User Tools

Site Tools


schuon:jogo-de-mascaras:jogo-das-mascaras

JOGO DAS MÁSCARAS

  • Ao considerar a humanidade do ponto de vista de seus valores, é preciso distinguir a priori entre o homem-centro, determinado pelo intelecto e enraizado no imutável, e o homem-periferia, que é mais ou menos um acidente.
    • Essa diferença se repete em todo homem consciente do sobrenatural, seja ele da primeira ou da segunda categoria.
    • A distinção eckhartiana entre homem interior e homem exterior exprime essa realidade: o homem exterior se identifica passivamente a suas experiências; o homem interior pode gozar ou sofrer em sua humanidade temporal permanecendo impassível em seu núcleo imortal, que coincide com seu estado de união a Deus.
    • Sob esse aspecto analógico e guardadas as proporções, todo pneumático é verdadeiro homem e verdadeiro Deus.
  • Os homens santos que riem com os que riem e choram com os que choram expressam indiretamente o desapego e diretamente a benevolência do homem pneumático ou central.
    • Desapegado porque não se identifica aos acidentes; benevolente porque, por esse mesmo fato, não pode ser egoísta e mesquinho.
    • O homem-centro situa-se necessariamente num isolamento do qual sofre ao exterior: sentindo que todo homem é de certa forma o que ele mesmo é, se coloca sinceramente em seu lugar, mas os outros raramente se colocam no seu.
    • As maneiras de agir do homem-centro podem ser amorais mas não imorais: podem ser contrárias a tal moral, não à moral como tal.
  • É preciso distinguir entre o mascaramento por caridade e o de malícia: este é insincero, aquele é sincero.
    • Há máscaras sagradas e vestes sacerdotais que exprimem ou o que transcende o portador ou sua própria substância transcendente.
    • A religião histórica, a upâya, serve de veste à verdade nua, a religião primordial, perene e universal: o simbolismo transmite a Mensagem celeste e ao mesmo tempo dissimula seu mistério provisoriamente inassimilável.
  • Há uma diferença de função entre o véu e a máscara: a máscara é positiva por exprimir, afirmar e manifestar; o véu é negativo por dissimular e tornar inacessível.
    • Pelo véu, quer-se parecer menos do que se é; pela máscara, quer-se parecer mais, a menos que a máscara sirva para manifestar o próprio coração do portador.
    • Há casos em que a sabedoria toma a aparência de ingenuidade ou absurdidade — involuntariamente por falta de experiência num meio inferior, ou voluntariamente em função de uma vocação de ocultação da sabedoria e de paradoxo ostensivo.
  • O isolamento do homem-centro diante da absurdidade do mundo não implica solidariedade com a ambiência mundana, pois modos de agir semelhantes podem esconder intenções dissemelhantes.
    • No homem contemplativo, o prazer não infla a individualidade, mas convida ao contrário a uma dilatação transpessoal: a consolação sensível dá lugar a uma abertura para o alto.
    • Uma graça análoga intervém em todo crente sincero que aborda o prazer em nome de Deus e se abre assim à Misericórdia.
    • A ascese é útil ao homem excluído dos paraísos terrestre e celeste, mas a perspectiva ascética não pode ter o apanágio da verdade total nem da legitimidade tout court.
    • Conduzem a Deus não apenas a verdade, o mérito e o sacrifício, mas também a beleza; afastam de Deus não apenas o erro, o crime e a luxúria, mas também a feiura quando querida e produzida.
  • Jîvâtmâ, a alma vivente, é a máscara-indivíduo que se superpõe ilusória e inumeravelmente a Atmâ, ao Si único.
    • O indivíduo enquanto tal se identifica à contingência e se encontra submetido aos princípios de limitação e de flutuação.
    • A fase de atividade favorece a liberdade natural do homem; a fase de passividade o torna mais vulnerável em relação à ambiência e às próprias fraquezas.
    • O ideal é a vitória da atividade espiritual sobre a fase passiva, e a vitória da interioridade espiritual sobre a dimensão exterior.
  • Há sábios que não têm outro dever senão atrair as almas para o interior — e é a regra; outros acrescentam a essa função a de criar suportes sensíveis — e é a exceção; o exemplo mais patente é o herói cultural (Kulturheros), que inaugura uma civilização ou período de cultura.
    • Há uma exteriorização profana que equivale à escolha do mundo contra o espírito, e outra espiritual cujo fim é a interiorização.
    • O critério de equilíbrio entre o exterior e o interior é a predominância do polo de atração interna.
    • Somente os que se dão a Deus podem saber o que têm o direito ou o dever de dar ao mundo e de receber dele.
  • A impermanência é a limitação temporal: na mesma vida, a infância, a juventude e a maturidade passam, como a própria vida.
    • Normalmente a juventude e a maturidade constituem a manifestação do protótipo; a infância e a velhice têm algo de privativo.
    • O cume da manifestação individual não se situa sempre na juventude ou na maturidade: alguns manifestam sua melhor possibilidade na infância, outros apenas na velhice.
    • O avatâra, necessariamente homem perfeito sob todo aspecto, manifesta necessariamente a perfeição de cada idade.
  • A frase o justo peca sete vezes por dia tem por função fazer compreender que neste mundo a perfeição não pode ser absoluta, salvo no sentido da absoluidade relativa.
    • Segundo o esoterismo muçulmano, nenhum pecado é comparável ao da existência: o sufi pede perdão a Deus de manhã e à noite eventualmente sem ter consciência de nenhum mal.
    • O Cristo disse Que me chamas de bom? Deus só é bom — o que não pode significar que haja no homem deificado a menor tara.
  • O homem pode ser fundamentalmente bom ou fundamentalmente mau, segundo sua substância individual que pertence ao jogo da Toda-Possibilidade: são as possibilidades que querem ser o que são, não é Deus que lhes impõe.
    • Os bons manifestam qualidades; os maus manifestam privações; ambos são submetidos às vicissitudes da existência.
    • A combinação dos caracteres fundamentais com os modos da contingência terrestre dá lugar a uma diversidade indefinida de tipos e destinos.
    • Os relativistas concluirão que nada é bom nem mau em si — o que é um absurdo flagrante por não levar em conta a distinção entre o puro absoluto e o relativamente absoluto.
  • As limitações, dimensões e fases que governam o homem só governam o físico e o psíquico, não a inteligência como tal: corpus et anima, não spiritus.
    • O corpo e a alma são duas máscaras sobrepostas ao espírito, que em sua substância permanece ilimitado e imutável.
    • Isso nos reconduz ao conceito eckhartiano do homem interior.
    • Segundo expressão hindu, só o Senhor transmigra, o que é verdadeiro no sentido da lîlâ, do jogo divino, mas não se disso se deduz que os indivíduos não são reais em seu nível e que não são responsáveis por seus atos.
  • A identidade profunda do homem é sua relação com Deus; sua máscara é a forma que deve assumir no mundo das formas, do espaço, do tempo.
    • A ambiência e a personalidade relevam necessariamente do particular, não do Universal; do ser possível, não do Ser necessário; do bem relativo, não do Soberano Bem.
    • Não há razão para se perturbar por viver em tal ambiência e não em outra, nem por ser tal indivíduo e não outro.
    • Tal pessoa não se situa senão no mundo das Ideias divinas; tudo consiste em manter, a partir do ser possível, o contato com o Ser necessário e com o Soberano Bem, cuja natureza misericordiosa comporta o desejo de salvar o homem de si mesmo.
schuon/jogo-de-mascaras/jogo-das-mascaras.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki