User Tools

Site Tools


coomaraswamy:uso-da-arte

QUAL O USO DA ARTE?

  • O pensamento contemporâneo sobre a arte divide-se primeiramente em uma elite restrita que diferencia as belas-artes da manufatura especializada, valorizando a expressão pessoal do artista e focando a estética e a apreciação artística no estilo e na maneira, em detrimento do conteúdo ou da intenção original da obra.
    • A incompreensibilidade da arte é celebrada por professores de Estética e de História da Arte, que adotam explicações psicológicas e substituem o estudo da arte pelo estudo do indivíduo.
    • A maioria dos artistas modernos segue essa orientação, lisonjeados pela importância atribuída ao gênio pessoal.
  • Em oposição à elite e à grande maioria das pessoas comuns que desconsideram o uso da arte, existe uma visão tradicional, especificamente a doutrina católica ocidental baseada em Tomás de Aquino, que define a arte como a capacidade de fazer ou ordenar corretamente qualquer obra necessária, estabelecendo que não existe bom uso sem arte.
    • A utilidade intelectual e física das coisas exige uma correta fabricação para que possam ser verdadeiramente desfrutadas e não apenas apreciadas superficialmente.
    • As exibições autobiográficas ou sentimentais enfraquecem a moral de quem as consome, assim como uma refeição mal preparada faz mal à saúde.
    • O patrono sensato exige do artista apenas o domínio de sua técnica, desconsiderando completamente a personalidade ou a vida privada do criador.
  • A rejeição da arte pelo homem prático, pelo indivíduo religioso e pelo pensador de classe fundamenta-se na incompreensão de um propósito válido que transcenda a personalidade do artista e a mera ornamentação, consolidando duas visões opostas que tratam de realidades distintas sob o mesmo nome.
    • O homem comum acerta ao desconsiderar uma produção que carece de significado ou de utilidade prática tanto para o criador quanto para o cliente.
    • A visão ortodoxa e historicamente normal equipara a ética à conduta correta e a arte à fabricação correta das coisas necessárias.
    • O questionamento central volta-se para a possibilidade de a arte ser uma necessidade intrínseca, contrapondo-se às manifestações focadas na personalidade.
  • A substituição da manufatura para o uso pela manufatura para o lucro degrada a qualidade e a beleza dos objetos, gerando um cenário industrial pautado na publicidade onde o produtor cria apenas o que vende e o trabalhador torna-se vítima de um sistema que dissocia o ofício do prazer vocacional.
    • A fabricação autêntica não exige custos elevados, salvo pelo emprego de materiais nobres, aproximando-se do valor real apenas quando o artífice atua por inclinação natural e não por mero emprego assalariado.
    • Carey demonstra que o fabricante moderno atua para acumular ganhos financeiros, subvertendo a ordem ideal na qual o lucro deveria servir à manutenção ininterrupta da capacidade de produzir.
    • A qualidade de vida humana subverte-se quando se prioriza a quantidade em detrimento da qualidade, limitando o acesso a objetos concebidos para suprir necessidades verdadeiras.
    • O trabalho fundamenta-se na arte e a conduta na ética, tornando irracional a ideia de que a obrigatoriedade deva ser reservada ao tempo livre e a satisfação alienada da atividade laboral.
  • A divisão moderna das manifestações humanas em categorias estritamente utilitárias e luxuosas anula a função superior de comunicação de ideias, configurando uma brutalidade industrial que se contrapõe à sabedoria dos povos primitivos, cujas criações na escassez sempre conciliaram propósitos práticos e ideológicos.
    • A sociedade contemporânea, apesar de sua vasta disponibilidade de recursos e tendência ao desperdício generalizado, é a primeira a estabelecer historicamente essa separação arbitrária.
    • A escultura cumpria no passado o papel imperativo de instrução das pessoas desprovidas do acesso à literatura.
    • O termo estética, derivado etimologicamente de sensação, corrobora e ratifica a perda definitiva dos valores intelectuais intrínsecos à elaboração manual.
