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PRERROGATIVAS DO ESTADO HUMANO

  • A inteligência total, a vontade livre e o sentimento capaz de desinteresse são as prerrogativas que colocam o homem no cume das criaturas terrestres.
    • Total, a inteligência toma conhecimento de tudo o que é, no mundo dos princípios e no dos fenômenos.
    • Livre, a vontade pode escolher até o que é contrário ao interesse imediato ou ao agradável.
    • Desinteressado, o sentimento é capaz de se olhar de fora e de se colocar no lugar dos outros.
    • Os efeitos da queda enfraquecem essas prerrogativas, mas não podem aboli-las sem abolir o próprio homem.
  • A tríade inteligência-vontade-sentimento corresponde respectivamente a conhecer o Verdadeiro, querer o Bem e amar o Belo.
    • Horizontalmente, a Verdade concerne a ordem cósmica e fenomenal; verticalmente, a ordem metafísica e principial.
    • O Bem é, por um lado, prático, secundário, contingente; por outro, espiritual, essencial, absoluto.
    • A Beleza é a um tempo exterior — qualidade estética da natureza virgem, das criaturas, da arte sacra e do artesanato tradicional — e interior — qualidade moral, nobreza de caráter.
    • A sentença islâmica Deus é belo e ama a Beleza significa que Deus convida o homem a participar de sua natureza pela Virtude, no contexto da Verdade e da Via.
  • Ideal, normativa e vocacionalmente, o homem é a Inteligência, a Força e a Virtude; a Virtude tem dois aspectos, terrestre e celeste.
    • Social, a virtude exige humildade e compaixão; espiritual, consiste no temor e no amor de Deus.
    • O temor implica resignação à Vontade divina; o amor implica confiança na Misericórdia.
    • O que é temor e amor em relação a Deus torna-se, mutatis mutandis, respeito e benevolência em relação ao próximo.
    • Nas experiências estética e erótica, o ego se apaga diante de uma grandeza outra que ele; o amor tem dois polos, subjetivo e objetivo, e é o segundo que deve determinar a experiência.
  • A inteligência humana é, virtual e vocacionalmente, a certeza do Absoluto, que implica a noção do relativo e as relações entre ambos.
    • A prefiguração do relativo no Absoluto dá lugar ao Deus pessoal; a projeção do Absoluto no relativo dá lugar ao Anjo supremo.
    • A vontade humana é, virtual e vocacionalmente, a tendência para o Bem absoluto; é instrumental, não inspiradora — não é a vontade que determina a personalidade, mas a inteligência e o sentimento.
    • O sentimento humano é, virtual e vocacionalmente, o amor da Soberana Beleza e de suas reverberações no mundo e no próprio homem.
  • As três dimensões Deus, eu e os outros correspondem respectivamente à piedade, à humildade e à caridade, ou às qualidades contemplativas, caracteriológicas e sociais.
    • Na piedade — essencialmente o senso do sagrado, do transcendente, da profundidade —, a humildade torna-se consciência do nada metafísico do homem, e a caridade torna-se consciência da imanência divina nos seres e nas coisas.
    • A substância da alma é a busca inconsciente de um Paraíso perdido que em realidade está dentro de vós.
    • Se as virtudes fundamentais são belezas, inversamente toda beleza sensível testemunha as virtudes: é piedosa por manifestar arquétipos celestes, humilde por se submeter às leis universais, e caridosa por irradiar sem jamais pedir nada em troca.
  • As virtudes rudes como a coragem e a incorruptibilidade se explicam pelo fato de se viver num mundo limitado e dissonante; no Paraíso, as virtudes agressivas e defensivas não têm mais razão de ser.
    • Combater por uma causa justa é ser caridoso para com a sociedade; afirmar uma autoridade de direito divino é ser humilde perante Deus.
    • Aos vícios fundamentais — impiedade, orgulho, egoísmo, maldade — correspondem virtudes-caricatura igualmente viciosas: falsa piedade, falsa humildade, falsa caridade.
    • A bondade só é integral quando combinada com a força.
  • A personalidade funda-se no que se conhece como real — e negativamente no que se conhece como irreal —, no que se quer — e no que se recusa —, e no que se ama — e no que se detesta.
    • A beleza de uma pessoa moralmente feia não obriga a amá-la por causa da beleza nem a negar a beleza por causa da feiura moral, e vice-versa.
    • A beleza é a substância e a feiura o acidente; o amor é a substância e o ódio o acidente — relação análoga à do bem e do mal em geral.
  • A inteligência, conforme se aplica ao Absoluto ou ao contingente, é unitiva ou separativa: unitiva, assimila; separativa, elimina — mas a essência da inteligência só pode ser a união, a síntese, a contemplação.
    • A essência da vontade é a escolha do bem e a realização dessa escolha; a essência do sentimento é o amor, porque a essência do Real é a beleza, a bondade, a beatitude.
    • A ódio passional fere a inteligência por violar a verdade; mas há um ódio lúcido e não passional: a aversão contra os próprios defeitos e contra o que lhes corresponde no mundo.
  • A afirmação vedantina Brahma é a Realidade (Brahma satyam) une-se à afirmação o mundo não é senão aparência (jagan-mithyâ); analogamente, o axioma islâmico não há outra divindade (lâ ilâha) é compensado por Maomé é o enviado de Deus (Muhammadun rasûluLlâh).
    • Segundo a transcendência, o homem deve amar apenas o Soberano Bem; segundo a imanência, não é pelo amor do esposo que o esposo é caro, mas pelo amor de Atmâ que nele está.
    • O homem integral e primordial é o Intelecto e a consciência do Absoluto — definição que, em clima ocidental, encontra expressão nos conceitos eckhartianos de Gottheit e de aliquid increatum et increabile.
