vallin:perspectiva-metafisica-intro
PERSPECTIVA METAFÍSICA – INTRODUÇÃO
Introdução
-
A Legitimidade da Metafísica e a Persistência do Debate sobre o Ser
-
O reconhecimento das objeções reincidentes contra a legitimidade daquilo que se costuma chamar de metafísica, justificadas pelo incontestável fracasso dos “sistemas”.
-
A constatação de que tais objeções nunca impediram os filósofos de retomar o eterno debate sobre o “ser”, explicitamente inaugurado e assinalado por Aristóteles.
-
A tendência da história da filosofia em mostrar que há quase tantas “metafísicas” quanto “metafísicos”, e que cada filósofo traz em seu “sistema” apenas uma visão parcial do ser.
-
A observação de que, quando um filósofo interroga sobre a essência e o valor da “filosofia primeira”, a questão não é “O que é a minha 'metafísica'?”, mas sim uma investigação sobre a metafísica em si.
-
A constatação de que a démarche do filósofo, mesmo quando declara guerra à metafísica, pressupõe que se pode falar dela como se fala da ciência.
-
A possibilidade de o filósofo ingenuamente imaginar e fazer crer que a verdadeira metafísica começa ou coincide com seu próprio pensamento.
-
A asserção de que o pensamento metafísico do filósofo implica uma pretensão à universalidade análoga à que Kant atribuiu ao juízo estético.
-
A afirmação de que o filósofo seria um péssimo amante da Sabedoria se não tivesse pelo menos a esperança de que esta falaria por sua boca.
-
A proporcionalidade entre a consciência que o filósofo tem da novidade e originalidade de sua visão de mundo e a certeza que o habita de trazer uma verdade que crê universal e espera fazer compartilhar aos outros.
-
A identificação desta como a atitude mais característica dos filósofos ocidentais, encontrada em um Aristóteles ou um Descartes tanto quanto em um Bergson.
A Atitude da “Philosophia Perennis” e suas Limitações-
A menção de uma outra atitude, menos corrente, que consiste em visar explicitamente a universalidade da metafísica, expressa pelo recurso à noção de “philosophia perennis”.
-
O exemplo de Leibniz, que recolocou em honra, contra o mecanismo cartesiano, a velha “enteléquia” de Aristóteles.
-
A observação de que a filosofia de um Lavelle move-se em uma atmosfera aparentemente platônica.
-
A aparência de uma continuidade tradicional, de uma permanência de uma verdade que o filósofo teria por tarefa e preocupação transmitir a seus contemporâneos.
-
A dificuldade de não perceber que este apelo à “filosofia eterna” repousa sobre exigências sentimentais convergindo para um vago ecletismo espiritualista e não sobre uma doutrina metafísica e cosmológica precisa.
-
A caracterização do tema da “philosophia perennis” como um leitmotiv destinado a tranquilizar o pensador tomado de vertigem perante a história efetiva da filosofia e as antinomias inevitáveis dos sistemas.
-
A legitimidade e o caráter tranquilizador de buscar reencontrar constantes metafísicas e famílias espirituais, e de crer que “todos os filósofos, no fundo, disseram a mesma coisa”.
-
A admissão de que os maiores filósofos concordam, ao menos implicitamente, sobre certos postulados fundamentais.
-
A advertência sobre a necessidade de não se iludir sobre a natureza e o alcance dessas “verdades permanentes”, especialmente no quadro dos sistemas filosóficos.
-
A implicação, pela “filosofia eterna” cara ao “espiritualista”, de uma limitação, ao menos implícita, baseada no desconhecimento sistemático de outras formas de pensamento metafísico: o pensamento “teológico” e o pensamento oriental (ou asiático).
-
A separação, por parte do filósofo espiritualista, do conteúdo de sua tradição espiritual, ou seja, da revelação cristã e do pensamento teológico.
-
A localização da especulação propriamente “filosófica” do espiritualista à margem do cristianismo.