  • O observador comum equivoca-se ao exigir verossimilhança anatômica ou perspectiva nas manifestações antigas, pois a finalidade primordial investiga a natureza causal das coisas e não as aparências ocultadoras, exigindo do expectador uma formação intelectual adequada para a correta compreensão da simbologia alocada nos museus.
    • A relação de intelecção aproxima-se rigorosamente mais da álgebra do que da aritmética, demandando qualificações específicas para ser decodificada, de forma idêntica à assimilação de uma fórmula matemática complexa.
    • As heranças materiais antigas valem-se de uma linguagem esquecida e comunicativa que precisa ser inevitavelmente reaprendida para o correto desfrute de seu propósito informativo original.
  • A ambição dos criadores contemporâneos de expor em museus reflete vaidade e ignorância quanto à finalidade de um objeto, que atinge sua máxima eficácia exclusivamente no ambiente prático e cotidiano para o qual foi originalmente desenhado, como uma residência, uma rua ou uma igreja.
    • A vocação genuína do museu afasta frontalmente a exibição de produções do tempo presente, uma vez que a instituição acumula peças fora de seus contextos vitais.
  • O acervo museológico cumpre o papel de preservar e apresentar objetos antigos de alta qualidade que, embora distantes das necessidades contemporâneas imediatas, ensinam os princípios universais da fabricação correta quando analisados sob a ótica de sua utilidade original, dependendo invariavelmente da orientação técnica para alcançarem a dimensão das pessoas comuns.
    • O ideal benéfico e inatingível seria a reintegração dessas relíquias a mercados acessíveis e orgânicos, onde transitavam outrora a preços justos na rotina ordinária das civilizações.
    • As peças selecionadas por especialistas testemunham urgências extintas e possivelmente mais profundas que as demandas presentes, desencorajando a mera imitação de suas formas externas.
  • A doutrina da arte pela arte, o colecionismo e a reverência estética sustentada pelo paradigma burguês revelam-se uma falácia sentimental e egocêntrica de fuga da realidade, configurando uma vaidade comparável à prática dominical exclusiva da religião e validando hipoteticamente o desprezo imposto pelo pensador de classe.
    • Existe uma contradição flagrante entre a postura de negar qualquer utilidade humana no objeto e simultaneamente exaltar seu valor inestimável perante a coletividade.
    • O cultivo das manifestações superiores da existência restrito às horas de lazer, conquistadas pela substituição mecânica do esforço braçal, demonstra o caráter ilusório das pretensões intelectuais dos produtores modernos.
  • O reformador social e o trabalhador assalariado encontram-se igualmente capturados pela ilusão cultural vigente, movendo-se por inveja econômica em relação aos privilégios do colecionador e transformando a elaboração formal e a virtude em categorias subjetivas pautadas pelo gosto pessoal instável.
    • A vinculação teórica da ética e da produção material ao prazer imediato e sensitivo invalida qualquer alicerce moral ou objetivo, justificando livremente a recusa das boas condutas caso não proporcionem agrado.
  • A imprensa contemporânea, exemplificada por um texto do jornal Nation alinhado ao pensamento de Paul Valery, perpetua o erro conceitual de qualificar a inutilidade como atributo essencial das formas e de igualar ofício e virtude a fins autônomos impulsionados apenas por compensações financeiras, notoriedade ou por si mesmos.
    • A retórica em voga difunde a falsa premissa semântica de que a valoração da obra independe integralmente de sua utilidade.
  • A tese moderna de que a virtude serve de recompensa intrínseca evidencia o entorpecimento provocado pela ilusão burguesa e ofende frontalmente o ensinamento ortodoxo milenar, que classifica inapelavelmente tanto a conduta ética quanto a operação material como instrumentos transitórios para a elevação e a felicidade plenas, refutando-as categoricamente como propósitos definitivos.
    • A assimilação da recompensa autossuficiente aniquila a retidão moral, rebaixando a conduta correta a uma simples manifestação de narcisismo presunçoso.
