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schuon:logica-trancendencia:concreto-abstrato

CONCRETO E ABSTRATO

  • O termo “abstrato” é aplicado de modo distorcido pela modernidade, que toma o acidental por concreto e o substancial por abstração, invertendo a relação real entre essência e fenômeno.
    • Os nominalistas medievais limitavam o “abstrato” às noções gerais; a modernidade estende o rótulo a toda realidade não tangível fisicamente ou psiquicamente.
    • A substância — o que existe por si mesmo — é tomada pelo pensamento moderno como abstração, enquanto o acidente passa por concreto.
    • A certeza do Absoluto é inata à inteligência essencial, não resultado de operação lógica de subtração de contingências.
    • O “concretismo” equivale a uma codificação filosófica da inintelgência.
  • O próprio fenomenal pode ser descrito como abstrato, e o Ser não é nem exclusivamente abstrato nem exclusivamente concreto, mas ambos sob perspectivas distintas.
    • Para apreender os fenômenos, faz-se abstração de suas essências; logo, o acidental também figura como abstração sob esse ângulo.
    • A noção de Ser é, para a razão, traço indireto do Ser; para a intelecção direta, é participação real nele.
    • No espelho do intelecto, o Ser se revela como consciência antes de figurar como noção — comparável ao ponto geométrico e ao espaço ilimitado simultaneamente.
    • O Ser é abstrato enquanto se oculta atrás dos fenômenos e das conclusões racionais, mas concreto em si e como percepção participativa do intelecto.
  • A liberdade, tida por abstração, é essência imutável e realidade concreta que atravessa o universo como beatitude real, da qual os seres participam segundo suas naturezas.
    • A experiência de liberdade de uma criatura particular é o acidente; a Liberdade em si é a essência imutável.
    • O universo animado é um ser que respira e vive em si mesmo e em suas parcelas individualizadas.
    • O protótipo de toda liberdade é a ilimitação da Atividade principial ou divina — a consciência que Deus tem de sua Toda-Possibilidade.
    • Muitas noções chamadas “abstratas” por comodidade correspondem a experiências mais profundas e reais, vividas por consciências cósmicas das quais os seres humanos são apenas exteriorizações ou parcelas.
  • A noção de justiça, como a de liberdade, aponta para um equilíbrio universal tão concreto quanto o próprio Universo, enquanto a liberação é o que devém e a Liberdade é o que é.
    • A liberação é evento particular e contingente; a Liberdade é realidade permanente que se manifesta por meio desse evento.
    • O equilíbrio universal do qual derivam os atos de justiça é tão concreto quanto o Universo mesmo.
  • A Inteligência, a Potência e a Beleza são realidades concretas enquanto qualidades do Ser perfeito e enquanto raízes universais dos fenômenos que as manifestam de modo contingente.
    • Os contrários dessas qualidades universais não possuem aseidade, pois são apenas privações sem existência essencial.
    • A imperfeição “pura” seria logicamente o nada — o nada, porém, não é sequer imperfeito, não é de nenhuma forma.
    • As noções privativas, como a de feiura, são generalizações de acidentes; os gênios dos diversos males existem ao nível das raízes informais do mundo formal, não ao grau divino.
    • Os demônios são as sombras invertidas — em direção ao nada em si inexistente — dos Nomes de Deus; a “queda dos anjos” marca a manifestação cósmica dos princípios de afastamento, inversão, privação, negação, compressão e volatilização.
  • A percepção intelectual do mal permanece sempre um bem, pois a inteligência — que é um bem — opera na luz das ideias positivas e imutáveis; apenas a vontade decaída ou pervertida veicula os vícios.
    • A noção do mal emana da virtude: o bem é a medida do mal, e é pela inteligência que se constata a privação, não pela própria tolice.
    • Somente o vício em si — não sua noção — participa da raiz cósmica do vício.
    • O erro grave tem sua raiz no elemento volitivo ou passional, capaz de assumir as aparências da intelecção.
    • Não há simetria entre a percepção do bem e a percepção do mal, porque a inteligência é em si mesma um bem.
  • O reprovar legítimo aos “concretistas” modernos não é o de reconhecerem modalidades de aplicação, mas o de afirmarem que a verdade só vale a partir do acidental, sem ver que o concreto deles está contido a priori no que chamam de “abstrato”.
    • A ideia de justiça implica em si mesma a existência das modalidades; a aplicação sem modalidades equivale a incompreensão da própria ideia de justiça.
    • Que um pobre que furta um pedaço de pão deva ser tratado diferentemente de um bandido que rouba um tesouro é uma evidência que deriva da ideia de justiça mesma, não apenas de situações acidentais.
