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GVEI 468-482 OS LIMITES DA EXPERIÊNCIA DA CONSCIÊNCIA NEGATIVA: ONTOLOGIA NEGATIVA E SATANISMO
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A profundidade da consciência negativa reside no desvelamento das últimas consequências da revolta antimetafísica, e a análise da estrutura negativa mostrou como a recusa da Transcendência desemboca na descoberta do Nada no coração de uma experiência afetiva que se revela desespero antes que angústia.
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O desespero revela-se como a verdade, no sentido hegeliano, do desejo ou da vontade de potência da consciência temporalista.
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A crença no poder criador de uma temporalidade cortada da Transcendência se evidencia como ilusão filosófica.
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A consciência negativa não assume verdadeiramente o desespero, e sua experiência do nada não é simplesmente a constatação de uma consequência cujo princípio lhe seria totalmente estranho.
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O desespero existe apesar das negações superficiais do otimismo racionalista, mas seu grau de profundidade ou sinceridade é limitado.
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A consciência negativa não pode contemplar verdadeiramente o vazio, pois para isso seria necessário um retorno prévio à perspectiva metafísica contra a qual ela se insurgiu.
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A descoberta do nada radical das aparências pressuporia a consciência correlativa da plena plenitude do Ser, o que contradiz o próprio movimento da consciência temporalista.
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A experiência do nada não é pura passividade, e o desespero que ela implica não é isento de má-fé, comportando um aspecto de atividade que a coloca em continuidade com o movimento de transdescendência das estruturas panteísticas.
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Pretende-se demonstrar que o desespero nunca é puro, pois a subjetividade que experimenta seu nada o valoriza num movimento de orgulho em vez de contemplá-lo.
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A experiência do nada objetivo pode revestir a forma aparentemente ativa do ódio.
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O orgulho e o ódio constituem uma forma de divertimento pelo qual a subjetividade tenta escapar à contemplação passiva de seu nada, e se encontram também, de modo implícito, nas estruturas panteísticas.
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Propõe-se chamar de satanismo a atividade pela qual a subjetividade valoriza o limite individuante, distinguindo um satanismo implícito correspondente às estruturas panteísticas e um satanismo explícito prevalecente na estrutura negativa.
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O desespero não é necessariamente orgulho, mas a consciência negativa não contempla sua finitude nem a suporta passivamente: ela a age, a realiza e a valoriza.
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No cerne da experiência real de seu nada, a consciência negativa passa a identificar-se com esse nada, com o resíduo obtido pela expulsão de todo conteúdo essencial e de todo valor.
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Essa experiência não é apenas afetividade passiva, mas movimento ativo do querer.
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Introduz-se subrepticiamente, sob forma inesperada e paradoxal, um conteúdo nessa consciência previamente esvaziada: o conteúdo da própria limitação em estado puro, o limite existencial do ego que se põe a si mesmo como essência.
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O nada da limite não pode ser verdadeiramente contemplado e aceito como tal senão na medida em que o ego se integrou mais ou menos implicitamente em uma ordem de realidade que lhe dá a força de encarar a negatividade da limitação formal, seja no estilo religioso do perdão dos pecados, seja no estilo metafísico da consciência do Si infinito.
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Enquanto o ego não puder efetuar esse retorno fundamental, o nada que experimenta só pode ser recusado ou disfarçado, e o orgulho inerente ao desespero implica o ato de camuflar o próprio nada.
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É no coração do desespero da consciência negativa que o ego se afirma com maior violência e que a revolta antimetafísica atinge seu ponto culminante.
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Em virtude de sua inalienável estrutura espiritual, a consciência negativa que percebe não ser idêntica a qualquer conteúdo faz dessa última consciência o objeto de um novo ato reflexivo no qual se manifesta o orgulho explícito.
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A subjetividade hipostasia seu próprio vazio: desse nada faz algo, dessa pura forma vazia do ego negativo refaz um conteúdo que valoriza e afirma com violência.
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A consciência negativa é tão impotente para contemplar o vazio da Transcendência quanto o vazio do Nada, e naturalmente o infla e dele se gloria, como expresso na frase de Oreste a Júpiter nas Moscas de Sartre.
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Um máximo de desapego em relação ao conteúdo coincide aparentemente com um máximo de apego à forma vazia do ego negativo.
