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ENIGMA DO EVANGELHO
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O caráter aparentemente incoerente das escrituras sagradas decorre de sua natureza sintética e da necessidade de sugerir verdades metafísicas profundas sob a forma de narrativas históricas e preceitos morais, respeitando a hierarquia entre os diferentes níveis de conhecimento.
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A linguagem obscura é preferida pelos deuses, segundo um texto hindu, não por oposição à clareza, mas porque os mistérios divinos não são adequados ao domínio público.
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Apesar das diferenças entre a teologia comum e a metafísica integral, não existe uma separação absoluta entre elas.
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A dificuldade da linguagem sagrada reside em conciliar a sugestão de verdades complexas com a forma de relatos históricos e mandamentos morais, mantendo a unidade entre o exterior e o interior, a origem e o fim.
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O episódio evangélico em que Cristo incentiva Judas a cumprir seu intento de traição apresenta uma aparente responsabilização divina pelo mal, o que constitui uma dificuldade interpretativa.
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A narrativa da Última Ceia, na qual Cristo dá o pão a Judas e lhe diz para fazer rapidamente o que pretende, sugere que Ele teria responsabilidade na traição.
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A explicação para o ato de Cristo reside na distinção entre a vontade expressa de Deus pelo bem e a permissão divina do mal como contribuição indireta e inevitável para um bem maior, no caso, a Redenção.
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Nada ocorre fora da Vontade de Deus, mas o mal como tal é tolerado em função da ilimitação da divina Possibilidade, sendo correto dizer que Deus o “permite” para que dele advenha um bem, não que o “quer” em si mesmo.
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Cristo quis a Redenção, não a traição em si, que foi permitida como meio para aquele fim.
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O gesto público de Cristo em relação a Judas visava demonstrar que o poder do mal é apenas aparente e subordinado à decisão divina, não tendo o diabo a capacidade de agir sem uma causalidade oriunda de Deus.
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A injunção a Judas para agir rapidamente mostrou que o diabo não tem poder para trair sem a permissão divina, removendo qualquer aparência de triunfo do adversário.
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A entrada de Satanás em Judas só ocorreu porque lhe foi concedida essa liberdade, num complexo encadeamento de causas com plausibilidade ontológica.
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A necessidade de mostrar que a Redenção não dependia ontologicamente de um traidor visa eliminar a satisfação que o adversário poderia tirar desse fato.
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A necessidade da figura de Judas para o drama da Redenção implica que ele, assim como Caifás e Pilatos, não era um homem essencialmente mau, tendo sua cooperação necessária implicado, em última análise, o perdão divino.
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O arrependimento e desespero de Judas, após a traição, contradizem a imagem de um homem fundamentalmente mau.
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A ortodoxia de Caifás e a boa vontade de Pilatos são circunstâncias atenuantes que os redimem da imagem de completa maldade.
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A cooperação necessária dos três para a Redenção sugere que foram perdoados, conclusão que protege o Cristianismo da acusação de depender de causas criminosas.
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A oração de Cristo na cruz, pedindo o perdão por aqueles que não sabem o que fazem, reforça a tese do perdão aos envolvidos na crucificação, incluindo Judas, Caifás e Pilatos.
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A lógica teológica impede admitir que a prece de Cristo não tenha sido atendida.
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Embora o perdão divino a Judas, Caifás e Pilatos seja uma conclusão lógica, a Igreja não poderia instituir uma festa em sua memória para não dar a impressão de incentivar o malfeitor, o que explica a dura palavra de Cristo sobre Judas.
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Razões morais práticas impedem a Igreja de celebrar tais figuras, o que seria dar carta branca aos criminosos.
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A afirmação de que teria sido melhor Judas não ter nascido não implica sua danação eterna, mas pode significar sua permanência no purgatório até o fim dos tempos.
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As circunstâncias atenuantes de Caifás incluem sua adesão à ortodoxia mosaica e o fato de Cristo não ter se preocupado em tornar sua mensagem compreensível dentro dessa perspectiva, sendo injusto reprová-lo por não aderir a uma visão que não era a sua.
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Cristo não se interessava por prescrições humanas, mas pela sinceridade do amor a Deus, uma perspectiva diferente da de Moisés.
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Não se pode reprovar as autoridades religiosas por não aderirem a uma nova perspectiva espiritual, assim como não se reprova os brâmanes por não seguirem Buda.
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O sofrimento histórico dos judeus como herdeiros de Judas e Caifás tem paralelo no sofrimento dos cristãos como herdeiros de Pilatos, especialmente pelas consequências do mundo humanista e inumano criado a partir da Renascença.
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A Renascença, apesar de alguns elementos positivos, constituiu uma traição que gerou um mundo cujas consequências os cristãos ainda sofrem.
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A atitude de Cristo em relação aos escribas e fariseus deve ser entendida no contexto providencial de uma fase de ossificação do Judaísmo, semelhante à do Bramanismo à época de Buda, na qual a decadência do meio religioso era incontestável.
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A história da humanidade é um jogo divino (lîlâ) no qual as possibilidades devem se manifestar e se esgotar.
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A crítica de Cristo a um clero corrompido e hipócrita insere-se na tradição profética de Israel.
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À semelhança de Al-Hallaj no Islã, Cristo manifestou sua natureza celestial sem se preocupar em torná-la intelectualmente acessível, pois encarnava um destino e personificava uma perspectiva espiritual de forma direta e absoluta.
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Um fundador de religião personifica uma via salvífica e não tem a função de produzir os comentários explicativos que viriam depois com teólogos e sábios.
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A incompreensão da luz pelas trevas, mencionada no Evangelho, aplica-se não apenas aos judeus e pagãos da época, mas também aos próprios cristãos ao longo da história, como demonstrado pela inversão renascentista que colocou o homem no lugar de Deus.
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Cristo e Moisés colocaram Deus acima do homem, ao passo que a Renascença, invertendo essa ordem, promoveu uma visão humanista que, em última análise, se revelou inumana.
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