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hani:simbolismo-teologico-cosmologico

SIMBOLISMO TEOLÓGICO E SIMBOLISMO COSMOLÓGICO

HANI, Jean. Mythes, rites et symboles: les chemins de l’invisible. Paris: G. Trédaniel, 1992.

  • O simbolismo das igrejas não é totalmente desconhecido aos fiéis, mas permanece como vestígio fragmentário de observações de sermões da festividade da Consagração e de leituras dispersas, apesar de se saber que a igreja de pedra figura a Igreja das almas e o corpo místico, que as pedras do edifício evocam as pedras vivas que são os fiéis e que o templo terreno remete à Jerusalém celeste, porque essas afirmações, ainda que fundadas na Sagrada Escritura, raramente são compreendidas e saboreadas em profundidade por não serem situadas em um simbolismo mais vasto que as esclareça.
    • Festividade da Consagração como ocasião de alusões simbólicas
    • Igreja de pedra como figura da Igreja das almas e do corpo místico
    • Pedras do edifício como alegoria das pedras vivas que são os fiéis
    • Templo terreno como evocação da Jerusalém celeste
    • Sagrada Escritura como fundamento de afirmações aceitas pela fé
    • Falta de contexto simbólico amplo como causa de incompreensão espiritual
  • Ao tentar aprofundar a significação mística do templo, costuma-se repetir sem explicação séria os esquemas alegóricos de Durand de Mende no Racional dos Ofícios Divinos, atribuindo às janelas hospitalidade e caridade, aos vitrais as Sagradas Escrituras, ao pavimento o fundamento da fé ou os pobres de espírito, às vigas os príncipes do mundo ou os pregadores que sustentam a unidade da Igreja, às cadeiras do coro as almas contemplativas e à sacristia o seio da Ditosa Virgem Maria, e embora tais sentidos não precisem ser rejeitados por completo, sua superficialidade e a proliferação desse alegorismo contribuíram para desacreditar o verdadeiro simbolismo ao reduzi-lo a uma emblemática inofensiva.
    • Durand de Mende e o Racional dos Ofícios Divinos
    • Janelas como hospitalidade franca e caridade afetuosa
    • Vitrais como representação das Sagradas Escrituras
    • Pavimento como fundamento da fé ou pobres de espírito
    • Vigas como príncipes do mundo ou pregadores sustentando a unidade da Igreja
    • Cadeiras do coro como emblemas das almas contemplativas
    • Sacristia e vasos sagrados como seio da Ditosa Virgem Maria
    • Proliferação alegórica como fator de descrédito do simbolismo essencial
  • A distinção decisiva separa o símbolo intencional ou convencional do símbolo essencial, pois os sentidos atribuídos por Durand a cadeiras, coro, janelas e vigas são artificiais por não se justificarem de modo imediato pela natureza do objeto e por permitirem variações arbitrárias, ao passo que o simbolismo essencial se caracteriza por laço íntimo e indissolúvel entre objeto material e significado espiritual, união hierárquica análoga à da alma e do corpo que se apreende como totalidade orgânica e produz síntese fulgurante e intuição quase instantânea, explicitando apenas uma realidade espiritual já implicada no objeto, como ocorre com a água do batismo e o pão eucarístico.
    • Símbolo intencional como atribuição não enraizada na natureza do objeto
    • Intermutabilidade de sentidos como sinal de convencionalidade
    • Símbolo essencial como vínculo indissolúvel entre visível e invisível
    • União hierárquica análoga à relação entre alma e corpo
    • Hipóstase conceptual como apreensão orgânica do significado
    • Água do batismo e pão eucarístico como exemplos de simbolismo essencial
  • Mesmo entre símbolos essenciais, distingue-se entre símbolos de ordem cosmológica e símbolos de ordem teológica, e afirmar que a igreja de pedra figura a Jerusalém celeste, a Esposa de Cristo, a Alma fiel, o Corpo de Cristo ou o Corpo místico constitui simbolismo teológico que é o mais elevado, mas pode parecer convencional ao espírito menos esclarecido, embora os grandes símbolos teológicos sejam essenciais e sua falta de evidência resulte da ausência, na mente contemporânea, de representações cosmológicas ou de uma imagem do mundo, um sistema do mundo no sentido de Pierre Duhem, capaz de tornar essas figuras realmente inteligíveis.
    • Símbolos essenciais cosmológicos e símbolos essenciais teológicos
    • Jerusalém celeste, Esposa de Cristo, Alma fiel, Corpo de Cristo e Corpo místico como símbolos teológicos
    • Dificuldade moderna de perceber a essencialidade do símbolo teológico
    • Imagem do mundo e sistema do mundo segundo Pierre Duhem como condição de inteligibilidade
  • O motivo dessa dificuldade está na mentalidade moderna que vê o mundo como aglomerado de fenômenos, enquanto o homem tradicional, em geral até René Descartes no Ocidente, percebia um organismo harmonioso e hierarquizado cuja formulação cristã se encontra em Dionísio, o Areopagita, e que por seu intermédio remonta a Platão, ao passo que a concepção quantitativa reduz o mundo a força e matéria e leva a ciência moderna a uma sequência de descobertas que adia indefinidamente uma explicação verdadeira, enquanto a concepção tradicional e qualitativa privilegia a arquitetura espiritual do mundo deduzida de uma metafísica platônica adotada pelos primeiros Padres.
    • René Descartes como marco de transição no Ocidente
    • Dionísio, o Areopagita, como formulação cristã de ordem hierárquica
    • Platão como origem da metafísica que sustenta essa cosmologia
    • Concepção quantitativa: força, matéria e fenômenos
    • Concepção qualitativa: estrutura interna e arquitetura espiritual
    • Primeiros Padres como adotantes da metafísica de Platão
