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sorval:heraldica:obtencao-brasao

OBTENÇÃO DO BRASÃO

HERÁLDICA

  • Nenhum texto melhor que a passagem da Queste del Saint Graal, traduzida por Albert Pauphilet e apresentada por Albert Béguin e Yves Bonnefoy, ilustra o tema da aquisição do brasão, pois trata do Modelo da Cavalaria e do mais augusto dos brasões: de prata à cruz vermelha.
    • Trata-se do brasão atribuído ao Príncipe das Milícias Celestes, a são Miguel, e portado também pela Ordem dos pobres Cavaleiros de Cristo, dita Ordem do Templo.
    • No episódio, Galaad recebe o escudo branco de cruz vermelha guardado atrás do altar-mor de uma abadia, emblema que nenhum cavaleiro poderia portar sem ser o melhor de todos.
  • Do mais glorioso ao mais humilde, cada brasão se merece, pois sendo sempre carregado de significações sagradas, mesmo inconscientes ou ignoradas, o brasão não se porta sem sacrifício.
    • A pertença ao estado de armiger predispõe a portar armoriais, mas ainda é preciso adquirir e mesmo conquistar o próprio brasão.
    • Se existem armas de família, comunitárias ou de feudo, cada pessoa dispõe também de seus próprios emblemas, que insere na maior parte das vezes no brasão de sua linhagem por meio de brisuras, acréscimos e modificações.
  • Na origem, o brasão é antes de tudo pessoal, e mesmo após tornar-se hereditário permaneceu em uso modificá-lo para cada um dos membros de uma mesma família além do primogênito.
    • As brisuras de cadete tornaram-se rapidamente convencionais e insignificantes, caindo afinal em desuso, o que marca uma degeneração da vida heráldica.
    • Luís XII, rei de França, fazia suportar as armas reais por porcos-espinhos; Francisco I, por uma salamandra; e Luís XIV colocava por vezes o sol como timbre, cada um com uma divisa particular.
  • Na origem, na nobreza, o brasão pessoal só era portado a partir do armamento como cavaleiro, o que atesta que o brasão era objeto de uma demanda que não é outra senão a demanda de si mesmo.
    • Ao atingir a maturidade, a maioridade e a mestria de si, o armado descobre em si a imagem do que é.
    • Simbolicamente, tomar a medida de si mesmo consiste em se confrontar com um animal ou com um adversário, e a vitória adquirida sobre um e outro significa que se possui e domina a potência de ambos.
  • Essa ideia se encontra em numerosas tradições de iniciação guerreira, como no caso do guerreiro indiano que se retira na solidão do deserto para enfrentar as provas necessárias à sua admissão entre os homens acabados de sua tribo, recebendo então um atributo totêmico e um nome derivados do primeiro encontro.
    • É preciso domar as forças selvagens que estão em si mesmo e vencer os monstros, como são Jorge terrando o dragão, para se identificar em seguida à mestria desses animais.
  • Tudo que um ser encontra ao longo de sua existência está em conformidade com sua natureza profunda, segundo a lei metafísica das afinidades: não se encontraria um leão se não se estivesse em seu território de caça, nem se veria uma águia se não se levantassem os olhos frequentemente para o céu.
    • O primeiro encontro feito na idade adulta é o símbolo exato do que é a personalidade acabada do homem em demanda de sua verdadeira identidade.
    • É todo o sentido das aventuras, tão importantes na cavalaria porque revelam a cada vez um mistério do ser: esses eventos são advimentos num universo onde a consciência iluminada discerne sob a aparência do acaso a harmonia dos decretos da Providência criadora.
  • Perceval, que erra sem armas à procura de si mesmo ao sair da infância, conquista seu escudo de goles pleno ao matar em combate singular o Cavaleiro das Armas Vermelhas, tomando suas armas, seu hábito e seu cavalo por se ter mostrado digno deles.
    • Esse episódio lendário reproduz o uso constante que consistia em adquirir armas ou modificá-las na sequência de uma proeza guerreira ou de uma vitória importante.
    • A casa de Montmorency porta dezesseis alériões de azul em seu escudo desde que um barão de Montmorency, condestável de França, tomou doze estandartes aos imperiais e acrescentou essas doze águias às quatro que já figuravam em seu brasão.
  • As lendas das armas da Áustria e da Lorena ilustram esse princípio de aquisição pelo feito heroico.
    • Diz-se que as armas da Áustria provêm de um combate do arquiduque Leopoldo contra os infiéis, no qual sua túnica branca foi inteiramente tingida pelo sangue dos inimigos, exceto onde estava coberta pelo cinto.
    • A lenda das armas da Lorena relata que um duque de Lorena teria transpassado com uma única flecha, sob as muralhas de Jerusalém, três pássaros em pleno voo, explicando assim a banda de azul carregada de três alériões de prata.
    • A casa de Chateaubriand proclama em sua divisa Mon sang teint les bannières de France o privilégio de portar um semeio de flor de lis de ouro sobre campo de goles.
  • Os soberanos reproduziam frequentemente no brasão que concediam a uma pessoa o alto feito que motivava seu anobrecimento, como ilustra o escudo da família de Joana d'Arc, com sua espada erguida sustentando uma coroa real flanqueada por duas flores de lis de ouro.
    • Certas casas antigas mudaram inteiramente suas armas na sequência de uma ação brilhante: após um senhor de Goulaine ter permitido a conclusão de um acordo entre os reis de França e de Inglaterra, esses dois soberanos acordaram à sua família o direito de portar partido de Inglaterra e de França.
  • À imagem do modelo dos heróis, Héracles, o aspirante à casta heroica deve atravessar as provas dos doze trabalhos antes de ser admitido no Olimpo onde se reúnem os Pares.
    • Entre os Nove Preux propostos como modelos da cavalaria, pelo menos dois são lendários: Heitor e Artur.
    • Seu número simbólico ancora a cavalaria na Antiguidade histórica mais remota, na lenda mítica e na religião: três são pagãos, Heitor, Alexandre e César; três são israelitas, Josué, Davi e Judas Macabeu; três são cristãos, Artur, Carlos Magno e Godofredo de Bulhão.
  • No manuscrito do Chevalier errant, de 1294, os Nove Preux são representados lado a lado portando cada um as armas que a tradição lhes atribui, constituindo um tratado de ciência heráldica muito rico.
    • Heitor, príncipe de Troia e ancestral mítico dos francos, porta de goles ao leão de ouro coroado do mesmo, sentado num trono de prata, segurando uma espada de prata bainhadade sable, simbolizando a força guerreira e a potência terrestre.
    • César porta a águia bicéfala de sable sobre campo de ouro, emblema do Império universal e da autoridade suprema, num escudo em forma de coração, significando o centro do mundo terrestre.
    • Alexandre porta de goles ao leão de prata segurando um machado do mesmo, emblema do rigor e da força, instrumento da justiça.
  • Josué, cujo capacete é curiosamente ornado como timbre com os chifres de Moisés, porta um dragão ou segundo outros um basilisco, de sable ou de púrpura sobre prata, exprimindo a potência sobre os elementos do mundo e o franqueamento das águas, ou seja, o despertar da alma.
    • O rei Davi, que forma o meio da série e como que o elo entre os dois extremos, é o regulador eleito diretamente pelo Todo-Poderoso e o Modelo dos Reis.
    • Porta um escudo de azul à harpa de ouro de nove cordas, significando a harmonia que o verdadeiro rei deve fazer reinar à imagem da música das nove esferas celestes e dos nove coros angélicos.
    • O primeiro grupo encarnava as potências materiais de ordem terrestre e corporal; o segundo simboliza as potências da alma, e no meio delas Davi encarna o coração, sede da alma e da vida e motor da coragem.
  • Judas Macabeu, guerreiro morto em combate, porta um corvo de sable esvoaçante sobre campo de prata, simbolizando a necessária morte a si mesmo, as energias da alma domadas pela temperança e o último combate antes de se acessar à mestria.
    • O rei Artur, sétimo preux e primeiro dos cristãos, porta três coroas de ouro sobre campo de azul: a alma justa é coroada pela luz de ouro da Trindade criadora e torna-se apta a acessar o governo do Sacro Império.
    • Carlos Magno segura o globo do mundo e porta partido de ouro à águia do Império de sable e de França antigo, de azul semeado de flores de lis de ouro, representando a monarquia muito cristã por excelência.
  • Godofredo de Bulhão, nono preux, que desce simbolicamente do primeiro por ser um franco e recapitula o conjunto, porta as armas do reino de Jerusalém, de prata à cruz potenciada de ouro acompanhada de quatro cruzetas do mesmo.
