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TRADIÇÃO E TRADICIONALISMO
REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS
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O fenômeno da falsificação do mundo moderno encontra na adulteração sistemática do significado das palavras um dos seus instrumentos mais eficazes para preparar a subversão geral, especialmente por meio da apropriação indevida do termo “tradição” para designar conceitos que lhe são opostos ou estranhos.
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A falsificação do mundo moderno, característica da época, não constitui a subversão em si, mas contribui diretamente para a sua preparação.
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A falsificação do uso da linguagem, empregando palavras fora do seu sentido verdadeiro, é um exemplo claro dessa preparação, sendo imposta por uma sugestão constante sobre a mentalidade pública.
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O problema vai além da degenerescência que reduz o sentido qualitativo das palavras ao quantitativo, tratando-se de um “desvirtuamento” que aplica termos a realidades que não lhes correspondem ou que lhes são opostas.
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A confusão intelectual reinante no mundo atual é um sintoma evidente dessa falsificação, confusão esta que é deliberadamente alimentada pelas forças ocultas por trás da devoção moderna.
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Tentativas de uso ilegítimo da ideia de “tradição” surgem para assimilar indevidamente seus princípios a concepções particulares, o que, embora possa decorrer de simples incompreensão e ignorância sobre o caráter tradicional, serve a certos “planos” por meio de sugestões que visam à destruição de toda a verdadeira tradição.
A mentalidade moderna, produto de uma sugestão coletiva que formou o espírito antitradicional, encontra-se em um momento crítico onde a reação contra o seu próprio desequilíbrio é habilmente desviada pela falsificação da ideia tradicional, aproveitando-se da ignorância gerada na fase negativa para oferecer substitutos ilusórios que neutralizam qualquer restauração efetiva.-
A mentalidade moderna, em seus traços específicos, é fruto de uma vasta sugestão coletiva que, ao longo de séculos, desenvolveu progressivamente o espírito antitradicional.
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No momento atual, o estado de desordem e desequilíbrio resultante dessa sugestão torna-se tão aparente que uma “reação” pode surgir, coincidindo com o fim da fase negativa da devoção moderna, marcada pelo domínio da mentalidade materialista.
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A falsificação da ideia tradicional, possibilitada pela ignorância gerada na fase negativa, atua para desviar essa “reação”, pois, tendo a verdadeira tradição sido destruída, os que a procuram aceitam facilmente falsas ideias apresentadas em seu lugar e sob seu nome.
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Embora alguns reconheçam terem sido enganados pelas sugestões antitradicionais e critiquem a “civilização” atual, os meios que propõem para remediar os males são infantis e desproporcionais, como projetos “escolares” ou “acadêmicos”, sem qualquer conhecimento de ordem profunda.
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Esse esforço, por mais louvável que seja, pode ser facilmente desviado para atividades que, a despeito das aparências, contribuem para aumentar a desordem e a confusão da “civilização” que pretendem corrigir.
Os “tradicionalistas”, enquanto meros buscadores sem conhecimento efetivo da tradição, diferem radicalmente do verdadeiro espírito tradicional e são particularmente vulneráveis às falsas ideias criadas pelo poder ilusório, cujo interesse primordial é desviar suas pesquisas e impedir a restauração do princípio fundamental do supra-humano na concepção de tradição.-
Os “tradicionalistas” são aqueles que possuem apenas uma aspiração à tradição, sem conhecimento real dela, sendo meros “buscadores” e estando, portanto, em perigo de se extraviarem por não possuírem os princípios infalíveis.
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O poder de ilusão tem todo o interesse em impedir a restauração da ideia tradicional, especialmente na fase que se encaminha para a subversão, desviando tanto as pesquisas sobre o conhecimento tradicional quanto as que investigam as causas da devoção moderna, que poderiam revelar sua própria natureza.
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Os usos abusivos do termo “tradição” servem a essa finalidade, desde as formas mais grosseiras que a confundem com “costume” até as mais sutis e perigosas, todas tendo em comum o rebaixamento da ideia de tradição a um nível puramente humano.
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O ponto essencial da definição de tradição é o envolvimento de um elemento de ordem supra-humana, e é precisamente essa característica que se deve impedir de ser reconhecida para manter a mentalidade moderna em suas ilusões e dirigi-la para o infra-humano.
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A importância dada à negação do supra-humano é evidente no esforço dos “historiadores” das religiões e formas tradicionais para explicá-las exclusivamente por fatores humanos (psicológicos, sociais, etc.), visando destruir toda a ideia de tradição que ultrapasse o humano.
