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LUGAR HISTÓRICO DA DOUTRINA DO DESPERTAR

DOUTRINA DO DESPERTAR

  • Do ponto de vista “tradicional” adotado na obra, as grandes tradições históricas não são “originais” nem arbitrárias, pois em toda tradição digna do nome estão presentes, de uma forma ou outra, elementos de um “conhecimento” enraizado em uma realidade superindividual e objetivo.
    • Cada tradição contém seu próprio modo especial de interpretação, que tende a variar com o clima histórico e espiritual predominante, e nisso se encontra a razão para certas formulações, adaptações ou limitações do conhecimento único.
    • O crítico que tenta a todo custo atribuir a etiqueta de “original” ao Budismo ou a qualquer grande tradição comete um erro fundamental, pois tanto a diferença quanto o elemento em comum com o que a precede são determinados por razões objetivas.
  • Para compreender as implicações precisas da doutrina budista é necessário retornar às tradições indo-arianas pré-budistas, distinguindo entre duas fases fundamentais: a védica e a dos Brahmana-Upanishad.
    • O termo veda, da raiz vid equivalente ao grego id, significa “eu vejo” e refere-se a uma doutrina baseada não em fé ou “revelação”, mas em um conhecimento superior atingido por um processo de visão: os Vedas foram “vistos” pelos rishi, os “videntes” dos primeiros tempos.
    • É frívolo ver nos Vedas a expressão de uma “religião puramente naturalista”; o que a parte mais essencial e mais antiga reflete é um estágio cósmico do espírito indo-ariano, no qual os vários “deuses” védicos são projeções de experiências de significados e forças diretamente percebidas no homem, na natureza ou além, através de um conceito cósmico, heroico e “sacrificial”.
  • O pensamento fundamental contido em poemas épicos como o Mahabharata remonta à mesma época védica, na qual homens, heróis e figuras divinas aparecem lado a lado, podendo os homens “ver os deuses e ser vistos por eles”, como disse Kerényi ao referir-se à fase olímpico-homérica da tradição ário-helênica.
    • O elemento olímpico se reflete em um grupo típico de divindades védicas: Dyaus, senhor da luz celeste e origem do esplendor, força e conhecimento; Varuna, símbolo de poder celestial e régio, ligado à ideia de rita, ordem cósmica e lei natural e sobrenatural; Mitra, deus das virtudes arianas de verdade e fidelidade.
    • Surya, o sol flamejante; Ushas, a aurora eternamente jovem; e Indra, encarnação do impulso heroico e metafísico dos primeiros conquistadores hiperbóreos, são evocados como figuras centrais do panteão védico.
  • No Vedas a experiência cósmica é evocada por meio da ação sacrificial, que estende a experiência humana ao não-humano e provoca comunhão entre os dois mundos, de modo que o sacrificante assume os traços de um deus na terra (bhu-deva).
    • Quanto à vida após a morte, a solução védica é consonante com o mais antigo espírito ário-helênico: imagens de infernos obscuros estão quase totalmente ausentes das partes mais antigas, e os mortos passam a uma existência de esplendor que é também um “retorno”.
    • O rito simbólico védico de “apagar as pegadas” para que os mortos não retornem entre os vivos mostra como a ideia de reencarnação era quase totalmente ausente nesse período, incompatível com a tensão heroica, sacrificial e metafísica da época.
    • Yama retém os contornos de seu equivalente irano-ariano Yima, rei solar da era primordial, e o “além” védico está em grande medida ligado à ideia de uma reintegração do estado primordial.
  • Por volta do século X a.C. novos desenvolvimentos começaram, expressos nos textos Brahmana e nos textos Upanishad, ambos remetendo à tradição dos Vedas, mas com uma mudança notável de perspectiva em direção à “filosofia” e à “teologia”.