    • Essas armas a enquérir quebram a regra fundamental da heráldica de não colocar metal sobre metal, marcando por isso que o que portam ultrapassa o domínio da heráldica ou antes constitui seu mistério último.
    • A cruz de ouro, com doze pontos, é o emblema da Jerusalém celeste das doze portas; as quatro cruzetas acrescentadas dão o número 28 = 7 x 4, ou seja, o número da perfeição do mundo criado.
  • As armas dos Nove Preux constituem por si sós um tratado de ciência heráldica muito rico, no qual se vê que cada preux arvora as armas recebidas ao término de sua demanda ou de sua conquista.
    • As armas dos Nove Preux são todas o preço das proezas cumpridas, que traduzem uma vitória sobre si mesmo e a aquisição de um certo grau de realização espiritual.
    • A divisa da Ordem do Tosão de Ouro, Pretium laborum non vile, significa que se trata da recompensa de um trabalho moral e iniciático que consiste numa guerra santa, ao mesmo tempo exterior e interior, contra as trevas.
  • O uso antigo dos torneios é a esse respeito interessante, pois o vencedor de uma justa podia ganhar sobre seu adversário a montaria e mesmo as armas, nos sentidos próprio e figurado.
    • Tendo provado sua superioridade, cabia-lhe retomar em sua conta as cores mal sustentadas pelo adversário.
    • Comparando a via cavalheiresca a uma escala de proezas, a montaria representa um degrau no qual é preciso se manter firme, e o escudo portado representa o horizonte simbólico que se abrange do alto do degrau onde se encontra.
  • Em França, montar um cavalo branco era reservado ao rei, e a tatura e a cor da pelagem dos cavalos são elementos da simbólica heráldica viva das origens que mereceriam por si só um estudo particular.
    • Dominar um cavalo implica a submissão das energias animais, e cavalgar concede o privilégio da velocidade e do franqueamento das distâncias.
    • O cavaleiro, herói cósmico, domina o tempo e o espaço, razão pela qual os primeiros selos representam os cavaleiros a cavalo, como os reis em seu trono.
  • Se na origem a composição do brasão pode variar em função dos sucessos obtidos ou dos altos feitos cumpridos, isso traduz bem uma linguagem verdadeira.
    • Não era raro que jovens cavaleiros tomassem na manhã seguinte ao armamento as armas de seu padrinho de cavalaria, às vezes acrescidas às armas paternas, herdando assim a influência espiritual e o grau de honra adquirido por quem lhes conferiu a colada.
    • Só na idade da plena maturidade suas armas pessoais se fixavam.
  • Essa evolução ou assunção do brasão ao longo da existência é bem retratada na lenda de Lancelot, que porta sucessivamente três escudos diferentes.
    • Lancelot du Lac, ao sair de page, recebe de sua madrinha a fada Viviane um escudo de prata pleno, simbolizando a pureza e sua nova vida.
    • À medida que enfrenta as provas após o armamento, Lancelot adquire uma, depois duas, enfim três bandas vermelhas, para arvorer ao fim de prata a três bandas de bellic.
  • Com a fada Viviane, impõe-se abordar o papel importante que as mulheres, ou antes as Damas, desempenham no armamento dos cavaleiros em geral e na atribuição das armas do escudo.
    • O papel das Damas na simbólica heráldica não parece muito importante, mas é essencial na colação e na formação do brasão.
  • Desde os sete anos, o jovem nobre entrava em serviço de page e escolhia então uma jovem ou uma mulher a quem devia oferecer o melhor de sua alma e ao serviço de quem se consagrava.
    • Ela devia aceitar tornar-se sua Dama, e era ela quem lhe confiava sua reputação e suas cores a defender desde que ele fosse capaz de se exercitar nas armas.
    • Ela também lhe ensinava o belo falar e os modos corteses.
  • Ao término dos anos de aprendizado, após ter sido page e escudeiro e por vezes perseguidor de armas, o aspirante à cavalaria recebe durante o ritual de armamento as armas das mãos de sua Dama.
    • Ela lhe entrega as sete armas de seu estado: a cintura, a espada, as esporas, o haubert, a couraça ou as luvas, a lança e o escudo portando suas armoriais de cavaleiro.
    • Nos torneios, é ela que o autoriza a portar suas cores ou mesmo um pedaço de seu véu, a manga honorável pendurada em seu braço, bandeira cortês da qual derivam os lambrequins do brasão.
    • É ela por fim que lhe concede um presente, um favor ou um beijo pelo preço de sua vitória, que o cuida se ferido e que vela por ele quando está na guerra.
  • A palavra Dama provém do latim Domina, mas não deve ser traduzida por amante no sentido particular que tem hoje, pois as relações entre o cavaleiro e sua Dama relevam em princípio do amor platônico por excelência: o da alma em direção ao ideal.
    • Era admitido oficialmente que um cavaleiro casado tivesse por Dama uma outra que sua esposa, que podia aliás ser ela mesma casada e por vezes de um nível muito mais elevado que seu servidor.
    • Trata-se antes de uma madrinha, aquela que preside ao novo nascimento que procura a iniciação cavalheiresca, análoga à que é garante da criança no batismo.
  • A Dama é a Senhoria, aquela que encarna os ideais cuja demanda permite adquirir a mestria de si mesmo e, por isso, a dominação sobre o mundo exterior requerida do pequeno rei que é o cavaleiro.
    • É a imagem da Alma pura, sábia, bela e irrepreensível, revestida de sua dignidade espiritual e animada pela consciência de honra.
    • A Dama, reflexo terrestre da soberana perfeita, Nossa Senhora, cantada pelo monge cavaleiro que foi são Bernardo de Claraval, encarna a um tempo a Sabedoria, a Beleza e a Força.
    • Ela ensina os segredos da natureza e da vida do universo que toda mulher verdadeira detém, revela as belezas e a glória do mundo criado, consola e sustenta para que as ações do cavaleiro estejam sempre na via reta representada pela espada que ela lhe dá.
  • Autores antigos que tratam do simbolismo da flor de lis, emblema de Nossa Senhora e portanto de toda Dama, dão às suas três pétalas a significação de Fé, Sapiência e Cavalaria.
    • Em heráldica, a palavra fé designa a figura de duas mãos unidas.
    • O culto da Dama não decorre do feminismo, da ginolatria, da heresia cátara ou de nenhum gênio occitano, visto que se encontra em toda a cristandade.
  • O culto da Dama exprime admiralvelmente a complementaridade nupcial entre a natureza e a ação masculinas, por excelência beligerantes e exteriorizadas, e as da mulher, conservadoras, pacificadoras e interiorizadas.
    • Essa concepção aproxima-se dos ensinamentos que decorrem das duas figuras de Cristo e da Virgem Maria, mas também das doutrinas antigas sobre a androginia primordial e a eminente dignidade do casal humano.
    • A via cavalheiresca é assim a via mística e nupcial por excelência: a das núpcias entre a criatura e seu criador, como a das almas irmãs aproximadas pelas afinidades eletivas.
  • Não é por acaso que são Bernardo, filho de cavaleiro e frequentemente assimilado à figura de Galaad, dá tão amplo espaço ao Cântico dos Cânticos em seu ensinamento espiritual.
    • Essa união da esposa, a alma, e do esposo, o intelecto divino, está no centro de toda a cavalaria, tanto na forma da espada quanto na do brasão.
    • O papel das Damas como reveladoras ou colatoras das armas ou dos nomes é mais que abundantemente ilustrado em todo o ciclo dos romances do Graal: Galaad recebe sua espada das mãos da jovem que jamais mentiu, sua irmã.
  • Para concluir sobre o capítulo da aquisição do brasão, o escolha de um escudo de armas não pode resultar da simples fantasia individual, e quando assim ocorre tem-se um testemunho da decadência da heráldica e nada mais.
    • Normalmente um brasão deve ser composto segundo as regras da Arte Real e conferido ou legitimado por uma autoridade superior apta a reconhecer a qualidade verdadeira de seu portador.
    • Seja herdado do Pai ou da Mãe, acordado por um Padrinho, confiado por uma Dama, outorgado pelo suserano ou pelo soberano, ou ainda acompanhando o serviço de uma terra de dignidade, o brasão autêntico é sempre uma carga que se recebe e que se assume.
    • Por meio das diferentes mediações, carnais ou simbólicas, que conferem o porte das armoriais, o brasão verdadeiro é sempre um dom do Céu.
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