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VIRILIDADE ESPIRITUAL
EVOLA, Julius. Symboles et “mythes” de la Tradition Occidentale. Milano: Archè, 1980.
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Um grupo de máximas de Plotino pode ser qualificado, sem arbitrariedade, de romano, por refletir o éthos profundo que caracterizou a grandeza romana e clássica não apenas em seu aspecto político, mas também espiritual.
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Para o propósito dessa leitura, não se trata de filosofia nem interessam as etiquetas dos especialistas aplicadas ao neoplatonismo, escola à qual Plotino pertencia.
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As máximas são suscetíveis de falar imediatamente na medida em que fazem ressurgir o sentimento de espiritualidade viril, quase extinto no homem moderno entre as superstições positivas e as superstições devotas, mas que permanece a medida de toda dignidade interior e o segredo do ideal ao qual correspondia, no sentido antigo e sagrado, o conceito clássico de herói.
A resposta orgulhosa de Plotino a Amelius, que o convidava a se tornar propício aos deuses por meio de um sacrifício, dizendo que são os Deuses que devem vir a mim, e não eu a eles, contém todo o espírito de uma tradição e a separação brutal entre dois mundos: o dos que creem e o dos que são.-
A frase não se refere ao homem ordinário, mas ao spoudaios, o sábio, o homem espiritualmente integrado.
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Celse, outro espírito romano, opondo-se às novas crenças que abalavam o Império, afirmava que o Deus romano é o Deus dos patrícios, invocado de pé diante do fogo sagrado, e não o Deus ao qual se reza de joelhos no abandono de todo o ser.
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Na Antiguidade romana os Deuses eram considerados forças, e o homem também uma força; entre eles havia apenas um intermediário, o rito, compreendido como técnica precisa e objetiva capaz de captar, impedir ou provocar um efeito dado das forças espirituais, sem intrusão de sentimentos ou comportamentos devotos, segundo uma simples relação de determinismo.
A frase de Plotino fornece a chave de uma via que corresponde ao que se chamava iniciação solar na Antiguidade: criar em si uma qualidade que age como ímã sobre os poderes suprassensíveis, uma força capaz de atraí-los irresistivelmente.-
Essa qualidade e essa força se resumem numa única palavra, ser, e num único preceito, sê.
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Trata-se de inabilidade interior, calma, clara, olímpica e ascética, sem nada de arrogante e colossal como certo e aberrante super-homem moderno.
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Uma máxima caracterizava a aspiração clássica ao sobrenatural: para conhecer os Deuses, é preciso tornar-se semelhante a eles; aos Deuses é preciso tornar-se idêntico, não aos homens de bem; não ser sem pecado, mas ser um Numen, tal é o fim.
O mais alto ideal da Antiguidade clássica, como da ariano-oriental, era um ideal divino e não um ideal de moralidade burguesa, e a virtude dos homens era para Plotino imagem de uma imagem.-
Há diferença entre dar a um metal, por um processo de tingimento, a aparência de outro metal, e transformar um metal em outro metal, colocando-o em condição de manifestar objetivamente qualidades diferentes.
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O ideal divino da Antiguidade se relacionava com a iniciação, concebida como transformação radical de um estado de existência em outro.
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Para o homem antigo, um Deus não era um modelo moral, mas outro ser; o homem bom não cessa de ser homem por ser bom, assim como um macaco não cessa de ser macaco ao reproduzir certos gestos humanos.
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Em Elêusis havia uma afetação paradoxal em sublinhar que homens ilustres como Agesilau e Epaminondas, se não tivessem sofrido a transformação atribuída ao rito misterioso, estariam perante o post-mortem nas mesmas condições que qualquer outro mortal; um destino diferente esperava quem, mesmo manchado pelos pecados, havia passado pela purificação do mistério.
As máximas de Plotino sobre o ser expressam a concepção clássica segundo a qual o bem é a ausência de toda coisa que, penetrando em si, pode lançar para fora de si mesmo.-
O espírito é todo uma luz verdadeira, estando presente a si mesmo sem obstáculo à própria unificação, sem que nada de outro seja misturado interiormente consigo mesmo.
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A concepção clássica distinguia duas regiões: uma inferior, das coisas que fogem, e uma superior, das coisas que são; as coisas impotentes para atingir a realização e a perfeita posse de sua natureza se escoam e fogem, enquanto as outras são e atravessaram a vida, que é uma mistura de agitação vã e de morte.
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O mal clássico é o sentido de necessidade do espírito: o que de toda vida incapaz de se reger vai de cá para lá, esperando, procurando se completar atingindo tal ou qual outra coisa.
O bem, no sentido clássico, não pode ser nomeado: é apenas uma experiência que o espírito pode determinar ao se arrancar de tudo que é outro e se reconjugar virilmente a si mesmo, criando um estado de certeza e plenitude em que não se pede mais nada.-
Plotino afirma que esse ser possui a perpetuidade quando possui totalmente a própria vida: sendo apenas e superpessoalmente si mesmo, nada poderia ser-lhe acrescentado ou retirado nem no presente nem no futuro.
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O mal e todas as suas materializações têm raízes num estado de degradação do bem; é logicamente contraditório que o mal permaneça como princípio de infelicidade e escravidão para quem extirpou essa raiz tornando-se, no sentido clássico, o bem.
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Metafisicamente não existem o bom e o mau, mas apenas o que é real e o que não é, e o grau de realidade no sentido espiritual mede o grau de virtude; virtus no mundo clássico e no da Renascença significava apenas força e energia.
