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ATANOR

  • O atanor, palavra derivada do árabe attannur (forno), designa o forno em que os alquimistas preparam seu elixir, e além de sua utilidade prática tem significado simbólico: o verdadeiro atanor, utilizado para a obra maior, não é senão o corpo humano e, por conseguinte, uma imagem simplificada do Cosmos.
    • Nos manuscritos alquímicos o atanor representa-se geralmente como uma torreta rematada por uma cúpula, contendo o recipiente de vidro em forma de ovo envolto em camada de areia ou cinza aquecida pelo fogo por baixo.
    • O corpo humano, do ponto de vista alquímico, não é o corpo visível e tangível, mas uma amalgama de forças psíquicas que se apoiam no corpo ou que são acessíveis por meio dos sentidos corporais.
    • A tripla envoltura de paredes de barro, camada de cinzas e recipiente de cristal representa outros tantos estratos ou envolturas da consciência interior físico-psíquica.
  • O mais importante do forno é o fogo, que deve ser de três classes: o calor direto do fogo, o calor uniforme do banho de areia ou cinza e o calor que se gera na própria matéria e atua de modo autônomo.
    • O fogo representa a força erótica que deve ser excitada e dominada para provocar a concentração interna, razão pela qual os alquimistas advertem sempre contra o fogo demasiado vivo ou inconstante.
    • O calor indireto do banho de areia, suave, envolvente e penetrante, significa o recolhimento da alma estimulado e mantido pelo fogo; a cinza é matéria viva que foi calcinada e não pode ser alcançada pelas paixões.
    • O calor latente em todos os corpos que só precisa ser despertado é uma manifestação da força vital interior.
  • Os mestres falam também de três fogos: artificial, natural e antinatural, que correspondem respectivamente à concentração metódica, à vibração da alma por ela provocada que continua atuando naturalmente, e à intervenção do espírito que se produz de modo imediato e constitui uma espécie de graça.
    • O fogo é avivado por uma corrente de ar ou fole, indicando que na concentração alquímica a respiração regulada devia desempenhar certo papel como no yoga.
  • O recipiente hermético ou ovo de cristal, por ser transparente, revela sua natureza psíquica: é a consciência que vira as costas ao mundo para olhar para dentro, e durante a cocção deve permanecer hermeticamente selado para que as forças que se desenvolvem em seu interior não escapem.
    • A forma mais corrente do recipiente é a oval; no corpo humano, o recipiente localiza-se no plexo solar.
    • O ovo hermético é a reprodução microcósmica do ovo universal (Hiranyagarbha) da mitologia hindu, germe espiritual do mundo visível que contém em potência todos os elementos a partir dos quais se desenvolverá o mundo material.
  • A pipa ritual dos índios norte-americanos é um equivalente curioso do forno alquímico, representando também o corpo humano como esquema das forças e processos vitais que o unem ao mundo psíquico e ao cosmos.
    • Antes de encher a pipa, o sacerdote indio espalha o tabaco entre as partes de um esquema geométrico do Universo e, invocando os poderes cósmicos de cada parte, recolhe o tabaco e o mete na pipa para que toda a alma do homem seja transformada pela oferenda da fumaça.
    • A subida da fumaça significa a fusão do eu com o infinito, correspondendo à sublimação alquímica; apresentar a pipa ao céu e à terra recorda a espiritualização do corpo e a corporeização do espírito de que fala a alquimia.
    • A pipa sagrada é o modelo da suprema dignidade do homem, de sua faculdade de reconciliar Céu e Terra.
  • A combinação natural entre espírito e corpo conduz o observador superficial ao materialismo, mas quem vê a justa perspectiva da relação das coisas compreende que os distintos planos da realidade se correspondem como modelo e cópia, pois todo o Cosmos está construído simbolicamente.
    • O olho vê não porque capta de determinada maneira as radiações da luz, mas porque no plano corporal reproduz o olho espiritual, razão pela qual sua forma se assemelha à das luzes do céu.
    • O ouvido ouve porque é similar ao espaço cósmico em que soa a Palavra eterna; a memória acumula impressões porque se assemelha à eterna persistência das possibilidades primordiais no Espírito divino; a imaginação participa à sua maneira da propriedade plástica da matéria-prima; e a palavra tem significado porque o espírito é a Palavra de Deus.
    • Está na essência de todo arte sagrado, que se funda naturalmente no símbolo, integrar o corpo em sua obra e fazer dele sua base metodológica; o asceta despreza o corpo não como símbolo, mas porque vê nele o caldo de cultivo das paixões.
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