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evola:humanismo

HIERARQUIA TRADICIONAL E HUMANISMO MODERNO

EVOLA, Julius. Symboles et “mythes” de la Tradition Occidentale. Milano: Archè, 1980.

* A compreensão do espírito tradicional e de sua negação pelo mundo moderno remonta ao ensinamento fundamental das duas naturezas, presente em todas as tradições verdadeiras do Oriente e do Ocidente.

  • Há um ordem física e uma ordem metafísica, uma natureza mortal e uma natureza imortal, uma razão superior do ser e uma razão inferior do devir.
  • Esse ensinamento não é oposição de conceitos, mas de duas experiências e duas modalidades reais do ser.
  • A dificuldade contemporânea de compreensão decorre de que a realidade passou a ser identificada exclusivamente com o mundo dos corpos.
  • As faculdades mentais, sentimentais e volitivas do homem eram consideradas, na visão tradicional, partes integrantes da natureza inferior, desprovidas de ser em si e sujeitas ao nascimento, à morte e à mutação.
    • O corpo e os sentidos geravam a imagem material do mundo, mas as faculdades humanas pertenciam igualmente ao domínio do devir.
    • O estado metafísico do ser e da consciência não tinha, por definição, contato com os estados e condições humanas.
  • O samsara hindu, o princípio inferior do helenismo e a matéria em Plotino convergem na identificação do devir com desejo, febre, impotência e ausência de forma própria.
    • O samsara denota, por sua raiz, um estado de desejo, febre, mania e unificação irracional.
    • Plotino descreve a natureza inferior como aquilo que flui e foge indefinidamente, sem vida nem bem próprios, portadora de uma fraqueza que impede a realização perfeita.
    • A matéria e o devir eram identificados ao princípio do caos, da desordem e da necessidade, designados como adharma e apeiron.
    • O devir exterior era considerado apenas uma alegoria cujo sentido dependia dessa condição interior.
  • Pertencer a si mesmo, não mais fugir e dominar em si o princípio da própria vida definia o estado de ser, o mundo daquilo que, na consciência, não é mais físico e escapa à contingência temporal.
    • Os deuses e os símbolos ouranianos eram a figuração desses estados de consciência libertada e reintegrada.
    • A vida não mais dissipada, errante ou rompida pela necessidade e pelo desejo do exterior e do diverso constituía o traço essencial desse estado.
  • As duas naturezas correspondiam a dois nascimentos e a dois destinos, e as tradições ensinavam a passagem de um a outro por meio de iniciação, ação e contemplação.
    • A fórmula sintetiza a correspondência: um homem é um deus mortal e um deus é um homem imortal.
    • Uma só é a raiz dos homens e dos deuses, ambas procedentes da mesma mãe.
  • O mundo pré-moderno conheceu os dois grandes polos do ser, as vias que conduzem de um ao outro e a realidade material como sendo mais não-ser do que ser.
    • Acima do mundo havia um sobre-mundo, o hipercosmos, sendo o mundo inferior queda e o superior libertação.
    • A realidade material tangível era correlação de um estado de necessidade, embriaguez e sede do espírito.
    • O mundo pré-moderno conheceu a Iniciação como passagem, a Ação e a Contemplação como aproximações, e a Tradição e a Lei como suporte.
  • A iniciação no mundo pré-moderno possuía valor de passagem efetiva de uma condição a outra, implicando transformação real e orgânica de um modo de ser a outro.
    • Por meio da iniciação certos homens escapavam a uma natureza e conquistavam a outra, cessando de ser homens.
    • Esse acesso à outra condição de existência equivalia rigorosamente, no plano imaterial mas não irreal, ao engendramento e ao nascimento físico.
    • O iniciado adquiria outra consciência, pertencia interiormente a outro mundo e participava da natureza intelectual sem sonho.
  • Macchioro distingue a palingênese de alegoria, afirmando que ela era realidade tão concreta que chegava a ser tomada como fato físico e material entre os povos primitivos.
    • O mistério não tinha por objetivo ensinar, mas renovar o indivíduo.
    • A renovação era necessária sem que qualquer razão a justificasse: necessária para que o homem passasse da adolescência à virilidade, segundo o negro; da impureza à pureza, segundo o grego.
    • Quando reunidas as condições necessárias, a renascença se efetuava independentemente do mérito ou de qualquer fator de caráter humano.
