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FENÔMENO MAOMETANO
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O Islã ensina sobre Jesus uma série de privilégios que, do ponto de vista cristão, parecem inconciliáveis com a fé em um profeta posterior, mas essa aparente contradição se dissolve ao considerar que o Monoteísmo integral comporta duas linhagens distintas, a israelita e a ismaelita, sendo que o ciclo mosaico-cristão não engloba toda a tradição monoteísta.
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Jesus não teve pai humano, é “Palavra de Deus”, nasceu de uma Virgem e, tanto ele quanto Maria, não foram “tocados pelo diabo” ao nascer, o que indica a Imaculada Conceição.
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A linhagem israelita tem Abraão renovado por Moisés, enquanto para os filhos de Ismael, Abraão permanece o Revelador primordial e único.
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O milagre sinaítico culminou no milagre messiânico de Cristo, que encerrou o ciclo bíblico, mas a linhagem ismaelita, abraâmica, permaneceu fora desse ciclo, aguardando seu próprio acabamento glorioso.
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Abraão, sendo anterior a Moisés, torna necessário que Maomé apareça após Jesus, fazendo com que o ciclo miraculoso que vai do Sinai ao Cristo seja temporalmente enquadrado por outro ciclo paralelo, de caráter abraâmico e maometano, marcado pela simplicidade primordial, pela transcendência e pela insignificância do homem diante do Sol divino eterno.
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O novo ciclo é caracterizado pela vida “desértica” e “nômade”, avessa à “grandeza humana” profana e titânica.
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A única grandeza admitida e durável é a santidade, que pertence a Deus.
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O Islã teve o papel providencial de perpetuar o mundo bíblico no Oriente, estabilizando e universalizando o mundo de Abraão e de Jesus, após a dispersão do Judaísmo e a europeização do Cristianismo, funcionando como um mecanismo de equilíbrio e compensação que os exoterismos não conseguem explicar.
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Sem o Islã, o Catolicismo teria destruído a Ortodoxia e outras Igrejas Orientais, romanizando e europeizando a região até a Índia.
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Deus teria “se arrependido” do desenvolvimento unilateral do Cristianismo e suscitado o Islã a partir do deserto, ambiente do Monoteísmo originário.
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A religião islâmica se apresenta como o acabamento das religiões anteriores, sendo Maomé o “Selo da Profecia”, e ensina que as missões proféticas prévias se exerceram “por mandato maometano”, o que implica tanto a assimilação de Maomé ao Logos quanto a função de exemplo e inspiração que os profetas anteriores exercem no quadro do Islã.
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A afirmação de que as missões se exerceram por “mandato maometano” é comum a todas as religiões em relação a seus fundadores.
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Os profetas anteriores têm uma função de exemplo e, por vezes, de inspiração esotérica dentro do Islã.
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A religião islâmica entende-se como a síntese e o acabamento dos monoteísmos anteriores por meio de seus três elementos constitutivos, el-îmân (Fé), el-islâm (Lei) e el-ihsân (Via), que correspondem respectivamente ao Abrahamismo, ao Mosaísmo e ao Cristianismo, estando presentes de forma equilibrada no Islã.
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No Abrahamismo, o elemento Fé absorve os outros; no Mosaísmo, a Lei predomina; no Cristianismo, a Via prevalece.
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A doutrina islâmica dos três elementos (îmân, islam, ihsân) visa mantê-los em equilíbrio lado a lado.
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Os três elementos da religião islâmica, a Fé (el-îmân), a Lei (el-islâm) e a Via (el-ihsân), possuem conteúdos específicos, sendo que a Fé compreende as duas Atestações, a Lei compreende as cinco obrigações rituais, e a Via, cujo suporte central é o “Souvenir de Dieu”, é o domínio dos sufis e não pode ser definida exotericamente.
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A Fé (el-îmân) comporta fundamentalmente a atestação da Unidade de Deus e da qualidade profética de Maomé.
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A Lei (el-islâm) comporta as duas Atestações, a Oração canônica, o Jejum, o Dízimo e a Peregrinação.
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A Via (el-ihsân) tem como suporte central o “Souvenir de Dieu” (dhikru' Llah), que é objeto da “ciência do interior” (ilm el-Batin).
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Segundo uma perspectiva própria ao Islã, é possível atribuir a Abraão as virtudes da Fé, a Moisés as virtudes da Lei e a Jesus as virtudes da Via, vendo em Maomé a síntese de todas essas qualidades, assim como na síntese îmân-islâm-ihsân, o que permite considerar cada virtude fundamental sob o ângulo de um desses três elementos sem que isso implique exclusividade.
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Atribuir uma qualidade a um profeta é fazê-lo sob um determinado aspecto (Fé, Lei ou Via).
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O princípio de que as virtudes se referem mais particularmente a um ou outro elemento não invalida sua presença nos demais.
