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CRISTIANISMO E BUDISMO
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O Cristianismo e o Budismo apresentam analogias notáveis apesar de suas diferenças aparentes: a Divindade se concretiza no Buda como na pessoa do Cristo, ambos aparecem sob modo expressamente sobre-humano e transcendente, seus reinos não são deste mundo, e ambos são pregadores errantes, não legisladores nem guerreiros.
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O Cristo frequenta os pecadores e o Buda os reis, mas ambos o fazem como estrangeiros, sem se misturar organicamente à vida dos homens.
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Suas doutrinas se caracterizam por um espírito exclusivo de renúncia, monástico ou eremítico, em certo sentido associal, encarando o mundo não sob o aspecto de seu simbolismo que liga essencialmente toda coisa ao Protótipo divino, mas unicamente como manifestação, criação, imperfeição, corruptibilidade, sofrimento e morte.
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Cada uma das duas tradições é oriunda de outra que ela abole por sua própria conta, aparecendo como heterodoxa em relação à tradição anterior sem deixar de ser ortodoxa quanto à sua verdade intrínseca; para o Cristianismo como para o Budismo, a tradição anterior faz simbolicamente função de letra morta.
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No Cristianismo, a negação tem cunho místico no sentido primitivo e integral do termo; no Budismo, reveste aparência racional que não implica caráter filosófico, mas marca a espontaneidade e independência do Intelecto em relação às formas.
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O novo Avatara deixa traço profundo mas mais ou menos exterior na civilização-mãe: o Cristo privou o Judaísmo de seu centro e de um aspecto essencial de sua coesão; o Buda marca um ponto de inflexão na civilização hindu sem prejuízo da continuidade tradicional.
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A analogia mais profunda entre as duas tradições reside no fato de possuírem caráter integralmente iniciático, distinto do caráter exo-esotérico do Judaísmo e do Islã e do caráter especificamente metafísico do Hinduísmo e do Taoísmo; e é precisamente nesse caráter comum que reside também a maior divergência entre elas, pois suas consequências extrínsecas diferem totalmente.
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Sendo iniciáticas em sua estrutura, ambas as tradições precisaram fazer face não apenas às necessidades espirituais de uma elite, mas às múltiplas exigências de uma coletividade humana total com inteligências e aptidões diversíssimas.
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O Cristianismo velou o caráter esotérico de seus dogmas e sacramentos declarando-os insondáveis e incompreensíveis, qualificando-os de mistérios; mas a reação do paganismo reenterrado chamado Renascimento acabou por triunfar, conduzindo à negação extrema de todo mistério.
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O Budismo pôde evitar destino semelhante graças à aparência racional e não dogmática de sua doutrina, propícia a neutralizar a priori a reação que, sem essa previsão, teria se produzido fatalmente dada a ausência de exoterismo propriamente dito.
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Ao rejeitar as tradições de que eram respectivamente originários, o Cristianismo e o Budismo tornaram acessível o depósito espiritual dessas tradições a muitos povos estrangeiros: o que fechava o Monoteísmo à humanidade não judaica era uma legislação sagrada disposta segundo as necessidades do único povo judeu, inaplicável em outros meios étnicos.
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Nem a ideia monoteísta nem o messianismo podiam permanecer ligados ao único povo de Israel.
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Nem a ideia da libertação pelo Conhecimento nem a da transmigração podiam permanecer apanágio do mundo hindu, pois respondiam a necessidades de povos estranhos à Índia; mas esses povos não precisavam do sistema de castas, conforme às condições particulares da humanidade hindu.
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O caso do Islã difere do Cristianismo e do Budismo, pois não se apresenta como uma extração iniciática das religiões às quais se aparenta, mas como síntese exo-esotérica ou espécie de Abramanismo cristão, possuindo um exoterismo revelado como tal e não apenas adaptado a posteriori.
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O Islã foi revelado paralelamente às formas que sintetiza, e não fora dessas formas como ocorreu com o Cristianismo e o Budismo, cujos Fundadores eram respectivamente judeu e hindu.
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Nem o Cristianismo nem o Budismo possuem uma língua sagrada única, o que resulta de seu caráter particular: ambos se fundam menos num Livro revelado do que no Corpo mesmo do Homem-Deus, que oferece uma participação consubstancial ao Verbo.
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No Cristianismo, o Corpo sagrado tomou a forma da Eucaristia; no Budismo, a da Imagem sacramental do Bem-Aventurado, derivada da própria sombra do Buda e deixada como meio de graça à sua posteridade espiritual.
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Nas outras formas tradicionais, exceto o Budismo, a língua da Revelação é como a carne sagrada da Palavra divina; é por isso que o Corão não pode ser lido em língua outra que a da Revelação, pela razão análoga à que proíbe espécies eucaristísticas feitas de outras matérias.
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Os quatro dons divinos legados pelo Buda, a Doutrina da Libertação, o Símbolo visível do Bem-Aventurado, sua Potência espiritual e seu Nome salvador, encontram equivalentes no Cristo e no Islã, e devem se encontrar sob formas apropriadas em todos os Mensageiros divinos.
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No Cristo: a Doutrina da Redenção e do Amor, a Eucaristia, o Paráclito, e o Nome salvador de Jesus tal como é invocado no Hesicasmo.
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No Islã: a Doutrina da Unidade (tawhid) representada pelo Livro e pela Tradição profética; o Corão como tal em sua materialidade sagrada sob o triplo aspecto da língua, do som e da escrita; a influência espiritual legada pelo Profeta (Barakatu Mohammed); e o Nome supremo (El-Ismul-a'azhem) de Allah.
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A beleza sobrenatural do Buda torna-se no Islã a beleza incomparável e intraduzível do Corão, que é como a natureza divina do Enviado de Allah.
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No exoterismo islâmico, o Profeta não ocupa a posição central que Cristo e Buda ocupam em suas tradições, em razão da perspectiva da transcendência absoluta do Princípio divino que nivela tudo o que é criatura; mas no Sufismo Mohammed torna-se central e divino.
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O segundo testemunho de fé (shahada), as preces sobre o Profeta e as litanias de seus nomes têm por finalidade penetrar o fiel da beleza sobrenatural do Profeta.
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O Budismo e o Cristianismo, um como o outro, rejeitaram exteriormente a forma de que eram originários, apresentam-se como a essência espiritual ou especificamente iniciática da tradição precedente tornada mais ou menos literalista ou farisaica, e adaptaram essa essência às necessidades de uma existência tradicional autônoma e integral, permitindo aos tesouros espirituais uma expansão e um irradiar que ultrapassam as possibilidades dos quadros primitivos.
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