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pallis:arquetipos

ARQUÉTIPOS

PALLIS, Marco Alexander. A Buddhist spectrum: contributions to Buddhist-Christian dialogue. Bloomington, Ind: World Wisdom, 2003.

  • O termo archetype, derivado de duas raízes gregas relativas a origem ou princípio e a fonte, ganhou destaque recente com sua adoção pela psicologia junguiana como função do inconsciente coletivo, embora esse uso restrito permaneça equívoco e insuficiente por excluir o domínio metafísico a que o conceito pertence primariamente.
    • Reconhecimento de fenômenos arquetípicos no psiquismo não esclarece plenamente o sentido original do termo.
    • Em chave aristotélica, tal restrição permanece no plano físico e omite a ordem metafísica.
    • Todo existente relativo no vórtice samsárico possui correspondência nas águas imóveis da consciência nirvânica.
    • As cores do espectro sintetizam-se na luz incolor do Vazio, permanecendo como potência e ato em unidade.
    • São Tomás de Aquino afirmou que, em Deus, não há diferença entre potência e ato.
    • A formulação tomista encontra paralelo budista quando transposta para a linguagem do Bodhic dharma.
  • A iconografia tradicional da Roda da Existência apresenta o Cosmos como círculo amplo dividido em seis segmentos de classes de seres, circundado por faixa ilustrando as doze causas interdependentes de originação desde avidya até jaramarana.
    • O ser humano figura como uma das classes de seres.
    • As cenas externas correspondem ao pratitya samutpada.
    • A cadeia vai de ignorância a velhice e morte.
  • Na noite do despertar, o Buddha percorreu as causas em ordem direta e depois inversa para mostrar que o círculo vicioso de renascimento e remorte se rompe quando o conhecimento verdadeiro substitui o vazio deixado pela inconsciência.
    • O processo de despertar inicia-se com o preenchimento da inteligência pela gnose.
    • A reversão da cadeia indica possibilidade de cessação.
  • No centro do desenho aparece círculo menor com os três venenos figurados por porco, serpente e galo mordendo as caudas e girando em luta incessante, simbolizando forças que disputam o domínio sobre mentes e corpos.
    • Predominância plena nunca se estabiliza, apesar das aparências.
    • Os três animais representam ignorância, agressividade e desejo-apego.
    • A combinação variável desses fatores colore o caráter de qualquer ser.
  • Os três determinantes existenciais correspondem aos três gunas da cosmologia hindu, assumidos pelo budismo com inflexão moralizante ao reinterpretar tamas, rajas e sattva.
    • Tamas corresponde à não-percepção e indica inércia, passividade e fixação.
    • Rajas expressa tendência expansiva e torna-se agressividade diante de obstáculos.
    • Sattva sugere ascensão e aspiração ao superior, sendo veneno apenas na medida em que todo enredamento existencial é ambíguo.
    • O desejo pode ser egocêntrico ou não, mas como apego permanece equívoco.
  • As gunas hindus, menos negativamente enviesadas que os três venenos, servem como critério prático para qualificar seres, espécies e criações humanas em múltiplos campos.
    • Lótus, rosa e lírio podem ser qualificados como sattvicos, com associações sagradas em religiões diversas.
    • Diamante e ouro podem ser tomados como sattvicos entre minerais, enquanto chumbo é tipicamente tamasico, com uso simbólico alquímico.
    • Fósforo amarelo é rajásico por inflamar-se após breve exposição ao ar.
    • Na medicina, as gunas auxiliam diagnóstico e também orientam aplicações na dieta.
    • Tamas não equivale a maldade, pois inclui estabilidade indispensável.
    • O corpo de um Buddha requer tamas como solidez e a compaixão de um Bodhisattva requer rajas como impulso de iniciativa.
  • A Roda da Existência é mostrada nas garras de Yama, Senhor da Morte e agente da justiça kármica, cuja natureza divina se indica pelo terceiro olho como discernimento bodhíco, enquanto a esperança se afirma pela presença de um Buddha em cada compartimento, inclusive nos infernos.
    • Yama é indiferente a súplicas por atuar como executor de justiça kármica.
    • O terceiro olho significa visão de discernimento.
    • A figura do Buddha testemunha compassivamente as vicissitudes e lembra a possibilidade de romper o ciclo.
    • A passagem de delusão congênita à visão correta torna possível a ruptura do ciclo.
