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VISÃO ROMANA DO SAGRADO

EVOLA, Julius. Symboles et “mythes” de la Tradition Occidentale. Milano: Archè, 1980.

  • Macchioro, em Roma capta, preparou como poucos outros uma matéria capaz de conduzir ao coração da visão primordial do sagrado própria aos Romanos, aquilo que tinha valor de religião em Roma antes que influências estrangeiras alterassem suas tradições.
    • As obras de Macchioro, Bachofen e Piganiol passaram quase despercebidas, embora não sejam diletantes mas especialistas; o pensamento acadêmico não quer ser perturbado e persiste em seus trilhos batidos para desmitologizar e massacrar a antiga religião dos Romanos.
    • As interpretações de Macchioro carecem dos pontos de referência transcendentes de ordem doutrinal, os únicos que permitem compreender a essência positiva de uma espiritualidade pré-moderna e supra-religiosa.
  • A palavra religião significa hoje crença em um Deus como pessoa, com o atributo de criador, estabelecendo com os homens relações essencialmente morais de amor, providência, graça ou castigo, e tendo a fé como base da vida religiosa.
    • Outros elementos que definem a religiosidade moderna são o arrependimento e a crença na intervenção objetiva e histórica de uma força redentora irredutível à da criatura, condição fundamental para que o homem possa participar de qualquer salvação.
    • A concepção moderna de religião não é tomada como uma religião, mas como a religião por excelência, a verdadeira religião.
  • Na religião romana encontra-se a oposição mais nítida e completa que se possa imaginar à concepção moderna do sagrado: trata-se de dois mundos, cada um tão concludente quanto o outro, tais que a passagem de um ao outro só pode se efetuar por fratura, alteração e substituição.
    • Entende-se naturalmente a religião primordial dos Romanos, a religião tradicional, inata, enraizada nas próprias origens dos fundadores da cidade sagrada.
  • A antiga religião romana ignora completamente a personificação do divino e a concepção do divino sob aparências de imagens; o Romano tinha uma aversão fundamental por imaginar e representar fantasticamente.
    • O Romano conhecia ainda menos os deuses como abstrações filosóficas, conceitos teológicos ou hipóteses especulativas; o pensamento tinha na realidade romana tão pouco lugar quanto a arte, sendo uma importação grega equivalente a uma importação microbiana.
    • O Romano concebia o divino como ação pura; o que era vivo em Roma era menos o sentido do deus do que o do numen, a divindade que não é uma pessoa mas uma potência, uma energia, uma força original capaz de se manifestar, cuja figuração não oferece interesse, mas somente sua ação positiva.
    • Servius situa o observador no coração da visão romana do sagrado ao dizer que os antigos Romanos punham toda a sua religião não na fé, mas na experiência, majores enim expugnando religionem totum in experientia collocabant; Lactâncio acrescenta que a religião romana não tinha por objetivo procurar a verdade, mas somente conhecer o rito, nec habet inquisitionem aliquam veritas sed tantummodo ritum colendi.
  • A premissa é de caráter metafísico: o fundamento e a causa do mundo visível é um mundo invisível; nada existe aqui embaixo que não tenha, em contrapartida na sua raiz mais profunda, um numen.
    • Toda causa visível é apenas aparente; os fios últimos da trama se enfiam num além que não é fantástico, mas concreto, situado neste mundo e susceptível de se revelar a quem pode ter dele uma percepção mais direta que a dos sentidos grosseiros.
    • Admitir ou não essa premissa é decisivo para o estudo das antigas formas de culto; não admiti-la é reduzir as religiões antigas a superstitiosas divinizações das forças da natureza; admiti-la é entrar em um mundo de novas evidências.
    • A capacidade de perceber a contrapartida espiritual, o aspecto numen dos fenômenos e das energias, atrofiada na maioria dos modernos mas conservada nos antigos e tanto mais viva quanto mais se remonta às origens, é a base para compreender as antigas religiões e, em primeiro lugar, a religião romana.
  • A percepção direta é superior à percepção indireta efetuada por meio de um símbolo, uma imagem ou uma personificação: a assim chamada fantasia mitológica dos antigos não é nem poesia, nem superstição, nem arbitrário, mas corresponde a uma forma indireta de perceber a realidade não como exterioridade, mas, mais em profundidade, como força e numen.
    • A concepção do sagrado que é anterior ou superior à concepção mitológica, em que a experiência é direta, absoluta, sem formas ou imagens, muda e essencial, reencontra-se efetivamente nos ciclos de civilização mais antigos e é também a concepção romana.
    • O que pode aparecer a uns como inferioridade e abstração religiosa se revelará a outros como sinal de superioridade e de realismo transcendente e essencial, contrapartida sacral coerente do realismo e do desprezo do inessencial, do supérfluo e do sentimental que foi sempre a palavra de ordem romana no plano ético, político e social.
    • Na aparente pobreza do culto romano primordial, em suas formas secas e nuas, despojadas de misticismo e pathos, há algo superior às exuberantes criações mitológicas ou teológicas do espírito devoto, algo misterioso e poderoso que, em sua grandeza, é dificilmente concebível para nós.
  • A natureza, a história, os homens e os destinos humanos, desnudados e percebidos não sob a aparência de Deuses pessoais, mas como numina, constituem um mundo em estado livre, sem criadores, providência, redentores ou leis transcendentes.
    • Um ativismo transcendente servia de contrapartida dinâmica ao realismo transcendente do Romano.
  • Quando o divino não é concebido como uma pessoa, mas como uma força, o culto não pode ser senão ação; a religião primordial dos Romanos foi uma religião da ação pura, não do sentimento ou da especulação.
    • O que a técnica é hoje no mundo da matéria, o rito o era no mundo do espírito e do sagrado na concepção original do Romano: impessoal, não como alma, mas como conjunto articulado de forças objetivas suprassensíveis.
    • O rito valia como uma arma objetiva, sobrenaturalmente eficaz, capaz de agir naquele plano do qual dependia invisivelmente toda realidade exterior condicionada, natural e histórica, individual e coletiva.
  • Os Indigitamenta, tratado que fixava os nomes dos diferentes deuses e as ocasiões em que podiam ser invocados eficazmente, representam a forma mais antiga da religião romana; indigitare significa invocar.
    • Os nomes eram nomina agentis, de origem não mitológica, mas prática, incluindo misteriosas conexões segundo a antiga concepção de que o nome contém em certa medida a potência e a alma da coisa nomeada ou evocada.
    • A fórmula romana que acompanhava o rito, sinto que estou no ato de nomear, encerra toda a consciência profunda do ato, sua responsabilidade e a participação no momento fatídico que será ordem para o invisível.
    • A religião romana não tinha um conteúdo teorético, ético ou metafísico, jamais possuiu nem quis possuir um conjunto de doutrinas sobre deus, sobre o mundo ou sobre o homem: ela se esgotava no rito; fora do rito não havia religião, boa ou má, verdadeira ou falsa.
  • O rito romano aparece fixado desde o início com um cuidado meticuloso, formando um jus sacrum, rito tradicional fixo que coincidia com a religião e que não podia ser modificado em nenhum de seus detalhes sem que fosse destruída a relação com o deus implicado na execução do rito.
    • A menor infração ao jus sacrum, mesmo por inatenção, criava um piaculum com a obrigação de repetir toda a cerimônia; se a culpa era voluntária, a relação entre o infrator e a divindade era rompida para sempre e ele ficava fora do jus sacrum, impius e sujeito à punição divina; se o piaculum era involuntário, a relação se restabelecia com um sacrifício expiatório.
    • A punição divina não significa punição moral: é o efeito impessoal e fatal de forças evocadas e mal dirigidas; o sacrifício expiatório não tem sentido de ato moral de contrição, mas de operação objetiva de desintoxicação e reintegração de quem liberou inadvertidamente forças negativas.
  • Os Romanos atribuíam sua fortuna à escrupulosidade ritual; Fábio disse aos soldados, após a batalha do Trasimeno, que a culpa era mais de terem negligenciado o sacrifício do que faltado de coragem; Plutarco relata que em momentos terríveis da guerra dos Gálios os Romanos retinham mais importante que os cônsules praticassem as coisas divinas do que que batessem o inimigo; o Imperador Juliano não hesita em dizer que ao conhecimento ritual dos Deuses não poderia opor nem mesmo o domínio de todos os países bárbaros unidos aos dos romanos.
    • Macchioro fala de um heroico apego ao rito; porém, à luz do ponto de partida correto, não se pode falar de pesado e sombrio ritualismo, mas de algo lúcido e forte, uma lei de ação clara idêntica à que rege o mundo da técnica; a tradição como jus sacrum tem valor de sistema objetivo, impessoal, baseado em relações experimentais, em relação ao qual buscar o novo ou o pessoal tinha tão pouco sentido quanto buscá-lo em relação às leis que podem intervir sobre qualquer ação no domínio da matéria e da energia.
  • A concepção mágica da religião romana, no sentido em que Macchioro a define, distingue-se da ação religiosa em que esta implora a intervenção enquanto aquela a exige e constrange o deus a servir a vontade humana.
    • O Romano que havia estabelecido os verdadeiros ritos pensava que, executados perfeitamente, o deus não podia mais se subtrair ao fim proposto do que a substância química a uma transformação dada quando o operador reuniu as condições necessárias.
