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AFRODITE URÂNIA. EROS E BELEZA
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Diotima, após falar da imortalidade temporal na espécie, alude aos “mais altos mistérios revelados” e retoma a distinção atribuída a Pausânias em “O Banquete” entre as duas Afrodites: a Afrodite Urânia e a Afrodite Pandêmia, sendo uma o amor vulgar e outra o amor de caráter divino.
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A contraposição diotimiana entre os que geram carnalmente e os que dão vida a filhos imortais através de criações de artistas, legisladores e moralistas não tem relação com os mistérios mais altos, mas com o puro humanismo de cultura.
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Uma imortalidade reduzida à pura sobrevivência na fama e na memória dos homens é eventualmente ainda mais efêmera do que a sobrevivência na espécie, situando-se em domínio totalmente profano.
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Os Mistérios helênicos já haviam ensinado que homens como Epaminondas ou Agesilau não deveriam esperar destino privilegiado após a morte por suas obras, destino de que até malfeitores poderiam ter beneficiado se tivessem sido iniciados.
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A teoria do amor como desejo de beleza pura e abstrata, exposta por Diotima ao tratar dos mais altos mistérios, parte de um dualismo que torna o conjunto assexual, pois fala de um Eros desperto não pela relação magnética com uma mulher, mas pela beleza que progressivamente deixa de ser a beleza dos corpos para tornar-se a beleza como ideia.
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O mito subjacente se modifica: o eros sob o signo de Afrodite Urânia se identifica ao que em “Fedra” se baseia na anamnese, na “recordação” não do androginato mas do estado pré-natal em que a alma contemplava o mundo divino.
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O amor verdadeiramente ligado ao sexo é apresentado como o corcel negro do carro simbólico da alma que vence o corcel branco, quase como uma queda devida a um erro da recordação transcendental.
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Marsílio Ficino definirá o verdadeiro amor como “o desejo de beleza” e dirá que a “fúria venérea” e o desejo do coito se manifestam como movimentos contrários ao amor.
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Da teoria diotimiana do amor como desejo de beleza pura somente pode ser aproveitada a ideia de um eros cuja degradação animal e genésica é impedida por transposição e exaltação, com a condição de continuar relacionado com a mulher e a polaridade sexual; com a beleza pura e abstrata permanece-se no domínio da metafísica, mas sai-se certamente do âmbito da metafísica do sexo.
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Há razões para duvidar que essa teoria esteja ligada a algum ensinamento dos Mistérios tal como pretende Diotima, pois embora o tema do androginato reapareça na misteriosofia e no esoterismo das mais diversas tradições, o mesmo não pode ser dito do “amor platônico”.
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Nos desenvolvimentos renascentistas do amor platônico não são conhecidas escolas místicas ou de Mistérios em que tenha surgido uma técnica do êxtase efetivamente seguida.
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A mística plotiniana da beleza apresenta caráter diferente: em Plotino o belo vem relacionado com “a ideia que liga e domina a natureza inimiga privada de forma”, resultando numa relação completamente fora do âmbito das tensões eróticas e do sexo, manifestada na grandeza de alma, na justiça, na sensatez, na energia viril e na inteligência digna de um deus.
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A questão de se o caráter específico do sentimento estético depende de seu “apolinismo” e de sua ausência total de relação com o eros, como sustentam Kant, Schopenhauer e certas estéticas recentes, levanta o problema de que a mulher considerada unicamente sob o aspecto de beleza pura não é a mais apta a despertar o magnetismo sexual e o desejo.
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O mesmo ocorre com a estátua nua em mármore: sua contemplação pode despertar emoção estética mas nada diz em matéria de eros, pois falta-lhe a qualidade yin, o demoníaco, o abissal, o fascinante.
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É frequente que as mulheres que mais êxito obtêm não possam ser consideradas propriamente belas.
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A teoria platônica de beleza constitui algo de especial e não facilmente inteligível em termos existencialistas, podendo relacionar-se ao amor platônico como uma embriaguez particular semimágica e semi-intelectual, embriaguez das formas puras, distinta da “via úmida” do amor dos místicos e inseparável do espírito de uma civilização que vê o crisma do divino em tudo quanto é limite e forma perfeita.
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Quando se aplicam concepções desse gênero às relações entre os dois sexos, o resultado é um dualismo paralisante, como se vê em Giordano Bruno que, ao tratar os eroici furori segundo a teoria platônica, ataca violentamente o amor pela mulher, dando-lhe uma imagem impiedosa.
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No epílogo da obra de Bruno, Júlia, símbolo da verdadeira mulher, diz aos amantes que recusou que foi graças à sua “recalcitrante mas também simples e inocente crueldade” que lhes concedeu favores incomparavelmente maiores, ao desviar o eros deles para a beleza divina: a cisão é completa e a direção nada tem a ver com o sexo mesmo em suas formas “exaltadas”.
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Claramente a concepção do duplo eros conduz a uma “primitivização” e a uma degradação de toda a espécie de amor sexual e ao desprezo de suas possibilidades mais profundas.
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Plotino soube manter as ideias platônicas dentro de seu justo limite ao considerar, além do homem que “só ama a beleza”, aquele que o amor impele à união e que tem ainda o desejo de imortalidade no que é mortal, procurando o belo numa procriação e numa forma de beleza que se continua.
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Para Plotino, aqueles que amam a beleza nos corpos, embora com amor misto, amam todavia a beleza, e ao amar as mulheres para perpetuar a vida amam o que é eterno.
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