BUDISMO – INTRODUÇÃO
Quanto mais superficialmente se estuda o budismo, tanto mais parece diferir do brahmanismo, no qual se originou; quanto mais profundo é o estudo, tanto mais difícil se torna distinguir entre o budismo e o brahmanismo, ou dizer em quais aspectos, se os houver, o budismo não é realmente ortodoxo. A distinção mais evidente encontra-se no fato de que a doutrina budista é proposta por um fundador aparentemente histórico, que teria vivido e ensinado no século VI antes de Cristo. Além disso, há apenas amplas distinções de ênfase. Admite-se quase como certo que se deve ter abandonado o mundo para seguir a Via e compreender a doutrina. O ensinamento dirige-se ou a brahmanes que se convertem de imediato, ou à congregação dos Errantes monásticos (pravrajaka) que já entraram na Senda; entre estes, alguns já são Arhats perfeitos e tornam-se, por sua vez, mestres de outros discípulos. Há também um ensinamento ético para leigos, com mandamentos e proibições quanto ao que se deve ou não fazer, mas não há nada que possa ser descrito como uma reforma social ou como um protesto contra o sistema de castas. A distinção repetida entre o verdadeiro brahman e o mero brahman por nascimento é uma distinção que já se havia estabelecido repetidas vezes nos livros brahmânicos.
Se é possível falar do Buda como um reformador, é apenas no sentido estritamente etimológico da palavra: o Buda não desceu do céu para estabelecer uma nova ordem, mas para restaurar uma forma mais antiga. Embora seu ensinamento seja justo e infalível, isto se deve ao fato de ele ter penetrado completamente a Lei Eterna (akalika dharma) e verificado pessoalmente todas as coisas no céu ou na terra; o Buda descreve como uma vil heresia a opinião de que esteja ensinando uma filosofia sua própria, pensada por si mesmo. Nenhum verdadeiro filósofo jamais veio para destruir, mas apenas para cumprir a Lei. Vi, diz o Buda, a antiga Via, a Velha Senda que tomaram os primeiros Omni-Despertados, e essa é a senda que sigo; e visto que em outras partes louva os brahmanes de outrora que recordaram a antiga Via que conduz ao Brahman, não pode haver dúvida de que o Buda alude à antiga senda estreita que se estende distante, por onde os contemplativos, conhecedores do Brahman, ascendem, liberados (vimuktas), mencionada em versos que já eram antigos quando Yajnavalkya os cita na mais antiga Upanishad.
Por outra parte, afirma-se expressamente que os brahmanes de hoje — embora existam exceções — decairão das graças que pertenciam aos seus antepassados puros e inegoístas. Sob este ponto de vista, e em relação ao fato de o Buda nascer em uma era em que se honra mais a casta real do que a casta sacerdotal, pode-se compreender melhor a razão da promulgação das Upanishads e do budismo quase simultaneamente. Estes dois corpos de doutrina, estreitamente afins e concordantes, ambos de origem nos bosques, não se opõem um ao outro, mas a um inimigo comum. A intenção é claramente restaurar as verdades de uma doutrina antiga. Isto não significa que a continuidade da transmissão nas linhagens dos eremitas dos bosques tivesse sido interrompida, mas que os brahmanes na corte e no mundo, preocupados com as formas exteriores do ritual e talvez demasiadamente interessados em seus emolumentos, haviam se tornado antes brahmanes por nascimento (brahma-bandhu) do que brahmanes no sentido das Upanishads e do budismo, a saber, conhecedores do Brahman (brahmavit). Há pouca dúvida de que a doutrina profunda do Si mesmo fosse ensinada até então apenas em sucessão pupilar (guruparampara) a discípulos qualificados; há plena evidência disso, por um lado, nas próprias Upanishads (a própria palavra upanishad implica sentar-se junto a um mestre) e, por outro, no fato de o Buda falar frequentemente em não guardar nada para trás. O resultado evidente dessas condições seria que aqueles a quem o Buda se refere tão frequentemente como as multidões sem instrução devem ter mantido essas errôneas teorias do alma e crenças na reencarnação de uma personalidade, contra as quais o Buda fustiga tão incansavelmente.
