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HÁ UM PROBLEMA DO MAL?

PALLIS, Marco Alexander. A Buddhist spectrum: contributions to Buddhist-Christian dialogue. Bloomington, Ind: World Wisdom, 2003.

  • O mal não é tratado como problema psicológico a ser dissolvido nem como questão de felicidade individual, mas como realidade pertencente ao nível do mundo, assim como o bem, formando com este uma dualidade necessária.
    • Pecado é entendido como desrespeito voluntário a uma lei revelada, não como mero conceito subjetivo.
    • Bem e mal se relacionam como luz e sombra, sendo inseparáveis.
  • A questão central não é a existência do mal, mas se ele constitui um problema ainda sem solução satisfatória, dado que escritores religiosos, sobretudo cristãos, sentiram-se compelidos a oferecer respostas como a de que Deus “permite” o mal em vista de um bem maior.
    • A pergunta recorrente através dos séculos é por que o mundo não foi criado livre de mal, dor e ansiedade.
    • A expressão “problema do mal” tornou-se um dos clichês mais comuns da linguagem.
  • O dilema central afirma que se Deus é onipotente e bom, mas criou um mundo com o mal que se observa, uma das duas qualidades deve ser falsa.
    • Se Deus é bom mas criou tal mundo, não pode ser onipotente.
    • Se é onipotente mas criou tal mundo, não pode ser totalmente bom.
  • Os maniqueus e seitas afins concluíram que o demiurgo criador do mundo seria um ser intrinsecamente mau, mas essa solução deixou o problema essencial sem resposta, pois não explicou como ou por que a tendência demiúrgica surgiu ou pôde operar diante de Deus.
    • Essas seitas foram condenadas pela Igreja.
    • Suas tentativas de satisfazer o sentimento humano levaram a enunciações contraditórias.
  • Na crise religiosa contemporânea, o dilema assume forma mais radical, pois a conclusão implícita é que se as coisas são assim, Deus não existe, e o mundo é um campo de forças cegas.
    • Em épocas de fé mais generalizada, essa conclusão permanecia como semente latente, sem ser enunciada abertamente.
    • O pensamento não expresso funcionava como uma fenda permanente na armadura da crença.
    • Os expedientes dialéticos usados quando a mente humana ainda aceitava as premissas teológicas nunca foram suficientes para fechar essa brecha.
  • O foco recai sobre o mundo cristão, pois as tradições indianas nunca chegaram a formular o problema com essa acuidade, por razões a serem explicadas adiante.
    • O contexto é de uma era de dúvida ou de contrafé, o que torna urgente pensar com clareza sobre a questão.
    • Antes de buscar uma resposta, é necessário verificar se a pergunta foi corretamente formulada.
  • Muitos problemas metafísicos permanecem insolúveis não por falta de resposta, mas por terem sido mal formulados desde o início, o que impede qualquer solução.
    • Frithjof Schuon é citado: uma pergunta mal posta não evoca luz nem deriva dela.
    • Metade das questões urgentes que atormentam os seres humanos responderia a si mesma se fosse corretamente enquadrada.
  • O objetivo presente é reformular a questão do mal como prelúdio indispensável a qualquer resposta eventual.
    • As evidências apresentadas são de ordem doutrinária, ilustrativa e dialética, provenientes de muitas fontes.
    • René Guénon é citado: a verdade pertence a todos em proporção à capacidade e disposição de assimilá-la.
    • A realização efetiva da verdade implica sempre uma equação entre ser e conhecer, não apenas uma operação de pensamento.
    • A verdadeira inteligência, chamada de intelecto sem qualificação, não pensa, mas vê.
    • O objetivo de todo método espiritual é catalisar esse poder de ver que cada ser carrega em si.
  • Por trás do dilema sobre o poder e a bondade do Criador, oculta-se o pensamento de que tal contradição equivale a destronar Deus e substituí-lo por um devir cego, do qual seguiria necessariamente um determinismo governado pelo acaso.
    • Esse quadro filosófico é o pano de fundo que precede a discussão das doutrinas evolucionistas.
  • Ao mesmo tempo em que teorias de determinismo materialista ganhavam terreno, teorias evolucionistas atribuíam ao universo uma tendência otimista em direção ao que nos parece melhor, passando do simples ao complexo e culminando na humanidade.
    • O darwinismo foi uma especificação entre outras do evolucionismo, que causou o impacto que causou em grande parte por seu momento histórico.