    • Metanoia, no sentido grego primitivo, é mudança de ponto de vista e não mero pesar.
    • Jesus e o Buddha propõem primeiramente essa mudança de visão.
  • A descrição clássica budista da Roda da Existência visa impressionar pela dinâmica de impermanência, alternância e relatividade, reforçada pelos doze elos periféricos e pelos três animais centrais em competição.
    • A percepção de movimento contínuo é induzida pela ação visual dos elementos do símbolo.
    • A máxima de Heráclito segundo a qual tudo flui resume a condição.
    • Samsara define-se por esse regime de fluxo.
  • Um modelo alternativo do cosmos, próprio de certas escolas tântricas, denomina-se mandal e deve ser construído, dissolvido e reconstruído mentalmente muitas vezes, com apoio material de um disco e grãos de cevada em gesto de invocação semi-visível.
    • O modelo não recebeu forma pictórica fixa.
    • Repete-se o procedimento até completar cem mil recriações.
    • O suporte concreto é um disco frequentemente de prata.
    • A miniatura cósmica é montada com pinças de cevada e varrida ao final.
  • Na construção do mandala, coloca-se cevada no centro para representar o eixo assimilado a Sumeru, dispõem-se os quatro pontos cardeais e agrupam-se continentes e países, acrescentando-se sol, lua, marcos e seres, antes de desfazer tudo com um gesto.
    • Sumeru é o centro mitológico do Universo na geografia sagrada indiana.
    • Os quatro pontos são indicados por montículos de grãos.
    • A contemplação precede a dissolução do arranjo.
  • O segundo mandala, em contraste com a imagem plana e dinâmica, propõe modelo tridimensional de implicações mais estáticas, sugerindo estrutura piramidal ou cônica de níveis existenciais hierárquicos em relação ao eixo.
    • A forma geométrica exata é indiferente ao simbolismo.
    • Cada nível representa um modo de existência e sua classe de seres.
    • O nível aponta simultaneamente para um dharma comum.
  • A hierarquia axial implica que níveis superiores cobrem áreas menores e produzem concentração existencial, enquanto níveis inferiores são mais amplos e dispersivos, fundamentando sentidos tradicionais de infernal e supernal.
    • Inferno é terrível por dispersividade antes de quaisquer qualidades térmicas.
    • Céu é bem-aventurado por razão oposta.
    • Há estado de concentração quase autoatuante junto ao cume.
    • O anagamin é aquele para quem não há retorno ao entorpecimento samsárico.
  • Dentro de cada plano horizontal pode-se estabelecer escala de valores pela proximidade ao ponto de interseção com o eixo, fazendo do eixo critério decisivo de discriminação existencial, sem confundir analogias geométricas com naturalismo científico.
    • As analogias funcionam como upayas, meios para referência e estímulo intuitivo.
    • A confusão entre ordens distintas gera dupla distorção.
    • A advertência contra cientificismo deve ser mantida em mente.
  • A recordação dos termos islâmicos exaltation e amplitude, associados aos eixos vertical e horizontal, descreve uma cruz cuja importância arquetípica é realçada pelo uso cristão ligado ao Calvário e comentada extensamente por René Guénon.
    • A cruz resulta da interseção de dois eixos.
    • O uso cristão intensifica o símbolo pela referência ao Calvário.
    • Guénon escreveu Symbolism of the Cross, traduzido ao inglês e publicado por Luzac em 1958.
    • Guénon escreveu também Etats multiples de l’Etre, ainda sem tradução mencionada.
    • As duas obras completam-se e poderiam reunir-se num único volume.
  • A importância de Multiple States of the Being em Guénon reside em mostrar a possibilidade de ver simultaneamente todos os episódios das manifestações samsáricas de um ser a partir de um ponto de vista elevado, equivalente a uma perspectiva nirvânica fora de tempo e espaço.
    • O mesmo vale para entidades naturais, mundos ou a totalidade cósmica.
    • O termo simultaneous pode ser trocado por present na ausência de sucessão.
    • Samsara consiste em passagem contínua de potência a ato.
    • O presente é sentido como abstração e sua realidade transcende a experiência sucessiva.
    • Eternal present é expressão sugestiva, porém tautológica.
  • A visão arquetípica afirma a realidade das coisas como anterior, posterior e inclusiva de suas modificações relativas, tratando ocorrências empíricas como reais sem estatuto intrínseco e portanto anatta, evitando confundir ilusório com irreal.