Também poderia ser que os próprios reis, opondo seu arrogante poder ao controle sacerdotal, tivessem cessado de escolher sabiamente seus ministros brahmanes. O arquétipo in divinis para esta situação é fornecido pelo próprio Indra, rei dos Deuses, cegado por seu próprio poder e extraviado pelos Asuras. Por outro lado, para o despertar de uma realeza, como no caso do Buda, tem-se igualmente o paradigma em Indra; pois, ao ser admoestado pelo conselheiro espiritual, a quem deve sua lealdade, Indra desperta (buddhva catmanam) e louva a si mesmo, ao Si mesmo despertado, em laudes nas quais se encontram estas palavras, que o próprio Buda poderia ter usado: Jamais em tempo algum estou sujeito à Morte (mrtyu mara). Tampoco se deve perder de vista que o Indra védico é chamado em mais de uma ocasião de Arhat. E se parece estranho que a verdadeira doutrina tenha sido ensinada, como no caso do Buda, por um membro da casta real, não é raro encontrar-se a mesma situação nas próprias Upanishads. Não era Krishna de sangue real também e, no entanto, um mestre espiritual? O que tudo isso significa é que, quando o sal da igreja estabelecida perde o seu sabor, é antes de fora, e não de dentro, que sua vida será renovada.
As escrituras nas quais se conservam as tradições da vida e os ensinamentos do Buda dividem-se em duas categorias, a saber, as da Via Estreita (Hinayana) e as da Via Larga (Mahayana). Aqui tratar-se-á principalmente da primeira e do conjunto dos textos mais antigos. Os livros que pertencem à Via Estreita estão compostos em pali, um dialeto literário estreitamente aparentado com o sânscrito. A literatura pali situa-se cronologicamente de cerca do século III a.C. até o século VI d.C. O Cânone consta do que se chamam as Três Cestas, respectivamente do Regime monástico (Vinaya), do Discurso (Sutra) e da Doutrina Abstrata (Abhidhamma). A atenção recairá principalmente sobre as cinco classes da literatura do Discurso, na qual se conserva o que se considera as verdadeiras palavras do Buda. Da escrita extracanônica, os mais importantes dos livros antigos são o Milindapanha e o Visuddhimagga. O grande livro do Jataka, composto em sua maioria de antigos materiais mitológicos, retomados em uma forma popular e recontados como histórias dos nascimentos anteriores, é relativamente recente, mas muito instrutivo tanto para o ponto de vista budista quanto para um retrato detalhado da vida na Índia antiga. Todos esses livros estão providos de elaborados comentários naquilo que agora se chamaria a maneira escolástica. Esta literatura será aceita tal como está; pois não se tem confiança na emenda dos textos feita pelos eruditos modernos, cujos métodos críticos se baseiam principalmente em sua aversão às instituições monásticas e em sua própria opinião a respeito do que o Buda deveria ter dito. De fato, é surpreendente que um corpo de doutrina tal como o budista, com sua ênfase profundamente ultramundana e inclusive antissocial, e, nas próprias palavras do Buda, tão difícil de compreender por vós que sois de opiniões diferentes, de outra tolerância, de outros gostos, de outra lealdade e de outra instrução, tenha se tornado tão popular no meio ocidental moderno. Seria mais condizente que as mentes modernas tivessem encontrado no brahmanismo, com sua aceitação da vida como um todo, uma filosofia mais congenial. Resta apenas supor que o budismo foi tão admirado precisamente pelo que não é. Um conhecido escritor moderno sobre o tema observou que o budismo ignorava em sua pureza a existência de um Deus; negava a existência de um alma; e não era tanto uma religião como um código de ética. Pode-se compreender o apelo disso, por um lado, para o racionalista e, por outro, para o sentimentalista. Infelizmente para estes, as três afirmações carecem de verdade, ao menos no sentido em que são compreendidas. A simpatia e a aceitação aqui expressas são para outro budismo que não este, a saber, o budismo dos textos tal como eles se apresentam.
