coomaraswamy:anatta
ANATTA
Buddha and the Gospel of Buddhism
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A doutrina de anatta é inseparável da de anicca e afirma que em nenhuma coisa existe uma entidade imutável e, sobretudo, que não existe uma alma eterna no homem, sendo o mundo vazio de um si mesmo ou de qualquer coisa que tenha a natureza de um si mesmo, conforme responde o Buda a Ananda.
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O vazio abrange os cinco receptáculos dos cinco sentidos, a mente e as sensações a ela relacionadas.
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Os estados mentais são fenômenos como quaisquer outros, sem que nada de substancial como uma alma ou um ego esteja por trás deles, assim como os nomes das coisas são apenas conceitos, ilustrados pelos exemplos do rio Ganges e do carro.
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Se se exclui a água, a areia e as margens, o Ganges não pode ser encontrado em nenhum lugar.
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Se o carro é dividido em rodas, timão, eixo, estrutura e assento, nada resta além do nome.
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Da mesma forma, ao analisar as partes que compõem a consciência, nada resta: o indivíduo mantém a aparência de uma identidade de momento a momento, mas essa identidade é constituída apenas por uma série de momentos de consciência.
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Um budista moderno compara a identidade individual a um rio que mantém forma constante e identidade sempre semelhante, embora nenhuma das gotas que o compunham ontem permaneça hoje.
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A compreensão dessa verdade é da máxima importância, pois o indivíduo convicto da noção eu sou uma forma experimenta tristeza, miséria, dor e desespero diante da mudança e da alteração da forma, sendo a similitude do rio um acento sobre a continuidade de uma identidade perenemente mutável, enquanto o exemplo do sono e do sonho sublinha a natureza intermitente da consciência.
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O curso ordinário da existência orgânica, chamado bhavanga-gati, é comparado ao fluxo de um sono sem sonhos.
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A consciência desperta apenas quando algum estímulo externo causa uma vibração no fluxo normal.
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Os budistas descrevem os elementos complexos da existência consciente de dois modos: como nama-rupa, nome e forma, e como os cinco agregados (khandha, skandha), sendo que ambos os esquemas abrangem toda a experiência consciente sem deixar nenhuma atividade atribuível a uma alma.
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Rupa é o organismo físico, a natureza corporal.
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Nama é o nome ou a mente.
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Nama e rupa são exatamente as características pelas quais uma pessoa, de fato complexa e variável, aparece como uma unidade.
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No segundo grupo, maior ênfase é posta sobre os diferentes elementos do fator mental, com o propósito prático de excluir qualquer abertura que possa introduzir a ideia de uma mente ou alma como unidade imutável.
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Vedana é a sensação hedônica de prazeroso, desprazeroso e neutro resultante do contato com objetos sensíveis, produzindo tanha, o desejo, sendo que, segundo Buddhaghosha, não existe uma entidade distinta que percebe, mas apenas a sensação que percebe, em relação causal com o prazer ou outras sensações.
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O pensamento budista não admite um sujeito e concentra sua atenção sobre o objeto.
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Sanna é a percepção de qualquer tipo, sensível ou mental, definida por Rhys Davids como consciência com identificação expressa pela atribuição de um nome.
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Os sankhara formam um grupo composto que inclui cetana, a vontade ou volição, e uma série de cinquenta e um coeficientes de qualquer estado de consciência.
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Vinnana é qualquer consciência da mente, independentemente de quão geral ou abstrato seja seu conteúdo, sendo que os termos rupa e vinnana na classificação quíntupla são usados em sentido mais amplo do que quando empregados para abarcar o conjunto da existência consciente, e o sistema dos khandha foi posteriormente substituído por uma divisão entre citta, mente, e cetasika, propriedades mentais.
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O leitor que deseja estudar seriamente a mentalidade dos budistas pode consultar qualquer um dos dois trabalhos de Rhys Davids sobre o tema, sendo necessário destacar o propósito prático que os budistas se propunham com o uso dessas classificações.
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Buddhaghosha explica que o Sublime estabeleceu cinco agregados, nem mais nem menos, porque eles não apenas resumem todas as classes de coisas condicionadas, mas também não deixam apoio para a alma e para os animistas, incluindo ainda todas as demais classificações.
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Os budistas parecem admitir que seu método de pensamento é inventado expressamente para provar sua tese.
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Os budistas tinham razão em acentuar a importância da complexa estrutura do ego, fato que a moderna pesquisa patológica e médica confirma cada vez mais.
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Essa complexidade do ego, porém, não toca a questão do Atman brahmânico, que é não assim, não assim.
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Com isso conclui-se a exposição fundamental dos pontos de vista retos.
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