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AMBIGUIDADE ONTO-COSMOLÓGICA
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A percepção da Realidade divina pela perspectiva do Intelecto varia conforme o ponto de vista: sob o aspecto do Absoluto, ela revela-se como perfeitamente una ou “não-dual” (advaita); sob o aspecto do Relativo, manifesta-se em três planos hierarquizados: Princípio-Essência, Princípio-Pessoa e Princípio-Demiurgo.
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A repetição do termo “Princípio” enfatiza que se trata de uma Realidade única e indivisível, percebida em diferentes níveis de determinação.
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O Princípio-Essência corresponde à Realidade absoluta e indeterminada, enquanto as demais hipóstases representam autolimitações providenciais para a manifestação.
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O monoteísmo antropomórfico dos semitas tende a reduzir a Realidade divina apenas ao Princípio-Pessoa, atribuindo-lhe simultaneamente a infinitude da Essência e as atividades moldadoras do Demiurgo, o que gera contradições teológicas insolúveis.
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Diante dessas inconsistências, as teologias recorrem ao conceito de “mistério” ou a negativas dogmáticas para encerrar o questionamento sobre a causalidade.
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O esclarecimento da causalidade divina é essencial para situar corretamente a origem do mal, um dos maiores desafios do pensamento religioso.
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A responsabilidade ontológica é distribuída hierarquicamente: ao Princípio-Essência pertence a Possibilidade universal em si; ao Princípio-Pessoa cabe a cristalização das “ideias” ou arquétipos fundamentais; e ao Princípio-Demiurgo compete a transferência e diferenciação desses arquétipos na substância universal.
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O Demiurgo particulariza e contrasta os arquétipos conforme a estrutura da substância cósmica, ocupando o centro desta.
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Cada nível do Princípio atua sobre o conteúdo do nível superior, adaptando-o à complexidade crescente da manifestação.
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A gradação da causalidade estende-se do Princípio supremo (Possibilidade em si) ao Princípio pessoal (possibilidades fundamentais) e ao Princípio demiúrgico (possibilidades contingentes), chegando até os acasos insignificantes que, por existirem, são admitidos na vontade divina.
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O gênio do mal deriva desta terceira hipóstase não por criação direta, mas por uma “queda” ontológica resultante do afastamento do Centro, inerente a qualquer processo de irradiação.
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O mal define-se metafisicamente como a periferia extrema que se distancia da luz central do Princípio.
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No contexto semítico, Satanás manifesta-se inicialmente como um executor da vontade punitiva de Deus para, posteriormente, assumir o papel de princípio da revolta e inimigo do Divino.
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Relatos bíblicos e corânicos mostram o adversário como veículo de provações, como no endurecimento do coração de Faraó, agindo de forma indireta através da potência cósmica de subversão.
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A teologia islâmica esclarece que Deus “induz ao erro” apenas ao retirar Sua graça e abandonar o homem às escolhas prévias deste, permitindo o mal sem realizá-lo diretamente.
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O “diabo” é a personificação psíquica e humana do princípio do mal, sendo descrito no Islã como um djinn feito de fogo, representando uma queda em relação à ordem principial.
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Tradições como o xamanismo e o hinduísmo não isolam o mal em uma figura humana individualizada como o diabo, percebendo-o antes como uma função cósmica de origem celeste que integra um todo quase divino.
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Para os xamanistas, as leis cósmicas maléficas são divindades que operam o equilíbrio do universo, sem que o homem se coloque como senhor ou tirano da criação.
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No hinduísmo, o mal é tanto divinizado quanto demonizado, refletindo a necessidade principial da destruição (Shiva demiúrgico) em contraste com o capricho maléfico do samsara.
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Existe uma ambiguidade onde a base do domínio demiúrgico e o topo do domínio satânico coexistem, manifestando-se em imagens de divindades terríveis que integram o mundo celeste.
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O mito da queda de Lúcifer fundamenta-se na natureza do reino de Maya, que se estende do Deus criador até uma tendência ao nada que corrói as coisas situadas na periferia terrestre ou samsara.
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O Universo situa-se entre dois “nadas”: o Nada divino (Essência absoluta acima do Ser) e o nada cósmico (abstração abaixo da existência que perverte o real).
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A Possibilidade divina concede ao nada um semblante de realidade indireta em virtude de sua própria Infinitude e do transbordamento da Toda-Possibilidade.
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O simbolismo do Selo de Salomão ilustra como o que está no topo se reflete invertidamente na base, onde o nada puro e simples tenta “mimetizar” a transcendência do Princípio supremo.
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Assim como o topo de uma árvore refletida em um lago aparece na base da imagem, o nada simula a indeterminação divina através da inexistência pervertida.
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Nada pode se opor realmente ao Absoluto; o mal é uma ilusão de ótica ontológica que “macaqueia” a Realidade superior.
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O reinado de Maya está suspenso entre o Tudo transbordante e o nada absoluto, onde o primeiro empresta ao segundo um simulacro de existência para que a manifestação seja completa.
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O “Nada divino” é assim chamado por ser desprovido de qualquer determinação ou afirmação limitativa.
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O nada propriamente dito é a “impossibilidade possível”, perceptível apenas através de seus efeitos de privação e negação sobre o existente.
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O dualismo zoroastriano de Ahura Mazda (o que é) contra Angra Mainyu (o que não é, mas quer ser) representa a luta ilusória entre a Toda-Possibilidade e a impossibilidade dentro de Maya.
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Na vitória final, a porta da existência fecha-se para o nada operativamente satânico, mas sua potencialidade permanece incluída na Toda-Possibilidade por força da Infinitude divina.
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No nível dos puros princípios ontológicos, a vitória é eterna, pois apenas o “Nada supremo” é real.
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Conforme mestre Eckhart, ao inflar-se para negar o Ser, o nada “existenciado” acaba por prestar homenagem à fonte de toda existência, pois até o blasfemo louva a Deus ao utilizar a vida para seu ato.
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