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ASPECTO TERNÁRIO DO MICROCOSMO HUMANO
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A vida humana se desenrola simultaneamente em três planos de atração, pois o ego responde ao corpo, ao cérebro e ao coração de modos distintos, sendo o cérebro o assento sensível do eu empírico que tende a deslizar para o corpo e identificar-se com ele, enquanto o coração é o assento simbólico do Si, verdadeiro centro existencial e intelectual e portanto universal, o que corresponde em parte ao antigo ternário anima animus Spiritus com a ressalva de que anima designa antes o psiquismo vegetativo e animal cujas sensações compõem o ego inferior que dispersa e puxa para baixo.
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Três centros de atração são indicados como corpo, cérebro e coração.
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Eu empírico é situado no cérebro, com tendência a identificar-se com o corpo.
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Coração é apresentado como sede simbólica do Si, centro verdadeiro e universal.
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Anima é aproximada do psiquismo vegetativo e animal, não do corpo isolado.
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Sensações corporais são tomadas como núcleo do ego inferior e descentralizado.
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A relação entre cérebro e corpo espelha a relação entre coração e o conjunto corpo e cérebro, pois corpo e cérebro são projetados no fluxo das formas enquanto o coração se acha imerso na imutabilidade do Ser, de modo que corpo e cérebro são como coração exteriorizado cuja bipolarização se explica pela própria exteriorização, já que no mundo formal feito de dualidades o Intelecto ao projetar-se por queda nas substâncias material e psíquica divide-se em polo intelectivo e polo existencial, isto é, em inteligência e existência, cérebro e corpo, ao passo que no Intelecto a distinção de aspectos não implica cisão.
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Cérebro é dito ao corpo o que o coração é ao conjunto cérebro-corpo.
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Mundo das formas é caracterizado por dualidades e por cisões.
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Projeção do Intelecto na materialidade e no psiquismo implica divisão em polos.
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No Intelecto, inteligência e existência são correlatas sem ruptura interna.
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Cisão propriamente dita é vinculada ao domínio das formas.
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O mental é o centro do corpo e o Intelecto é o centro do mental e do corpo ao mesmo tempo, sendo corpóreo apenas enquanto centro do corpo isto é enquanto coração, pois mental e corpo refletem o Intelecto por um reflexo bipolarizado na existência periférica e móvel, e nenhum dos dois pode refletir totalmente a fonte comum, como no exemplo do reflexo do sol que requer a água receptora a qual, por sua capacidade de reverberar, participa de uma qualidade luminosa análoga à solar.
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Intelecto é tomado como centro do mental e do corpo.
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Coração é a forma corpórea simbólica do centro intelectivo.
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Bipolarização é descrita como marca de afastamento da fonte comum.
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Reflexo do sol é usado como analogia do corpo como receptáculo do raio.
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Receptáculo participa de luminosidade por capacidade de reverberação.
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A projeção do mental na periferia existencial produz bipolarização entre mental e corpo e abre o mental ao mundo material por faculdades de sensação e ação, pois o mental é simultaneamente centro intelectivo e periferia material, sendo de substância intelectiva mas voltado para a matéria como plano de cristalização, segmentação e movimento, de modo que ele emana do Intelecto e se dispersa na matéria, e coração e cérebro não produzem Intelecto e mental, mas são apenas traços corporais necessários pela intelectualidade existencial do corpo.
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Bipolarização é também descrita como ego interior e ego exterior.
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Faculdades sensoriais e ativas orientam o mental para a materialidade.
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Matéria é caracterizada por cristalização, segmentação e movimento.
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Mental é descrito como emanando do Intelecto e dispersando-se na matéria.
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Coração e cérebro são tratados como traços corporais e não como causas produtoras.