    • Ilusório significa ser menos e mais do que parece.
    • O uso corrente que identifica ilusório com inexistência é rejeitado.
  • A noção abstrata de igualdade, invocada para justificar experimentos sociais e políticos, repousa em equívoco ao ignorar que nenhum par de seres pode ocupar o mesmo lugar no espaço existencial definido pela relação axial, tornando impossível igualdade estrita em samsara.
    • Não há duplicação ou repetição idêntica no devir.
    • Igualdade aproximada não constitui princípio de valor por si.
    • Diferenças podem escapar à percepção empírica e ainda assim existir.
    • Todos os seres nascem desiguais e têm necessidades desiguais.
    • Justiça estrita exige meios diferenciados de satisfação.
    • Direitos naturais só fazem sentido nesse quadro.
  • A consciência dessas desigualdades modifica a abordagem de problemas práticos e de políticas paliativas, pois situações injustas exigem reparo sem recorrer a um falso princípio de igualdade.
    • Injustiças graves emergem e pedem correção.
    • Políticas devem ser avaliadas por proximidade à justiça.
    • Efetivar desigualdades naturais aproxima da justiça.
  • Considerações análogas valem para a liberdade, pois seres humanos não nascem livres, mas em servidão compartilhada com outros seres, e o reconhecimento disso deve impulsionar esforço compassivo segundo a ética budista.
    • Relatividade e impermanência implicam alternância de prazer e dor e de bem e mal.
    • A ética budista deduz responsabilidade compassiva de tais fatos.
    • O Oitavo Caminho oferece diretrizes para responsabilidades humanas.
    • Ação correta e meio de vida correto dependem de visão correta.
    • Nirvana é extinção de ignorância e moksha é libertação em forma positiva.
  • Em Buddhahood não há graus e a palavra igualdade aplica-se propriamente, pois todos os Tathagatas trilharam caminho semelhante embora em mundos distintos.
    • Tathagata significa tal-qual veio, com referência ao caminho.
    • Diversidade de mundos não altera a plenitude da realização.
  • A afirmação anterior de que o presente não pode ser experienciado em samsara requer qualificação, pois a presentidade não é experienciável como parte do processo samsárico, embora a eternidade seja transcendente e também imanente.
    • A sucessão vai de potencial futuro a atual passado.
    • A consciência fala de um presente meio sentido sem saber o que designa.
    • A eternidade envolve e permeia a existência.
    • Sinais de presentidade podem emergir na superfície da consciência.
  • A possibilidade de uma antecipação do Despertar manifesta-se quando a agitação sonambúlica cede a uma consciência ativa e calma, evento não tão raro quanto parece, salvo quando sofisticação cultural embota a responsividade.
    • Evidência pode ser pessoal ou recebida por testemunho.
    • A exceção confirma a regra sem anulá-la.
    • Civilizações solidificadas tendem a amortecer percepção.
  • Um estado de suspensão temporária do raciocínio pode permitir que a imaginação intuitiva encontre catalisador sensível, como flor lembrando o gesto do Buddha a Ananda, fenômenos naturais, sons de aves migratórias ou obras de arte, podendo mesmo doença severa ocasionar satori.
    • No Tibete, a referência às aves recai sobre grous.
    • Satori é descrito como iluminação arquetípica.
    • A receptividade do sujeito é mais decisiva que o objeto catalisador.
  • Quando ocorre a conjunção entre sujeito receptivo e contraparte objetiva, a experiência tem caráter de reconhecimento sem surpresa, com atenção suavemente fixada fora da autoconsciência e marcada por anatta.
    • A familiaridade antecede a plena tomada de consciência.
    • O objeto funciona como foco sem reforçar egoidade.
  • A percepção nesse recolhimento tende a revelar a essência arquetípica de que o objeto é imagem manifesta, como quando uma rosa deixa ver sua roseness e espelha o sujeito sem figura de ego em intimidade além do psicofísico.
    • A apreensão difere de dissecação botânica.
    • A participação mútua excede mera apreciação sensorial.
  • O encontro com realidade arquetípica comporta-se como sacramento natural por produzir efeitos objetivos na substância anímica, operando ex opere operato e deixando marca indelével ainda que encoberta por distrações.
    • A experiência de iluminação, mesmo fugaz, permanece como conhecimento latente.
    • O esquecimento obscurece sem apagar.
    • O cultivo atento reintegra ao arquétipo humano por instantes renovadores.