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A necessidade irreprimível de plenitude ou de felicidade da consciência manifesta-se nessa afirmação paradoxal do vazio glorificado.
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O satanismo perdeu o amor, o sentido da participação e da abertura ao Ser, mas não perdeu a esperança.
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A consciência negativa ama nessa extremidade de sua subversão desesperada o único que lhe pertence: seu poder de negar e recusar, que não é objetivamente nada, ou seja, a limitação em estado puro.
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A subjetividade negativa afirma-se como forma ao negar-se como conteúdo, identificando-se com o nada que existe, encontrando paradoxal e sombria plenitude nessa identificação desesperada.
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A experiência do próprio vazio tem implicações espirituais distintas da experiência do nada objetivo, pois se a consciência negativa aceita com relativa sinceridade o vazio dos objetos do mundo, é unicamente porque esse vazio objetivo lhe permite gloriar-se de seu vazio subjetivo.
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A hipostase de seu próprio vazio lhe permite suportar o vazio das aparências e o nada de um mundo absurdo.
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A absurdidade torna-se ela mesma uma essência, um valor, uma significação, como Camus se empenhou em mostrar ao afirmar que era preciso imaginar Sísifo feliz.
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Em Calígula de Camus, Cipião pergunta a Calígula se este não tem como os outros homens uma doçura na vida, um refúgio silencioso, e a resposta é simplesmente o desprezo.
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A experiência do nada objetivo é correlativa da afirmação e da valorização do nada subjetivo: só se experimenta o vazio do ser e a absurdidade do mundo porque se experimenta simultaneamente a plena plenitude paradoxal desse vazio.
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O desespero comporta uma parcela de má-fé e de atividade que se superpõe à aparente passividade do sofrimento, e a haine expressa igualmente o aspecto de divertimento que comporta o desespero inerente ao satanismo explícito.
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A consciência negativa não se desapega de seu desapego, que se encontra isolado e hipertrofiado no orgulho desesperado.
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O movimento de negação voltado para o conteúdo das aparências não é constante, pois a consciência quer encontrar às vezes um remédio à sua solidão menos áspero do que a esterilidade solitária do orgulho e do desprezo.
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A consciência reencontra malgrado si a ilusão todo-poderosa do desejo orientado para o universo de seus objetos naturais, o que já é um reconhecimento de sua fraqueza.
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A consciência que retorna de seu orgulho para se orientar novamente para o mundo reconhece não poder suportar sua solidão, mas seu orgulho impede o movimento de aceitação que a faria sair de sua negação hipostasiada.
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O conteúdo que a consciência busca dar a si mesma exigiria abertura para recebê-lo verdadeiramente, seja amizade, amor ou beleza do mundo.
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A visão de uma tal plenitude — como a beleza de uma flor ou a doçura de uma amizade — obriga a consciência a reconhecer a realidade de seu próprio vazio.
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O espetáculo da felicidade dos outros ou a beleza do mundo impõem de fora a tomada de consciência da própria finitude, de modo passivo e não mais ativo.
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A consciência satânica, em vez de suportar esse retorno ofensivo da plenitude das aparências, retorna esse vazio contra as próprias aparências, que se empenhará em mutilar e destruir.
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A harmonia e a ordem do mundo são sentidas como insulto intolerável, gerando a necessidade de destruir e objetivar o nada interior.
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Baudelaire expressa isso no poema em que pune na flor a insolência da Natureza que humilhou seu coração, e os assassinatos por ciúme nos heróis de Racine e Dostoiévski são formas derivadas desse satanismo fundamental.
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A haine satânica realiza no plano das aparências o que o orgulho realizava no plano mais sutil do limite subjetivo do ego, afirmando ativamente o caráter negativo do limite existencial.
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Trata-se de uma afirmação da limitação como tal, do aspecto substancial e negativo da limitação empobrecedora, e não de uma negação do conteúdo positivo das aparências objetivas.
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A negatividade não é aqui integrada em um processo de tipo hegeliano ou metafísico: é isolada em estado puro e torna-se por isso uma afirmação e uma posição mais do que uma negação.
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A haine satânica é a objetivação e a contraprova do orgulho, embora em rigor se situe em grau menos pronunciado de realização satânica.
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Essa haine tem alcance universal: é haine e vontade destrutiva de toda plenitude objetiva, e a consciência satânica procede a uma verdadeira demiurgia às avessas, sendo o Ego em sua limitação absoluta que se afirma como plenitude paradoxal e totalidade.