-
O risco de a meditação teológica interferir com o pensamento filosófico e produzir “monstros teológicos”, como a interpretação “dialética” do dogma trinitário na filosofia de Hegel.
-
A crença do filósofo ávido por filosofia eterna na supremacia exclusiva da metafísica ocidental.
-
A identificação, para tal filósofo, da história da filosofia com a história da filosofia ocidental.
-
A referência a Heidegger, que em “Holzwege” fala explicitamente da história da metafísica como da história da metafísica ocidental, evidenciando um provincialismo espiritual.
-
A redução da eternidade da philosophia perennis simplesmente às constantes da metafísica ocidental, excluindo o pensamento de tipo “teológico” ou “místico”.
-
A caracterização da permanência de uma tradição metafísica limitada aos grandes sistemas filosóficos do Ocidente como uma piedosa ilusão que não resiste ao exame dos fatos.
A Identificação da Metafísica Ocidental com a Ontologia e suas Consequências-
A identificação do que se costuma chamar de metafísica ou filosofia ocidental com a história da metafísica ocidental.
-
A admissão de que é excessivo reduzir, com Heidegger, a metafísica ocidental à história mesma do Ser, mas a dificuldade de desconhecer seu caráter profundamente histórico.
-
A oposição entre o caráter histórico da metafísica ocidental e o caráter essencialmente intemporal da philosophia perennis.
-
A asserção de que a metafísica, como especulação sistemática sobre o “ser enquanto ser” e as “causas primeiras”, começa com Aristóteles.
-
A marca da origem aristotélica na especulação filosófica ocidental, na medida em que a revolta do Estagiarita contra a transcendência das Ideias e a reminiscência platônica levou à identificação da metafísica com a ontologia.
-
A consideração dessa identificação como carregada de sentido e de consequências a serem elucidados.
-
A primeira consequência: a redução da metafísica à ontologia implica uma concepção essencialmente abstrata e teórica do conhecimento metafísico, e o reinado exclusivo do princípio de não contradição.
-
A caracterização da metafísica enquanto ontologia como uma especulação sobre o ser, estranha à “experiência espiritual”.
-
A natureza determinada do Primeiro Princípio tal como concebido pela ontologia, implicando uma limitação e uma negação da universalidade principial.
-
O caráter teórico e abstrato do conhecimento do ser na ontologia clássica, intimamente ligado à natureza limitada do ser assim concebido.
-
A hegemonia do princípio de não contradição como outra forma dessa mesma limitação.
-
A confusão, no plano do conhecimento, entre o Intelecto e a razão.
-
A intuição intelectual a que a ontologia clássica crê poder apelar, movendo-se no plano do entendimento humano dianoético.
-
O caráter já carregado de humanismo da ontologia, que repousa sobre a autonomia implícita de uma razão humana posta como radicalmente distinta da Inteligência divina.
-
A segunda consequência: a redução da metafísica à ontologia acompanha-se de uma concepção mais “cosmológica” que “metafísica” do Princípio.
-
A aplicação generalizada do termo “substância” às realidades postas como principiais.
-
A permanência intemporal da noção de substância, concebida em um estilo positivamente existencial que valoriza a multiplicidade cosmológica e o dinamismo produtor que a engendra.
-
O duplo objeto da filosofia primeira de Aristóteles: o estudo do ser enquanto ser (reduzido ao das categorias do mundo sensível) e a teologia (reduzida à meditação sobre Deus concebido como o Indivíduo supremo).
-
A incapacidade da ontologia clássica ocidental de superar este aspecto pessoal da divindade.
-
A concepção do Ser puro como Causa primeira, cuja transcendência abstrata é correlativa de uma imanência não menos abstrata.
-
A limitação do Ser concebido como Causa ou como Consciência de si, conduzindo a ontologia a conceber o Princípio em função da existência do mundo.
-
O caráter principial, mas limitante, desta limitação do Ser, que determinou o destino da “metafísica ocidental”.