    • A especulação dos textos Brahmana repousa sobre a parte dos Vedas referente à ação ritual e sacrificial, concebida em todas as civilizações tradicionais não como cerimônia vazia, mas como operação com efeitos reais capaz de impor-se sobre forças suprassensíveis.
    • O termo brahman (no neutro, não confundir com Brahma no masculino) originalmente significava essa energia particular, essa espécie de poder mágico sobre o qual repousa o ritual.
    • Nos textos Brahmana o ritual se tornou o centro de tudo e objeto de uma ciência fastidiosa que frequentemente se tornou um formalismo destituído de conteúdo vital; Oldenberg, referindo-se ao período do príncipe Siddhattha, fala de uma “ciência idiota que tudo sabe e tudo explica”.
  • Os Upanishads concentraram-se principalmente na doutrina do atma, que refletia em grande medida o original sentimento cósmico e solar da mais antiga consciência ariana, enfatizando a realidade do “Eu” como princípio superindividual, imutável e imortal da personalidade, oposto à múltipla variedade dos fenômenos e forças da natureza.
    • O atma é definido por neti neti (“não assim, não assim”), ou seja, pela ideia de que não pertence à natureza nem ao mundo condicionado.
    • Na Índia, a corrente especulativa dos Brahmana e a dos Upanishads gradualmente convergiram, resultando na identificação do brahman com o atma, o que constituiu uma conquista metafísica mas ao mesmo tempo iniciou um processo de dissolução espiritual.
  • A doutrina da identidade do atma com o brahman foi, nos textos Upanishad mais antigos, acompanhada de uma incerteza persistente quanto à relação efetiva entre o “Eu” individual de quem cada um pode falar e o atma-brahman.
    • Por vezes a unidade do indivíduo com o atma-brahman era adiada para após a morte, com condições postuladas para que acontecesse, e era considerado o caso em que os elementos da pessoa poderiam não sair do ciclo das existências finitas e mortais.
    • Isso não foi acidental: correspondeu a um estado de consciência já incerto, em que, embora para os adeptos da “doutrina secreta” o “Eu” pudesse ser efetivamente igualado ao atma, para a consciência geral o atma estava se tornando um simples conceito especulativo.
  • O perigo de confusões panteístas se manifestou, sendo real a possibilidade de um desvio panteísta encorajado pela assimilação do atma com o brahman, tanto mais quanto que nos mesmos Upanishads é dada proeminência à identidade do atma-brahman com elementos do mundo naturalístico.
    • A teoria dos quatro yuga, correspondente exatamente à teoria clássica das quatro idades e da descida do homem à última delas, a Idade do Ferro, equivalente à Idade das Trevas (kali-yuga) dos indo-arianos, atesta o processo de regressão progressiva.
    • A formulação da teoria da identidade do atma com o brahman forneceu um incentivo perigoso à autoidentificação confusa com a espiritualidade de tudo, exatamente quando uma reação enérgica de concentração, desapego e despertar era necessária.
  • Os germes de decadência que se manifestavam no período pós-védico e se tornaram evidentes no tempo do Buda (século VI a.C.) são o ritualismo estereotipado, o demônio da especulação que transformou a “doutrina secreta” em uma multidão de teorias divergentes, seitas e escolas, a transformação “religiosa” de muitas divindades em objetos de cultos populares, e o perigo panteísta.
    • A teoria da reencarnação, ausente no período védico primitivo por ser incompatível com uma visão olímpica e heroica do mundo, é atribuída a influências estrangeiras não-arianas, pertencendo às raças telúricas e matriarcais como a Dravidiana e a Kosaliana.
    • Nos textos Brahmana a teoria do duplo caminho já aparece; nos Upanishads, a “via dos deuses” (deva-yana) conduz ao incondicionado “sem retorno”, enquanto a pitri-yana é aquela pela qual “se retorna”; o sábio Yajnavalkya ensinou ao rei Artabhaga que o que resta após a dissolução individual é apenas o karma.