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O desespero, manifestando-se pelo ódio e pelo orgulho, implica um aspecto de atividade em virtude do qual é menos uma experiência passiva do nada do que uma realização ou afirmação ativa e uma valorização deste, continuando o movimento de revolta inerente às estruturas panteísticas.
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O desespero da consciência negativa é uma experiência-limite em que não só o desespero se metamorfoseia em orgulho e ódio que lhe fazem perder consciência de seu vazio, mas também tende a ser obliterado por um retorno puro e simples às estruturas panteísticas, notadamente ao instante estético.
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As estruturas panteísticas, a vontade de potência ou o desejo triunfante, comportam as características da consciência negativa, mas em estado implícito.
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Do mesmo modo que o desespero era desejo e esperança implícitos, o desejo triunfante é desespero, orgulho e ódio implícitos.
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Esses dois aspectos correspondem às duas faces fundamentais da Queda que as religiões semíticas atribuem respectivamente a Adão, cujo satanismo é apenas implícito, e a Satã, cuja revolta é voluntária, consciente e total.
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A atitude do artista moderno parece ligada à fuga ou à recusa do vazio das aparências, e a arte moderna é a fuga para um Absoluto imaginário além do vazio de uma Natureza que o esteta não quer encarar.
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A dialética espontânea do pessimismo se traduz no plano epistemológico pela dialética do ceticismo, bem iluminada por Hegel: impotente para realizar a verdade de que tem nostalgia, a consciência cética critica a razão e valoriza absurdamente as aparências não mediatizadas.
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A consciência negativa, que denuncia o vazio das aparências e a absurdidade do mundo, retorna instintivamente para as aparências não mediatizadas, para o universo moral do instinto e do instante.
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O fruidor desesperado se aferra a uma moral da quantidade, expressão de Camus, e o esteta desesperado diviniza o prazer efêmero.
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O movimento espiritual isolado e posto a nu na estrutura negativa encontra-se na raiz de todas as atitudes da consciência temporalista, e a afirmação orgulhosa e satânica da limitação ou do ego em estado puro está na raiz do desejo ou da vontade de potência que caracterizam as estruturas panteísticas.
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O aspecto desejo ou vontade de potência que reveste a queda ao nível das estruturas panteísticas pressupõe o aspecto orgulho, que constitui ao mesmo tempo sua raiz e sua verdade.
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O que constitui a revolta antimetafísica não é o desejo como tal, mas o fato de que essa orientação exclui na prática toda participação na ordem do Real metafísico.
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É a valorização do aspecto substancial do limite individuante, a idolatria da individuação, que vai contra o que o sentimento da irredutível singularidade pode comportar de profundidade e plenitude autêntica.
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O orgulho explícito não é senão o amor que a limite substantiva se vota a si mesma, o que só tem sentido no plano da consciência, e pode revestir duas formas distintas.
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A consciência pode amar-se através do reflexo das essências que dá conteúdo substancial ao seu ser: é o desejo ou a concupiscência esboçada no relato da Gênesis hebraica, em que comer a maçã simboliza o amor que a consciência vota a um conteúdo que vai objetivar.
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O pecado de Adão é também o de Aristóteles e de Hegel, a revolta contra a Transcendência das Ideias, que se traduzirá pela domesticação crescente da Natureza pelo Homem.
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A consciência pode amar-se através da limitação que constitui enquanto tem o poder de se pôr como diferente do Ser universal: essa revolta dos Anjos corresponde ao orgulho explícito da consciência negativa.
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Se Adão caiu, foi porque Satã, sob o aspecto da serpente, já estava no Paraíso: a queda constituída pelo próprio desejo orientado para a plenitude positiva das aparências sensíveis não teria sido possível sem a afirmação implícita do valor quase exclusivo do limite individuante.
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O desejo nas estruturas panteísticas é já orgulho, mas orgulho implícito, pois a individuação é posta como enriquecedora, mas há ainda uma secreta referência a uma normatividade epistemológica ou axiológica que ultrapassa o indivíduo como tal.
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O indivíduo orgulhoso de sua inteligência presta, sem querer, homenagem ao menos ao gênio da espécie, ou seja, à razão humana.