-
A explicação, por esta limitação inerente à ontologia clássica, do caráter dogmático e sistemático da filosofia e da teologia.
-
A relação estabelecida pelos Escolásticos entre a teologia revelada e a filosofia, reduzida ao papel de serva, prefigurando o caráter ancilar da metafísica em relação à ciência.
-
A visão de Descartes da metafísica como antessala da ciência, e a qualificação por Bergson como metafísica do que para Aristóteles ainda era Física.
-
A explicação do caráter profundamente “histórico” da metafísica ocidental por esta limitação do Princípio concebido em estilo mais cosmológico que metafísico.
O Caráter Histórico da Metafísica Ocidental e o Dogmatismo dos Sistemas-
A consequência imediata da limitação da ontologia sendo a oposição aparente dos diversos aspectos sob os quais se pode conceber o Ser ou Deus.
-
A possibilidade desta oposição permanecer relativa, como no caso da ontologia tradicional ocidental, onde divergências doutrinais são compensadas pela convergência espiritual para a mesma fé e pela experiência do santo.
-
A transformação, pela secularização do pensamento filosófico, de oposições em antagonismos radicais não mais subordinados à unidade dogmática da fé.
-
A substituição da separação medieval entre teologia natural e teologia revelada por uma ruptura total entre teologia e filosofia.
-
A substituição da ontologia tradicional pela ontologia clássica, onde a doutrina se torna sistema e as oposições tendem a se tornar exclusivas e massivas.
-
A penetração do dogmatismo, definido como a tendência à afirmação exclusiva de um aspecto da verdade, na especulação “filosófica” mesma.
-
A consideração do dogmatismo como estando na raiz do caráter histórico da metafísica ocidental, identificada com os sistemas filosóficos.
-
A manutenção, pela ontologia tradicional, de um caráter relativamente “trans-histórico”, enquanto a ontologia clássica abre explicitamente o caminho para uma verdadeira história da metafísica.
-
A virtualidade temporalista do ser desde a origem da especulação filosófica com Aristóteles.
-
A crença de que a primeira grande revolução da filosofia ocidental coincide com sua origem, quando Aristóteles se opôs a Platão reduzindo a metafísica à ontologia.
-
A consideração de Aristóteles como o pai da metafísica e, ao mesmo tempo, do dogmatismo sem o qual não haveria sistemas nem história da metafísica.
-
A consequência mais importante da redução da metafísica à ontologia sendo as limitações da ontologia clássica, que suscitarão, por reação, concepções aparentemente mais ricas e concretas.
-
A correspondência da revolução copernicana do idealismo kantiano à introdução da temporalidade no estatuto do ser.
-
A referência a uma análise prévia das três grandes estruturas temporais (instante lógico, estético e negativo) do ponto de vista das modalidades de temporalização do ser.
-
A coincidência da temporalização do ser, e da transformação da metafísica, com o que se pode rigorosamente chamar de história da metafísica ocidental.
-
A existência, desde o início, de uma “geografia” da metafísica ocidental, com perspectivas múltiplas que não punham em questão o caráter intemporal do ser.
-
O início de uma verdadeira história da metafísica somente quando o ser mesmo foi concebido como temporal com Hegel.
-
A não negação da permanência relativa da ontologia inaugurada por Aristóteles, nem do valor metafísico relativo da ontologia clássica.
-
A ênfase no caráter limitado, dogmático e abstrato da ontologia ou metafísica concebidas por Aristóteles, pela Escolástica, por Espinosa ou Leibniz, justificando a crítica de Kant.
-
A caracterização do que é propriamente “permanente” como a impotência generalizada da ontologia em atingir a universalidade verdadeira do ser e transcender as antinomias.
-
A localização da historicidade implícita da metafísica ocidental no caráter limitado e dogmático da ontologia em geral, isto é, nos conflitos gerados por visões abstratas e exclusivas que tendem a se constituir em sistemas.
-
A residência da historicidade da metafísica ocidental, paradoxalmente, em sua incapacidade de “progredir”.
-
A observação de Kant de que a metafísica não “avançou”, permanecendo sempre no mesmo ponto ou girando em círculo.
-
A inscrição da historicidade virtual ou efetiva da metafísica ocidental em oposição a suas pretensões de se vincular à “filosofia eterna”.
A Filosofia Eterna como Referência Implícita e a Perspectiva Metafísica-
A admissão de que a opinião de que os grandes filósofos teriam, no fundo, dito a mesma coisa não deve ser desprovida de todo fundamento.
-
A crença em uma metafísica que seria a metafísica, para além de todos os sistemas contraditórios.
-
A constatação de que, no caso da filosofia ocidental, a referência a esta filosofia única só pode ser implícita e involuntária.
-
O papel do historiador da filosofia em descobrir uma convergência espiritual para certas verdades fundamentais na multiplicidade dos sistemas.
-
A consciência do filósofo, enquanto tal, de sua própria originalidade e seu cuidado em destacar o que o distingue de seus predecessores.
-
O acesso à philosophia perennis como sendo quase que a contragosto do filósofo.
-
A identificação da única forma de continuidade tradicional oferecida pela filosofia ou metafísica ocidental com a permanência implícita de verdades que se impõem aos filósofos a contragosto.
-
A aparência dessas verdades, ligadas à metafísica, como mutiladas e refratadas através do dogmatismo dos sistemas filosóficos.
-
A caracterização desta forma de filosofia eterna como vaga e confusa, relevando de um sincretismo insípido.
-
A crença na possibilidade de pôr em luz uma perspectiva espiritual e doutrinal que traga um conteúdo rico e preciso à noção de filosofia eterna.
-
A proposta de dar a esta perspectiva o nome de “perspectiva metafísica”.
-
A definição desta óptica, no plano teórico ou doutrinal, como correspondente ao que René Guénon chamou em suas obras de “a metafísica”.
-
O fundamento desta perspectiva em uma concepção rigorosamente universal do ser ou do Absoluto.
-
A legitimidade de reservar o nome de metafísica a esta perspectiva, que por definição parece escapar às limitações dogmáticas dos sistemas filosóficos.
-
A referência à filosofia contemporânea, e notadamente à filosofia da existência, que pôs em luz a noção de “situação”.
-
A condição de concebibilidade da metafísica: que o pensamento e a existência humanos possam de alguma maneira superar as situações, ou seja, as diversas formas possíveis de limitação.
-
A citação de Aristóteles sobre as ciências mais exatas serem as mais científicas dos princípios, e a metafísica como a ciência mais rigorosa por ter como objeto o ser enquanto ser, que escapa às limitações.
-
A crítica à “realização” desta ideia por Aristóteles, que, em razão do dogmatismo de sua polêmica antiplatônica, implicou uma limitação capital para o destino da metafísica ocidental.
-
A possibilidade de atingir uma concepção do ser mais universal e, portanto, mais rigorosa, constituindo a essência da philosophia perennis e merecendo o nome de “metafísica”.
-
A caracterização da perspectiva metafísica pelo superamento de todas as concepções limitadas, dogmáticas e sistemáticas que constituem o conteúdo da história da filosofia.
-
O fundamento da perspectiva metafísica na noção metaforicamente mais rigorosa do Absoluto ou do Infinito.
-
A concessão, por este superamento, de um caráter eminentemente intemporal ou trans-histórico à perspectiva metafísica, distinguindo-a profundamente dos sistemas filosóficos.
-
A identificação da metafísica como o conhecimento daquilo que está além do objeto constituído pela “física” tradicional, ou seja, dos princípios imutáveis.
-
A participação deste conhecimento da imutabilidade de seu objeto, na medida em que se mostra profundo e rigoroso.
-
A legitimidade de falar, com Guénon, da metafísica, e de reservar este termo às doutrinas que puseram em relevo o aspecto mais universal do Absoluto.