  • Em oposição às correntes especulativas, correntes práticas e realistas se estabeleceram gradualmente, incluindo a Sankhya, que opôs ao perigo panteísta um rígido dualismo, e as correntes do yoga, que reconheceram mais ou menos explicitamente que o atma não aparecia mais como consciência direta e devia ser considerado como o limite de um processo de reintegração.
    • No tempo do Buda existia uma casta de theologi philosophantes que administrava os restos da tradição antiga, tentando estabelecer um prestígio que nem sempre correspondia às suas qualificações humanas ou à sua raça espiritual.
    • O kshatra forneceu o principal apoio não só ao sistema Sankhya como também ao Jainismo, a chamada doutrina dos “vencedores” (de jina, “conquistador”), que colocava ênfase na necessidade da ação ascética.
  • Do ponto de vista da história universal, o Budismo surgiu em um período marcado por uma crise percorrendo toda uma série de civilizações tradicionais, chamado por alguns de “climactério” da civilização, situado aproximadamente entre os séculos VIII e V a.C.
    • Nesse período se enraizaram as doutrinas de Lao-tzu e Confúcio na China, “Zaratustra” surgiu na Pérsia, e o Budismo realizou na Índia uma função análoga de reação e reelevação.
    • No Ocidente predominaram processos de decadência: declínio da Hélade aristocrática e hierática, supressão da civilização solar e régia egípcia pela religião de Ísis, início dos fermentos de corrupção e subversão do profetismo israelita no mundo mediterrâneo; a única contrapartida positiva ocidental parece ter sido Roma.
  • O Budismo não foi uma revolução antitradicional nem uma doutrina “nova” resultado de especulação isolada, mas uma adaptação particular da tradição indo-ariana que, tendo em conta as condições predominantes, reformulou de modo fresco e diferente ensinamentos preexistentes, aderindo estreitamente ao espírito kshatriya, o espírito da casta guerreira.
    • O Buda era nascido da mais antiga nobreza ariana, e seu povo, os Sakiya, nutria uma aversão particular pela casta brahmana, tendência mantida pelo príncipe Siddhattha com o objetivo de restaurar e reafirmar a pura vontade para o incondicionado.
    • O próprio Buda afirma que os “santos Perfeitos Despertos” de épocas passadas e futuros dirigiram e dirigirão seus discípulos para o mesmo fim que ele, e a doutrina e a “vida divina” proclamada pelo príncipe Siddhattha são repetidamente chamadas de “atemporais” (akaliko).
  • Os Brahmanas contra os quais o príncipe Siddhattha se volta são os que dizem saber mas nada sabem, que há muitas gerações perderam a faculdade de visão direta, que abandonaram as leis antigas e se assemelham a “uma fila de cegos em que o primeiro não vê, o do meio não vê e o último não vê”.
    • O Buda opõe-se ao que conhece “apenas por ouvir dizer” e distingue os ascetas e brâmanes que “apenas pela sua própria crença” professam ter atingido a mais alta perfeição de conhecimento daqueles que “reconhecem claramente em si mesmos a verdade em coisas nunca antes ouvidas”.
    • O Budismo não nega o conceito de brahmana; ao contrário, os textos usam a palavra com frequência e chamam a vida ascética de brahmacariya, com o objetivo de indicar as qualidades fundamentais em virtude das quais a dignidade do verdadeiro brahmana pode ser confirmada.
  • A verdadeira atitude do Buda em relação ao problema das castas não é uma subversão igualitária sob pretextos espirituais, mas uma retificação e epuração da hierarquia existente, com o princípio proclamado de que “não pela casta se é um pária, não pela casta se é um brahmana; pelas ações se é um pária, pelas ações se é um brahmana”.
    • As castas apareceram ao príncipe Siddhattha como perfeitamente naturais e justificadas transcendentalmente, e nunca lhe preocupou subverter o sistema de castas no plano étnico, político ou social; ao contrário, é estabelecido que um homem não deve omitir nenhuma das obrigações inerentes à sua condição.
