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A CONFUSÃO DO PSÍQUICO E DO ESPIRITUAL

REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS

  • A confusão entre o domínio psíquico e o espiritual, extremamente grave e disseminada no mundo moderno, decorre em grande parte da incapacidade ocidental de distinguir a “alma” do “espírito”, confusão que se manifesta na linguagem corrente e que, ao propagar-se, engaja os seres no caos do “mundo intermediário” e favorece as forças “satânicas” da “contra-iniciação”.
    • A confusão entre os domínios psíquico e espiritual, mesmo quando não chega à subversão psicanalítica, é extremamente grave em todos os casos.
    • Os ocidentais, há muito tempo, não sabem mais distinguir a “alma” do “espírito”, em parte devido ao dualismo cartesiano que confunde tudo o que não é corpo sob a mesma designação vaga.
    • A confusão manifesta-se na linguagem corrente, como no nome de “espíritos” dado a entidades psíquicas não espirituais e na denominação do “espiritismo”, ou no chamar de “espírito” ao que é apenas o “mental”.
    • Propagar essa confusão, especialmente nas condições atuais, é engajar os seres a se perderem irremediavelmente no caos do “mundo intermediário” e fazer o jogo das forças “satânicas” que regem a “contra-iniciação”.
  • O desenvolvimento das possibilidades psíquicas não é essencialmente maléfico em si mesmo, mas, situado no domínio das ilusões, seu perigo reside em ser tomado como fim em si mesmo ou em obstaculizar a realização espiritual, ao passo que o perigo das possibilidades corpóreas, como na interpretação do Yoga como cultura física, é menor, embora práticas inconscientes possam abrir porta a influências sutis indesejadas.
    • Um desenvolvimento qualquer das possibilidades de um ser, mesmo no domínio psíquico, não é essencialmente “maléfico” em si mesmo, mas este domínio é por excelência o das ilusões.
    • Tudo depende do uso que se faz de tal desenvolvimento: se é tomado como fim em si mesmo ou como simples meio para atingir um fim superior.
    • Qualquer coisa pode servir de “suporte” para a realização espiritual, mas qualquer coisa pode também ser um obstáculo se o ser se deixa iludir por aparências de “realização” que não têm valor próprio.
    • O perigo de extravio é maior quanto às possibilidades psíquicas, especialmente as mais inferiores, sendo menos grave quanto às possibilidades corpóreas e fisiológicas.
    • O erro de tomar o Yoga por uma “cultura física” é menos perigoso, pois o risco é apenas de obter resultado oposto ao desejado e arruinar a saúde, mas estas mesmas “práticas” podem ter, à revelia do ignorante, repercussões nas modalidades sutis do indivíduo, aumentando consideravelmente o perigo ao abrir a porta a influências das quais ele nem suspeita a existência.
  • A confusão do psíquico com o espiritual apresenta duas formas inversas: a redução do espiritual ao psíquico, nas explicações psicológicas, e a tomada do psíquico pelo espiritual, no neo-espiritualismo, erro que ilude os que buscam “poderes” ou “fenômenos” e “centram” sua consciência em prolongamentos inferiores da individualidade, julgando-os estados superiores, mas que, ao se apegarem a essas coisas, tornam-se incapazes de ir além e se desviam irremediavelmente, entrando em contato apenas com o “infra-humano” e caminhando para uma “desintegração” total do ser consciente.
    • A confusão do psíquico com o espiritual tem duas formas inversas: na primeira, o espiritual é reduzido ao psíquico (explicações psicológicas); na segunda, o psíquico é tomado pelo espiritual (neo-espiritualismo).
    • Em ambos os casos, o espiritual é desconhecido, mas o segundo caso, o da ilusão de uma falsa espiritualidade, é o mais relevante.
    • Muitos se deixam iludir por essa falsa espiritualidade porque buscam “poderes” ou a produção de “fenômenos”, ou porque se esforçam por “centrar” a consciência em prolongamentos inferiores da individualidade, tomando-os por estados superiores por estarem fora da “vida ordinária”.