    • Forneceu uma sanção científica a um desejo já existente, especialmente na esfera sociológica, sob o nome de progresso.
  • O evolucionismo tornou-se dogma da era moderna, aceito pelo público em geral com a mesma naturalidade com que o público medieval aceitava dogmas da Igreja.
    • Gai Eaton é citado: as eras de fé estão sempre presentes, apenas seu objeto muda.
    • Fé, em sentido mais profundo, é o conhecimento indireto e participativo que preenche o intervalo entre saber e ser, entre assentimento teórico e realização.
  • A menção ao evolucionismo serve para ilustrar que tais doutrinas implicam a aceitação de uma tendência universal em direção ao melhor como propriedade inerente do devir, com o bem sempre percebido adiante, mas nunca efetivamente atingido.
    • A cada nova descoberta científica ou invenção sensacional, a ideia de evolução ascendente da humanidade é evocada como uma espécie de mística.
    • Essa tendência otimista contrasta frontalmente com as implicações lógicas de um determinismo materialista sem Deus.
    • A coexistência dessas duas premissas opostas em uma mesma mente mostra que o problema do bem e do mal está tão longe de solução quanto sempre esteve.
  • Não há razão lógica para crer que o que é bom tenha valor de sobrevivência maior do que o que é mau, nem base para supor que um universo cego carregue em si uma preferência pelo que os seres humanos consideram bom.
    • Há peso considerável de evidências contra essa suposição.
    • Por trás dessa crença há um motivo sentimental que influenciou a seleção e leitura das evidências de modo não científico.
    • O ser humano tenta compensar sua infelicidade projetando no futuro o anseio por um universo organizado para que não sofra.
    • A imagem evocada é a da cenoura balançando diante do burro para fazê-lo puxar o carro, o que suscita a pergunta sobre quem seria o condutor.
  • Para tratar da questão central, convém recorrer aos ensinamentos das grandes tradições e ao que oferecem como resposta, evitando especulações individuais.
    • As narrativas sagradas e expressões simbólicas devem ser lidas além da letra, na interpretação anagógica que Dante chamou de apontamento para as alturas da realização mística.
    • O conhecimento místico é inexprimível porque escapa aos limites da forma.
    • As formas sagradas servem como indicadores provisórios das chaves dos mistérios e não devem ser descartadas em nome de abstrações mentais, nem aprisionadas por literalismo estreito ou denegrição profana.
    • O fracasso imputado à religião e o consequente abandono dos meios de realização têm relação direta com esses abusos de interpretação.
  • Para uma audiência formada por cristãos ou moldada pelo pensamento cristão, é adequado voltar-se para os primeiros capítulos do Gênesis e a história de Adão e Eva.
    • A Árvore da Vida corresponde ao eixo do universo, situada no centro do jardim onde Adão, o homem primordial, vive em paz com todos os seres.
    • Enquanto a atenção de Adão permanece focada no centro, não há desarmonia ou medo em lugar algum.
    • Esse estado é a imagem da participação perfeita em modo passivo.
  • A serpente oferece a Adão a experiência ainda não provada da unidade fragmentada, das coisas não referidas ao centro e valorizadas por si mesmas como se fossem entidades autossuficientes.
    • Esse é o atrativo característico da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.
    • Adão, persuadido por Eva a instância da serpente, prova do fruto.
    • Em um instante, a pureza de intenção primordial se perde, e ambos tornam-se conscientes de tudo o que os separa de si mesmos, um do outro e de tudo ao redor.
    • A vergonha da própria nudez e as folhas de figueira tornam-se o protótipo de todo disfarce humano.
  • A Árvore da Vida deixa de existir para Adão e Eva após a queda, e no lugar dela só se vê a Árvore do Bem e do Mal curvada sob o peso de seus frutos claros e escuros.
    • Pela primeira vez eles sentem uma aguda sensação de alteridade, de eu e tu.
    • Ficam separados dos seres com quem antes comungavam em termos livres e destemidos.
  • O ponto vital da narrativa simbólica é que Adão e Eva não percebem a identidade real da árvore: nunca houve uma segunda árvore, mas a mesma árvore vista dupla através do vidro distorcido da ignorância.
    • Vista do ponto de vista da ignorância, a Árvore da Vida torna-se a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.
    • Vista do ponto de vista do conhecimento verdadeiro, a Árvore do Devir é a Árvore da Vida.
