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CUPIDEZ. MITO PORUS E PENIA.

METAFÍSICA DO SEXO

  • O mito de Porus e Pénia em “O Banquete” encerra um significado profundo: quando nasceu Afrodite, Porus foi vencido pela embriaguez e Pénia, disfarçada de pedinte, uniu-se a ele para ter um filho, que foi precisamente Eros.
    • Porus exprime a abundância e, metafisicamente, o ser; Pénia exprime a pobreza e a privação do ser, a steresis associada ao conceito de matéria, a hyle.
    • Porus, embriagado, traiu sua natureza de filho de Metis, a ciência e a sabedoria, e dessa união irracional nasce o amor e o desejo personificados por Eros.
    • Eros apresenta o caráter intermediário e ambivalente: rico e pobre pela dupla hereditariedade; sedutor e caçador, mas trazendo no seio a privação e o não-ser de Pénia; mortal por um lado e imortal por outro, morrendo e ressuscitando infindavelmente como uma sede apenas momentânea e ilusoriamente satisfeita.
  • Interpretado assim, o mito da origem de Eros esclarece o sentido metafísico do desejo extrovertido do sexo como substrato do ciclo da procriação e demonstra sua contradição fundamental e irremediável.
    • A união embriagada do ser com a privação equivale ao amor mortal de Narciso pela sua imagem refletida nas águas.
    • Nas tradições orientais reconhece-se o fato misterioso e irracional de um desfalecimento transcendental e de um desejo que levou o ser a identificar-se com o “outro”, submetendo-se à lei da dualidade e do devir.
  • Plotino relaciona o primeiro nascimento de Eros com Afrodite Urânia, apresentada como contrapartida feminina do puro princípio intelectual masculino, o nous; fecundada por este, ela produz o eros primordial como desejo recíproco do amado e da amada que veem seu reflexo um no outro para a geração de seres espirituais.
    • O segundo nascimento do Eros é referido ao mito de Porus e Pénia: o eros desse par é o desejo aceso na região inferior, afetado de irracionalidade e eterna privação, nascido da união do eu com um simples reflexo ou fantasma do verdadeiro bem.
    • Plotino descreve esse eros como “algo de imperfeito e de impotente, algo de pobre nascido de um desejo ilusório”, suspenso a Psyche e misturado à substância indefinida da matéria, cujo desejo não fica satisfeito porque a privação subsiste após a satisfação, já que a plenitude só existe no que é completo em si próprio por sua natureza.
  • Os filósofos gregos consideraram o estado “do que é e do que não é”, da “vida misturada à não-vida”, como a substância e o sentido da genesis, e é exatamente essa a natureza do amor e do desejo revelada pelo mito de Porus e Pénia.
    • Os amantes, ao desejar e ao gerar, pensando prolongar a vida, estão a dar a morte a si próprios, e julgando destruir a dualidade, de novo a confirmam.
    • O paradoxo da sede, do ponto de vista metafísico, é que a satisfação não a extingue mas a confirma, implicando um “sim” dito a ela; a díade não é ultrapassada nas uniões a que conduz o eros tornado cobiça extrovertida e pandêmica.
    • O filho mata o pai: a heterogeração toma o lugar da autogeração, da integração andrógina, e o nascimento animal suprime o nascimento eterno ou o renascimento.
  • No mundo tradicional tanto do Oriente como do antigo Ocidente, as divindades do amor e da fecundidade foram consideradas ao mesmo tempo divindades da morte, como ilustra a inscrição dedicada a Priapo num cemitério: Mortis et vitae locus.
    • O mito de Pandora apresenta uma das interpretações possíveis dessa polaridade: Epimeteu, aspecto obtuso do titã Prometeu, aceita o dom de Pandora apesar do aviso do irmão, deixando-se enfeitiçar por ela sem perceber as armadilhas do próprio desejo; com Pandora termina uma época e a morte entra no mundo por causa da mulher e do desejo.
  • O ponto decisivo encontrou expressão em passagens não canônicas do Evangelho de inspiração misteriosófica e gnóstica: o Salvador declara vir “para terminar a obra da mulher, isto é, da cobiça, obra da procriação e da morte”, e responde que os homens morrerão enquanto as mulheres derem à luz, aludindo ao fim quando “os dois se tornarem num só, e o homem e a mulher nem homem nem mulher”.
    • Plotino indicou a ambivalência do fenômeno ao falar de um amor que é uma doença da alma: “como quando o desejo de um bem traz consigo um mal”.
  • O capítulo resume os pontos de referência essenciais da metafísica do sexo: o sentido metafísico do eros como tendência à reintegração e ao estado não-dual; sua inserção num conjunto mais vasto de formas de mania capazes de suspender a condição humana; a distinção entre mania determinada pelo nível inferior e pelo alto; a metafísica da sobrevivência na espécie como deslocação involutiva da vontade de ser absoluto.
    • A metafísica forneceu também a chave da biologia nas fases involutivas mais avançadas, tanto na sexualidade animal quanto nas compensações do homem comum na vida sexual socializada.
    • O mito de Porus e Pénia permite pressentir a estrutura de força que, em sua privação incurável e sem fim, alimenta o ciclo eterno da procriação ao qual conduz, no signo do bios, o impulso do ser eternamente fraturado.
    • Esses dados orientarão a análise dos aspectos variados e das formas mistas da fenomenologia do Eros, profano e sacral, integrada numa consideração sobre a mitologia do homem e da mulher e em indicações sobre as técnicas de magia sexual.
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