    • Segundo Plotino, o esforço do homem visava não a não falhar, mas a ser Deus, sendo o sentido a destruição interior do estado humano e a realização de um estado de consciência imortal.
  • O Herói e o Asceta eram, no mundo antigo, seres sagrados que haviam passado do viver ao mais que viver por meio da Ação e da Contemplação.
    • O tapas designava tanto o ardor da ascese e da renúncia quanto o de um estado heroico.
    • Nas duas funções do Rei e do Sacerdote, esses seres representavam as duas chaves tradicionais do sobre-mundo: as duas portas, solares e lunares, do reino dos céus.
    • Eram expressão de uma realidade e não de uma alegoria.
  • Para aqueles incapazes de alcançar a realização ou de se aproximar dela, a Tradição e a Lei ofereciam um ponto de apoio além do simples indivíduo.
    • A obediência profunda aos princípios tradicionais durante toda uma vida permitia que ela adquirisse virtualmente um sentido superior.
    • Uma força objetiva conseguia, por meio dessa obediência, formar e dispor o indivíduo para o estado sobrenatural que em poucos existia sob forma de luz e realização.
  • A hierarquia do mundo tradicional fundava-se no sentido sagrado, tomando a realidade metafísica como princípio, centro e fim da existência.
    • Onde existia essa ordenação temporal, formava-se espontaneamente uma passagem entre o humano e o não-humano.
    • Surgiu uma visão simbólica das coisas, das naturezas e dos eventos que deu origem às ciências tradicionais.
    • O demonismo elementar da natureza inferior em devir era detido por formas de libertação e de luz.
  • A ruptura do rapport entre os dois mundos, a concentração de toda possibilidade no homem e a substituição do surmundo por fantasmas efêmeros constituem o sentido do mundo moderno.
    • O humanismo é a senha da antitradição.
    • O mundo moderno não conhece senão o homem: nele começam e terminam todas as coisas, sobre ele repousam céus e infernos.
    • Uma vez produzida a fratura, um rápido processo separou e derrubou a parte que não mais pertencia à interioridade viva.
  • O individualismo moderno é o primeiro rosto do humanismo, manifestando-se como centro ilusório fora do centro verdadeiro.
    • O individualismo consiste na construção de faculdades humanas que fabricam e oferecem aparências sem consistência fora desse centro falso e frágil.
    • Daí decorre um irrealismo fundamental e uma inorganicidade fundamental em tudo o que é moderno.
    • O querer e o eu substituíram o ser extinto, tornando-se sinistros andaimes de um corpo morto em todos os domínios.
  • Com o humanismo, a tradição da iniciação foi fatalmente perdida e a contaminação religiosa tornou-se universal.
    • O conhecimento das duas naturezas implicava o de um duplo destino: morte verdadeira para uns, imortalidade condicionada pela iniciação para outros.
    • Com o orfismo e sobretudo com o cristianismo, assistiu-se à vulgarização da verdade própria dos iniciados e ao nascimento da estranha ideia da imortalidade da alma estendida a qualquer alma e sem condição.
    • Estabelecida essa equivocação, a iniciação deixou de parecer necessária, e dos dois mundos restou apenas um, o inferior.
    • A espiritualidade tornou-se irrealidade, fé, crença, sentimento, moralidade, imaginação e especulação.
    • Deuses, essências metafísicas e realidades intelectuais tornaram-se mitos, hipóteses, objetos de dogmas ou exigências do pensamento.
    • A crítica posterior deu o golpe de misericórdia nesses resíduos larvares, celebrando no humanismo a verdade cadavérica de um mundo de cadáveres.
  • Com o espírito irrealizado e a consciência do surmundo perdida, a visão material do mundo impôs-se como omnicompreensiva e exclusiva.
    • A ciência passou a ser concebida apenas em relação à matéria e ao domínio da construção.
    • Deixou de ser síntese de uma visão e intuição intelectual da realidade suprassensível para tornar-se esforço de faculdades puramente humanas de unificar externamente a contingência das coisas.
    • Esse conhecimento de coisas mortas criou a arte sinistra de compô-las e movê-las em entidades artificiais, automáticas e traiçoeiramente demoníacas: o advento da máquina, centro e apoteose do mundo humano.
  • O Asceta e o Heroi, assim como o Iniciado, foram contaminados pelo mesmo processo de degradação que caracteriza o humanismo.
