ESTADO EMPÍRICO DA EXISTÊNCIA
Considerando a experiência comum do mundo, pode-se considerar como sua condição elementar o conhecer, em seu sentido mais genérico de consciência de uma certa determinação estática ou dinâmica. Além disso, costuma-se distinguir o objeto do sujeito — distinção que é legítima, contanto que os termos sejam bem compreendidos.
O “objetivo”, positivamente, pode ser apenas a consciência de seu aspecto de determinação, de qualificação; o subjetivo, essa mesma consciência tomada, porém, segundo seu aspecto de consciência ou certeza em geral. Considerar assim as coisas significa formular a tese idealista em sua forma mais elementar, a qual se mostra de uma evidência quase banal, logo que nela se concentre a atenção. É coisa evidente, com efeito, a inconcebibilidade de um objeto que fosse definido por uma absoluta alteridade em relação ao sujeito da experiência: todas as determinações pelas quais e com as quais o objeto é conhecido — a qualquer ordem que pertençam, incluindo-se sua própria eventual relativa “aseidade”, sua dependência ou independência do Eu — são e são certas enquanto particulares determinações da consciência, no entrelaçamento das quais se transmuta, sem resíduo, aquilo que se chama realidade. O que também se pode exprimir dizendo que a identidade é o dado elementar, a substância originária do conhecer.
A determinação — o objetivo —, em vez de estar ligada a uma percepção ou sensação direta, pode proceder de juízo, inferência ou posição; mas, em qualquer caso, que ela permaneça simplesmente como o “conhecido”, portanto, simples fenômeno da consciência — esta é uma proposição em si evidente, à qual não se pode deixar de aderir sem cair em contradição. Assim, a crítica ao realismo é bastante simples e conhecida: ele refuta a si mesmo precisamente no ponto em que pretende à verdade. De fato, se é verdadeiro, como sustenta, que a ideia ou o pensamento é algo diverso do real, que o objeto existe em si, o próprio realismo, o qual, em qualquer caso, não pode ser senão uma ideia ou um sistema de ideias, não pode de modo algum demonstrar a congruência de sua concepção com o sistema da realidade.
Por isso, se é verdadeiro, refuta a si mesmo: o real de que, segundo discurso sensato, ele fala, entra, de um modo ou de outro, na experiência do sujeito.
Assim, o sujeito, enquanto consciência, apresenta-se como o centro que sustenta todo aquele mundo, que é o seu mundo. Não é ele compreendido no mundo, mas este nele, e nele se desdobra. A fórmula célebre do idealismo transcendental correspondente a isso é: o mundo é a minha representação — entendendo-se por representar não apenas imaginar e perceber, mas também todo dado elaborado pelas faculdades da reflexão, na medida em que este dado será sempre, antes e acima de tudo, uma simples determinação da consciência. Neste primeiro grau, ademais, o idealismo coincide integralmente com o positivismo experimentalista e com um rigoroso fenomenismo.
O segundo ponto a fixar é que o princípio subjetivo, enquanto tal, é definido por ser ato. A consciência não é como uma cera que possa portar um sinal impresso do exterior; nela todo ser está ligado a um perceber-se, e, portanto, a um voltar-se sobre si mesmo (synkatáthesis) e, por fim, a um assentimento (anakampsis), qualquer que seja o seu grau. Sem um ato elementar, não há objeto no Eu nem para o Eu. Uma passividade absoluta é inconcebível — uma assunção é, em qualquer caso, necessária, e esta é sempre um ato, mesmo quando o objeto seja uma paixão ou uma pura sensação. A imediaticidade que um conteúdo da consciência pode apresentar não pode exprimir senão a imediaticidade da mediação, isto é, do correspondente ato da consciência: remete a um modo especial desse ato — pelo qual o gênero da atualidade se estende até aqueles limites onde, em franjas crepusculares, apenas chega a luz da consciência.
Prosseguindo na análise das condições da experiência em geral, chega-se a um terceiro ponto. Aquilo que é objetivo foi identificado com o que é determinação, qualificação. Todavia, não há determinação para o Eu — isto é, não há consciência de determinação —, se aquilo que se torna determinado não é transcendido pelo próprio Eu, de modo que, opondo-se a si mesmo, perceba e faça tornar-se seu o próprio limite enquanto tal. Se a consciência não a superasse, a determinação se esvaneceria, identificar-se-ia com a totalidade do Eu perdido nela e, com isso, negar-se-ia enquanto tal.
Considerando agora o segundo ponto, isto é, a sempre necessária correlação de um ato a toda determinação (isto é, a todo objeto), a nova condição, na análise da experiência possível em geral, vem a ter esta formulação mais particular: diante do Eu como atualidade objetivante e qualificadora, está sempre, de direito, o Eu como infinitude, como possibilidade indeterminada; e somente em função dessa conjunção o objeto é determinado. O momento próprio ao sujeito permanece, portanto, assim definido: é o princípio elementar de todo objeto da experiência, porém, na medida em que, em toda objetividade, mantém-se irredutivelmente além do limite que esta define, isto é, contrapõe-se a si mesmo como potência no ato da determinação. Pode-se também dizer: ele não é senão o indeterminado do “determinar” imanente em toda determinação.
O exame das condições elementares da possibilidade da experiência em geral conduz a esta dualidade. Ela é o dado, o éter mais originário, cujo sentido é necessário compreender e resolver em função de valor.
Que o objeto da experiência em geral valha como determinação ligada a uma certa tensão é evidente: de outro modo, o Eu seria todo o objeto, dissolver-se-ia nele, e o próprio falar de um objeto não teria sentido. O fato mesmo de que se fala de um objeto, ou mesmo de vários objetos, e, por outro lado, de que de um objeto se passa a outro — o fluir e o transitar das qualificações da experiência — estabelece a transcendência do Eu, e, no infinito, na potência inesgotável do representar, do “pôr para si” ou da atualidade em sentido genérico, define aquilo que é, propriamente, o subjetivo.
Mencionou-se também uma tensão, porque se trata de manter um limite e, ao mesmo tempo (uno actu), superá-lo. A distinção é imanente em toda qualificação: tem um caráter lógico como condição de possibilidade, mas não apenas lógico — ao subjetivo corresponde, mais que um conceito, o sentido do infinito e da possibilidade que sempre de novo irrompe no seio de toda determinação.
Se com X se exprime uma qualificação da consciência (isto é, aquilo que, elementarmente, é qualquer objeto, qualquer forma ou qualquer movimento), com A a assunção ou mediação a ela relativa, com S a potência ou o infinito do Eu, e com o ⊃ signo da implicação transcendental, ter-se-á:
X ⊃ A ⊃ S
fórmula esta que sintetiza a posição do idealismo integral e que adiante teremos de retomar.