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Isso é ainda mais evidente quando o objeto do orgulho é uma realidade social coletiva: orgulho fundado na raça, na casta, na nação, no partido ou no Indivíduo-Humanidade.
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Há aí uma normatividade transindividual à qual o indivíduo parece efetivamente submeter-se, mas essa submissão não é real, na medida em que se inscreve nos limites das estruturas panteísticas.
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A valorização da individuação constitui o orgulho implícito: o orgulho explícito não faz senão prolongar o mesmo movimento de transdescendência.
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Seja nas estruturas panteísticas seja na esfera negativa, o limite como tal é encarado do mesmo ponto de vista e posto como real, quer em sua realidade positiva e provavelmente ilusória, quer em sua realidade negativa.
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Quando a consciência negativa põe a negatividade das aparências no coração do orgulho ou do ódio destruidor, permanece orientada para o mundo ou para sua própria limitação.
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É sempre do lado da imanência, do hic et nunc, que se encontram a realidade e o valor.
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É sempre o homem que se toma a si mesmo como fim que se encontra aqui glorificado e exaltado em detrimento do Ser universal.
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A distância é pequena entre a hipertrofia monstruosa do Ego impessoal das estruturas objetivantes e a hipostase do Nada que constitui o limite singular em estado puro na consciência negativa.
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O desejo triunfante das estruturas panteísticas é não apenas orgulho implícito, mas também ódio implícito, o que manifesta a continuidade do movimento de transdescendência.
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O desejo ativo da vontade de potência objetivante e o desejo passivo da consciência estética repousam sobre um escamoteamento da interioridade dos seres e das coisas por sua inserção nas relações servilizantes do desejo.
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O núcleo subjetivo que constitui a individualidade essencial dos seres é aqui recusado e destruído por sua integração numa Totalidade à qual servem de matéria e meio.
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O ódio destruidor ou a posição da limitação existencial em estado puro não faz senão prolongar e iluminar esse ódio implícito da interioridade e da transcendência das realidades.
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O desejo triunfante das estruturas panteísticas é já, em certo sentido, desespero implícito ou fracasso do desejo, pois a destruição ou o desaparecimento efetivo são uma dado irredutível para a consciência temporalista.
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O desvelamento do aspecto puramente negativo do limite existencial está implicado na própria valorização desse limite, no movimento de transdescendência constitutivo da intencionalidade temporalista em geral.
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Na medida em que o desejo pressupõe o orgulho, implica o desespero, ou seja, o desvelamento da negatividade constitutiva da limitação como tal.
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A estrutura negativa não faz senão desvelar um fato: mostra ao indivíduo singular não que ele é mortal, mas que a limitação existencial é infinitamente mais vazia e mais desesperadora do que a própria morte, não sendo outra coisa que o inferno ou a pura absurdidade sem fim da existência que se toma em seu próprio espelho.
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O desejo triunfante, ao mascarar seu fracasso por sua integração nas Totalidades panteísticas, só triunfa ao preço de uma contradição interna que uma reflexão lúcida facilmente evidencia.
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Se se crê que a existência é mais do que a essência, é porque já se acredita, sem confessar, que a existência como tal é mais do que a essência sob todas as suas formas.
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O individualismo racionalista de Hegel contém em germe o individualismo estético do bergsonismo e o individualismo negativo do existencialismo ateu.
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Um dos ensinamentos maiores da história da filosofia é que não se pode fazer concessões parciais ao tempo: desde que se afirma que o tempo separado da eternidade possui por si mesmo alguma realidade, chega-se insensível e paradoxalmente a reconhecer que ele não é nada.
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Para escapar à revelação desse nada e desse vazio fundamental do limite individuante, a consciência temporalista se apega tanto às Totalidades panteísticas quanto à hipóstase do Nada constituída pelo limite individuante em estado puro.
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O desespero está no coração mesmo da consciência temporalista, mas esta recusa essa evidência mesmo quando o desespero se torna explícito.
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É por uma espécie de fuga de má-fé em direção à Essência que ela tenta escapar às consequências inevitáveis de sua recusa fundamental da Essência.
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A consciência temporalista é essencialmente ambígua e vive num círculo: sua revolta antimetafísica porta no coração a marca do desespero e o selo do Nada.
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A estrutura negativa e as estruturas panteísticas implicam-se reciprocamente: são dois aspectos, ou dois graus, de uma só e mesma revolta.
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