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A visão de Maomé como a “melhor das criaturas” e como o Logos sem epíteto, ao qual os outros enviados se incorporam, é admissível em virtude da existência de um setor cósmico específico onde essa identificação se dá por um Vontade divina particular, sendo que cada Avatara é “o Logos” no setor cósmico que lhe é reservado.
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A questão de ver em um fundador a única personificação do Verbo é uma questão de perspectiva e de realidade objetiva para aqueles que estão no setor espiritual correspondente.
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O que conta para Deus é o conjunto do porta-voz e de sua missão, que é sempre plenamente Palavra de Deus e Verdade integral e salvífica.
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A doutrina dos setores cósmicos ilustra o princípio metafísico de que só Deus é único, e serve para explicar as reivindicações exotéricas de exclusividade, que não podem ser consideradas erros puros e simples dado o conteúdo essencial e salvífico das grandes Revelações.
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As religiões são setores da “circunferência universal”, cujo centro é o Princípio divino ou a Realidade nirvânica.
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A personificação do Logos não pode ser única, exceto para um dado setor.
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O contraste entre o estilo muito humano do Profeta e a reivindicação de sua preeminência cria uma aparente desproporção, que é compensada no Islã pela sublimização do Profeta por sua identificação interior ao Logos total, preenchendo o vazio entre a pequenez humana e a grandeza metafísica que, nas perspectivas avatáricas, é ocupado pelo Homem-Deus.
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O totalitarismo religioso obriga o Islã a identificar Maomé com o Logos total, fazendo dos outros profetas funções particulares desse Logos.
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O Profeta não tem o direito de ser avataricamente sobre-humano para evitar o escolho da antropolatria e do titanismo.
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A obrigatória pequenez do porta-voz, por ser criatura, é compensada por sua identificação interior ao Logos total.
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A simplicidade e a pequenez voluntária do Profeta são provas patentes de sua sinceridade, pois um impostor pós-Cristo se declararia “filho de Deus”, o que Maomé jamais fez, e ele admitia a natividade virginal de Cristo, o que não era de seu interesse humano ou lógico.
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Maomé foi um asceta, com poucas esposas (em comparação a Davi e Salomão), jejuava, passava as noites em oração e dava tudo em esmolas.
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A moral extrínseca do Islã é idêntica à do Antigo Testamento, sendo prática e social, enquanto a moral intrínseca das virtudes age como a substância que determina os acidentes a partir de dentro.
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Quanto às acusações ocidentais de crueldade contra Maomé, a resposta muçulmana é que o tratamento foi a reação adequada a uma culpabilidade real, sendo impossível provar o contrário, e exemplos similares de ações amorais movidas por um fim superior existem na própria Bíblia, como nos casos de Judite e Jael.
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Os críticos partem do pressuposto da inocência das vítimas ou do erro de que não há culpados que mereçam tais tratamentos.
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A tendência de atribuir os motivos mais baixos às ações passadas não ajuda a esclarecer as coisas.
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O assassinato do poeta satírico Ka'b por traição é comparável aos atos de Judite contra Holofernes e de Jael contra Sísera, onde o fim pode justificar os meios, dependendo das circunstâncias e proporções.
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O Profeta é apresentado no Alcorão como um “belo exemplo”, e as virtudes observadas nos piedosos muçulmanos e sufis ao longo dos séculos, por serem especificamente islâmicas, só podem ter sido personificadas em grau máximo por ele, o que prova retrospectivamente sua autenticidade e faz com que ele sobreviva em sua comunidade através dessas virtudes.
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É inconcebível que essas virtudes tenham sido praticadas por séculos sem que o fundador as tenha personificado.
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O caráter maometano das virtudes explica a aparência mais ou menos impessoal dos santos, que repetem as virtudes de Maomé.
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O amor do muçulmano pelo Profeta é o amor do Logos enquanto Manifestação divina terrestre, e esse amor, que se traduz na integração no molde da Sunna (fitrah), é necessário para que o homem possa ser amado por Deus, compensando com uma realização interior o que lhe falta em reconhecimento exterior de outras modalidades de grandeza.
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O subjetivismo da mentalidade religiosa faz com que o muçulmano não veja nada fora de seu fenômeno particular de grandeza.
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O amor do Profeta é a contrapartida que compensa o “falta de imaginação” em relação a outros modos de grandeza.
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Enquanto o Cristianismo enfatiza o aspecto de “Deus humano” no Avatara, o Islã enfatiza o aspecto de “Homem divino”, ou seja, o homem perfeito, primordial e normativo, que é imagem não deformada do Criador, mas nunca a Divindade em si.
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“Homem divino” significa homem perfeito, imagem do Criador.
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“Deus humano” significa Espírito divino animando uma forma humana, absorvendo a alma em uma só substância com o Espírito.