A Resposta da Perspectiva Metafísica e a Crítica Heideggeriana-
A consideração da perspectiva metafísica como trazendo a resposta mais decisiva à eterna questão “O que é o ser?” levantada por Aristóteles.
-
A referência à questão “O que é a metafísica?” levantada por filósofos contemporâneos.
-
A percepção de Heidegger de que a metafísica ocidental faltou e falseou o problema do ser, e sua ideia de um “superamento da metafísica” como um retorno às origens.
-
A crença na necessidade de superar não a metafísica, mas o dogmatismo caracterizando os “sistemas” filosóficos, e em primeiro lugar o dogmatismo inerente à ontologia.
-
A crítica à ontoteologia ocidental por não trazer uma doutrina rigorosa do Absoluto, pois o ser puro comporta uma limitação principial que o faz aparecer como causa de si e causa do mundo.
-
A consideração da tentativa heideggeriana de superar o “ente” para o “ser” como análoga ao superamento da ontologia para a perspectiva metafísica.
-
A previsão do fracasso da tentativa heideggeriana por se situar no prolongamento da ontologia clássica e por pretender apreender o ser a partir do “horizonte” do tempo.
-
A permanência de Heidegger, como herdeiro da ontologia antiplatônica de Aristóteles e do criacionismo medieval, nos limites do que ele mesmo chama de “a metafísica”.
-
A identificação do verdadeiro superamento da “metafísica” heideggeriana com as doutrinas que se ligam à perspectiva metafísica.
-
A distinção destas doutrinas tanto da ontologia sonhada por Heidegger quanto da metafísica que ele busca superar, e daquilo que o historiador da filosofia costuma chamar de ontologia e metafísica.
-
A suficiência de pontos comuns entre estas doutrinas, apesar de divergências aparentes, para legitimar englobá-las em uma mesma perspectiva.
A Convergência Doutrinal e a Expressão da Perspectiva Metafísica-
O objetivo de determinar a natureza desta “perspectiva” metafísica que realiza uma profunda convergência espiritual entre expressões doutrinais aparentemente muito distantes no espaço e no tempo.
-
O reconhecimento de que tal convergência não é monopólio da perspectiva metafísica, sendo possível pôr em luz convergências análogas centradas em perspectivas mais limitadas.
-
Os exemplos da correspondência entre a perspectiva cosmológica do Samkhya e a de Aristóteles, e as analogias entre a doutrina de Ramanuja e a ontologia criacionista de São Tomás.
-
A ressalva de que tal convergência não pode constituir por si só um critério de profundidade e verdade de qualquer doutrina.
-
A menção à universalidade intrínseca ou vertical da perspectiva metafísica como o verdadeiro critério de seu rigor ou de sua verdade.
-
O reflexo do rigor interno e da amplitude compreensiva da perspectiva metafísica na profundidade da convergência doutrinal de seus representantes.
-
A referência essencial a pensadores cujos expostos doutrinais se aproximam do modo de expressão característico do pensamento filosófico, ou seja, de uma demonstração sistemática.
-
A ressalva de que este modo de expressão não é necessariamente o que melhor se adapta às exigências da perspectiva metafísica, correspondendo simplesmente a uma formulação mais explícita e próxima do modo filosófico.
-
A classificação costumeira destes pensadores entre os “filósofos” pelos historiadores da filosofia.
-
A preferência pelo termo “metafísico” em vez de “filósofo” para estes pensadores, a fim de salientar a diferença entre a perspectiva metafísica e os sistemas filosóficos.
-
A distinção entre o modo de expressão de tipo filosófico, que procede por encadeamento lógico de conceitos abstratos, e um modo de expressão simbólico, que utiliza símbolos como representação concreta das realidades principiais.
-
A aptidão do símbolo, intuitivo e sintético, como instrumento de expressão particularmente apto a veicular a intuição intelectual na perspectiva metafísica.
-
A existência, ao lado de uma expressão propriamente racional ou discursiva da perspectiva metafísica, de uma expressão “primitiva” desta mesma pensamento nos mitos e outros símbolos tradicionais.
-
A distinção entre a metafísica explícita e a metafísica implícita, que constitui a significação profunda dos mitos e símbolos.
-
A harmonia e perfeita continuidade entre estes dois modos de formulação da perspectiva metafísica, tanto no quadro de tradições de forma religiosa quanto no das tradições mitológico-metafísicas.
A Definição e o Alcance da Noção de Metafísica-
A precisão do uso da noção de metafísica em um sentido largo e em um sentido mais preciso.
-
A recusa do sentido habitual e vago que se aplica à visada dos princípios primeiros inerente a toda especulação filosófica.
-
A distinção, para evitar equívocos, entre a metafísica integral, que caracteriza a perspectiva metafísica, e a metafísica sistemática, que comporta uma concepção mais limitada do absoluto.
-
A concordância com Heidegger de que a história da metafísica identifica-se essencialmente com a da metafísica ocidental, no sentido usual do termo.
-
A rejeição do erro de identificar pura e simplesmente a metafísica integral ou a perspectiva metafísica com o que Guénon chamou de “a metafísica oriental”.
-
O reconhecimento da força e esplendor da expressão da perspectiva metafísica no pensamento oriental, notadamente na doutrina hindu do Vedanta.
-
A crença na desnecessidade e ilegitimidade de recorrer à hipótese de uma influência oriental para explicar o que há de metafísica integral no pensamento ocidental.
-
A consideração do platonismo e do neoplatonismo como o modo de formulação propriamente ocidental da metafísica integral.
-
A referência a Plotino, Eckhart ou Nicolau de Cusa como expressão perfeitamente autêntica e original da perspectiva metafísica, que, adaptando-se à mentalidade ocidental, reencontra as formulações orientais.
-
A observação de que os pensadores de referência não trouxeram cada um uma expressão “filosófica” exaustiva da perspectiva metafísica.
-
A expressão, por cada um, de aspectos diferentes em relação com sua inserção em um contexto tradicional determinado, deixando outros aspectos na sombra.
-
A implicitude de muitas verdades, e o caráter de “pseudo-problemas” de muitos problemas levantados a partir da metafísica sistemática.
-
O caráter universal e sintético da perspectiva metafísica não implicando uma recusa de examinar problemas cosmológicos, sempre considerados em função dos princípios metafísicos.
-
O exemplo da integração do dualismo aparente do Samkhya no não-dualismo vedântico por Shankara.
A Justificativa e a Atualidade da Perspectiva Metafísica-
A justificativa de uma meditação sobre a perspectiva metafísica por seu interesse intrínseco para os que têm nostalgia da “filosofia eterna”.
-
A resposta da perspectiva metafísica a certas exigências fundamentais do pensamento contemporâneo, apesar de sua distância da problemática filosófica do homem do século XX.
-
O primeiro caráter: sua universalidade, que coincide com o superamento dos dogmatismos sistemáticos, correspondendo à exigência contemporânea de um superamento dos sistemas como limitações mutilantes do real.
-
A previsão do fracasso destas tentativas por falta de uma norma para superar realmente as antinomias da experiência imanente.
-
A contradição na tentativa heideggeriana de pensar “o Ser” a partir do “horizonte do tempo”, encerrando-se em um dogmatismo temporalista.
-
O fechamento de Bergson ao acesso a uma visão integradora devido a pressuposições passionais e dinâmicas que o levam a identificar o real com o movente.
-
A dívida da fenomenologia husserliana ao dogmatismo “cosmologista” e à irredutível dualidade da consciência e de seu objeto (intencionalidade).
-
A atribuição do fracasso das tentativas metafísicas contemporâneas às pressuposições “cosmologistas” e passionais inerentes a uma vontade de potência antimetafísica.
-
A capacidade da perspectiva metafísica de responder a estas exigências de superamento.