    • A raiz do erro é a tendência “experimental” do espírito moderno: querem resultados “sensíveis”, que acreditam ser uma “realização”, mas isso mostra que o que é verdadeiramente espiritual lhes escapa inteiramente.
    • A realidade dos “fenômenos” não é negada, mas sim seu valor e interesse para o desenvolvimento espiritual; o ser que se apega a eles torna-se incapaz de ir além e é irremediavelmente desviado.
    • Pode haver um desenvolvimento “ao revés”, que não traz aquisição válida e afasta cada vez mais da realização espiritual, até que o ser se extravie nos prolongamentos inferiores da individualidade e entre em contato apenas com o “infra-humano”.
    • Essa situação, sem saída, leva à “desintegração” total do ser consciente, o equivalente, para o indivíduo, da dissolução final para o conjunto do “cosmos” manifestado.
  • Deve-se desconfiar de todo apelo ao subconsciente, ao instinto e à intuição infra-racional, que conduzem ao contato com os estados inferiores, e, com extremo rigor, de tudo o que induz o ser a “fundir-se” numa pretensa “consciência cósmica” sem transcendência, pois esta, ao substituir a espiritualidade por seu inverso e levar à perda definitiva, constitui o “satanismo” propriamente dito, seja ele consciente ou inconsciente, sendo este último um instrumento a serviço do “satanismo consciente” da “contra-iniciação”.
    • É necessário desconfiar de todo apelo ao “subconsciente”, ao “instinto”, à “intuição” infra-racional e à “força vital” exaltadas pela filosofia e psicologia novas, pois conduzem ao contato com os estados inferiores.
    • Deve-se guardar extrema vigilância contra tudo o que induz o ser a “fundir-se” (ou “confundir-se” e “dissolver-se”) numa “consciência cósmica” exclusiva de toda transcendência e, portanto, de toda espiritualidade efetiva.
    • Esta é a última consequência de todas as erros antimetafísicos como o panteísmo, o imanentismo e o naturalismo, que, levada a cabo, significa tomar a espiritualidade “ao revés” e substituí-la por seu verdadeiro inverso, conduzindo à perda definitiva.
    • É nisto que consiste o “satanismo” propriamente dito, que pode ser consciente ou inconsciente, sendo o “satanismo inconsciente” de muitos, numeroso na época atual, um instrumento a serviço do “satanismo consciente” dos representantes da “contra-iniciação”.
  • A ilusão de uma “fusão” com a “consciência cósmica” corresponde, na verdade, a mergulhar no oceano inferior das influências psíquicas, a se afogar nos abismos das “Águas inferiores” em vez de se elevar para as “Águas superiores”, dispersando as potências do ser na diversidade cambiante da manifestação sutil, que é o reino da morte e da dissolução sem retorno, e não a plenitude de “vida” que se imagina.
    • O simbolismo iniciático da “navegação” através do Oceano que representa o domínio psíquico implica atravessá-lo para atingir o objetivo, evitando seus perigos.
    • Aquele que se lança em meio a esse Oceano com a aspiração de nele se afogar realiza exatamente o que significa a pretensa “fusão” com uma “consciência cósmica” que nada mais é que o conjunto confuso de todas as influências psíquicas, as quais nada têm em comum com as influências espirituais, ainda que as imitem em manifestações exteriores.
    • Os que cometem esse equívoco esquecem ou ignoram a distinção das “Águas superiores” e das “Águas inferiores”: em vez de se elevarem para o Oceano de cima, afundam-se nos abismos do Oceano de baixo.
    • Em vez de concentrarem suas potências para dirigi-las ao mundo informal (espiritual), dispersam-nas na diversidade cambiante das formas da manifestação sutil, que corresponde à concepção bergsoniana da “realidade”.
    • O que tomam por uma plenitude de “vida” é, efetivamente, o reino da morte e da dissolução sem retorno.
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