    • A tendência fundamental dos “concretistas” de opor-se aos princípios e reduzir toda eficácia ao empirismo do acidental explica os abusos anti-intelectuais e frequentemente injustos do que se chama hoje, indevidamente, de “psicologia”.
  • A “existência” kierkegaardiana se anula por falta de razão suficiente, pois não é possível conceber uma moral “existencial” — vivida e não pensada, portanto sem “abstração” — no nível do homem terrestre, que é por definição um ser pensante.
    • A alternativa entre “existência” e “pensamento-abstração” é o mal-entendido fundamental do existencialismo.
    • O existencialismo é uma das manifestações mais aberrantes do que se pode chamar de “alternativismo” ocidental.
  • O espírito ocidental viveu amplamente de alternativas, reais ou falsas, e o reprovar de Kierkegaard ao “pensador abstrato” exemplifica essa tendência ao construir uma oposição artificial entre existir e pensar.
    • Pensar realmente e inteligentemente é, por definição, pensar abstratamente; sem isso, o pensamento se reduz à imaginação.
    • Não há oposição fundamental entre “existir” e “pensar”: a existência humana é sempre um modo de consciência, e o pensamento é uma maneira de existir.
    • Somente o erro — não a “abstração” — é inadequado em relação ao fato positivo da existência.
    • Há uma parte de verdade na reprovação existencialista: o conhecimento discursivo é separativo pela polarização sujeito-objeto; mas a conclusão correta é que ele não abarca todo o conhecimento possível, e que na intelecção puramente direta essa polarização é ultrapassada.
  • O existencialismo consumou a inversão de apresentar a tolice como inteligência e de colocar no pelourinho a inteligência de todos os homens inteligentes de todos os tempos.
    • Kierkegaard apresentou como inteligência a tolice mais comum, disfarçando-a em filosofia.
    • Se é original erigir o erro em verdade, o vício em virtude e o mal em bem, não é menos original apresentar a tolice como inteligência.
    • Durante milênios, filosofia era o ato de pensar; ao século XX foi reservado não pensar e fazer disso uma filosofia.
  • A filosofia moderna, ao buscar a causa da causa indefinidamente sem nenhum desfecho possível, tornou-se arte pela arte, oposta à sabedoria verdadeira, que sabe que a verdade total pode irromper de qualquer formulação adequada.
    • Buscar no plano das formulações uma adequação absoluta capaz de satisfazer todas as necessidades de causalidade, inclusive as mais facciosas, é a empresa mais contraditória e vã que existe.
    • A “pesquisa” dos filósofos modernos nada tem a ver com a dos contemplativos, pois seu princípio mesmo — a adequação verbal exaustiva — se opõe a todo desfecho libertador.
    • Depois de séculos de raciocínio nunca satisfeito, voltou-se não para um “concreto” interior que os antigos sábios e santos sempre conheceram, mas para um “concreto” exterior que ao mesmo tempo endurece e dispersa.
    • Os inovadores simultaneamente niilistas e “construtivistas” pretendem “partir do zero” em todos os domínios, como se o homem pudesse se recriar a si mesmo, criar a inteligência com que pensa e a vontade com que age.
  • A tendência concretista de tomar a média por norma — apresentando a decadência numerosa como modelo em nome do “real” — perverte o pensamento e vem ao socorro da democracia e do culto do medíocre.
    • Apresentar a beleza como exceção e a mediocridade como regra para daí concluir que a mediocridade é o modelo equivale a caluniar o povo.
    • O povo em estado normal é portador de valores que nada têm a ver com seus aspectos de quantidade, pesantez e dispersão; o povo não se identifica pura e simplesmente com as multidões.
    • Somente a tradição é chamada a colocar em valor o aspecto de substância que o povo comporta.
  • A tese de que todo mal cultural, social e político provém da abstração é insustentável, pois os defensores mais obstinados do concreto são os políticos mais abstratos no mau sentido — os mais irrealistas e desumanos.
    • É impossível deixar de pensar abstratamente em certos domínios, ou seja, de não conceder aos princípios primazia sobre os fatos.
    • A questão que se coloca não é a alternativa entre abstrato e concreto, mas o valor de um ou do outro segundo os casos.
    • Inversamente, os espíritos abstratos no sentido positivo — conscientes dos princípios reais — são ao mesmo tempo os mais compreensivos para com os fatos humanos.
  • Certos argumentos contra a vida eterna são característicos da perversão concretista da inteligência e da imaginação, que não concebe existência fora da resistência, do limite e da produção.
