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SER CÓSMICO

René Guénon o la Tradición Viviente. Francisco García Bazán & Carlos Velloso & Luis A. Vedoya & Alicia Blaser & Olivia Cattedra, 1985

As essências não finitas, as formas universais ou até mesmo o Deus pessoal e criador, dotado de atributos perfeitos conforme a imagem religiosa, são o princípio não manifestado da totalidade do ser cósmico. Esses elementos pertencem à região intuível dos archai—fundamentos eternos e paradigmáticos, que representam a possibilidade invisível e indivisível de todo o cosmos manifestado.

Esse é o nível do Ser propriamente dito, o reino onde existem as raízes ontológicas ou cosmológicas, das quais o mundo é reflexo. Assim, o mundo visível, seu destino e a lei invisível que rege a manifestação, encontram nesse nível seu princípio fundamental.

A filosofia aristotélica definiu a metafísica como o conhecimento dos primeiros princípios que explicam o ente enquanto ente, mas não ultrapassou esse horizonte ontológico ou cosmológico. Da mesma forma, a teologia cristã, ao analisar racionalmente sua fé e especular sobre a natureza divina e seus atributos pessoais, permanece dentro desse mesmo nível de realidade.

Se analisarmos a tradição hindu, encontraríamos um equivalente nesse plano no Senhor do Mundo, Ishvá ou Ishvara, o Brahman qualificado por atributos infinitos como onipotência, onisciência e beleza incomparável—ou seja, o princípio que permite a existência do cosmos mutável. Essa mesma realidade ontológica pode ser identificada no mundo das ideias de Platão, assim como na última dualidade transcendente do Samkhya, representada pelo equilíbrio entre purusha (espírito) e prakriti (natureza).

Embora existam correspondências analógicas entre teologia e metafísica, suas interpretações da manifestação do Ser ou de Deus diferem. Ontologicamente, fala-se de manifestação, isto é, da concretização ou limitação espacio-temporal de uma possibilidade invisível, que permanece imutável em sua essência—como um eixo giratório invisível que, ao se expandir, encontra limites na superfície esférica que gera.

Já na teologia, a ênfase está na criação, concebida como o surgimento de uma nova realidade mediante a intervenção voluntária de Deus através de sua Palavra. No fiat lux, predomina o imperativo, assim como no mito de Prajâpati, onde a perfeição se expande naturalmente.

Na metafísica, a abordagem das ideias é intelectualmente ascética, e os fenômenos emergem espontaneamente. Na teologia criacionista, por outro lado, há uma imagem artesanal, centrada na vontade do homem em criar algo—a concepção que, segundo René Guénon, está influenciada por sentimentos e interesses humanos.

E então, dentro dos limites conceituais da tradição metafísica, o que é o cosmos? Essa questão abre caminho para novas reflexões sobre a relação entre manifestação e criação, e a forma como essas concepções estruturam nossa percepção do universo.

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