  • Animais podem exibir carisma arquetípico em caso especial às vezes ligado a contato com santo, sendo narrado exemplo em In search of God de Swami Ramdas, santo do sul da Índia falecido por volta de 1960.
    • A experiência envolve paradoxos e imponderáveis metafísicos.
    • O relato é apresentado como clássico de busca espiritual.
  • Swami Ramdas, em suas peregrinações, compartilhou caverna com grande cobra, reconheceu-lhe direito de morada, ofereceu-lhe prasada que foi aceito, e ao final contemplou o pôr do sol acompanhado pelo réptil que se enroscou em sua perna.
    • A convivência transcorreu em boa vizinhança.
    • O alimento consagrado funcionou como penhor de boa vontade.
    • A adoração extática coincidiu com o gesto da cobra.
  • A interpretação do episódio atribui à cobra reconhecimento instintivo em Swami Ramdas da qualidade de homem total, restaurando a relação normal entre humanidade e criação e reinscrevendo ambos em seus arquétipos.
    • A ruptura comum decorre de falha em reconhecer ou viver a vocação humana.
    • A queda semítica é simbolizada pelo fruto da árvore dualista do bem e do mal.
    • O reconhecimento da cobra aponta para um arquétipo adâmico.
    • A comunhão do animal com seu arquétipo de cobrahood acompanha a restauração.
    • Um visitante mundano não seria confundido e poderia matar o animal.
    • Santos são descritos como conhecedores do mundo e do que nele há.
  • Após o encontro com a cobra de Ramdas, introduz-se a pulga de Meister Eckhart com a frase de que uma pulga como é em Deus supera um anjo como é em si mesmo, condensando o princípio arquetípico.
    • A pulga em Deus indica o arquétipo de fleaness abrangendo toda a totalidade do gênero pulex.
    • O anjo em si mesmo é situado entre os devas como um dos seis tipos de seres na cosmologia budista.
    • Um anjo em Deus remeteria a outro estatuto por via arquetípica.
    • Em Deus, maior e menor, melhor e pior perdem sentido.
    • Arquétipos não são partes de Deus, pois Deus é sem partes.
    • Como nomes e atributos divinos, arquétipos são um com a Divindade, sendo a pluralidade do lado humano.
    • A formulação teísta acompanha a linguagem de Meister Eckhart sem alterar o argumento.
  • O clima religioso ocidental recente mostra interesse crescente por doutrinas de não-dualidade vindas sobretudo da Índia e além, com contribuição islâmica pelos mestres sufis, e a compreensão dos arquétipos facilita a passagem intelectual entre multiplicidade e unidade.
    • O hábito dualista é persistente.
    • A concepção do Divino torna-se excessivamente antropomórfica sob tal hábito.
    • A máxima hermética do Emerald Tablet, as below so above, é evocada como as here so beyond.
    • Hermes Trismegistos é citado como fonte da fórmula.
  • A identidade essencial entre samsara e nirvana, ensinada nos sutras mahayanas, permanece como paradoxo máximo diante do qual toda especificação se reduz ao silêncio, sendo shunyata o termo preferido para a Vacuidade que inclui arquetipicamente todos os desdobramentos do ser.
    • A totalidade de samsara e suas particularidades estão incluídas sem exceção.
    • Toda manifestação relativa explicita o que o Vazio contém essencialmente.
    • A distinção humana entre mundo e vacuidade afirma arquetipicamente a relatividade.
    • Tal distinção tem uso provisório sem equivaler a conhecimento pleno.
    • O salto restante só pode ser dado na escuridão.
  • Pyrrho de Elis advertiu que nada se sabe além de saber que nada se sabe, e sua trajetória ligada à Índia e a contatos com gymnosophists e bhikkus situa essa advertência no horizonte de anatta e do diálogo de Menandros com Nagasena.
    • Pyrrho visitou a Índia, vista como centro de atração intelectual helênico.
    • Gymnosophists são associados aos nanga sannyasins e também a budistas.
    • O reino greco-báctrio abrangia regiões hoje chamadas Afeganistão.
    • Menandros, chamado Milinda, dialogou com Nagasena.
    • Milinda tornou-se santo budista venerado por theravadins do Sudeste Asiático.
    • O aviso de Pyrrho recomenda não presumir conhecimento suficiente.
    • O mistério aguarda o amanhecer de Bodhi.