  • A formulação aristotélica e enciclopédica medieval contrasta o utilitarismo prático da tradição com o sentimentalismo idealista da cultura burguesa contemporânea, determinando que o prazer decorrente da execução primorosa não justifica a prática em si mesma, a não ser sob a ótica deteriorada da vaidade autoexpressiva.
    • A conversão do gozo efêmero derivado da ação no propósito fundamental da existência humana assemelha-se logicamente à patologia do indivíduo que consome alimentos unicamente pelo deleite sensorial passageiro.
  • A dissociação teórica entre utilidade e valor decorre exclusivamente da atribuição de estima a coisas ineficazes ou defeituosas por parte de indivíduos mentalmente adoecidos, embora na experiência do sujeito plenamente são essas duas propriedades coincidam invariavelmente, unificando a fruição ao aproveitamento concreto.
    • Agostinho de Hipona adverte de modo incisivo que o mero deleite visual não configura a beleza universal, pois a atração desordenada por deformidades prova a adoção do que é fundamentalmente inválido.
    • As raízes semânticas do verbo usar na língua alemã e do verbo desfrutar no latim antigo demonstram a correlação orgânica e indissociável entre aplicabilidade material e contemplação.
  • As pretensões pecuniárias, a perseguição da notoriedade pública e a idealização nominal do conceito não justificam a motivação do artífice em estado natural, cuja energia autêntica reside na obtenção de recursos práticos para assegurar a perenidade de sua vocação e materializar o bem inerente ao objeto manufaturado.
    • A evolução histórica atesta a origem estritamente anônima das criações mais imponentes da civilização, tornando a obsessão do operário por reconhecimento público uma fonte incontestável de degradação da dignidade.
    • A justificativa de que a força motriz do trabalho se baseia no próprio conceito da arte encerra um vício de linguagem severo, visto que a técnica orienta a execução assim como a prudência rege a ação, sem que nenhum desses fatores configure o alvo supremo do indivíduo.
  • A ordem civilizatória fundamentada no dividendo corrói o conceito de vocação orgânica e submete as populações à lógica alienante dos empregos destituídos de sentido criativo, impondo a infelicidade através da obrigatoriedade de tarefas divorciadas da aptidão inata e convertendo a mecânica industrial em um projeto existencialmente demoníaco em escala global.
    • O sistema de postos de trabalho assalariado institui a frieza técnica quanto à responsabilidade definitiva pelo produto entregue, aprisionando a força laboral exclusivamente na busca imperiosa por subsistência e participação tarifária.
    • O exercício da função vocacional perfaz o mecanismo indispensável para o desenvolvimento espiritual do cidadão e define o principal critério para a aferição de seu status de dignidade ante a coletividade.
    • Platão preconiza peremptoriamente a execução concentrada de tarefas amparadas na destreza peculiar e inata de cada sujeito como o esteio da justiça individual e como o motor inquestionável do aumento quantitativo e qualitativo das labutas.
  • A alienação cultural em vigor estriba-se no postulado enganoso de restringir a autoria legítima a um agrupamento isolado de gênios, escamoteando a convicção tradicional inabalável de que a retidão processual incide sobre qualquer objeto manipulado e reconhece em toda pessoa ativa e não parasitária um especialista nato munido de saber.
    • O paradigma humano ancestral designa a criação simplesmente como a metodologia escorreita para a superação das obrigações práticas, invalidando em absoluto a fragmentação divisória entre disciplinas utilitárias e emanações estéticas de prestígio.
  • A verdadeira obra-prima descarta os delírios extravagantes concebidos pelo gênio para o assombro da posteridade e consolida-se através da submissão probatória apresentada por um aprendiz no desfecho de seu treinamento estruturado, assegurando a admissão legítima nas corporações de ofício e parametrizando a perfeição técnica imposta a todo o seu período de atuação adulta.
    • A excentricidade do indivíduo exaltado raramente oferta serventias palpáveis à sociedade que deforma, consome e caricaturiza o verniz de seus trejeitos.
    • O referendo formal concedido por mestres tarimbados chancelava a independência produtiva e vinculava intimamente a reputação do artífice à regularidade impecável de suas entregas cotidianas perante a vizinhança.
