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DOUTRINA INICIÁTICA DA IMORTALIDADE

DOUTRINA DO DESPERTAR

No que concerne à doutrina iniciática da imortalidade, alguns julgaram que, ao negar o que, na religião cristã, corresponde à noção de “alma imortal”, própria de cada homem, ter-se-ia “ido além do alvo”. Admitindo-se mesmo que a imortalidade, como experiência efetiva para o homem, não seja um dado, mas uma possibilidade e um fim, com isso — disse-se — não ficaria excluída a existência de princípios eternos no ser humano, os quais sempre existiram e sempre operaram nele, sem, contudo, cair sob a luz da consciência.

Responder-se-á a isto que, ainda que tais princípios eternos existissem de fato, o Eu não os perceberia, e, por conseguinte, tanto menos poderia pô-los em ato e neles assimilar-se, de modo que, do ponto de vista positivo e experimental, quanto aos efeitos de sua imortalidade, tudo se passa como se esses princípios não existissem. A consolação seria análoga àquela que forneceria um materialista, o qual diria que a “alma”, é certo, extingue-se com a morte, mas que, contudo, a matéria que compõe o homem subsiste, indestrutível.

Uma mesa, por exemplo, pode existir, e eu posso saber, ou não, que ela é. Mas, quanto ao Eu, não se pode dizer o mesmo: não há, de um lado, o Eu e, de outro, a consciência do Eu, pois a substância do Eu é a própria consciência; seu ser é o ser consciente. É por isso que não se pode conceber algo do Eu que subsista quando sua consciência se extingue, mais ou menos como a mesa subsiste independentemente de eu estar, ou não, presente para olhá-la. Quando se apagam a consciência e o sentido da autoidentidade, apaga-se também o Eu, e aquilo que pode subsistir, seja eterno ou não, material ou espiritual, já não é propriamente ele.

Um Eu, do qual o Eu humano não é senão um reflexo, e que pode corresponder ao atma das Upanishads e ao purusha do Samkhya, foi, efetivamente, admitido no quadro doutrinal. Mas o que o homem experimenta positivamente como seu “si mesmo” não é um Eu semelhante, é o Eu refletido. Se se quiser, não se falará de uma dissolução da alma no momento da morte, mas do reflexo que é reabsorvido no princípio transcendente que o projetou: o que, em termos religiosos e panteístas, poderia também ser dito um ser da alma reabsorvida em Deus. Deve-se, porém, convencer-se de que, com palavras diversas, diz-se aqui a mesma coisa, pois entre o Eu-reflexo e o Eu-absoluto não existe continuidade, e o ser reabsorvido do primeiro no segundo equivale, do ponto de vista do segundo, exatamente à sua dissolução. As coisas teriam podido transcorrer de outro modo se tivesse ocorrido a integração ativa e consciente da imagem, ou do reflexo, na sua origem — o que, contudo, equivale ao próprio fim da iniciação em seus diversos graus.

Quanto aos outros elementos que sobrevivem, deixando de lado os resíduos e o fac-símile psíquico, destinado também a morrer, resta aquilo que a tradição hindu denomina karma e acerca do qual os teósofos tanto divagaram. Mas também o que se relaciona ao karma nada tem a ver com a verdadeira imortalidade, pois trata-se, aqui, de um jogo de forças impessoais, encerrado na esfera da existência condicionada samsarica). O ensinamento correspondente é que, assim como o homem, por geração animal, pode dar existência a outro indivíduo, distinto de si, a quem transmite sua hereditariedade biológico-filética, do mesmo modo suas ações podem determinar uma força que será causa de outro ser, cujas características terão certa relação com essas mesmas ações. Tal é o karma, e é por isso que foi ensinado que o que resta, quando o homem se dissolve em seus diversos componentes — os quais retornam às suas cepas de origem —, é o karma. Mas, em todo esse processo, interpretado erroneamente como reencarnação da “alma imortal”, não se encontra base alguma para a continuação de uma autoidentidade, isto é, de um Eu, pois, em tal plano, a continuidade é simplesmente impossível.

Trata-se, no máximo, do que pode sugerir a imagem conhecida de uma chama que acendeu outra: o fogo é o mesmo, uma chama suscitou outra, mas trata-se sempre de outra chama, em relação à primeira. No domínio kármico, este é o último termo. Trata-se de uma ordem de coisas “física”, à sua maneira, que em nada diz respeito ao destino da personalidade espiritual.

Muito mais interessantes são, talvez, as considerações que caberia fazer acerca do caso de um grupo de existências e, portanto, de “Eus”, podendo ser considerado como múltiplas manifestações e encarnações (mas não reencarnações) de um mesmo princípio de ordem superior que, tendo-se inserido no “corrente”, no domínio da realidade condicionada e contingente, tende para o cumprimento. Cada uma dessas existências e cada um desses “Eus” assume, em tal caso, o significado de uma tentativa particular, que conduz mais ou menos adiante.

Uma imagem poderia ser a de uma única e mesma tropa que se lança ao assalto por saltos sucessivos: as primeiras fileiras avançam, alcançam o objetivo, são ceifadas ou dispersas; outras as sucedem, indo mais ou menos além do primeiro objetivo, perdendo ou ganhando terreno, até que, em uma de suas ondas de assalto, possa lograr a realização do fim originário e comum a todas as demais: é então que a série se encerra.

Considerando, pois, que esses diversos elementos de uma tropa representam os “Eus” individuais e as existências particulares, dir-se-á que nem mesmo aqui se trata de falar de reencarnação, pois não é que uma onda continue na seguinte, uma vez que se dispersa e se esgota, se não tiver atingido seu fim — a unidade encontrando-se, no máximo, alhures, no exército enquanto unidade de que todas as ondas de assalto fazem parte, e na única e mesma intenção que informou as ações individuais.

O símbolo ibseniano do “fundidor de botões”, que lança à refundição os botões malformados para esforçar-se em produzir outros melhores, poderia aplicar-se a essa ordem de ideias, a qual, com referência precisa a concepções iniciáticas, reaparece frequentemente nos livros de Gustav Meyrink. O botão bem-sucedido e a onda de assalto que, por fim, atinge o objetivo prefixado, depois que todas as outras foram ceifadas, teriam sua correspondência no ser no qual se realiza a supracitada reintegração iniciática, e que se identifica com o tipo mesmo do Desperto.

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