  • Essa narrativa bíblica expressa uma doutrina metafísica completa em seus elementos essenciais, com eficácia comunicativa superior à das abstrações filosóficas.
    • O simbolismo concreto de uma árvore comunica o que as abstrações filosóficas raramente conseguem.
  • Os apologistas que quiseram defender Deus da acusação de ser o autor do mal perderam um ponto vital: o paraíso, por mais feliz que fosse, continha a serpente.
    • A narrativa do Gênesis não explica esse fato, que surge quase casualmente no momento em que o evento fatal está prestes a ocorrer.
  • Um paraíso, para ser um paraíso, deve necessariamente conter a serpente, pois a perfeição de um paraíso sem ela seria a perfeição não do paraíso, mas do próprio Deus.
    • Em termos sufis, isso seria o paraíso da Essência.
    • Quando se diz que um paraíso foi criado bom ou perfeito, isso só pode significar que é bom ou perfeito na medida em que um paraíso pode ser perfeito.
  • O mesmo princípio se aplica ao inferno: um inferno, para ser inferno, deve conter em algum lugar um traço da Árvore da Vida, pois não pode ser lugar de mal absoluto ou imperfeição absoluta.
    • Na iconografia tibetana, quando os infernos são representados, um Buda é sempre mostrado ali como testemunha necessária, ainda que latente, da verdade onipresente.
  • O princípio essencial é que onde quer que se lide com uma perfeição relativa, com limites existenciais, aceita-se implicitamente um grau de imperfeição em relação ao que está fora desses limites.
    • Esse caráter privativo do limite manifesta-se, dentro de qualquer limite, como propensão à mudança e ao sofrimento consequente.
    • Essa é uma tese básica do budismo, mas também das tradições semíticas, ainda que expressa de forma diferente.
    • Cristo disse em determinada ocasião “Por que me chamas bom?”, afirmando assim a genuinidade de seu estado humano diante de sua divindade essencial.
    • Na pessoa humana de Cristo vê-se a figura perfeita da humanidade incluindo suas limitações.
    • A suchness [talidade] do homem não é a suchness de Deus; portanto não pode ser chamada boa por si mesma, apenas enquanto revela a perfeição divina.
  • Em termos puramente metafísicos, em Cristo perfeição absoluta e perfeição relativa se encontram, e a interseção da cruz é o símbolo de sua perfeita coincidência.
  • O que se manifesta como mal relativamente à situação humana tem suas raízes, cosmicamente falando, numa imperfeição inseparável de toda manifestação como tal, seja ela um mundo, um ser individual ou mesmo um paraíso.
    • Os sufis declaram que o paraíso é uma prisão para o Sábio assim como o mundo é uma prisão para o crente, expressando insatisfação última com tudo que não é Deus.
  • A questão que se impõe passa a ser por que Deus cria, por que há manifestação, por que precisamos existir.
    • Antes de decidir se tal questão é legítima, é importante ressaltar que toda ação divina deve ser considerada ao mesmo tempo necessária e livre.
    • In divinis, liberdade e necessidade coincidem em todo ponto, ao passo que em nós a existência os torna mais ou menos incompatíveis.
    • A infinidade de Deus implica liberdade absoluta; sua absolutidade implica necessidade ilimitada.
  • O ato criativo foi descrito teologicamente como gratuito para afirmar a liberdade absoluta de Deus, e nunca para negar sua necessidade infinita.
    • A natureza infinita da possibilidade divina evidentemente inclui a manifestação e, portanto, a requer.
    • O mundo, existindo, não acrescenta nada a Deus, nem seu eventual desaparecimento indicará privação proporcional ao Divino.
    • A questão por que as coisas existem é desprovida de sentido intrínseco; a existência não é algo ao qual a pergunta “por quê?” pode ser validamente anexada em expectativa de solução conforme à lógica humana.
    • Apenas o olho do intelecto, o terceiro olho do simbolismo tradicional indiano, pode penetrar além do véu existencial; Meister Eckhart o chamou de incriado e incriável.
    • Enquanto a existência for uma possibilidade, ela será chamada à manifestação, pois a onipossibilidade divina não pode ser limitada de nenhuma maneira.
  • No campo do cristianismo, a ideia de um problema do mal originou-se ali e está largamente confinada a esse campo, ligada à representação antropomórfica da relação entre humano e divino.
    • Quando levada longe demais ou insuficientemente corrigida por comentários de natureza mais sapiencial, como os sermões de Meister Eckhart, essa representação pode facilmente ser invadida por influências sentimentalistas e moralistas.