Aplicações contemporâneas do termo “tradição” a domínios puramente humanos, como a filosofia, a ciência moderna ou a política, constituem graves desvirtuamentos que neutralizam as aspirações dos “tradicionalistas”, podendo mesmo levar à designação de correntes abertamente antitradicionais com este nome, tamanha é a confusão mental instalada.-
Por ser o puramente humano insuscetível de qualificação tradicional, não pode haver “tradição filosófica”, “tradição científica” no sentido moderno, nem “tradição política” onde a organização social tradicional está ausente, como no Ocidente atual.
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O emprego corrente dessas expressões constitui uma desnaturação da ideia de tradição, e os espíritos “tradicionalistas” que a elas limitam seus esforços têm suas aspirações neutralizadas ou mesmo utilizadas em sentido oposto às suas intenções.
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Chega-se a aplicar o nome de “tradição” a coisas intrinsecamente antitradicionais, como a “tradição humanista” (que nega o supra-humano) ou a “tradição nacional” (que destruiu a organização social tradicional medieval).
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Nada impede que, no futuro, se fale em “tradição protestante”, “tradição laica”, “tradição revolucionária” ou que os próprios materialistas se proclamem defensores de uma “tradição”, dado o grau de confusão mental em que a maioria dos contemporâneos associa palavras contraditórias sem refletir.
Uma estratégia fundamental para neutralizar a reação contra a desordem moderna consiste em orientar os “tradicionalistas” não para a restauração de uma ordem verdadeira, mas para o retorno a estágios anteriores e menos aparentes da própria devoção, fazendo-os crer que ali se encontra o “antimoderno”, enquanto se infiltra o mesmo espírito moderno nas organizações tradicionais ainda existentes, agravando a dissolução final.-
O meio mais eficaz de tornar inócua a necessidade de “reação” de quem percebe a desordem atual é orientá-la para algum dos estágios anteriores e menos “avançados” da mesma devoção moderna, onde o desordem era menos aparente e mais aceitável.
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O “tradicionalista” de intenção, ao afirmar-se “antimoderno”, pode ser afetado por ideias modernas em formas atenuadas, correspondentes a etapas anteriores do desenvolvimento dessas ideias, sem perceber a ligação inexorável entre o ponto de partida e o ponto de chegada da devoção.
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O trabalho que visa impedir a “reação” de ir além do retorno a um menor desordem, dissimulando este como “ordem”, coincide com o esforço de infiltrar o espírito moderno nas organizações tradicionais ainda existentes no Ocidente.
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O resultado, em ambos os casos, é a “neutralização” das forças de oposição, que, ao se confrontarem num mesmo nível terreno, alimentam uma hostilidade que é apenas aparentemente contraditória, mas que, na verdade, representa um novo passo em direção à dissolução final.
Diante da miríade de movimentos e lutas contemporâneas, todos igualmente desprovidos de princípios verdadeiros, a atitude de “tomar partido” seria uma armadilha que favoreceria as influências ocultas que os manipulam, confirmando que o uso indiscriminado e abusivo da palavra “princípios” é apenas mais uma faceta da falsificação da linguagem, a qual é necessário analisar para compreender as últimas fases da descida cíclica para além do apogeu do “reino da quantidade”.-
Não há, do ponto de vista tradicional ou mesmo “tradicionalista”, qualquer razão para “tomar partido” nos movimentos e conflitos exteriores atuais, pois as mesmas influências ocultas se exercem por trás de todos eles, e participar de tais lutas seria fazer o jogo dessas forças, constituindo uma atitude antitradicional.
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Os princípios autênticos estão ausentes em toda essa agitação, embora nunca se tenha falado tanto em “princípios”, aplicando-se o termo a tudo o que menos o merece, inclusive ao que nega todo princípio verdadeiro.
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Esse abuso do termo “princípio” é mais um exemplo significativo da falsificação da linguagem, assim como o desvirtuamento da palavra “tradição”, que está diretamente ligado ao estudo das últimas fases da “descida” cíclica.
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Não é possível deter-se no ponto que representa o apogeu do “reino da quantidade”, pois o que se segue a ele está indissoluvelmente ligado ao que o precede, e a análise deve evitar abstrações para contemplar a realidade tal como é, sem retirar elementos essenciais para a compreensão das condições da época atual.
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