    • O ponto decisivo foi a identificação do verdadeiro brahmana com o asceta, com ênfase sobre o que de fato se evidencia pela ação.
    • O Budismo afirma, além da antiga divisão em castas, outra mais profunda e íntima: de um lado os Ariya e os “nobres filhos movidos pela confiança”; de outro, “os homens comuns, sem compreensão para o que é santo, remotos da doutrina santa”.
    • O estabelecimento e a difusão do Budismo nunca causaram dissolução do sistema de castas nos séculos posteriores; no Ceilão esse sistema continua ao lado do Budismo, e no Japão o Budismo vive em harmonia com conceitos hierárquicos, tradicionais, nacionais e guerreiros.
  • A doutrina budista dos sankhara, ou predisposições pré-natais, retifica a afirmação de que em indivíduos de todas as castas todas as potencialidades positivas e negativas existem em igual medida, e quatro vias são consideradas em alguns textos budistas, das quais a quarta, chamada “caminho dos eleitos”, é reservada aos que gozam das vantagens conferidas por um bom nascimento.
    • O príncipe Siddhattha declarou ter atingido o conhecimento por seus próprios esforços, sem um mestre que lhe mostrasse o caminho; assim, na Doutrina do Despertar original, cada indivíduo deve apoiar-se em si mesmo e em seus próprios esforços.
    • O Budismo pode legitimamente tomar seu lugar, em uma comparação de tradições, com a raça que se poderia chamar de heroica no sentido do ensinamento hesiódico sobre as “Quatro Idades”: um tipo de homem em que a espiritualidade pertencente ao estado primordial não é mais tomada como algo natural, mas se tornou um objetivo, o objeto de uma reconquista.
  • Embora na época do príncipe Siddhattha já existisse um certo obscurecimento da consciência espiritual e da visão metafísica do mundo, o curso posterior da história ocidental produziu uma crescente regressão, materialismo e individualismo, chegando ao ponto em que o objeto de conhecimento direto para o homem moderno é exclusivamente o mundo material.
    • A religião ocidental baseada na fé não é inteiramente um caso de tentativa de salvar o que ainda poderia ser salvo, mas antes um conselho do desespero: quem há muito perdeu todo contato direto com o mundo metafísico só pode adotar como forma de religio aquela fornecida pela crença ou fé.
    • O Protestantismo enraizou-se em um período em que o humanismo e o naturalismo inauguravam uma fase de “secularização” do homem europeu, e sua ênfase no princípio da pura fé, a desconfiança das “obras” e a oposição a toda organização hierárquica e mediação são características desta situação.
  • Um sistema rigorosamente baseado no conhecimento, livre de elementos de fé e intelectualismo, não vinculado à tradição organizada local, mas orientado para o incondicionado, tem algo a oferecer em um período de crise espiritual, embora esse caminho só seja adequado a uma minoria muito pequena dotada de excepcional força interior.
    • O Budismo original pode ser recomendado como poucos outros sistemas, particularmente porque, quando foi formulado, a condição da humanidade já manifestava alguns dos sinais e sintomas do declínio espiritual, embora ainda longe dos estreitos do materialismo ocidental.
    • O Budismo é uma adaptação prática e realista das ideias tradicionais, principalmente no espírito do kshatriya, da casta guerreira ariana, e isso o torna especialmente relevante para o homem ocidental, cuja linha de desenvolvimento foi guerreira e cuja inclinação para a clareza, o realismo e o conhecimento exato produziu as realizações mais típicas de sua civilização.
    • Outros sistemas metafísicos e ascéticos podem parecer mais atraentes, mas tendem a fornecer ao homem moderno oportunidades de ilusões e equívocos; o Budismo, ao contrário, coloca um problema total sem saídas e sem “leite para bebês” nem festas metafísicas para amantes da especulação intelectual.
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