schuon:forma-substancia:escatologia

NOTAS SOBRE UM PROBLEMA ESCATOLÓGICO

  • As Revelações possuem um caráter total e fragmentário: total por seu conteúdo absoluto ou esoterismo, e fragmentário por seu simbolismo particular ou exoterismo, embora este contenha elementos que permitem reconstituir a verdade total, como a ideia islâmica da não eternidade do inferno e a afirmação corânica de que só a Face de Allah é perene.
    • O exoterismo contém elementos que permitem a reconstituição da verdade total.
    • No Islã, a ideia da relatividade ou não eternidade do inferno é um desses elementos.
    • Não há formulação equivalente sobre o fim do Paraíso, exceto a ideia sufi de que ele é a “prisão do gnóstico” e o versículo sobre a perecibilidade de toda coisa exceto a Face de Allah.
  • Rumo à consumação de um grande ciclo cósmico, as chamas do inferno se extinguirão e, correlativamente, os Paraísos revelarão seu aspecto limitativo, manifestando uma nostalgia da Unidade sem segundo, até que, no momento em que um bem-aventurado duvidasse se ainda está no Paraíso, o grande véu se romperia e a Manifestação universal seria reintegrada na Plenitude inefável do Princípio.
    • Um hadith ensina que “as chamas do inferno se esfriarão”.
    • A Clemência divina prevalece sobre o Rigor, não havendo simetria entre o fim do inferno e a manifestação do aspecto limitativo do Paraíso.
    • O aspecto “outro que Deus” no Paraíso se manifestará em detrimento do aspecto “perto de Deus”, sem sofrimento, mas como uma sombra passageira.
    • A apocatástase superará todas as promessas, e a Manifestação universal será transmutada e reintegrada no Princípio.
  • Os sufis entreveem esse aspecto de “crépusculo” paradisíaco na contingência dos estados celestes por meio da Shahâdah (Testemunho unitário), que lhes permite discernir entre o Absoluto e o contingente e ver os limites de tudo o que não é Deus, ao mesmo tempo que veem Deus através dos fenômenos, chamando a Beatitude divina de “Paraíso da Essência”, o que corresponde ao Nirvana.
    • A Shahâdah é a chave do discernimento entre o Absoluto e o contingente.
    • Os sufis veem os efeitos nas causas e percebem a priori os limites de tudo o que não é Deus.
    • O “Paraíso da Essência” corresponde ao Nirvana, Deus sob o aspecto de Beatitude e Permanência.
  • O aspecto de separatividade nos Paraísos se acentuará antes da absorção final, enquanto no inferno o aspecto de necessidade ou existência, que o liga à Vontade divina, se afirmará ao final do ciclo, levando ao “resfriamento” das chamas, pois a Bondade divina, sendo mais essencial que a Justiça, acabará por vencer as acidentalidades negativas.
    • O inferno comporta um aspecto de afastamento (sua razão de ser) e um aspecto de existência que o liga a Deus.
    • A Bondade divina está incluída na Existência e em toda substância existencial.
    • Os aspectos positivos de toda criatura (existência pura, deiformidade, qualidades) acabam por vencer as acidentalidades negativas, por lei de equilíbrio, esgotamento e compensação.
  • Considerações sobre Paraíso e inferno são necessariamente esquemáticas, pois a Revelação indica que essas moradas têm regiões e graus (dimensões horizontal e vertical), cuja “vida” e “movimentos” são em grande parte inacessíveis ao entendimento terrestre, embora o fundamento metafísico dessa doutrina seja sólido por coincidir com a noção mesma de contingência.
    • A Revelação fornece imagens raras e fragmentárias sobre a vida nos Paraísos e infernos.
    • O fundamento metafísico da doutrina é a contingência, pois existir implica particularidade e mudança.
  • Existir implica particularidade e mudança, como demonstram o espaço e o tempo no plano corporal e os mundos e ciclos no plano universal, sendo a transmigração das almas a expressão dessa alternância de desdobramento e cristalização, que cessa no alto da Existência universal quando o movimento se interioriza em direção ao Imutável.
    • No topo da Existência universal, a “vibração migratória” cessa, interiorizando-se.
    • Há um único movimento, o ciclo do Paraíso, que desemboca na Essência.
    • Em Deus, além da Existência, há a Vida divina (Amor, Espírito Santo), para a qual convergem as existências sustentadas pela luz da Glória.
  • A identificação de si mesmo ao movimento gera o movimento e a série de mudanças, enquanto a identificação ao puro ser engendra a interiorização e a cessação do movimento no Imutável e no Ilimitado, sendo o desejo movimento e a contemplação ser.
    • A identificação ao movimento mantém o ciclo de mudanças.
    • A identificação ao ser leva à interiorização e à cessação do movimento.
  • A Revelação contém verdades explícitas e implícitas, oferecendo postulados e as chaves para suas consequências, de modo que a “totalidade” do amor cristão ou a “sinceridade” da fé islâmica implicam as verdades metafísicas mais decisivas, sem anular as interpretações literais em seus níveis.
    • As chaves fornecidas pela Revelação implicam as consequências correspondentes.
    • O critério de ortodoxia tradicional é o acordo com o princípio de conhecimento ou realização, não necessariamente com teses exotéricas.
    • A analogia “gelo/água” ilustra como uma verdade pode implicar outra, embora haja oposição em um nível imediato.
  • É absurdo exigir da Revelação ensinamentos explícitos sobre toda verdade, pois ela deve ser explícita apenas para as verdades necessárias a todos os homens, permanecendo outras em estado de potencialidade a ser atualizado pelo esoterismo, como a afirmação de que “Deus é Amor” implica metafisicamente a relatividade e o fim do inferno.
    • A Revelação não precisa ser explícita sobre verdades que não são compreensíveis ou necessárias para a maioria.
    • O esoterismo tem a função de atualizar as verdades implícitas na Revelação.
    • Dizer que “Deus é Amor” implica a relatividade e a finitude do inferno, mas essa finitude é obra de uma dimensão superior (a profundidade) que absorve o plano da realidade infernal.
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