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LÓGICA E TRANSCENDÊNCIA

PREFÁCIO

  • A classificação dos escritos situados fora da ciência e da filosofia modernas tende a gerar associações de ideias inadequadas que os colocam de imediato em categorias consideradas depreciativas como «ocultismo», «sincretismo», «gnosticismo», «intelectualismo» e «esoterismo».
    • A opinião corrente procede por classificações sumárias que desqualificam saberes espirituais ou tradicionais.
    • Tais categorias são aplicadas sem distinção a obras que escapam aos quadros da ciência e da filosofia modernas.
    • O efeito dessas classificações é frequentemente depreciativo ou redutor.
  • A noção de «ocultismo» deriva originalmente das vires occultae — forças invisíveis da natureza — e dos occulta dos antigos mistérios, mas o ocultismo moderno reduz-se sobretudo ao estudo empírico e incerto de fenômenos extra-sensíveis sem base doutrinal.
    • Origem do termo ligada às forças invisíveis da natureza e aos segredos dos antigos mistérios.
    • O ocultismo moderno consiste essencialmente em investigação empírica de fenômenos extra-sensoriais.
    • Tal investigação apresenta caráter aleatório devido à ausência de doutrina fundamental.
    • O campo do ocultismo vai da experimentação empírica a especulações e práticas pseudo-religiosas.
    • A ignorância ou interesses depreciativos levaram a qualificar como «ocultismo» doutrinas autenticamente esotéricas.
    • A situação equivale a chamar ocultistas aos verdadeiros místicos por também se ocuparem do invisível.
  • A noção de «gnosticismo» exige distinção entre a gnose em si e o gnosticismo histórico e herético representado, por exemplo, por Valentim.
    • A gnose distingue-se do gnosticismo histórico de caráter herético.
    • A presença de uma gnose em toda religião corresponde à própria natureza das coisas.
    • A gnose coincide com o esoterismo, embora este inclua também dimensão mística volitiva e emocional semelhante à bhakti hindu.
    • O grau de gnose constitui um esoterismo quase absoluto.
    • O grau de amor constitui esoterismo relativo e condicional enquanto método.
    • O amor participa igualmente da dimensão do conhecimento, assim como a beleza.
    • Esse grau forma uma ponte entre gnose e crença religiosa comum ou exotérica.
    • O Cristianismo interiorizou a Lei das prescrições e a própria messianidade.
    • Daí decorre o mal-entendido fundamental entre Judaísmo e Cristianismo.
    • O Cristianismo nascente opôs-se ao Judaísmo legalista e formalista, mas não ao Essenismo.
    • A oposição manifesta-se como relação entre espírito e letra ou entre essência e forma.
    • A ruptura do quadro formal do Mosaísmo em nome da essência conferiu ao Cristianismo função esotérica.
    • Esse esoterismo assumiu forma de esoterismo de amor capaz de tornar-se exotérico de fato.
    • Apesar disso, conservaram-se virtualidades esotéricas, inclusive as da gnose.
  • Os termos «mística» e «misticismo» são frequentemente usados de maneira abusiva para designar qualquer realidade interior ou intuitiva, embora designem propriamente um contato interior não apenas mental com realidades direta ou indiretamente divinas.
    • A mística corresponde ao contato interior com realidades divinas.
    • A associação com espiritualidade de amor decorre do contexto europeu cristão.
    • A identificação da mística com o irracional constitui erro.
    • A intuição espiritual situa-se acima da razão, sendo suprarracional.
    • O uso legítimo do termo corresponde ao emprego tradicional da teologia.
    • Outro uso legítimo baseia-se na referência etimológica da palavra.
    • Esses usos não possuem relação com intenções maliciosas nem com abusos linguísticos.
  • A acusação de «sincretismo» é frequentemente aplicada de maneira indevida a saberes espirituais que reconhecem a verdade única presente em diversas tradições à luz da Sophia perennis.
    • O verdadeiro sincretismo consiste em fabricar doutrina a partir de ideias dispersas.
    • Diferente disso é reconhecer a unidade da verdade em tradições diversas.
    • Tal reconhecimento baseia-se na Sophia perennis.
    • Acusação próxima consiste em interpretar ideias estrangeiras à luz de conceitos familiares.
    • Essa crítica pode ser legítima em certos casos.
    • Não é necessariamente válida quando uma noção estrangeira é explicada mediante conceitos conhecidos.
    • A unidade da verdade corresponde também à unidade fundamental da humanidade.
    • A inexistência de equivalentes exatos entre culturas não implica inacessibilidade das ideias.
    • Ideias mongóis podem ser compreendidas por europeus.
    • Conceitos indígenas norte-americanos como wakan, manito e orenda carecem de equivalentes europeus exatos.
    • Conceitos análogos podem ser descritos mediante linguagem europeia.
    • O conceito japonês de kami constitui quase equivalente dessas noções.