    • O Asceta tornou-se representante de um valor virtualmente superado, e a mentalidade protestante manifestou abertamente seu desprezo pelas tradições que proclamam sua grandeza.
    • O heroísmo é falso e estéril quando reduzido à medida do homem e do indivíduo; é verdadeiro e sagrado apenas quando justificado por uma ordem e um fim superiores.
    • O heroi moderno, seja esportivo, patriota, romântico, civilizado ou super-homístico, celebra apenas a profanação e a morte do antigo Heroi.
    • A religião tornou-se, há séculos, um fato individual: uma construção dos histerismos, esperanças, medos e confortos da subjetividade.
  • Quando os seres que sabiam e eram, testemunhando e mantendo viva a verdade, passam a faltar, a obediência à tradição torna-se sacrifício vão e a petrificação inevitável.
    • A obediência profunda à lei tradicional do humilde e do ignorante tinha sentido e eficácia suprassensíveis quando se reportava hierarquicamente àqueles que sabiam e eram.
    • Sem tais seres, o mundo moderno encaminhou-se fatalmente para a destruição de toda tradição, mesmo no plano social, moral e religioso, afundando na anarquia do individual.
  • O socialismo ocidental, em sua acepção mais ampla, representa a tentativa moderna de substituir a unidade dada pelas tradições espirituais vivas por uma unidade exterior, violenta e insignificante.
    • À semelhança da construção científica que busca recompor externamente a multiplicidade dos fenômenos, os modernos procuraram substituir a unidade interior e verdadeira por uma unidade extrínseca onde os indivíduos são oprimidos sem reporte orgânico entre si.
    • Trata-se de uma organização puramente humana e laica, onde os homens não pertencem a nenhuma unidade espiritual e são ligados apenas pelas condições da existência material.
    • Tal organização é verdadeiramente demoníaca e ahrimaniana, um amálgama mais do que uma organização, destituída de razão e estabilidade por ausência de princípio superior ao indivíduo.
  • Forças sub-humanas começam a animar esses amálgamas, e a fase ilusória do humanismo e do individualismo anárquico desemboca no desencadeamento do princípio irracional e selvagem da vida.
    • A aceleração inerente a tudo o que cai supera a fase luciferiana do mito do homem e da construção humana onipotente.
    • A traição dos clérigos denunciada por Benda revela aqui sua verdadeira extensão: aqueles que antes freavam o realismo das massas passaram a celebrá-lo com uma auréola mística, moral e religiosa.
    • Chegou-se à religião da vida, do devir, do irracional, à glorificação da civilização fáustica e ativista, ao relativismo, ao pragmatismo, ao intuicionismo e ao atualismo.
  • O princípio do mundo inferior, devorado pela sede e maldito por uma eterna insuficiência, ocupa o centro do mundo moderno, invertendo os pontos de vista tradicionais.
    • Na Grécia e no Oriente, esse princípio era considerado a potência inimiga a ser quebrada e subjugada por uma liberação iluminada da alma.
    • As possibilidades humanas que se orientavam para essa libertação mudaram de polaridade e passaram, no mundo moderno, ao serviço das potências do devir.
    • A essas potências do devir foi conferida a medida do real, do verdadeiro, do válido e do que não apenas é, mas deve ser.
  • As diversas ideologias e novas religiões tornaram-se porta-bandeiras de um período último e resolutivo na cultura contemporânea.
    • As claridades desencarnadas e estrelares do mundo superior evanescem nos horizontes como cimos de altas montanhas.
    • Os pálidos nevoeiros que sobem das planícies, os miragems do irrealismo humano com seus espectros intelectuais e seus fogos impuros vacinam como prelúdio de uma fase definitiva.
    • Nessa fase definitiva, as potências demoníacas do mundo inferior irromperão nuas, sem freio e sem nuances, arrastando em seu rastro o mundo de máquinas e de seres ébrios e extintos que, em sua loucura, lhes forneceram a substância de sua reencarnação.
  • O tempo presente pode ser descrito como período de transição, prelúdio da última fase, ponto de junção entre a época luciferiana e a época demoníaca.
    • A época luciferiana é aquela em que imperou o mito do homem e da construção humana todo-poderosa.
    • Desse mundo que vacila em sua órbita, tendendo a se destacar e a se perder definitivamente nos espaços onde não há outra luz senão a sinistra claridade acesa pela incandescência de sua queda, surgem as terras imóveis e as terras-cume seladas de silêncio e de intangibilidade.
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