  • Nessa cosmologia tradicional, a unidade quase espiritual do Universo permite reconhecer analogias e correspondências entre as partes e entre elas e seu modelo ontológico em Deus, fundamento do simbolismo cosmológico que se desenvolve em dois níveis hierárquicos, isto é, o simbolismo da parte com o todo no Universo e, em plano superior, o simbolismo do Universo e de suas partes com o mundo divino.
    • Analogias e correspondências entre partes do Universo
    • Modelo ontológico em Deus como fundamento das correspondências
    • Dois níveis: parte e todo; Universo e mundo divino
    • Simbolismo cosmológico como chave de leitura do real
  • São Boaventura formula que todas as coisas revelam a Sabedoria divina em cada propriedade e que todas as criaturas sensíveis conduzem a Deus como sombras, vestígios e imagens do Primeiro Princípio, da Fonte e da Luz, do Arquétipo soberano, funcionando como sinais dados pelo próprio Senhor.
    • São Boaventura como testemunho de simbolismo do mundo para Deus
    • Criaturas como vestígios e imagens do Princípio
    • Sabedoria divina como inteligível nas propriedades dos seres
    • Mundo sensível como via de condução a Deus
  • A ilustração do simbolismo horizontal é dada por monsenhor Landriot ao definir o simbolismo como ciência que esclarece o conhecimento de Deus e do mundo criado, as relações do Criador com sua obra e as harmonias que unem as partes do Universo, apresentando-o como chave da alta teologia, da mística, da filosofia, da poesia, da estética e como foco de doutrina luminosa que liga mundo natural e mundo sobrenatural.
    • Monsenhor Landriot e a ciência do simbolismo
    • Relações do Criador com a criação
    • Harmonias entre partes do vasto Universo
    • Mundo natural e mundo sobrenatural como polos correlatos
    • Alta teologia, mística, filosofia, poesia e estética como campos iluminados
  • A recomposição desse grupo de representações mentais ausente no homem contemporâneo restabelece a capacidade de perceber a profundidade dos símbolos teológicos oferecidos pela Igreja, pois na maioria dos casos esses símbolos só se tornam compreensíveis por referência a símbolos cosmológicos subjacentes que lhes servem de suporte, dado que o ser humano, imerso no mundo sensível, deve unir-se ao divino por meio da figura desse mundo com o auxílio da arte, sendo que para o homem tradicional o símbolo cosmológico era evidente nas criações artísticas e para o homem moderno ele desapareceu e precisa ser reavivado.
    • Igreja como ofertante de símbolos teológicos à contemplação
    • Símbolos cosmológicos como suporte dos símbolos teológicos
    • Arte como mediação entre mundo sensível e divino
    • Homem tradicional e evidência implícita do simbolismo cosmológico
    • Homem moderno e necessidade de fazer reviver esse simbolismo
  • A intenção da obra é definida como busca do simbolismo cosmológico subjacente a partir dos dados do simbolismo teológico fundado na Escritura, de modo que o simbolismo teológico recupere amplitude e fulgor, em consonância com a afirmação de São Tomás de Aquino de que Deus legou dois escritos perfeitos para a educação humana, a Criação e a Sagrada Escritura.
    • Simbolismo teológico fundado na Escritura como ponto de partida
    • Simbolismo cosmológico subjacente como chave de ampliação
    • São Tomás de Aquino e os dois livros: Criação e Sagrada Escritura
    • Educação humana como finalidade dos dois escritos
  • Antes do ponto fulcral, estabelece-se que o simbolismo do templo e da liturgia é, no fundo, cosmológico, mas que o cristianismo em sua origem não possuía simbolismo cosmológico de modo direto, pois a visão cristã, mais exatamente crística, é espiritual e mística e não adota linguagem cosmológica, embora desde o início tenha encontrado tradições religiosas cosmológicas nas áreas de expansão, especialmente as antigas religiões da Bacia Mediterrânica e do Próximo Oriente, religiões cósmicas e em grande parte solares, forma habitual das grandes religiões naturais.
    • Simbolismo do templo e da liturgia como cosmológico
    • Visão crística como espiritual e mística, sem linguagem cosmológica direta
    • Bacia Mediterrânica e Próximo Oriente como áreas de encontro religioso
    • Religiões cósmicas e solares como religiões naturais
  • O cristianismo não tinha motivo para rejeitar elementos dessas tradições que pudessem auxiliar a vida religiosa, pois sua marca é a universalidade católica, e o catolicismo afirma uma Revelação primitiva que, apesar de degenerescências sucessivas, permaneceu de modo esporádico em todas as tradições, permitindo falar com prudência em um pré-cristianismo ou, nas palavras de José de Maistre, em um cristianismo eterno ligado à revelação primitiva ocorrida no Jardim do Éden, além de o cristianismo ter assumido desde o início a herança das confrarias artesanais, sobretudo de construtores, cujo trabalho implicava simbolismo cosmológico ligado às antigas religiões.
    • Catolicismo como universalidade
    • Revelação primitiva como núcleo persistente nas tradições
    • José de Maistre e a expressão cristianismo eterno
    • Jardim do Éden como lugar simbólico da revelação primitiva
    • Confrarias artesanais e construtores como portadores de simbolismo cosmológico
  • A arte sacra reúne temas desse simbolismo cosmológico com temas propriamente cristãos sem choque, pois ambos se harmonizam pela conformidade com normas sagradas universais, tornando esperada a presença de motivos cosmológicos misturados ao repertório cristão.
    • Arte sacra como lugar de síntese temática
    • Simbolismo cosmológico e temas cristãos como compatíveis
    • Normas sagradas universais como princípio de harmonia
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