-
A aparência da perspectiva metafísica, em suas formulações históricas, como uma coisa do passado, um estágio ultrapassado.
-
A objeção de que o que pertence ao passado é a exteriorização formal da perspectiva e não seu conteúdo doutrinal.
-
A crítica ao uso abusivo da noção de um “estágio definitivamente ultrapassado” como relevando de pressuposições “naturalistas” e “historicistas”.
-
A caracterização da perspectiva metafísica não como um sistema, mas como uma visão do Ser e do Mundo que não pode ser aprisionada nos limites de qualquer formulação.
-
A consideração das doutrinas vinculadas a esta perspectiva como veículos ocasionais e trampolins para uma verdade que faz eclodir o quadro dos sistemas.
-
A impossibilidade de a metafísica integral da perspectiva metafísica revestir a forma de uma “ciência rigorosa”.
-
A origem da ausência de rigor nas metafísicas dogmáticas no fato de o sistema, como “visão de mundo”, deixar escapar um aspecto do real.
-
A origem da ausência de rigor no caso da perspectiva metafísica na inadequação entre a expressão formal, necessariamente limitada, e a universalidade da visão de mundo.
-
O sinal do extremo rigor interno da perspectiva metafísica sendo justamente esta ausência de pretensão a esgotar a infinitude de suas implicações.
-
A ordem diferente da objetividade e universalidade da perspectiva metafísica em relação à da ciência.
-
A correspondência da perspectiva metafísica, idêntica à philosophia perennis, a uma exigência atual, superando tanto a atualidade do presente quanto a inatualidade do passado.
-
A condição para a aceitação desta resposta pelo pensador contemporâneo: o desapego das implicações dogmáticas e passionais da problemática dos sistemas.
-
A esperança, baseada em certas formas atuais da sistematização filosófica, na possibilidade de uma abertura à perspectiva metafísica.
A História da Filosofia como “Desessencialização” e o Avanço do Nada-
A caracterização do caráter profundamente “histórico” da filosofia ocidental como consequência da redução da metafísica integral à ontologia.
-
A inauguração, pela revolta antiplatônica de Aristóteles, dos começos da filosofia como sistema, por uma recusa da perspectiva metafísica.
-
A identificação da história da filosofia desde Aristóteles até Sartre com o aumento progressivo desta revolta, traduzido por uma “desessencialização” sem cessar crescente do ser.
-
A referência à análise prévia das três estruturas temporais (instante lógico, estético e negativo) como aspectos significativos desta desessencialização.
-
A menção à dialética histórica implícita nestas estruturas, conduzindo a metafísica sistemática a uma posta em luz progressiva do “Nada”.
-
A consideração do polo “material” ou “substancial” (o Nada) que a metafísica e cosmologia tradicionais opõem ao polo “espiritual” ou “essencial” da manifestação.
-
A constatação de que os sistemas contemporâneos atingiram um limite no processo de desessencialização do ser com a ontologia negativa inaugurada por Heidegger.
-
A demonstração, pelo existencialismo sartriano, de todas as implicações desta ontologia negativa.
-
O advento de uma filosofia do nada como marca de uma possibilidade limite da problemática filosófica, constituindo uma autocrítica da pretensão dos sistemas em responder à questão “O que é o Ser?”.
-
A aparição paralela desta filosofia como uma refutação da concepção do devir criador de Hegel e Bergson.
-
A manifestação, com claridade, da impotência de todas as formas de ontologia filosófica em apreender a integralidade do real a partir de pressuposições “cosmologistas”.
-
A coincidência desta filosofia do nada com uma crítica generalizada das “Totalidades” imaginadas pelos dogmatismos filosóficos.
-
O desfecho do ser, encerrado nos limites “substanciais” do mundo e do tempo, na interdeterminação radical do “nada”.
A Perspectiva Metafísica e a Filosofia do Nada: Analogia e Inversão-
O fundamento da perspectiva metafísica também em uma indeterminação aparentemente integral, visada ao termo de um superamento da ontologia habitual.