  • A inteligência visa o verdadeiro, a vontade o bem, o amor o belo; mas cada uma das três faculdades tem também as outras duas por objeto.
    • Do ponto de vista da inteligência, o bem e o belo são realidades; do ponto de vista da vontade, a verdade e a beleza são bens; do ponto de vista do amor, a verdade e o bem têm sua beleza.
  • O conjunto da inteligência e da vontade constitui a capacidade; o conjunto da sensibilidade e da vontade constitui o caráter; o conjunto da inteligência e da sensibilidade constitui a envergadura.
    • A habilidade organizadora e a estratégia relevam da capacidade; a coragem e a incorruptibilidade relevam do caráter; a potente profundidade dos grandes poetas releva da envergadura.
    • Esses dons têm valor condicional, não incondicional: no Paraíso não há mais necessidade de habilidade, coragem nem gênio.
    • As virtudes essenciais — piedade, humildade e caridade — fazem parte do próprio ser, pois relevam diretamente da natureza do Soberano Bem.
  • Verdade, Via e Virtude: a Virtude é o critério da sinceridade; sem ela, a Verdade não pertence ao homem e a Via lhe escapa.
    • A Verdade é o que se deve saber; a Via é o que se deve fazer; a Virtude é o que se deve amar, tornar-se e ser.
    • A razão suficiente das três perfeições fundamentais do homem é a consciência do Absoluto.
    • Em termos de alquimia espiritual: compreensão meditativa, concentração operativa, conformidade psíquica — este terceiro elemento significando que a compreensão iluminante e a concentração transformante exigem um clima de beleza moral.
  • Além da inteligência objetiva, o livre-arbítrio e a capacidade de desinteresse, o ser humano se distingue pelo pensamento, a linguagem e a estação vertical; tem em comum com o animal a memória, a imaginação e a intuição.
    • A razão pertence apenas ao homem — não a inteligência, que se encontra também no reino animal.
    • Os animais têm, como os anjos, a intuição mas não a razão, o que dá lugar ao curioso fenômeno da zoolatria; há animais sensíveis a influências espirituais ao ponto de poder veiculá-las e ser receptáculos de barakah.
    • Os teólogos estimam com razão que a razão é uma espécie de enfermidade devida à queda de Adão; mas ela tem também um aspecto positivo por ser solidária da linguagem e poder coexistir com a intuição intelectual.
    • Um anjo ou um sábio pode ser racional, mas não racionalista: não precisa concluir quando pode perceber, mas pode explicar uma percepção intelectiva com uma dialética forçosamente lógica.
  • O fato de o homem saber que deve morrer, ao contrário do animal, é prova de imortalidade: só porque o homem é imortal suas faculdades lhe permitem constatar sua impermanência terrestre.
    • Consciência da morte equivale a fenômeno religioso; sem religião autêntica, uma coletividade humana não pode sobreviver a longo prazo nem permanecer humana.
  • Segundo o princípio de dualidade, o homem se divide em homem exterior — sensorial-cerebral e terrestre — e homem interior — intelectivo-cardíaco e celeste.
    • Segundo o princípio de trindade, divide-se em inteligência, vontade e sentimento; segundo o de quaternidade, em razão, intuição, memória e imaginação — dois eixos, um vertical e um horizontal.
    • O princípio de trindade prima, pois guarda o justo meio entre síntese e análise, sendo mais explícito que a dualidade e mais essencial que a quaternidade.
  • A Realidade suprema é igual ao Soberano Bem; sendo absoluta, é infinita; sendo infinita, todo bem no mundo testemunha do Bem em si.
    • O intelecto não pode entregar o em-si do Absoluto, mas pode entregar pontos de referência — o que é tudo o que se necessita do ponto de vista do conhecimento discriminativo e introdutório.
    • O intelecto não é apenas discriminativo, mas também contemplativo e unitivo; sob esse aspecto não se pode dizer que seja limitado, assim como um espelho não limita a luz que nele se reflete.
    • Uma prova irrecusável de Deus é que o espírito humano é capaz de objetividade e transcendência; a certeza metafísica tem sua raiz no que somos.
  • Cada prerrogativa do estado humano comporta dois polos, ativo e passivo: na inteligência, discernimento e contemplação; na vontade, decisão e perseverança; no sentimento, fervor e fidelidade.
    • Certeza e serenidade, ou fé e paz: a segunda emana da primeira como o Infinito prolonga o Absoluto.
    • O homem precisa de paz para viver, e é vão buscá-la fora das certezas metafísicas e escatológicas às quais seu espírito é proporcionado.
  • Em resumo, as prerrogativas do estado humano consistem essencialmente em uma inteligência, uma vontade e um sentimento capazes de objetividade e de transcendência.
    • A objetividade é a dimensão horizontal: capacidade de conhecer, querer e amar as coisas tais como são, sem deformação subjetivista.
    • A transcendência é a dimensão vertical: capacidade de conhecer, querer e amar Deus e todas as valores que ultrapassam a experiência terrestre.
    • Muitos homens não possuem nenhum conhecimento metafísico; outros, possuindo-o, não sabem fazê-lo entrar em seu querer e seu amor — e essa ruptura entre pensamento e alma individual é mais grave do que a falta de conhecimento.
    • O conhecimento metafísico que permanece puramente mental não é praticamente nada; a meta da Via é primeiro reparar essa fratura hereditária e depois operar a ascensão para o Soberano Bem, que segundo o mistério de imanência é o próprio Ser do homem.
    • Fora da objetividade e da transcendência não há o homem, há apenas o animal humano; para encontrar o homem, é preciso visar Deus.
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