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A cisão do Intelecto exteriorizado provém da separação existencial entre sujeito e objeto, pois onde no Intelecto conhecer é ser e ser é conhecer, na existência periférica conhecer torna-se mental e ser torna-se corpo sem que mental seja inexistente nem corpo inconsciente, e embora a polaridade seja prefigurada no Intelecto com aspectos de conhecer, de ser e ainda de beatitude ou fruição, na criatura terrestre esse terceiro aspecto torna-se vida unindo mental como ego sujeito e corpo como ego objeto, ao passo que no Intelecto os aspectos discerníveis não são separados como forma luminosidade e calor no sol.
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Separação sujeito-objeto é indicada como raiz da cisão.
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Mental e corpo são apresentados como derivações periféricas de conhecer e ser.
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Beatitude é mencionada como terceiro aspecto no Intelecto.
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Vida é descrita como união do ego-sujeito mental com o ego-objeto corporal.
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Sol é usado como imagem de distinção sem separação no princípio.
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O Intelecto é dito divino para o mental e criado ou manifestado para Deus, mas deve ser distinguido em Intelecto incriado como luz divina e Intelecto criado como reflexo no centro da existência, sendo um na essência e distinto existencialmente, o que autoriza a fórmula elíptica de que o Intelecto não é nem divino nem não divino, e ao falar de Coração-Intelecto entende-se a faculdade universal cujo assento simbólico é o coração humano e que, apesar de cristalizar-se conforme planos de reflexão, permanece divina em sua essência una.
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Intelecto incriado é identificado com a luz divina.
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Intelecto criado é identificado com reflexo central na existência.
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Unidade essencial é combinada com distinção existencial.
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Coração-Intelecto é definido como faculdade universal com sede simbólica no coração.
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Cristalização por planos não nega essência divina una.
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Toda criatura se distingue do princípio por inversão de relações como ocorre em qualquer reflexo, pois a árvore refletida na água aparece invertida mas conserva o conteúdo, e de modo análogo o Intelecto manifestado se distingue do protótipo não manifestado porque, enquanto tudo está contido principialmente no Si, o Intelecto universal aparece como conteúdo do universo manifestado e como centro do mundo, ao passo que o Intelecto divino não é centro nem periferia e contém e determina tudo sem assumir tais posições, sendo real ao conhecer e conhecendo ao ser real, de modo que a diferença não toca a absolutilidade intelectual mas a situação ontológica marcada por objetivações múltiplas.
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Inversão do reflexo é proposta como modelo de distinção criatural.
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Si é apresentado como contendo tudo principialmente.
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Intelecto universal é descrito como centro ou coração do mundo.
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Intelecto divino é descrito como além de centro e periferia.
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Objetivação cósmica é associada a diversificação de objetivações menores.
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A afirmação de que toda coisa é Atmâ é formulada sem panteísmo ao indicar que as coisas são Atmâ por não se distinguirem do nada e por seu simbolismo, mas não em si mesmas, e essa tese se manifesta pela ambiguidade dos limiares em que Intelecto e Ser são ao mesmo tempo divinos e relativos, o que permite conceber linhas de demarcação diversas entre Deus e mundo conforme se distinga princípio ontológico e criação, Intelecto universal e coisas, ou absoluto e relativo, sendo metafisicamente mais decisiva a distinção Paramâtmâ e Mayâ na qual o Deus pessoal ou Ser fica aquém da linha por já ser objetivado em relação ao sujeito absoluto, de modo que o Ser é Deus mas é menor relatividade diante do Sobre-Ser, ao passo que em outras distinções a linha desce ao separar Ser e existências ou ainda ao atravessar o território do criado ao separar Intelecto e ego.
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Atmâ é associado a diferença em relação ao nada e a simbolismo.
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Ambiguidade é atribuída ao Intelecto por ser divino e manifestado.
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Ambiguidade é atribuída ao Ser por ser relativo e ainda divino.
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Paramâtmâ e Mayâ são mencionados como distinção mais verdadeira.
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Deus pessoal ou Ser é dito objetivação principial em relação ao sujeito absoluto.
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Sobre-Ser é introduzido como termo perante o qual o Ser é menor relatividade.
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Linha entre Intelecto e ego é descrita como atravessando o próprio criado.