  • A força motriz da cultura radica-se na integração participativa do artesão com a comunidade envolvente e no desempenho instrumental arraigado no seio das famílias, rechaçando vigorosamente o confinamento contemporâneo das tradições musicais folclóricas em museus excludentes e coletâneas bibliográficas póstumas como sinais indeléveis de declínio e perda irreparável da herança comum.
    • O recolhimento egoísta do gênio divorcia-se completamente da atmosfera gregária habitada e moldada pelo mestre operante.
    • Pepys testemunha a profundidade do tecido comunitário de épocas passadas, onde as exigências para a admissão de serventes domiciliares subordinavam-se irrevogavelmente à capacidade técnica para a sustentação harmônica do coro familiar.
    • A compilação de tradições regionais e o subsídio financeiro a orquestras de elite em capitais ilustram a paralisia cultural e não atestam qualquer grau de riqueza ou vitalidade nos estratos populares.
  • O ordenamento social justo excede o assistencialismo filantrópico e os preceitos universitários para requerer do sujeito laborioso a responsabilidade técnica madura sobre suas empreitadas no lugar de lutas reativas por tempo ocioso e migalhas formativas, focando o resgate impositivo e moral do gozo artístico no próprio ato de conceber e agir visando ao soldo.
    • O confisco desproporcional do esforço despendido justifica integralmente o revide operário em obediência à diretriz perene de que o empenho merece sempre sua contrapartida equânime.
    • A instituição sindical desvia-se de sua responsabilidade máxima ao silenciar sobre a excelência magistral que deve prescrever compulsoriamente a todos os seus congregados.
    • O sistema mecânico que usurpa do assalariado ordinário o encantamento intrínseco pela rotina produtiva nulifica os contornos básicos da prosperidade mental humana e jamais encontra amparo na justiça civilizatória.
  • A obrigatoriedade perene da atividade manual ou técnica converte o esforço em um componente substancial e salutar atrelado à responsabilidade artística do sujeito engajado, demandando a atuação esclarecida e cooperativa do consumidor que fomenta a encomenda zelosa de roupas duráveis em vez da acumulação descartável ou da exaltação museológica monumental.
    • O operário transmuta-se ipso facto na figura de contratante avaliador em cada aquisição de provimentos para sua salvaguarda e sobrevivência civil.
    • A atitude patronal magnânima expressa-se com acuidade na deliberação de encomendar trajes superiores a um alfaiate vivente, anulando a superficialidade caridosa das aristocracias que legam peças defuntas para galerias públicas.
    • A academia estética contemporânea carrega o dever elementar de desintegrar as superstições ilusórias que enclausuram e canonizam a figura do artista acima da normalidade dos homens laborais comuns.
  • A vulnerabilidade econômica perpetrada pelo utilitarismo expropria o labor de sua substância espiritual invisível e subjuga a contenda pela gestão dos arranjos produtivos a ambições cruamente materialistas, emparelhando a cegueira do operário revoltado à aridez do capitalista mediante a idolatria infecunda das vaidades subjetivas no altar do falso intelecto.
    • O lamento insurgente deflagra-se antes pela privação do caráter responsivo e autoral da manufatura do que pelo simples terror da deficiência alimentar.
    • A revolução que se restringe ao revezamento quantitativo do número de gerentes sem restaurar a profundidade criativa não arrefece o flagelo interno da classe.
    • A oferta da própria vida a concepções deitadas como Ciência, Estado e a Arte destituída de emprego bloqueia sumariamente os rumos naturais que viabilizam o apaziguamento humano concreto.
  • A demolição peremptória da validade da arte independente denuncia a crueldade implacável do modelo fabril esvaziado de significado superior, equiparando firmemente a ruína do intelecto na esteira industrial ininterrupta ao trucidamento anônimo presenciado nas trincheiras bélicas.
    • A mutilação do princípio artístico formativo converte inapelavelmente as engrenagens de reprodução assalariada em matadouros morais destinados à bestialização e mortandade anímica de seus operadores sucessivos.
coomaraswamy/uso-da-arte.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki