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MELQUISEDEQUE
CANTEINS, Jean. Mystères et symboles christiques. Paris: Rocher, 1996
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A distinção entre sacrifício não sangrento e sangrento, presente na Eucaristia e na cruz, fundamenta a investidura dos Apóstolos no sacerdócio durante a Última Ceia, onde receberam o protótipo do sacrifício a ser perpetuado.
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O sacrifício eucarístico é denominado não sangrento em referência às vítimas não imoladas da Antiga Lei, enquanto o sacrifício da cruz é o sangrento, completando o primeiro.
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A celebração do sacrifício não sangrento na véspera do sacrifício sangrento institui uma comemoração antecipada, explicada pela transmissão do protótipo sacrificial aos Apóstolos e seus sucessores.
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A análise de fontes intertestamentárias, como o Livro dos Segredos de Henoc e textos de Qumran, revela diferentes representações de Melquisedeque, ora como figura histórica, ora como entidade celestial que prefigura o Filho de Deus.
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O Livro dos Segredos de Henoc (II Henoc) narra o nascimento miraculoso de Melquisedeque e sua elevação ao céu pelo arcanjo Miguel, apresentando analogias com a história de Jesus.
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Os fragmentos de Qumran incluem a Apocalipse da Genese, que repete a narrativa bíblica, e uma Lenda hebraica de Melquisedeque, onde ele surge como um sumo sacerdote ou arcanjo justiceiro, modelo para o sacerdócio eterno do Novo Testamento.
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A Epístola aos Hebreus, único livro do Novo Testamento a mencionar Melquisedeque, utiliza sua figura e o Salmo 110,4 para fundamentar a superioridade e a perpetuidade do sacerdócio de Jesus Cristo, que não se origina da tribo de Levi.
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O capítulo VII da Epístola aos Hebreus comenta o encontro de Melquisedeque com Abraão, destacando seu nome (Rei de Justiça) e título (Rei de Salém/Rei da Paz), sua ausência de genealogia e seu sacerdócio perpétuo.
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A declaração “Tu és sacerdote para sempre à maneira de Melquisedeque” (Sl 110,4) é usada para justificar a preeminência de Jesus como sacerdote da Nova Lei, apesar de sua origem em Judá.
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A superioridade de Melquisedeque sobre Abraão, que lhe pagou o dízimo e por ele foi abençoado, estabelece a hierarquia do seu sacerdócio sobre o levítico representado por Aarão.
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A incorporação da figura de Melquisedeque pela tradição paulina legitimou o sacerdócio da Nova Aliança fora da linhagem levítica, conferindo ao cristianismo um caráter universal e abrindo a fé aos gentios.
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A menção de Melquisedeque em Gênesis 14, possivelmente um acréscimo editorial, serviu de base para a ruptura com o exclusivismo funcional da tribo de Levi.
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A estratégia de associar Jesus a Melquisedeque permitiu que o cristianismo superasse a restrição judaica, tornando-se uma religião universal (katholiké).
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A outra consequência relevante da assimilação de Jesus a Melquisedeque é a validação do uso eucarístico do pão e do vinho, vistos na oferta de Melquisedeque como a prefiguração do sacrifício da missa.
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A oferta de pão e vinho por Melquisedeque é interpretada pelos cristãos como um antecipação litúrgica do sacrifício eucarístico.
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A realeza e o sacerdócio de Melquisedeque, cujo nome significa “Rei de Justiça” e cujo título “Rei de Salém” significa “Rei de Paz”, possuem uma polivalência que ecoa em outras designações messiânicas, como o “Sol da Justiça”.
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A dupla função de Melquisedeque como rei e sacerdote é central para sua identificação por René Guénon como uma manifestação da função de “Rei do Mundo” na tradição judaico-cristã.
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O título “Sol da Justiça” (Malaquias 4,2), consagrado pela Septuaginta e Vulgata, é aplicado a Cristo na liturgia, notadamente na antífona do dia 21 de dezembro, que evoca temas de luz e libertação das trevas.
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A Epístola aos Hebreus estabelece a superioridade hierárquica de Melquisedeque sobre Abraão, demonstrando a supremacia do seu Deus, El-Elyon, sobre o Deus Shaddai de Abraão, o que justifica o deslocamento do sacerdócio de Cristo da ordem de Aarão para a “maneira de Melquisedeque”.
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O fato de Abraão, ancestral de Levi, pagar o dízimo e receber a bênção de Melquisedeque prova a subordinação do sacerdócio levítico ao de Melquisedeque.
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A fórmula do Salmo 110,4, “Tu és sacerdote para sempre à maneira de Melquisedeque”, é o fundamento para desvincular o sacerdócio de Cristo da esfera cultual judaica.
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O Novo Testamento, através da Epístola aos Hebreus, atribui a Melquisedeque características de transcendência humana e eternidade, tornando-o “semelhante ao Filho de Deus” e estabelecendo uma condição análoga à de Jesus, cujo nascimento virginal também escapa à filiação humana comum.
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A descrição de Melquisedeque como “sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem princípio nem fim” o coloca em uma esfera supra-humana e eterna.
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A concepção de Jesus pelo Espírito Santo e seu nascimento da Virgem Maria criam uma situação análoga à de Melquisedeque, reforçando a similitude entre ambos.
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A identificação do sacerdócio de Jesus Cristo com o de Melquisedeque fundamenta a universalidade e a eternidade da Nova Aliança, libertando-a das limitações de tempo e espaço, de modo que ela antecede a vinda de Cristo e se perpetua após seu retorno ao Pai.
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Por ser “à maneira de Melquisedeque”, o sacerdócio de Cristo é universal, concernindo a toda a humanidade, e eterno, existindo antes e depois de sua vida terrena.
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A transcendência de Jesus às leis da geração e aos limites espaço-temporais é o que valida sua identificação com a ordem de Melquisedeque.
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A análise filológica da expressão “segundo a ordem de Melquisedeque” (do latim ordo, hebraico 'al divrati e grego kata tên taxin) demonstra que a tradução mais precisa é “à maneira de” ou “à semelhança de”, confirmando a ideia de uma similitude ou paridade entre Melquisedeque e Jesus Cristo, e não de uma sucessão institucional.
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O uso do verbo grego aphomoiô (assemelhar, assimilar) no capítulo VII, versículo 3, da Epístola aos Hebreus declara expressamente que Melquisedeque é “semelhante ao Filho de Deus”.
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O capítulo VII da Epístola aos Hebreus é inteiramente dedicado a afirmar a similitude e paridade entre os dois sacerdotes-reis.
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A relação de analogia entre Melquisedeque e Jesus Cristo implica a identidade de seus sacerdócios, uma conjunção que se manifesta de forma plena no uso comum da oferenda eucarística do pão e do vinho por ambos.
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Tudo o que é afirmado sobre Melquisedeque aplica-se, por analogia, a Jesus Cristo, especialmente no que tange à sua função sacerdotal.
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A oferta de pão e vinho por Melquisedeque encontra sua consagração definitiva no mesmo gesto realizado por Jesus Cristo na Última Ceia.
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Embora a universalidade e eternidade do sacerdócio de Melquisedeque tenham importância doutrinal, é o sacrifício do pão e do vinho dele derivado que possui o maior impacto sobre os fiéis, por se traduzir na prática ritual diária da missa.
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A recitação quotidiana do Salmo 110 nas vésperas do breviário romano funciona como um leitmotiv da continuidade funcional entre Melquisedeque e Jesus Cristo.
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A bipolaridade do pão e do vinho na Eucaristia reflete a dupla condição real e sacerdotal de Melquisedeque e de Cristo, relacionando o corpo e o sangue do Senhor.
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Melquisedeque e Jesus Cristo situam-se nos dois extremos da linhagem abraâmica do monoteísmo, com Melquisedeque precedendo e sendo superior ao patriarca, e Jesus Cristo concluindo a Antiga Aliança ao inaugurar uma Nova Aliança universal, cuja duração de dois milênios já confirma a promessa evangélica de um sacerdócio eterno.
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Melquisedeque abençoa Abraão, posicionando-se antes e acima dele, enquanto Jesus Cristo, descendente de Abraão, supera a Lei mosaica ao instaurar uma aliança fundada no amor universal.
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A declaração da eternidade do sacerdócio de Cristo, análoga à de Melquisedeque, encontra uma confirmação temporal na sua persistência por dois milênios.
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