    • Mago, segundo a feliz expressão de Keyserling, é aquele que não precisa se prostrar e rezar: é aquele que é e que pode.
    • Os assim chamados selvagens não podem ser considerados primitivos, representantes de estágios pré-civilizados da humanidade, mas fragmentos últimos e degenerescentes de civilizações extremamente antigas; a magia dos selvagens não é, em larga medida, senão o último eco deformado de um ciclo primordial de civilização solar e viril, de clareza e força, não de preces ou sentimentos mas de conexões diretas com o divino e de gestos de potência.
  • Segundo o ensinamento tradicional, o destino de quem morre não é igual para todos: a alma do morto pode se encaminhar pela via solar ou pela via dos infernos; pela primeira ela se torna imortal no sentido de uma transfiguração em semideus ou herói; pela segunda, o morto como indivíduo se extingue, restando apenas uma sombra ou larva, e suas energias vitais retornam à substância impessoal da raça ou da família.
    • A concepção dos infernos como lugar de penas e de tormentos é totalmente estranha à mais antiga espiritualidade indo-europeia e, portanto, à espiritualidade romana: há apenas a alternativa entre ser ou não ser após a morte; ser significava sobreviver não como homem, mas como numen.
    • A ideia democratizada da imortalidade da alma era totalmente estranha aos Romanos das origens; virilmente realistas, estranhos a toda abstração filosófica, fechados à evasão da esperança, do medo e da crença, não se interessavam por isso; Catão dizia perpetua nox dormienda, e César teria dito que além não havia lugar nem para cuidados nem para alegrias.
    • O sucesso da filosofia epicurista em Roma é pleno de sentido: representava menos o materialismo do que o realismo; a antiga alma romana reagia contra o misticismo e o mitologismo importados da Ásia e da Hélade decadente.
  • A parte do morto que interessava ao Romano não era o morto em si, mas o morto concebido como uma força que subsiste e continua a ser presente nas camadas profundas de uma linhagem e no destino de uma família, gens ou raça viva, e a agir positivamente sobre essa linhagem.
    • O Romano dos primeiros tempos considerava o morto não como um ser pessoal, mas como uma energia impessoal que devia ser tratada como todas as outras energias que entrevia na trama dos fenômenos sensíveis; não havia relação de saudade ou piedade, ou ao menos essa era coisa totalmente subordinada ao fim essencial: dirigir as energias que a morte liberava para que agissem de forma benéfica.
    • Como em todos os outros domínios da visão romana do sagrado, o romano substituía a devoção e o sentimento pela eficácia objetiva de um rito; a relação era mais ou menos técnica.
  • O lar é o genius generis, a força vital que engendra, conserva e desenvolve uma dada linhagem, e simultaneamente o receptáculo das energias dos mortos, a substância em que os mortos continuam a viver e a ser obscuramente presentes na família.
    • O culto dos lares, em sua forma original, não é romano nem de caráter patrício; sua origem é sabina ou etrusco-sabina e teria sido introduzido por Sérvio Túlio, rei de extração plebeia; a legenda que faz dos lares os filhos de Mânio a muda ou de Acca Larência e lhes atribui como residência a zona infernal sub-terrestre remete às civilizações asiático-meridionais de tipo naturalístico-matriarcal.
    • Uma particularidade do culto dos Lares é a parte predominante que nele tinham os escravos; era o único culto do qual às vezes eram os ministros.
  • O desenvolvimento da tradição romana mostra uma purificação progressiva do culto dos lares, passando da concepção do morto se dissolvendo na força obscura e naturalista dos ancestrais à do morto como herói, ancestral divino, dispensador de uma herança sobrenatural que o rito familiar renova em sua descendência.
    • Varrão, assimilando os lares aos manes, os chama de espíritos divinos e heróis; Censorino e Plutarco falam de uma dualidade, de um duplo gênio, um luminoso e outro obscuro; em tradições que chegam até Plotino, o lar é concebido como a alma dos que, libertados pela morte, tornam-se espíritos eternos.
    • No culto imperial essa concepção atinge sua forma mais elevada: o príncipe aparece como a manifestação da força do ancestral divino e de todos os mortos de uma raça que encontraram nele uma vida eterna; ele mesmo a encontra quando, sob a forma simbólica da águia, sua alma, libertada de todo resíduo material pelas chamas da pira, alça voo rumo ao céu livre.
  • Para o homem antigo, o espaço não tinha caráter abstrato e impessoal; cada região, além de sua individualidade geográfica, tinha sua individualidade psíquica, sua alma em relação com energias invisíveis determinadas que faziam parte da essência íntima dos seres nascidos na zona correspondente; a figuração dessas energias por imagens simbólicas deu nascimento aos Deuses desses lugares.