    • O simbolismo antropomórfico como tal não deve ser culpado, pois comprovou sua utilidade através dos séculos e oferece vantagens inegáveis para muitas almas.
    • Se tem seus perigos, o mesmo vale para toda forma de expressão, por mais consagrada que seja; a serpente estará ali de alguma forma.
  • A única defesa contra os abusos doutrinários que perturbaram e mesmo afastaram muitas mentes do mundo cristão é um retorno aos temas centrais da doutrina, ao seu núcleo metafísico.
    • Confusões sentimentalistas e racionalistas surgem invariavelmente na periferia de uma tradição.
    • A teologia cristã foi relegada perigosamente ao status de especialidade, em vez de ser considerada alimento diário para cada alma.
    • As tradições orientais, apesar da degeneração dos tempos, têm muito a ensinar sobre a prática cotidiana da religião.
    • Em Kalimpong, nas colinas do norte de Bengala, o jardineiro do autor possuía um sentido metafísico e teológico que muitos bispos poderiam ter aproveitado com vantagem; a teologia era para ele uma busca viva e prática.
  • A devoção cristã foi mantida privada de alimento intelectual, escorregando para o sentimentalismo, o que afastou muitas mentes mais inteligentes da Igreja, com resultados desastrosos.
    • Essas pessoas eram inteligentes demais para aceitar o alimento demasiado adocicado que os mentores religiosos pensavam que queriam.
    • Em outro sentido, porém, não eram suficientemente inteligentes para detectar, através do açúcar, o sal que ainda estava ali esperando para ser provado.
    • Um renascimento cristão sem renovação da penetração intelectual das verdades centrais é uma quimera.
    • Não há substituto para o conhecimento.
  • O ensinamento cristão exotérico contentou-se em grande medida com afirmar que Deus não é o autor do mal, o que, embora contenha falhas, é justificado enquanto Deus não quer o mal enquanto mal.
    • Deus é o criador do relativo, exigido por sua infinidade; do relativo, o que chamamos mal é uma função necessária, sendo a medida da aparente separação do mundo de seu princípio.
    • Frithjof Schuon é citado: não se pode pedir a Deus que queira o mundo e ao mesmo tempo queira que ele não seja um mundo.
    • Um mundo é um redemoinho de contrastes, o que a palavra indiana samsara expressa; não é uma unidade por direito próprio.
    • Não é limitação do Onipotente não poder produzir outro Si mesmo, um segundo Absoluto.
  • O islã segue uma linha diferente: sendo sua testemunha central a unidade e transcendência absoluta de Deus, declara sem desvio que tudo o que existe é inequivocamente criação de Deus, e portanto o mal, por existir, deve ser contado entre as criaturas de Deus.
    • A teologia cristã em geral recuou de tal afirmação direta e quis envolvê-la; o islã não o fez.
    • Ambas as razões são válidas, mas relativas; onde há relatividades, tais divergências são inevitáveis e necessárias.
    • A diferenciação de testemunho entre as diversas tradições serve para revelar a natureza convergente dos vários caminhos espirituais e seu encontro no centro, no coração da verdade.
    • Os muçulmanos dizem que quando as portas do paraíso foram abertas, as portas do inferno foram abertas ao mesmo tempo.
    • Querer paraíso sem inferno é falhar em reconhecer que dois termos pertencem juntos como correlativos do mesmo ordem; é implicitamente negar o Absoluto ao querer dotá-lo de caráter absoluto enquanto se recusa existência relativa a seu parceiro normal.
  • Toda relatividade pode e deve ser transcendida, não por negação arbitrária, mas por integração, tornando o mundo transparente para que a luz iluminando nossa escuridão existencial possa ser percebida.
    • O centro está em toda parte; onde o centro está, está a visão beatífica.
  • No campo das tradições indianas, o ponto de vista difere consideravelmente, pois o conceito geral de manifestação não está ligado ao conceito mais particular de criação, como nas religiões semíticas.
    • Os hindus atribuem a atividade criativa à Divindade comparando-a a um jogo divino, afirmando assim a liberdade e transcendência incondicionais da Divindade em sua essência não manifesta e impessoal.
    • No budismo, onde a ideia de criação está praticamente ausente, o aspecto pessoal é como que contornado tanto no protótipo divino quanto no ser humano.
    • O caráter não teísta, e não ateísta, da sabedoria budista e sua insistência na não-ipseidade de todas as coisas pertencem juntos.
    • A tradição hindu, com sua exuberância maternal, é capaz de acomodar todo tipo de doutrinas que em outras tradições tenderiam a se excluir mutuamente.
  • O mundo manifesto visto pelos olhos indianos não requer ser caracterizado como uma criação querida; no budismo, o samsara é descrito como sem começo mas tendo um fim.
    • O processo de passagem contínua de causa a efeito é deixado indefinido em termos de origem.
    • Esse processo e a possibilidade associada de sofrimento podem ser neutralizados pela integração no centro onde a roda do renascimento não gira.
    • Negativamente, isso é a extinção nirvânica; positivamente, é o despertar para a iluminação, a Budeidade.
    • A visão cristã representa o outro extremo: o mundo tem um começo na criação mas pode tornar-se mundo sem fim na salvação por Cristo.
    • O caráter paradoxal de ambas as enunciações é explicável em termos de um propósito espiritual, um apelo à realização.
  • A mentalidade hindu e budista não vê problema no mal ou no sofrimento porque o sentido do relativo e seu caráter ambivalente, ao mesmo tempo véu sobre o absoluto e revelador dele, está demasiado arraigado no pensamento indiano para permitir que o mal seja visto como mais do que um caso particular do relativo.
    • O sofrimento em todas as suas formas é aceito como medida da aparente distância do mundo em relação ao princípio divino.
    • O princípio é absolutamente onipresente no mundo, mas o mundo está relativamente ausente do princípio.
    • Identificando-nos com nossos acidentes, criamos e nutrimos uma ipseidade especiosa que convida a uma repercussão inevitável na forma do bem e do mal que moldam nossas vidas.
    • Enquanto o fluxo do samsara continuar, o sofrimento será experimentado; nenhum esforço pode tornar o processo diferente do que é.
    • Religião, fundamentalmente, preocupa-se com tal diagnóstico e com os remédios a aplicar à sua luz.
  • A teoria dos ciclos cósmicos, altamente desenvolvida na tradição indiana mas também conhecida da antiguidade ocidental, com suas idades de ouro, prata, bronze e ferro, descreve desde um período de pureza primordial até um período de obscurecimento geral que leva a uma catástrofe percebida como julgamento final.
    • Há épocas e ocasiões em que um acúmulo em uma ou outra direção ocorre, como uma maré de primavera ou de neap que deixa o oceano essencialmente como estava.
    • As grandes divisões do tempo representam um acúmulo de fatores positivos ou negativos que os seres interpretam em termos de bem ou mal quase universal.
    • O homem não pode buscar seu verdadeiro lar entre essas areias movediças, e ainda assim é precisamente daqui que sua busca deve começar.
    • A porta da libertação só pode ser encontrada aqui e agora.
  • A questão que urgentemente concerne ao ser humano não é a existência do mundo nem o que o mundo poderia ter sido, mas unicamente como melhor regressar ao próprio centro, que é também o centro de todas as coisas, a Árvore da Vida, o eixo que une céu e terra.
    • A palavra religião, por sua etimologia, significa unir, assim como a palavra yoga.
  • Para a posteridade de Adão, nutrida pelos frutos do dualismo, o processo de retorno deve começar daqui, fazendo com que a própria Árvore do Bem e do Mal revele seu segredo ao revelar sua identidade com a Árvore da Vida.
    • Para Adão, foi um caminho de saída do centro para a periferia, consequência da duplicação ilusória da unidade original.
    • Isso dá o padrão e princípio da distração neste mundo.
  • A inocência adâmica é uma perfeição à sua maneira, como a do recém-nascido, mas sua passividade existencial a deixa vulnerável ao impulso egocêntrico que faz os homens sentirem-se como deuses e os coloca sob a lei da mortalidade.
    • Para a libertação inequívoca, essa inocência precisa ser completada pela realização ativa, plena consciência da identidade essencial, através de sua distinção relativa, da Árvore da Vida e da Árvore do Contraste, nirvana e samsara.
    • É só transcendendo todas as dualidades e suas oposições que se torna imune à picada da serpente, pois então a própria serpente, como tudo mais, terá sido reconhecida pelo que é: uma propriedade da existência, nada mais.
    • Buda, ao colocar a visão correta no começo do Nobre Caminho Óctuplo, prestou tributo pleno a esse primeiro requisito.
    • A reintegração completa no centro será ao mesmo tempo ativa e passiva: ativa em virtude do conhecimento, passiva em virtude do dom vivo da graça.
    • Frithjof Schuon é citado: é sempre o homem que está ausente, não a graça.
  • A imagem tradicional do Buda exemplifica perfeitamente a síntese de atitudes exigida do homem pelas circunstâncias.
    • Sentado na postura de lótus ao pé da Árvore do Iluminamento, o Buda totalmente desperto toca com a mão direita a terra, chamando-a a testemunhar; atitude ativa em relação ao mundo.
    • Sua mão esquerda sustenta o pires de esmolas em prontidão para receber o que possa ser lançado de cima; atitude de passividade em relação ao céu, receptividade perfeita.
    • A eloquência incomparável desse símbolo dispensa todo comentário.
  • Para o cristão, a realização em modo ativo é representada essencialmente pela redenção inaugurada pelo próprio Cristo.
    • Para compensar a queda, o caminho de reintegração deve passar pelo sacrifício; o ego deve sofrer transformação no fogo de Shiva, como diria um hindu.
    • A reintegração virtual no estado adâmico de inocência, em modo passivo, é operada pelo batismo.
    • A reintegração virtual em modo ativo, no estado crístico, é operada pela Eucaristia, comer e beber Cristo para ser comido e bebido por Cristo.
    • O pecador que se arrepende corresponde à realização ativa; é o pássaro que escapou da gaiola e nunca mais será capturado.
    • A inocência da participação passiva é indubitável, mas é a outra que provoca maior alegria no céu.
  • Esse exemplo ilustra o caráter polivalente da Escritura revelada, em virtude do qual as mesmas palavras, mantendo sua aplicabilidade literal num nível de entendimento, são transponíveis para um sentido mais universal em outro nível.
    • Esse é o método de exegese chamado anagógico, que aponta para o limiar dos mistérios.
    • O enorme ênfase posto por todas as grandes tradições na memorização e recitação das Escrituras é explicado por essa propriedade do texto sagrado de veicular aspectos superpostos da verdade.
  • Essa dupla virtualidade, cobrindo todas as possibilidades tanto passivas quanto ativas, deve ser atualizada através da vida na religião.
    • As doutrinas e métodos religiosos, qualquer que seja sua particularidade de forma, não têm outro propósito.
    • Esse é também o único propósito da vida humana como tal, a vida humana difícil de obter, como dizem os budistas.
    • As várias tradições convergem nesse apelo urgente ao ser humano para cumprir seu destino, que não é outro senão a libertação ou salvação, sempre que se dê a essa última palavra o sentido das próprias palavras de Cristo: sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito.
  • A natureza transcendente da vocação humana é evidenciada acima de tudo pela presença, no homem, de um sentido do Absoluto.
    • O nome de Deus está indelevelmente inscrito no coração humano; todos os revestimentos profanos devidos à inatenção e à ignorância consequente são incapazes de extinguir completamente sua lembrança.
    • Meister Eckhart disse: quanto mais blasfema, mais louva a Deus.
    • O estado de esquecimento sempre carrega consigo uma sensação roedora de privação, que não será aplacada até que seu único objeto real seja reencontrado.
    • Todos os desejos que os seres experimentam são sinais de uma profunda nostalgia da Árvore da Vida, a verdadeira pátria do homem.
  • O único problema real na situação humana é encontrar o caminho de volta para casa, pois quem perdeu seu próprio caminho é um guia ruim.
    • Apenas os santos podem oferecer serviço eficiente, aqueles que conhecem o caminho por tê-lo percorrido.
    • O caminho envolve duas condições: uma direção, fornecida pela tradição sagrada, e um método de concentração apropriado à capacidade relativa de cada pessoa.
    • Em princípio, o método reduz-se à lembrança ininterrupta de Deus, a atenção plena no sentido budista.
    • O Profeta do islã proclamou que tudo no mundo é maldito, exceto a Lembrança de Deus.
    • Gastar o precioso dom da existência humana em qualquer coisa que não seja a única coisa necessária, como Cristo a descreveu na casa de Marta e Maria, é condenar-se a vagar pelo oceano da existência como o Holandês Voador.
    • A graça divina sempre deixa essa única esperança; Deus que parece tão distante está sempre próximo, mais perto do que a veia jugular, como diz o Corão.
    • A Árvore da Vida está de pé neste mesmo aposento, tão certamente quanto esteve no Éden.
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