    • Tais conceitos designam formas de teofania ou manifestação de um «gênio» cosmicamente e metacosmicamente ativo.
    • Uma perspectiva metafísica qualificada como «panteísta» leva a perceber nos fenômenos o gênio que transcende sua acidentalidade.
    • Esse gênio manifesta-se como testemunho do Céu através dos fenômenos.
    • A unidade profunda da humanidade torna possível a compreensão entre povos.
    • As divergências de pensamento não anulam essa unidade fundamental.
    • Paixões e fraquezas humanas apresentam notável uniformidade.
  • A acusação de «intelectualismo» pressupõe que toda interpretação simbólica profunda seria artificial e que as religiões primitivas teriam sido compostas apenas de conceitos rudimentares.
    • A hipótese implica negar autenticidade ao simbolismo.
    • Tal concepção reduz a religião a conceitos grosseiros.
    • O simbolismo seria considerado produto intelectual posterior.
    • A hipótese é apresentada como certeza apesar de sua inconsistência.
    • A simples existência dessa opinião basta para registrar sua presença.
  • A noção de «esoterismo» permanece exterior e suspeita aos olhos dos não esoteristas, pois se apresenta como conceito interno a um domínio que o exotérismo literalista e exclusivista aceita com dificuldade.
    • O exotérismo corresponde à religião literalista e exclusivista.
    • A dificuldade de admitir o esoterismo possui causas compreensíveis.
    • A situação do mundo na época atual enfraquece o dogmatismo exclusivo.
    • Os dogmas são necessários enquanto bases imutáveis.
    • Os dogmas possuem dimensões internas e inclusivas.
    • O dogmatismo necessita hoje de elementos esotéricos para se manter.
    • Sem esses elementos abre-se espaço a erros mais graves do que a gnose.
    • A busca de solução desloca-se para ideologias filosóficas e cientistas.
    • O universalismo espiritual é substituído por um ecumenismo sentimental e indistinto.
  • A posição oposta do literalismo religioso estrito pode subsistir em sistemas culturais fechados, mas torna-se insustentável em um mundo onde tradições se encontram e se interpenetram.
    • A interpretação abusiva de uma frase de São Paulo afirma que todo culto a outro deus seria culto a Satanás.
    • São Paulo referia-se a cultos pagãos presentes no ambiente mediterrânico de seu tempo.
    • O conhecimento das tradições orientais impede considerar seus adeptos como demoníacos.
    • A existência de milhões de muçulmanos que adoram Deus diariamente confirma essa impossibilidade.
    • A teologia cristã admite a possibilidade de salvação universal pela graça de Cristo.
    • Apesar disso, a aplicação literal da frase de São Paulo ainda ocorre.
    • Tal atitude aparece em reação ao ecumenismo dissolvente.
    • O exclusivismo torna-se então princípio espiritualmente compreensível, mas historicamente irrealista.
    • A defesa de uma religião contra todas as outras torna-se impraticável.
    • Tal atitude equivale a defender o sistema de Ptolomeu contra evidências astronômicas verificáveis.
    • A solidariedade espiritual necessária não exige compreensão metafísica completa.
    • Uma compreensão parcial pode bastar para a maioria.
    • Questões insolúveis podem ser provisoriamente suspensas.
    • O objetivo não consiste em generalizar uma compreensão metafísica total.
    • Busca-se apenas compreensão suficiente para preservar o patrimônio religioso contra o cientismo.
    • Busca-se igualmente solidariedade lógica entre aqueles que admitem transcendência e imortalidade.
  • A designação de «escola» ou «tendência» não implica adesão automática a todas as teses formuladas em nome de princípios metafísicos ou tradicionais.
    • A responsabilidade limita-se às posições efetivamente expressas.
    • Nenhuma tese é adotada apenas por pertencer a determinada escola.
    • A categoria de «tradicionalismo» possui sentido amplo e não necessariamente depreciativo.
    • Contudo essa designação frequentemente evoca a imagem depreciativa de nostalgia do passado.
    • Tal associação constitui argumento arbitrário e desonesto contra posições doutrinais.
    • A crítica confunde apego a valores verdadeiros com apego sentimental ao passado.
    • A analogia equivale a considerar o reconhecimento de uma verdade aritmética como obsessão pelos números.
    • Admitir o verdadeiro e o justo pode ser chamado ironicamente de nostalgia do passado.
  • Outras imputações associadas à tradição, como «romantismo», «esteticismo» ou «folclore», possuem legitimidade quando relacionadas à tradição ou à natureza intacta.
    • Essas dimensões são assumidas quando vinculadas à tradição.
    • A beleza corresponde à manifestação da verdade.
    • A percepção da beleza não implica falta de seriedade intelectual.
    • A sensibilidade estética aparece como aspecto legítimo da realidade.

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