    • Existia entre o altar cujo fogo eterno constituía a alma mística e a unidade interior de uma família, gens ou linhagem, e os Deuses do culto patrício e o solo, um reporte misterioso e essencial.
    • O evidente, o imediato para o Romano não era o culto de um Deus do Universo, de uma entidade abstrata comum a todos os homens e a todas as raças, mas o culto concreto de numina determinados, os das diferentes linhagens e, na origem, das diferentes terras.
    • Daí o pluralismo religioso, vulgarmente chamado de politeísmo pagão, e a antiga ideia de um recinto sagrado e inviolável, o heredium, ao centro do qual se erguia o altar e o fogo místico das diferentes gens; a limite do heredium é fatídica e protegida por divindades associadas aos maiores Deuses da luz e da ordem como Júpiter ou Zeus.
  • O politeísmo ocultava um ideal espiritual de valor incontestável, um ideal orgânico: o deus deve ser nosso deus, o da nossa terra e do nosso sangue; a experiência do divino deve ser articulada e diferenciada.
    • Os fogos que brilham ao centro das diferentes terras são os pontos de referência vivos da fides de tantos núcleos patrícios bem diferenciados, virilmente reunidos cada um em torno de seu próprio pai, ao mesmo tempo sacerdote, chefe e mestre de justiça da gens e da terra que lhe são próprias: o feudalismo religioso.
    • É falsa ou ao menos unilateral a interpretação naturalista dessas concepções; os Deuses romanos não eram simples divindades naturalistas, superstitiosas divinizações de energias naturais, mas, ao contrário, nos casos mais significativos, forças divinas que divinizavam essa natureza.
    • Os patrícios eram aqueles que, nas origens, tinham tido como ancestral um deus ou herói, um ser cujos contatos com um mundo superior eram tais que podia transmitir uma herança não apenas biológica mas mística a todos os seus descendentes; sangue e terra tornavam-se sagrados por meio da força sagrada do ancestral.
  • O naturalismo, no sentido de contatos com as forças obscuras da terra e da vitalidade desordenada, pode ser mencionado fora dos cultos patrícios, a propósito dos cultos coletivistas e mesclados da plebe, que Tito Lívio define como incapazes de nomear um pai, portanto impossibilitados de citar um herói como ancestral, podendo falar apenas de uma mãe, a Terra Mãe, seio panteísta de toda vida indiferenciada e não transfigurada.
    • A religião dita universalista, em sua pretensa superioridade sobre a terra, o sangue e a tradição, nunca foi senão uma encarnação mais ou menos sublimada dos cultos coletivos plebeus, conexos a camadas sociais que no fundo não possuíam nem terra nem verdadeira tradição; a passagem do antigo politeísmo aristocrático a essa religião é muito mais um sinal de dissolução do que de progresso.
  • A visão da antiga Roma, embora baseada no pluralismo religioso, não se esgotava nele; admitia um desenvolvimento ulterior capaz não de negar, mas de hierarquizar as diferenças.
    • No rito lendário de fundação de Roma, quando os diferentes chefes depositaram um pouco de sua terra, a terra dos pais, na fossa comum, há um princípio superior de solidariedade e unidade que se expressou nos cultos correspondentes à unidade do Estado, constituindo uma camada superior que coexistia com os diferentes cultos patrícios romanos da terra e do sangue e com os das raças estrangeiras.
    • Toda ação de conquista militar romana implicava uma ação de conquista mística: os Romanos estavam absolutamente persuadidos de que não se podia verdadeiramente dominar uma raça ou cidade inimiga se não se dominavam seus Deuses; daí o rito da evocatio, destinado a arrancar os numina dos inimigos de sua autonomia e submetê-los a Roma.
    • A capitulação do inimigo, a deditio, era acompanhada da incorporação dos territórios e também da divindade desses territórios na unidade superior que correspondia finalmente à do imperium.
  • Elevada à dignidade de dominadora dos povos, Roma ignorou aristocraticamente a intolerância religiosa: longe de destruir e nivelar as crenças dos povos conquistados, Roma as aceitou na condição de que renunciassem a todo privilégio ou proselitismo e reconhecessem uma unidade superior a cada uma delas, correspondente à unidade supranacional do imperium.
    • A expressão simbólica dessa unidade foi o culto do imperador, não como homem, mas como numen estreitamente ligado ao da victoria romana, personificação da força fatídica que colocou Roma acima de todos os povos.
    • Tais são as verdadeiras bases espirituais da universalidade que a Roma dos Césares conheceu outrora e da qual ficou devedor quem, nos tempos sucessivos, pôde às vezes atingir uma certa grandeza.
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