-
O alcance, pela perspectiva metafísica, de uma indeterminação de plenitude, correspondendo a uma concepção rigorosa do Infinito ou do Absoluto, em vez de uma indeterminação de pobreza.
-
A oposição, em um sentido, entre a perspectiva “nihilista” da filosofia sartriana e a perspectiva metafísica.
-
A forma desta inversão como uma analogia profunda: as duas limites extremas entre as quais se situam as diversas formas do dogmatismo sistemático.
-
A caracterização da metafísica às avessas do “Nada” como um reflexo invertido da metafísica integral fundada sobre o “Super-Ser” ou o “Não-Ser”.
-
A “transdescendência” para a indeterminação de pobreza como um reflexo caricatural da “transascendência” para a indeterminação de plenitude.
-
A direção da transascendência: para a Essência que está além das Essências e existências, para o Um ou o Bem ou o Si que está além do Ser.
-
A consideração de que não há apenas imagem e figura nesta relação.
-
A revelação, pela filosofia do Nada, da possibilidade de um caminho para a perspectiva metafísica para o pensamento contemporâneo.
-
A importância, a este respeito, da autodestruição da metafísica sistemática na filosofia do Nada, superior à crítica kantiana.
-
A contribuição da crítica kantiana para promover as pseudo-metafísicas do dogmatismo temporalista.
-
A constituição da filosofia do Nada como uma prova do absurdo de todas as metafísicas que pretendem a uma experiência integral do real permanecendo no plano das pressuposições do dogmatismo filosófico.
-
A lição a ser tirada do advento da filosofia do nada: a metafísica só é possível ao preço de um superamento do dogmatismo cosmologista que paralisou a filosofia ocidental desde Aristóteles.
-
A afirmação da possibilidade da metafísica, pois ela existe, expressa nas doutrinas dos representantes da perspectiva metafísica.
-
A condição para o reconhecimento deste fato: a transformação radical dos hábitos intelectuais do filósofo, que tende a crer que a verdade fala pela primeira vez por sua boca.
-
A ajuda do advento da filosofia do Nada, mais que as vãs advertências dos censores da metafísica, para realizar o “superamento da metafísica” heideggeriano.
-
A definição deste superamento como sendo o superamento do dogmatismo filosófico para a universalidade e integralidade da perspectiva metafísica.
O Caráter “Existencial” e a Realização Espiritual na Perspectiva Metafísica-
A apresentação, pela perspectiva metafísica, de um segundo caráter que a aproxima de exigências essenciais do pensamento contemporâneo: seu caráter “existencial”.
-
A evidência deste caráter se considerarmos seus representantes como “místicos”, embora esta consideração seja errônea.
-
A denúncia do contra-senso habitual que faz de Shankara um “místico”.
-
A observação de que qualquer filosofia comporta uma ética, e pode haver uma compreensão teórica da perspectiva metafísica.
-
A ênfase na exigência imperiosa de realização espiritual da perspectiva metafísica, devido a seu enraizamento profundo em uma tradição espiritual e ao superamento dos limites da inteligência dianoética.
-
O risco de uma verdade meramente teórica cair, em alguma medida, nos limites e perigos do dogmatismo filosófico.
-
A descrição desta experiência como paradoxal, superando os limites do que Kant chamou de “experiência”, e excluindo arroubos afetivos, visões, etc., familiares aos chamados místicos.
-
A identificação dos representantes da perspectiva metafísica como “espirituais”, preocupados com o problema da “beatitude”, da salvação ou da “Libertação”.
-
A coincidência de seu caminho espiritual com a busca mais objetiva e desinteressada da verdade pelo conhecimento.
-
A transcendência deste conhecimento às antinomias dogmáticas entre ser e conhecer, conhecimento e amor.
-
A ligação estreita deste caráter existencial com a inserção da perspectiva metafísica em uma tradição espiritual determinada.
vallin/perspectiva-metafisica-intro.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
