ontológico.
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A matéria dos físicos modernos representa uma contradição insolúvel ao ser definida simultaneamente como inerte e dotada de propriedades, pois a verdadeira inércia só pertence à matéria primeira em sua passividade absoluta.
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Se a matéria fosse verdadeiramente inerte, ela não possuiria propriedades e não poderia se manifestar aos sentidos, invalidando a própria definição da ciência experimental.
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A confusão moderna atribui à matéria uma realidade própria, o que caracteriza o materialismo como a tentativa de reduzir a qualidade à quantidade.
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O esforço de explicar o superior pelo inferior, ou fazer o mais surgir do menos, é uma das aberrações típicas do pensamento profano.
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A matéria segunda do mundo sensível é definida por São Tomás de Aquino como matéria marcada pela quantidade, o que estabelece a quantidade como a condição básica e fundamental da existência corpórea.
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Diferente da matéria moderna, a matéria segunda não possui qualidades sensíveis intrínsecas, pois toda qualidade procede das formas recebidas pelo princípio substancial.
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A quantidade é a raiz do mundo sensível, mas não pode explicar a manifestação, tal como os alicerces de um edifício são indispensáveis mas não constituem a totalidade da construção.
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Tudo o que existe no mundo corporal está necessariamente submetido à quantidade, sendo esta o elemento que caracteriza o lado substancial desse domínio.
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O número constitui o modo fundamental da quantidade pura e a base substancial do mundo sensível, ao contrário da extensão espacial que já pressupõe um elemento de ordem qualitativa.
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A afirmação de São Tomás de Aquino de que o número reside do lado da matéria confirma o caráter básico da quantidade descontínua na constituição substancial.
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René Descartes, ao definir a matéria pela extensão, introduziu uma confusão entre os modos da quantidade, afastando-se da concepção tradicional de matéria segunda.
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As teorias atomistas, ao buscarem a redução ao quantitativo, recorrem à descontinuidade numérica para tentar resolver as contradições inerentes à noção de extensão material.
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A percepção direta de corpos não se confunde com a matéria segunda, pois os corpos são apenas resultados da manifestação que procedem do princípio substancial sem se identificar com ele.
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O número e a quantidade pura nunca são percebidos em estado isolado no mundo corpóreo, mas servem de base para que os outros modos da quantidade existam por participação.
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O espaço e o tempo não são puramente quantitativos e resistem à redução matemática total por manterem sempre um resíduo qualitativo indispensável ao contato com a realidade.
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A transposição tradicional da ideia de medida oferece um significado oposto ao uso profano, que busca apenas a redução progressiva de todas as coisas à quantidade.
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