    • Para os materialistas, a pedra de toque do real é sempre a experiência grosseira e a falta de imaginação do “hílico”.
    • A esse nível, só se consegue ver na vida eterna um “tédio”, o que remete ao monólogo atribuído metaforicamente por Kant à Pessoa divina.
    • Kant imaginou que Deus, constatando sua eternidade, seria logicamente obrigado a se perguntar sobre sua própria origem.
  • O concretismo religioso, no polo oposto do materialismo, trai a intenção fundamental do Evangelho ao afirmar que o Cristianismo “tem os dois pés no chão” e busca um “diálogo concreto” entre criatura e Criador, em vez de realidades transcendentes.
    • Desde o Renascimento, pelo qual a Igreja humana — não a Igreja institucional — é amplamente responsável, há no linguajar católico algo que soa falso quando fala dos assuntos do mundo.
    • O Catolicismo arrasta o Renascimento como um grilhão de ferro que o impede de ser perfeitamente consequente e, portanto, de ser completamente ele mesmo.
    • Excetuam-se os setores cada vez mais isolados e precários da teologia pura e da santidade.
    • O concretismo religioso resulta de um “complexo de inferioridade” em relação ao mundo e à sua aparente eficácia, e também à sua triunfante vulgaridade.
  • O concretismo coincide com o “factismo” — a superstição do fato, supostamente oposto ao elemento principial —, que no plano religioso acentua os fatos morais em detrimento das realidades espirituais intrínsecas.
    • O equilíbrio humanamente necessário entre valores interiores e eternos e aplicações sociais, entre essências e formas, é sacrificado em favor dos comportamentos exteriores.
  • O concretismo filosófico, realismo às avessas, sempre foi uma tentação do espírito humano que esquece sua verdadeira natureza, e resulta do concretismo ingênuo da experiência sensorial, o qual se constitui em doutrina universal e totalitária.
    • O concretismo sensorial resulta não tanto da sensação em si quanto da separação — causada pela queda original — das realidades invisíveis, tornadas então noções mitológicas e objetos de fé.
    • O homem decaído pode ser reduzido à experiência sensorial e à razão que a registra e coordena, e tirar daí toda a sua falaz sabedoria; situação natural se se quiser, mas anormal, pois o homem decaído tem outros recursos de conhecimento além da sensação e do raciocínio.
    • Na Índia antiga, os Charvakas rejeitavam a Revelação e toda realidade suprassensível; os Ajivikas admitiam uma fatalidade absoluta e cega, sem saída para um Absoluto libertador.
    • Rama teve de refutar o materialismo de Jabali; Krishna refuta o materialismo em geral na Bhagavadgita; o Buda rejeita o fatalismo naturalista de Goshala.
    • Na Índia, essas aberrações nunca puderam se impor e foram eliminadas por uma poderosa ortodoxia; na Grécia, afirmaram-se com mais facilidade e nocividade, favorecidas por uma mentalidade profana quase generalizada que os concretistas modernos tomam por uma das glórias da herança clássica.
    • Antes de Epicuro, Protágoras e Pirro, o concretismo já existia no mundo antigo.
  • As percepções metafísicas mais diretas e evidentes são convencionalmente chamadas de “especulações abstratas”, mas o Intelecto é em si infalível, e a intelecção pura é uma Revelação subjetiva e imanente, assim como a Revelação propriamente dita é uma Intelecção objetiva e transcendente.
    • A intelecção é garantida na medida em que o Intelecto pode operar sem entraves, o que pressupõe condições não apenas intelectuais, mas também morais no sentido profundo — relativas às virtudes, não apenas aos comportamentos sociais.
    • A prova da realidade do Intelecto não pode ser dada a todo entendimento, assim como não se pode provar a validade de uma religião a toda alma; essa impossibilidade não infirma a validade.
    • Toda prova é relativa por definição; uma prova absoluta seria a própria coisa a provar.
    • A prova da verdade do invisível é a reminiscência que a expressão dessa verdade atualiza nos espíritos que permaneceram conformes à sua vocação original.
    • A função iluminativa cabe ao argumento metafísico, ao símbolo e ao milagre, conforme os modos ou imponderáveis da inteligência ou da alma.
    • Comunicar a Intelecção ao espírito receptivo é lembrá-lo do que ele é e, ao mesmo tempo, do que é o Ser pelo qual ele existe.
  • O conhecimento do Absoluto é absoluto — “absolutamente absoluto” para distingui-lo do “relativamente absoluto” —, pois o conhecimento do relativo não pode ser absolutamente relativo, o que equivaleria ao nada, sendo portanto necessariamente “relativamente absoluto” por participação no Conhecimento Uno.
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