Dos textos da Via Larga, compostos em sânscrito, há poucos, se houver algum, que sejam anteriores ao início da era cristã. Entre os mais importantes estão o Mahavastu, o Lalita Vistara, o Divyavadana e o Saddharma Pundarika. As duas formas principais do budismo às quais se fez referência são frequentemente chamadas, de modo um tanto livre, como a do Sul e a do Norte, respectivamente. A escola do Sul é a que agora sobrevive no Ceilão, Birmânia e Sião. As duas escolas floresceram originalmente juntas na Birmânia, Sião, Camboja, Java e Bali, lado a lado com um hinduísmo com o qual frequentemente se combinavam. O budismo da escola do Norte passou ao Tibet, à China e ao Japão, através da obra de mestres indianos e de discípulos nativos que fizeram traduções do sânscrito. Naqueles dias, não se considerava que o mero conhecimento da língua bastasse para fazer de um homem um tradutor, em qualquer sentido sério da palavra; ninguém se proporia a traduzir um texto sem ter estudado durante anos aos pés de um expositor tradicional e autorizado de seus ensinamentos; e muito menos ainda se consideraria qualificado para traduzir um livro em cujos ensinamentos não acreditasse. Certamente, são poucas as traduções de livros indianos para línguas europeias que podem pretender aos níveis estabelecidos pelos budistas tibetanos e chineses.
Pode-se observar que, enquanto o brahmanismo esteve em certo tempo amplamente estendido na Índia Maior do Sudeste asiático, nunca cruzou as fronteiras setentrionais da própria Índia; o brahmanismo não era, como o budismo, o que se poderia chamar uma fé missionária. A cultura indiana alcançou e influenciou profundamente o Extremo Oriente através do budismo, o qual, por vezes, fundiu-se e, por vezes, existiu lado a lado com o taoismo, o confucionismo e o xintoísmo. A maior influência foi exercida pelas formas contemplativas do budismo; o que fora o Dhyana na Índia tornou-se o Chan na China e o Zen no Japão. Infelizmente, não é possível descrever aqui estas formas do budismo, mas deve-se afirmar que, embora frequentemente difiram grandemente, tanto em ênfase quanto em detalhe, da Via Estreita, representam tudo menos uma degeneração do budismo; os budismos do Tibet e do Extremo Oriente estão calculados para evocar as mais profundas simpatias, igualmente pela profundidade de suas doutrinas e pela pungente beleza da literatura e da arte nas quais se comunicam seus ensinamentos. Resta apenas acrescentar que o budismo havia morrido na Índia propriamente dita por volta do final do século XII.
Sankaracarya, o máximo expositor do vedanta como um sistema, frequentemente foi chamado de um Pracchannabauddha, isto é, um budista oculto. No entanto, o termo vedanta (o Fim dos Vedas, no sentido em que ao Novo Testamento se poderia chamar a conclusão e o cumprimento do Antigo) aparece já nas Upanishads; e o fato é que o Vedanta e o budismo têm tanto em comum desde o início que qualquer exposição de um deve soar como qualquer exposição do outro. Por isso, ocorreu uma fusão do hinduísmo e do budismo na Índia da idade média, e por isso o budismo cessou de existir como uma doutrina separada na Índia propriamente dita. Se foi antes o budismo do que o hinduísmo que pôde emigrar e sobreviver em outras partes, isto se deve principalmente ao fato de que, enquanto o hinduísmo se volta tanto para a vida ativa quanto para a vida contemplativa, o budismo volta-se principalmente para a vida de contemplação e, por essa razão, pode ser ensinado mais facilmente como uma Via de escape das cadeias formais de qualquer ordem social.
