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ARTE, SEUS DIREITOS E SEUS DEVERES
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O homo sapiens, em virtude de sua inteligência objetiva e total, é necessariamente o homo faber: tem não apenas o dom da palavra, mas também o da criação mental e artística.
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É natural ao homem imitar a natureza, pois sendo feito à imagem de Deus tem a capacidade e o direito de criar.
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Não lhe é natural, porém, imitar a natureza de forma total, pois sendo homem não é Deus.
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A arte naturalista, querendo imitar os seres vivos de modo absoluto, chega a um ponto morto onde a obra se torna inútil e não se insere em nenhum contexto espiritual — uma espécie de pecado por prometer o que não pode cumprir, sendo incapaz de animar corpos que exigem vida.
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A arte tem uma função ao mesmo tempo mágica e espiritual: magicamente, torna presentes princípios, potências e coisas que atrai por uma magia simpática; espiritualmente, exterioriza verdades e belezas em vista da interiorização e do retorno ao reino de Deus que está dentro de vós.
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O Princípio torna-se manifestação para que a manifestação torne-se Princípio, ou para que o eu retorne ao Si.
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A alma humana toma contato, através de certos fenômenos, com os arquétipos celestes e com seu próprio arquétipo.
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Nas experiências vitais e nas produções artísticas, o influxo da bênção celeste é função do elemento sacrificial; na arte totalmente naturalista, que vai até o fim da trajetória criadora, não há mais nada de espiritual nem de sagrado.
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Uma obra naturalista pode ter efeito interiorizante por seu conteúdo, mas nesse caso é o modelo que tem esse efeito, não a obra enquanto tal.
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A contradição naturalista entre a aparência de vida e a matéria inerte só pode prejudicar a mensagem.
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A noção de naturalismo é flutuante porque exprime não apenas um excesso mas também uma tendência legítima: quando uma obra imita a natureza observando certos princípios e insistindo no essencial, não no acidental, pode ser chamada naturalista sem que o termo evoque as taras do naturalismo total.
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A obra de arte é válida não por copiar a natureza, mas por fazê-lo de certa maneira: traduzindo o percebido em linguagem nova que precisa a intenção profunda das coisas.
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A obra deve se apresentar como produção humana, não apenas como imitação da natureza.
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Na arte moderna, incluindo a literatura, o autor frequentemente quer dizer demais: a exteriorização é levada longe demais, como se nada devesse permanecer interior.
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O que falta é o instinto do sacrifício, a sobriedade, a contenção; o criador se esvazia por completo e convida os outros a se esvaziar igualmente, perdendo o gosto pelo segredo e o senso da interioridade.
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A razão de ser da obra é a interiorização contemplativa e unitiva.
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Na maioria dos artistas tradicionais, é o elemento objeto que determina a obra; na maioria dos artistas modernos, é ao contrário o elemento sujeito.
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Os modernos, individualistas que são, pretendem criar a obra e, ao criá-la, exprimir sua pequena personalidade profana — daí a ambição e a busca de originalidade.
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O artista não-moderno também exprime sua personalidade, mas o faz pelo objeto e pela busca do objeto.
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O artista modernista se preocupa com o objeto apenas no quadro de seu subjetivismo e no interesse deste; o aprendiz não deve aprender a desenhar, mas a criar — o mundo de cabeça para baixo.
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Na arte extra-tradicional, as obras válidas — que podem ser obras-primas — acompanham-se necessariamente de uma enxurrada de produções insignificantes ou subversivas, frequentemente do mesmo autor.
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É o preço de um excesso de liberdade, ou de uma ausência de verdade, piedade e disciplina de base espiritual.
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Essa cultura acaba por se destruir a si mesma, precisamente pela contradição entre os direitos que reivindica e os deveres que ignora.
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A iconofobia semítica parece ter consciência implícita disso, embora sua motivação principal seja o perigo de idolatria.
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É preciso distinguir entre uma idolatria objetiva — em que a própria imagem é tida como deus — e uma idolatria subjetiva — em que a imagem pode pertencer à arte sacra, mas a falta de contemplatividade constitui a idolatria.
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É porque o homem não sabe mais perceber a transparência metafísica dos fenômenos, imagens e símbolos que ele é idólatra.
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De modo geral, arianos e mongóis são iconófilos; semitas e semitizados são iconófobos.
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O conflito entre iconódulos e iconoclastas na antiga Igreja se explica pela sobreposição de uma religião semítica a uma mentalidade ariana; o iconoclasmo protestante se explica unicamente pelo retorno à Escritura, que de fato é semítica.
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Se na antiga Igreja foram as ícones que prevaleceram, foi também porque a solução justa se impôs por revelação: são Lucas, apóstolo, criou a primeira ícone da Virgem; e santa Verônica, com o santo Sudário, foi a origem da imagem da Santa Face.
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O princípio mesmo do retrato sagrado está enunciado na sentença budista: os Budas salvam também por sua beleza sobre-humana.
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A ausência de imagens entre a maioria dos xamanistas mongoloides, incluindo os Peles-Vermelhas, tem outra explicação: a natureza virgem é ela mesma imagem divina, cabendo ao Grande-Espírito, e não ao homem, fornecer a imagem-sacramento do invisível.
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As imagens pintadas e esculpidas também têm Deus como autor, pois é Ele que as revela e cria através do homem, oferecendo a imagem de si mesmo ao humanizá-la.
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Se o homem é feito à imagem de Deus, é porque Deus é o protótipo da imagem humana.
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Se a natureza virgem é imagem de Deus, o homem, situado no centro dessa natureza, o é igualmente: é ao mesmo tempo testemunha da imagem divina que o envolve e essa própria imagem quando Deus, na arte sacra, toma a forma do homem.
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É a deiformidade do corpo humano que inspirou o nudismo sagrado, desacreditado nas religiões semíticas por razões de perspectiva espiritual e oportunidade social, mas sempre presente na Índia, pátria imemorial dos gimnosofistas.
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Krishna, ao retirar o vestuário das gopis adoradoras, as batizou de certo modo: as reduziu ao estado anterior à queda.
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A via libertadora é tornar-se novamente o que se é.
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