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borella:cristianismo-reformado

LUTERO

BORELLA, Jean. The sense of the supernatural. Edinburgh: T&T Clark, 1998.

  • A atitude em relação à figura fundadora da Reforma transformou-se radicalmente ao longo do último meio século, substituindo uma postura de condenação sumária por uma disposição de investigação atenta e compreensão sistemática.
    • Extensão colossal da obra escrita original do reformador abrangendo dezenas de volumes.
    • Mudança de perspectiva que motiva novas indagações sobre suas causas e significados históricos profundos.
  • A alteração de perspectiva entre os teólogos contemporâneos não afetou as declarações oficiais do magistério romano sobre a incompatibilidade doutrinária, mas gerou uma tendência a higienizar a figura do reformador mediante a ocultação de seus abusos verbais e obscenidades.
    • Crítica atual à literatura católica anterior por seu caráter excessivamente polêmico.
    • Criação artificial de uma imagem ecumênica bem-educada que provavelmente desagradaria ao próprio retratado.
  • A personalidade do líder da Reforma e seus traços mais desconcertantes constituem paradoxalmente uma das principais razões de sua aceitação na atualidade, a despeito da extrema grosseria e das invectivas violentas sistematicamente dirigidas à instituição católica, à missa, à teologia e ao papado.
    • Papado classificado nominalmente como o Anticristo e a teologia descrita como obra do Diabo.
    • Excesso de linguagem e rancor presentes até mesmo nos últimos panfletos de controvérsia escatológica.
  • O excesso de ódio e a natureza patológica das agressões verbais atraem a sensibilidade da cultura moderna, a qual, influenciada pela psicanálise e por representações como as de Dostoiévski, Graham Greene e Anouilh, fascina-se pela mistura chocante de baixeza extrema e fé irredutível em Jesus Cristo.
    • Interpretação da violência verbal extremada como o grito desesperado de uma alma ferida.
    • Exibição arrogante da miséria humana conjugada com uma devoção aparentemente pura e sincera.
    • Divórcio profundo entre a natureza e a graça evidenciado como o erro essencial e definidor do luteranismo.
  • O prestígio do reformador consolida-se também na imagem de um herói rebelde e conquistador que, armado exclusivamente de sua convicção no Evangelho, levantou-se solitariamente contra a onipotência institucional da Igreja e do Imperador do Ocidente.
    • Ressonância histórica incontida de sua voz por toda a Alemanha e posteriormente pela Europa inteira.
    • Sucesso duradouro evidenciado por centenas de milhões de adeptos espalhados pelo mundo séculos depois do rompimento original.
  • O advento de um novo cristianismo forjado por uma reinterpretação global da religião transferiu o domínio do sagrado das mãos de uma instituição hierárquica e misteriosa para a posse direta e subjetiva de cada cristão individualizado através do batismo e da fé autônoma.
    • Eliminação da mediação sacerdotal, da tradição e da exegese hierárquica em favor da soberania do crente sobre a própria religiosidade.
    • Formidável subjetivação da relação humana com Deus baseada na negação do poder litúrgico imutável de matriz romana.
    • Promoção generalizada do cristão a um pretenso estado adulto em oposição à longa tutela exercida pela autoridade eclesial.
  • A sedução exercida pela personalidade do reformador, frequentemente subestimada nos meios católicos tradicionais, atrela-se inseparavelmente à força duradoura do próprio cristianismo reformado, cuja construção doutrinária foi impulsionada primariamente pelo peso das circunstâncias históricas imprevistas.
    • Insuficiência do uso de citações pontuais e incriminatórias para anular o profundo fascínio pessoal exercido.
    • Desdobramento prático da inspiração original em um vasto sistema religioso efetivo e independente.
  • A religião estabelecida a partir da Reforma apresenta-se como uma solução razoável e palatável por suprimir a tensão permanente rumo à santidade exigida pelo catolicismo, eliminando a noção de mérito, a complexidade hierárquica e a presença intrínseca do sobrenatural na ordem natural.
    • Redução dos sacramentos e da rica liturgia a uma expressão mínima focada apenas na fé interna e no memorial eucarístico.
    • Rejeição violenta do uso da filosofia e da razão no domínio da fé, ilustrada historicamente pelos ataques frontais aos pensamentos de Tomás e Aristóteles.
    • Manutenção da razão dialética e do raciocínio lógico exclusivamente circunscritos à operação da ordem natural profana.
  • A configuração basilar do protestantismo estabelece-se sociologicamente e teologicamente não como um cristianismo absolutamente inédito, mas como um catolicismo diminuído e supostamente restaurado a uma simplicidade original desprovida de sobrecargas e complexidades sacramentais.
    • Ausência de elementos intrinsecamente bizarros ou escandalosos para a razão moderna na aparência externa e social da religião reformada.
    • Manutenção estrutural da crença fundamental em Deus, na pessoa de Jesus Cristo e na validade do Evangelho.
  • O encontro ecumênico contemporâneo revela um desequilíbrio fundamental e instransponível, pois a religião protestante, comparada por Kant à religião estabelecida nos limites da simples razão, não necessita abandonar nenhum de seus dogmas básicos, enquanto o catolicismo precisaria abdicar de uma incalculável multiplicidade de crenças, sacramentos e práticas.
    • Submissão hierárquica da razão à fé no catolicismo em nítido contraste com a exclusão prévia da razão do domínio da fé promovida no luteranismo.
    • Impossibilidade lógica de reciprocidade absoluta nas concessões doutrinárias entre um sistema religioso complexo e abrangente e um sistema intrinsecamente reduzido e simplificado.
  • O princípio interior e formativo da justificação exclusiva pela fé constitui uma heresia documentada tanto na ordem teológica quanto na filosófica, cuja gravidade conceitual exige análise rigorosa diante das tentativas contemporâneas de elevar o idealizador da Reforma à inusitada condição de Padre da Igreja.
    • Pressão retórica e acadêmica para que os herdeiros do catolicismo peçam perdão histórico pelas condutas pregressas da instituição romana.
    • Aceitação acrítica e sentimental das doutrinas reformadas por parte de clérigos modernos inclinados a ignorar o aprendizado doutrinal rigoroso em nome de uma caridade ecumênica superficial.
  • A sinceridade e a intensidade avassaladora da fé do reformador exercem uma fascinação imperiosa sobre diversos intelectuais e fiéis, transmitindo a percepção ilusória de uma redescoberta purificadora da fonte cristã original totalmente livre das tradicionais regras e das complexas instituições dogmáticas.
    • Reação intensamente emocional e imediata aos textos do reformador como se fossem a emanação de uma nova e irrefreável revelação divina.
    • Indiferença condescendente perante os excessos grosseiros de linguagem e as inevitáveis condenações doutrinárias diante da força persuasiva de uma convicção existencial avassaladora.
  • A experiência subjetiva da fé veicula obrigatoriamente um sistema de princípios especulativos subjacentes, cuja estrutura lógica e teológica latente conduz a consequências inelutáveis e formadoras de toda a realidade espiritual subsequente da doutrina.
    • Analogia anatômica entre a exteriorização visível da psicologia e o esqueleto oculto mas determinante que obrigatoriamente sustenta a motricidade dos músculos corporais.
    • Existencialismo radical e embriagador da relação íntima com Cristo sempre alicerçado em bases doutrinárias específicas de onde emergem fatalmente os desdobramentos lógicos do sistema.
  • A doutrina teológica elementar contida no referido princípio existencial revela-se objetivamente falsa e inerentemente contraditória, gerando ambiguidades especulativas que mantêm os próprios estudiosos especializados em exaustivo e inconclusivo debate sobre sua verdadeira significação mesmo após a passagem de meio milênio de história.
    • Independência absoluta do erro ontológico e doutrinário em relação às eventuais boas intenções sentimentais ou piedosas de seu formulador original.
    • Recusa prática e intelectual contínua da jurisdição teológica tradicional acompanhada, de forma paradoxal, pela persistência da mais profunda obscuridade conceitual em torno da premissa central.
  • A tese reformada basilar cristalizou-se historicamente como um mecanismo psicológico rudimentar forjado para neutralizar o terror obsessivo da condenação infernal, baseando-se na premissa apavorante de que a natureza humana é integralmente corrupta e as melhores obras são completamente incapazes de apaziguar a rigorosa justiça divina.
    • Sensação absoluta de inanidade e inutilidade intrínseca aplicada aos jejuns, atos de caridade assíduos e orações constantes perante a onipresença avassaladora do pecado pessoal.
    • Interpretação disruptiva de uma passagem clássica da epístola aos Romanos identificada como a súbita e tranquilizadora revelação de uma justiça-estado totalmente passiva em direta oposição a uma operante justiça-ação.
  • A justificação salvífica adquire nesta ótica um caráter estritamente forense e exterior, na qual a pureza da justiça de Cristo é imputada de forma extrínseca ao crente como um manto protetor que salva da danação incontornável sem erradicar a condição interna do estado de pecador inveterado.
    • Impossibilidade dogmática da penetração interior transformadora da justiça divina em uma natureza humana assumida como permanentemente imunda e apodrecida.
    • Rejeição total e agressiva do valor ontológico das obras humanas e da missa sacrificial descritas como blasfêmias abomináveis dirigidas contra a exclusividade redentora estrita da crucificação solitária.
  • O sinal infalível e único da salvação pessoal garantida reside na fé subjetiva, a qual atesta interiormente a operação redentora puramente externa e exige simultaneamente a rejeição absoluta de qualquer grau de confiança colaborativa nas obras humanas.
    • Exigência divina radicalmente reduzida de forma exclusiva à crença passiva e totalitária na eficácia redentora na pessoa de Jesus Cristo.
    • Interdependência causal mútua e inseparável solidificada entre a justificação forense exterior imputada e o testemunho psicológico interior e exclusivo da fé individual.
  • A exegese que sustenta a justificação meramente extrínseca e a permanência simultânea do estado paradoxal de justo e pecador diverge radicalmente dos ensinamentos originais de São Paulo e da doutrina católica fundamentada na transformação interior operada pela infusão real da justiça de Cristo na alma.
    • Negação sistemática da premissa de que a santidade e a graça operem como um habitus infuso ou uma qualidade inerente capaz de curar efetivamente as profundezas do coração.
    • Concepção doutrinária da misericórdia divina assemelhada à aplicação superficial de uma simples tinta sobre uma parede intrinsecamente suja e essencialmente inalterada.
  • A incompatibilidade radical e exclusivista postulada entre a ordem natural e a sobrenatural anula violentamente a imanência da graça na criação material e expulsa o sagrado da existência terrestre cotidiana, contradizendo as passagens bíblicas centrais de São Pedro e de São Paulo sobre a transformação em nova criatura e a participação humana na natureza divina.
    • Fechamento intransponível da própria natureza sobre si mesma, trancada na inexorável condenação original ao pecado corrompedor sem vias de santificação da matéria.
    • Rejeição teológica total da ordem sacramental, litúrgica, ritual e eclesial interpretadas legitimamente na tradição como os prolongamentos contínuos e terrestres do mistério da Encarnação divina.
    • Negação direta do poderoso simbolismo agregador representado na figura de Maria, celebrada como a Esposa do Espírito Santo e detentora da capacidade única de reunir o mundo criado e o desígnio Incriado no próprio coração receptivo.
  • A profanação severa da ordem natural atrelada à nova teologia provoca uma inexorável psicologização do domínio espiritual, reduzindo a profunda fé teológica e ontológica a uma mera experiência subjetiva, volitiva e predominantemente sentimental muitas vezes centrada na angústia da miséria e do desespero constantes.
    • Ambiguidade doutrinária patente nos textos fundamentais sobre a natureza exata da fé operando como uma possível realidade sobrenatural residente concretamente na alma humana.
    • Deformação brutal dos temas místicos elevados elaborados originalmente por Tauler, onde a percepção ontológica do nada da criatura converte-se tragicamente em mera danação existencial e dor psicológica.
  • A consolidação da separação impermeável entre as ordens natural e sobrenatural aniquila inquestionavelmente a consistência ontológica basilar da própria realidade humana, a qual, conforme evidenciado de modo consistente nos relatos fundadores do Gênesis e na pregação registrada nos Atos dos Apóstolos, define-se estritamente pela intrínseca deiformidade formadora e pela contínua e inalienável orientação final para o referencial divino atemporal.
    • Impossibilidade absoluta da sustentação lógica ou prática de um humanismo fundado em premissas puramente naturalistas desconectadas da transcendência última.
    • Desvio inexorável em direção a uma busca fatídica e inevitável por uma completude plenamente ilusória nos limites da matéria quando a vocação sobrenatural integradora é sumariamente extirpada do sentido vital.
  • A profanação universal do mundo, a progressiva psicologização do Espírito Santo e a total secularização do ser humano constituem as três consequências filosóficas inelutáveis geradas pelo princípio fundante da Reforma religiosa, cujas antigas barreiras de contenção doutrinária e cultural sofrem atual colapso generalizado face à franca atuação reformista dos recentes intelectuais e católicos neo-luteranos contemporâneos.
    • Incapacidade histórica do próprio idealizador inicial em vislumbrar a devastação acarretada pelos desdobramentos últimos de sua doutrina graças ao amortecimento causado por sua própria sensibilidade cristã residual protetora.
    • Sufocamento parcial e temporário das grandes potencialidades destrutivas implícitas na doutrina contidas historicamente quer pelo teor do Evangelho quer pela desafiante e preservadora presença ambiental de um influente catolicismo intacto atuando em proximidade social e política.
  • O núcleo essencial e impulsionador do dramático tormento do primeiro reformador assenta-se na profunda e incontornável aversão direcionada de forma patológica contra a sua própria natureza humana criada invariavelmente à imagem original de Deus, sentimento sombrio que se converte paradoxalmente na afirmação agressiva e hostil calcada no desmedido orgulho da condição de finitude que atua totalmente desprovida e alienada da devida nutrição gerada pela autêntica apreensão do sentido sobrenatural libertador e restaurador.
    • Fascinação psicológica simultânea e doentia mantida pela própria individualidade atormentada que se revela extremada e poderosa mesmo em meio às manifestações das mais evidentes fraquezas e oscilações passionais flagrantes.
    • Incapacidade persistente e dolorosa de voltar o olhar interior de forma a contemplar o próprio coração aflito revestido com indispensável atitude de humildade genuína sob a luz resplandecente e mitigadora da autêntica misericórdia divina purificadora de todo excesso focado no eu fraturado.
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