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Para abordar a dificuldade ocidental quanto à santidade do Profeta, é útil distinguir entre uma santidade que se manifesta pela perfeição da forma (como a esfera ou o cubo) e uma santidade que se manifesta pela nobreza da substância (como o ouro ou o diamante), sendo que Cristo e Buda exemplificam a primeira, enquanto Krishna, Abraão e Maomé exemplificam a segunda.
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A santidade-forma é provada extrinsecamente pela perfeição da forma.
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A santidade-substância legitima e nobilita o ato pela substância, independentemente da forma.
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A santidade-forma é impossível sem a santidade-substância, mas a forma perfeita sem santidade (hipocrisia) é possível.
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A vida do Profeta, com seus elementos aparentemente fortuitos e contingentes, visa mostrar que o Enviado é apenas um homem, impedindo sua divinização, e leva o Islã a insistir na santidade-substância, onde um “ser” independente se revela por suas tendências e perfume espiritual, por trás de um “agir” engajado nas vicissitudes do mundo.
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O muçulmano conclui da verdade absoluta da Mensagem a santidade total do Mensageiro, ao passo que o cristão procede inversamente.
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O muçulmano também se baseia nos testemunhos daqueles que conheceram o Profeta e atestam sua incomparabilidade.
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O homem não pode conhecer o “Si” sem o concurso da “Pessoa divina”, nem pode aproximar-se desta sem o concurso do “Deus manifestado”, que é o reflexo divino na substância cósmica, princípio expresso nas palavras de Cristo e em um hadith que afirma a necessidade de encontrar o Profeta para encontrar Deus.
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Há três grandes teofanias em sentido descendente: o Supra-Ser ou Si (Atmâ), o Ser ou Senhor, e o Espírito divino manifestado.
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O Espírito divino manifestado possui três modos: o Intelecto universal arcanjélico, o Homem-Logos que revela em linguagem humana, e o Intelecto no homem, que lhe confere seu posto central e “pontifical”.
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A imensa importância das “preces sobre o Profeta” no Islã é explicada pelo mistério do “Deus manifestado”, cuja natureza é incontestavelmente humana e, ao mesmo tempo, sobre-humana, como ilustra a imagem do sol que se reflete num lago: quem vê o reflexo vê, de certa maneira, o próprio sol, tal como no dito de Maomé: “Quem me viu, viu a Verdade (Deus)”.
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Sem o sol, a água não seria visível nem teria reflexo.
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A doutrina do “Deus manifestado” é esotérica do ponto de vista muçulmano.
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Embora o Islã seja estranho a todo avatarismo, ele não pode deixar de atribuir à qualidade profética de seu Revelador uma virtude única, pois toda manifestação do Logos se manifesta como a única manifestação, a mais ampla, a primeira, a última ou a da essência do Logos, analogamente aos Nomes divinos, cada um dos quais é Deus e se torna central quando se revela ou é invocado.
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Nenhum Nome divino é o outro, mas cada um é Deus.
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O mesmo princípio se aplica, mutatis mutandis, ao Adi-Buddha, que é sempre o mesmo Logos projetado no tempo e no espaço.
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Ao lado das três grandes teofanias (Supra-Ser, Ser e Logos-Intelecto), pode-se distinguir uma quarta, o Logos refletido no microcosmo, que é o Intelecto humano, “nem criado nem incriado”, ao qual é necessário submeter todas as potências da alma para atingir a Sophia Perennis.
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O princípio “ninguém vai ao Pai senão por mim” aplica-se também ao puro Intelecto em nós.
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Na ordem sapiencial, importa submeter todas as potências da alma ao puro Espírito, que se identifica, de maneira informal e ontológica, ao dogma fundamental da Revelação.
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O Islã cultiva a pobreza como um de seus traços fundamentais, manifestando-se desde a conduta do Profeta até a arte das mesquitas, onde a riqueza é neutralizada por uma calma monotonia, e o próprio Alcorão, com seu estilo sóbrio e viril, é o paradigma desse equilíbrio que previne o individualismo titânico.
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A pobreza do Profeta é livremente consentida e piedosamente praticada.
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O estilo corânico, com sua secura média, enraíza o tipo humano na piedosa pobreza e na santa infância.
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A alma árabe é feita de pobreza, da qual derivam e para a qual refluem qualidades como ardor, coragem, tenacidade e generosidade.
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O pauperismo islâmico encerra uma mensagem universal sobre a norma do bem-estar ser um mínimo de conforto, com as virtudes cardeais do contentamento e da gratidão, mas essa mensagem se assenta na verdade mais profunda de que os “pobres” são aqueles que sabem nada ter por si mesmos e tudo necessitar de Deus, o “Rico”, e a pobreza perfeita desemboca na riqueza da Imanência divina.
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A base corânica da pobreza espiritual é o versículo que declara os homens “pobres em face de Deus” e Deus “o Rico”.
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O Islã, como “resignação” à Vontade divina, é pobreza, que não é um fim em si, mas tem sua razão de ser no complemento positivo.
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Morrer para a Transcendência é nascer para a Imanência.
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