  • A reformulação cristã do princípio arquetípico é exemplificada por Jesus ao dizer antes de Abraão eu sou, distinguindo a pertença de Abraão ao samsara e a identificação a priori da natureza humana de Cristo com o arquétipo da humanidade como Homem Verdadeiro e Universal.
    • A referência é a João VIII, 58.
    • O uso de tempos verbais é dito significativo.
    • Cristo é também Deus Verdadeiro como cognato arquetípico de sua humanidade.
    • Logos é referido como Palavra divina associada ao homem Jesus.
  • As duas naturezas de Cristo não são mera junção histórica no tempo e espaço, mas associação arquetípica situada desde toda a eternidade, da qual a tradição cristã flui como rio de sua fonte.
    • O postulado da associação eterna é apresentado como primeiro reconhecimento do cristianismo.
    • A criação é dita prefigurada e posfigurada na ordem arquetípica.
    • O mundo e a história existem arquetipicamente em Deus como na pulga de Eckhart.
  • A compreensão arquetípica oferece chave para predestinação ao desfazer a falsa antítese entre predestinação e livre-arbítrio por pertencerem a ordens distintas, sendo a predestinação a visão eterna de Deus em presente sem sucessão.
    • Fora da ordem arquetípica, predestinação perde sentido.
    • Dentro dela, predestinação explica-se.
    • O prefixo pre é visto como enganoso por sugerir temporalidade.
    • A temporalidade é imposição humana sobre a visão divina.
  • O livre-arbítrio concerne ao ser humano enquanto existente no relativo e tem por arquétipo a vontade divina, não podendo ser oposto à vontade eterna de Deus, e a reconciliação verbal tradicional falha por formular mal a questão.
    • O dom do livre-arbítrio liga-se à imagem divina na qual o homem foi moldado.
    • A controvérsia gerou sofismas e equivocações.
    • Questões mal postas não produzem respostas válidas.
  • A controvérsia do século V entre predestinação e livre-arbítrio é comparada às divergências japonesas entre jiriki e tariki no Jodo-shin, onde visões diferentes permanecem dentro da ortodoxia ao se implicarem reciprocamente sob perspectiva não-dual.
    • Amitabha Buddha é referido como compaixão ativa, comparável à graça em linguagem cristã.
    • A divergência é tratada como questão de ponto de vista.
    • Darshanas hindus são lembrados como perspectivas legítimas apesar de disputas.
  • A história cristã apresenta como tragédia a ausência de encontro entre St Augustine e Pelagius, o que poderia ter prevenido desvios posteriores associados a Calvin, enquanto o Oriente cristão evitou excessos jurídicos comuns ao Ocidente.
    • Agostinho e Pelagius são descritos como homens santos que se respeitavam.
    • A herança patrística oriental é dita mais rica.
    • Invectiva desmedida no Oriente é assinalada como carente de mindfulness.
    • Heresias podem nascer de endurecimento prematuro por paixão partidária.
    • Tradições indianas são apontadas como superiores nesse aspecto.
  • Exemplos de mau uso do livre-arbítrio incluem Judas Iscariote e Devadatta, primo invejoso do Buddha, cujos méritos karmicos apontam para inferno, embora no nível arquetípico tais acidentes do devir sejam irrelevantes diante da possibilidade sempre presente de retorno ao arquétipo.
    • Devadatta tentou matar o Buddha e desapareceu na terra em chamas.
    • Mara e Satã são mencionados como figuras comparáveis.
    • A presença de um Buddha nos infernos iconográficos ensina a possibilidade de saída.
  • Um dito sufi de Abd al Karim al Jili sugere que o inferno inclui algum prazer que fixa as almas e as faz negligenciar a súplica pela misericórdia divina, e o inferno não pode ser pura horror assim como paraísos de devas não podem ser puramente bem-aventurados.
    • Pureza significa ausência de mistura.
    • A Terra Pura do Jodo-shin simboliza nirvana.
    • O budismo não atribui eternidade ao inferno.
    • No Islã menciona-se que ao fim dos tempos os fogos do inferno começarão a esfriar.
  • Orígenes, figura alexandrina da gnose cristã, foi censurado por sugerir redenção final de Satã, e uma referência aos arquétipos poderia ter evitado tal censura ao permitir definições graduadas em níveis diversos.
    • Orígenes sofreu tortura e sobreviveu sem ser tecnicamente mártir.
    • Religiões de base indiana não se oporiam à hipótese.
    • Demônios em mitologia budista podem submeter-se ao Dharma e tornarem-se defensores.