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Intelecto é qualificado como princípio manifestado e o Ser como princípio determinado ou relativo e não manifestado.
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A ambiguidade é figurada como em um caso a manifestação avançando sobre o princípio e em outro o princípio avançando sobre a manifestação.
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Observando o homem de fora distinguem-se corpo e cabeça como dois conjuntos formais que manifestam um terceiro elemento oculto o coração, e o homem exterior é dito perfeito quando rosto e corpo exprimem o coração por beleza e sobretudo por interiorização, o que é exemplificado pela imagem sagrada do Buda com majestade imóvel, olhos semicerrados, simetria calma e gesto de silêncio e retorno ao centro, configurando o Coração-Intelecto penetrando o corpo e absorvendo-o, de modo que a espiritualidade é tanto a penetração transformadora do mental-corpo pelo Intelecto em direção a Deus quanto o retorno por absorção do mental-corpo ao Intelecto, o que esclarece a postura yoga fundamental como alquimia de formas e centros e permite compreender as representações do Buda sentado, em pé e deitado como contemplação no agir, no não agir e como sono que é vigília e vigília que é sono, sendo a santidade sapiencial descrita como sono do ego e vigília do Si ou do vazio.
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Corpo e cabeça são tomados como manifestações externas de um coração oculto.
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Buda é citado como imagem de interiorização e retorno ao centro.
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Olhos semicerrados, simetria e calma são associados a majestade imutável.
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Gesto de silêncio é associado a parada e contemplação.
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Espiritualidade é definida como penetração do Intelecto no mental-corpo e como absorção inversa.
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Postura yoga é tratada como alquimia de formas e centros.
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Buda em pé é vinculado a contemplação na ação.
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Buda sentado é vinculado a contemplação no não agir.
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Buda deitado é vinculado a sono como vigília e vigília como sono.
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Santidade sapiencial é sono do ego e vigília do Si ou do vazio.
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A frase eu durmo mas meu coração vela é evocada como chave simbólica.
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O adormecer requerido não recai sobre a atividade desinteressada mas sobre a vida instintiva e o vaivém passional, pois o sonho habitual vive de passado e futuro e impede repouso no Ser, e Deus é Ser em sentido absoluto como essência e não como determinação ou movimento, de modo que no alma o aspecto ser amado por Deus se confunde com consciência não moral, e ações só são amadas enquanto expressão do ser ou caminho para ele, sendo a atividade em si sem importância.
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Vida instintiva é descrita como vaivém passional que deve adormecer.
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Passado e futuro são descritos como suspensão e arrasto da alma.
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Repousar no Ser é indicado como alternativa ao sonho habitual.
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Deus é Ser como essência e não como movimento.
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Consciência é vinculada ao ser em sentido não moral.
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Ações são avaliadas como expressão do ser ou via para o ser.
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O ternário coração cérebro corpo prefigura o ternário Si Espírito Mundo, pois assim como o Espírito divino ou Intelecto universal e o macrocosmo que ele ilumina são projeção bipolarizada do Si no nada existencial, o mental e o corpo projetam o Intelecto na periferia de alternâncias, e assim como o Si parece ausente da manifestação que o vela mas o exprime, o coração permanece oculto enquanto cabeça e corpo são visíveis, de modo que o coração é à cabeça e ao corpo o que o Si é ao Espírito e ao homem, e a fórmula o Verbo se fez carne é vinculada à penetração do Coração-Intelecto na noite corporal para reintegrar a existência projetada na unidade e na paz do Ser puro.
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Si, Espírito e Mundo são alinhados como modelo macrocósmico do ternário humano.
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Projeção bipolarizada no nada existencial é aplicada ao Espírito divino e ao macrocosmo.
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Reino das alternâncias é atribuído à periferia existencial.
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Existir é apresentado como expressar, mesmo sob véu.
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Coração oculto contrasta com cabeça e corpo visíveis.
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Verbo feito carne é associado à reintegração da existência separada no Ser puro.
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