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MISTÉRIO DAS COISAS
LINGS, Martin. The secret of Shakespeare. 1. paperback ed., rev.exp ed. Wellingborough: Aquarian Pr, 1984.
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O humanismo moderno compreende melhor Edmundo do que Edgar em Rei Lear, pois a perspectiva medieval que Edgar personifica tornou-se remota para o homem contemporâneo.
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O Duque da Albânia e Edgar, ao comentarem a punição dos vícios, expressam a crença medieval na Providência, não um racionalismo primitivo.
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Edmundo endossa a observação de Edgar sobre a justiça dos deuses e reconhece que a roda completou seu círculo.
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Os medievais não acreditavam no acaso: reconheciam a mão da Providência nos eventos justos e mantinham a fé serena diante da maldade aparentemente triunfante.
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Shakespeare, diferentemente de Milton, não nutria ilusões sobre o alcance da razão e buscava justificar os caminhos de Deus num plano intelectual, o único em que isso é possível.
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Milton era filho do Renascimento e fabricou seu Deus à imagem do homem, como Michelangelo, com argumentos lógicos que não convencem.
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O intelecto, para Martin Lings, é a faculdade perdida da visão, simbolizada pelo Santo Graal e pelo Elixir da Vida.
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A função da arte não é didática: ela fornece um antegosto da sabedoria espiritual, fazendo os homens participarem natural e quase involuntariamente do mundo da santidade.
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Os primeiros espectadores de Shakespeare eram mais receptivos do que os modernos porque atribuíam uma realidade menos absoluta à vida e, consequentemente, mais realidade à arte.
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Para os medievais, a distinção suprema não era entre vida e arte, mas entre o mundo vindouro, a Verdade, e este mundo, que é sombra da Verdade.
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A arte por inspiração não era apenas cópia da vida, sombra de uma sombra, mas também, em casos supremos, cópia direta da própria substância.
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Isso bastava para produzir no público uma diferença apreciável de atitude em relação a uma peça de teatro.
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A vida é comparada a uma grande tapeçaria vista pelo lado errado, onde o desenho é obscurecido por um labirinto de fios sem propósito aparente.
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Uma peça de Shakespeare é uma tapeçaria menor, parcialmente copiada de outra tapeçaria e também copiada do Original transcendente, a Harmonia Divina da qual o cosmo é reflexo.
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As discórdias superficiais contradizem, para o homem decaído, a beleza profunda da imagem como um todo, totalidade que ele não pode ver por estar separado dela por definição.
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Shakespeare beneficia-se da extrema passividade da audiência teatral, traço que só partilha com o compositor musical.
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O processo de imersão na peça conduz o espectador, pouco a pouco, de uma fria objetividade inicial à subjetividade quente da identificação com o herói, para depois emergir numa objetividade mais elevada.
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A purificação do herói acontece com vistas a um fim: no final, o espectador é conduzido através da tapeçaria até o lado correto, onde vê a unidade em que todas as partes se combinam maravilhosamente.
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O vislumbre é momentâneo e não perdura, mas produz uma marca na alma que não é facilmente apagada.
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Estar desde o começo do lado correto da pequena tapeçaria é parte do segredo de Shakespeare como artista; estar do lado correto da grande tapeçaria da vida é parte de seu segredo como homem.
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A fala de Lear sobre viver com Cordélia na prisão como espiões de Deus condensa o significado mais profundo do capítulo, associando o mistério das coisas à objetividade mais elevada que Shakespeare partilha com o espectador no final da peça.
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Cordélia personifica, no sentido mais profundo, a objetividade que pode descarrancar a falsa carranca do destino.
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Somente o olho do intelecto, o olho dos anjos que são os espiões de Deus, pode perceber a justiça das ações da Providência.
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No final, depois de terem passado através da tapeçaria, espectador e Shakespeare assumem juntos, em certo sentido, a responsabilidade a respeito do mistério das coisas.
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A queda do homem é representada como a perda do conhecimento intelectual do Bem Absoluto, substituído por um conhecimento mental que só apreende o bem relativo, oposto ao mal.
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Shakespeare, nos dramas maduros, retira momentaneamente da boca do espectador o gosto do fruto da Árvore Proibida, sem suprimir o conhecimento do bem e do mal mas sem que ele cegue para o Bem Absoluto.
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A aceitação serena do final de Otelo e de Rei Lear, como também de Cimbelino e Conto de inverno, é o sinal dessa justiça poética que não é senão a Justiça Divina.
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As peças anteriores a Hamlet, incluindo Romeu e Julieta e Sonho de uma noite de verão, produzem harmonia exaltadora mas algo menos transcendente, incapazes de justificar os caminhos de Deus.
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O fato de Shakespeare justificar os caminhos de Deus várias vezes sugere que sua própria vida estava baseada no padrão de suas peças e que ele escrevia sobre o que conhecia por experiência.
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Segundo a concepção tradicional da poesia, um poeta não deve ser menos do que um vidente, um vates.
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O Jardim de Helicon, morada de Apolo e das musas e fonte de autêntica inspiração poética, é, segundo Dante, nada menos do que o Jardim do Éden, onde cresce a Árvore da Vida, único antídoto ao veneno do conhecimento do bem e do mal.
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A explicação do efeito de Shakespeare sobre o espectador reside em sua inspiração ou intelectualidade, e não no mero poder da linguagem nem nos sentimentos de compaixão e terror da catarse aristotélica.
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Webster em A Duquesa de Malfi e Shelley em Cenci possuem verso refinado e elementos de compaixão e terror, mas deixam o espectador com horror, não com aceitação visionária e serenidade.
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O efeito do Édipo de Sófocles é essencialmente o mesmo que o de Rei Lear, e a partir desse exemplo fica claro o que Aristóteles quis dizer com catarse.
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Personagens como Hamlet e Cleópatra são criações, não fabricações: há algo miraculosamente vivo neles, como se tivessem sido trazidos prontos do alto.
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A arte verdadeiramente inspirada é comparada a uma magia branca que transforma o espectador momentaneamente, fazendo-o literalmente superar a si mesmo como se fosse espião de Deus.
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Cada peça de Shakespeare é como uma esfera única de existência, com atmosfera própria, completamente distinta de todos os outros macrocosmos shakespearianos.
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O contato com uma fonte transcendente é sugerido, acima de tudo, pela constante repetição de um efeito transcendente.
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O verdadeiro propósito original da arte é comunicar segredos, oferecendo-os com a mão entreaberta, aproximando-os do espectador e convidando-o a aproximar-se deles.
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Em A Tempestade, a magia de Próspero representa os poderes artísticos do próprio Shakespeare.
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