    • A Europa medieval é descrita como inclinada a condenação eterna e regozijo.
    • A sensibilidade atual tende a simpatia pelo criminoso, sem que isso se identifique automaticamente com compaixão.
    • A atribuição de eternidade a punições é chamada de impropriedade metafísica.
  • Uma esperança simples de reencontro com uma tia santa, como aunt Lucy, exprime sem o saber que a pessoa amada como é em Deus já está presente na eternidade, ainda que para o vivente pareça futuro.
    • A ingenuidade religiosa moderna provoca constrangimento por efeito de educação massificada.
    • O reencontro é dito já consumado em eternidade.
    • O riso é admitido como dom e válvula psíquica.
  • O epíteto eternal é essencial aos arquétipos e seu uso para fenômenos temporais é impróprio, de modo que usos relativizados do termo, como na psicologia, são melhor evitados, preferindo-se a expressão archetypal symbols.
    • O uso maléfico do termo como causa de desintegração psíquica revela perigos de emprego frouxo.
    • Archetypal symbols preserva precisão e consistência.
  • Formas geométricas elementares como círculo, quadrado, esfera, cubo e triângulo equilátero, bem como o selo de Salomão, exemplificam símbolos arquetípicos de eficácia primordial.
    • O selo resulta da sobreposição do triângulo com sua inversão.
    • A tradição judaica o toma como emblema cardinal com usos ampliados.
  • A Cruz figura como símbolo arquetípico maior cujos eixos abrangem o Universo, e números desde Pythagoras, plantas como lótus, rosa e shamrock, e animais como águia, vaca sagrada, pomba e cordeiro compõem um repertório simbólico sem fim.
    • A águia é associada ao thunderbird ameríndio.
    • A pomba significa Espírito e descida da Graça.
    • O cordeiro remete ao arquétipo do sacrifício.
    • Um tipo de álgebra arquetípica culmina na equação de alfa e ômega.
  • Símbolos arquetípicos sustentaram a arte tradicional desde tempos primitivos, com bases geométricas visíveis em catedrais medievais e em mandalas tibetanos que inscrevem um quadrado num círculo sob o tema squaring the circle.
    • Investigações arquitetônicas recentes são mencionadas como perspicazes.
    • O mandala tibetano inclui objetos rituais como vajra e sino.
    • Vajra e sino representam método e sabedoria.
    • Assistentes angélicos e cores apropriadas completam o esquema.
    • Uma figura central preside como Buddha, Bodhisattva ou retrato celeste.
    • A prática ocorre sob orientação do lama e o mandala atua como auxílio mnemônico.
    • Anti-símbolos por inversão deliberada caracterizam feitiçaria negra.
  • A paisagem chinesa e japonesa é apresentada como suporte espiritual de potência quase miraculosa por visar revelar essências e por emergir do Vazio apenas o necessário, sob convergência taoista e budista em uma arte arquetípica.
    • Motivos meramente estéticos não governam formação nem prática.
    • O resultado parece escapar à explicação por técnica material.
    • A pintura atrai atenção de modo singular quando se entra em seu alcance.
    • A qualidade torna-se quase regra no Extremo Oriente enquanto a tradição permanece íntegra.
  • Um ser participa normalmente de vários arquétipos ao mesmo tempo, e o arquétipo individual designa a síntese de influências que convergem no nível deste mundo para determinar a vocação, svadharma, onde karma e dharma coincidem.
    • Karma é fruto de livre-arbítrio relativo.
    • Dharma é predestinação arquetípica.
  • A discussão encaminha-se para a ideia de lar como união com o próprio arquétipo, pois moksha é libertação e a Terra Pura é a terra dos arquétipos, tema que os Padres gregos chamaram deificação.
    • Deificação é dita paradoxal por parecer tornar o criado Deus.
    • A união com o arquétipo é retorno ao que já se é em Deus, segundo Meister Eckhart.
    • A não-dualidade de samsara e nirvana fundamenta a possibilidade do retorno do errante ao lar parental.
    • O ciclo de nascimento e morte pode cessar de uma vez por todas nesse retorno.
  • A citação do Vinaya-pitaka, Mahavagga I, 23, atribui ao Him-thus-come a exposição das coisas surgidas de causa e de sua cessação, e a mensagem dos arquétipos é apresentada como anúncio da mesma esperança.
    • A figura do grande Mendicant é evocada como autoridade da fórmula.
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