Plotin precisa que a matéria não tem ser: o ser da matéria é um não-ser, e o fato de poder ser dividida ao infinito indica precisamente a queda da unidade que lhe dá nascimento.-
Abandonar-se, desvanecer-se é o segredo do não-ser; a energia profunda que cessa de dominar toda coisa faz que uma multiplicidade de tendências, instintos e movimentos irracionais provoque a degradação do espírito, que se abisma em formas cada vez mais obscuras até a forma-limite do desvanecimento que é a treva da matéria.
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O estado de culminação na unidade de um ato, o ser, confunde-se com o bem; assim matéria e mal, por sua vez, se identificam; não há mal fora da matéria.
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A natureza do mal não está na matéria, mas é anterior a ela: o defeito do bem é para a alma o primeiro mal, e a obscuridade vem em segundo lugar.
A félicité e o bonheur são tais em sua forma pura e livre: jorram de sua plenitude e coroam uma vida que se realiza e que, ao se realizar, é e realiza o bem, sem ser passivos, misturados e furtados ao ceder a uma turva satisfação dos desejos e dos instintos.-
Aristóteles já havia ensinado que toda atividade, se fosse perfeita, era feliz.
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Quando a virtude, concebida como realização espiritual dominante, implica potência, não se pode conceber que o bem se separe da felicidade, assim como é inconcebível separar a glória da vitória.
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Quem é prisioneiro de um laço exterior ou interior, segundo as premissas realistas, não é bom; é anormal e contranatural que tal ser possa ser feliz, e de qualquer forma puramente casual.
A frase de Plotino segundo a qual não há um Deus que combata pelos que não estão armados, e a lei quer que a vitória seja, em tempo de guerra, para os valorosos, não para os que rezam, representa novo contraste com as atitudes de renúncia e evasão de uma religiosidade asiático-semítica.-
O covarde não pode ser bom: ser bom implica uma alma de herói, e a perfeição do herói é o triunfo.
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Pedir à divindade a vitória seria pedir-lhe a virtude; a vitória é o corpo em que se realiza o estado perfeito, sobrenatural e sobre-humano, da virtus.
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A doutrina mística do triunfo não supõe nem concebe ateísmo nesses princípios, mas o ideal de uma síntese superior entre força e espírito, humanidade e divindade, a ser apreendida no momento da transfiguração heroica.
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Segundo Políbio, os romanos, usando a força em todas as coisas e persuadidos de que o que preestabeleceram deve necessariamente acontecer, são assim levados a triunfar em muitas coisas; os soldados de Fábio não juram vencer ou morrer, mas vencer e regressar vitoriosos.
A destruição do medo é uma máxima de ascese tanto para os homens quanto para o que concerne ao mundo superior, pois o temor de Deus era uma virtude absolutamente desconhecida da mais alta humanidade tradicional, do Oriente e do Ocidente.-
Quem teme qualquer coisa ainda não atingiu a perfeição da virtus; é um medíocre.
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No homem superior, o spoudaios, as impressões não atingem a interioridade, quaisquer que sejam as sofrimentos e desgraças, os seus ou os dos outros; pois isso seria fraqueza de alma.
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Foi apenas nas almas fracas da plebe imperial que as novas crenças puderam firmar pé, apoiando-se em visões apocalípticas de terror e salvação gratuita.
Plotino admite que o sábio possa ter por vezes movimentos involuntários e irrefletidos de medo, mas como se esses movimentos lhe fossem estranhos, possíveis apenas porque o espírito, nesse instante, estava alhures, e ele os aplacará como se aplacam as penas de uma criança, pela ameaça ou pelo raciocínio, sem cólera.-
O sábio é aquele que age pela melhor parte de si mesmo; nele, é a inteligência que é ativa; não seria sábio se tivesse um demônio que colaborasse em sua ação.
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A sofrimento poderá, no máximo, provocar a separação de uma parte do espírito ainda sujeita em sua humanidade a sofrer, mas não poderá abalar o princípio superior; a chama que está nele brilha como a luz da lanterna nos redemoinhos violentos dos ventos e na tempestade.
O princípio de uma autorresponsabilidade transcendental resulta claramente das máximas de Plotino sobre a ação: tudo o que é, o homem superior assume, quer e justifica referindo-se ao princípio que está nele, sobrenatural e soberano.-
Não há justificação exterior e intelectual da ação: a ação está imediatamente ligada à sua significação.
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Apenas quando a alma toma como guia a razão pura e impassível que lhe pertence em próprio é que se deve dizer que o ímpeto depende de nós, é voluntário e é nossa obra.
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Não se deve atribuir ao universo a produção do mal; a alma extraviada pela ignorância, abatida pela violência dos desejos, não permite que venham de nós ações, mas apenas paixões.
O verdadeiro despertar consiste em se levantar sem o corpo e não com ele; se levantar com o corpo é passar de um sono a outro e mudar de cama; despertar verdadeiramente é abandonar completamente os corpos.-
A sensação é para uma alma adormecida; toda a parte da alma que se encontra no corpo está adormecida.
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Sair do corpo e abandonar o mundo dos corpos não deve ser interpretado materialmente, em plano espacial: não se trata de uma alma que sai de um corpo morto, mas da reintegração total da natureza intelectual privada de sono.
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Essa é a verdadeira realização iniciática e metafísica, em relação com o ideal mais alto da humanidade clássica.
Plotino assimila com singular eficácia o fato de deixar os corpos a mudar de cama, estigmatizando assim a doutrina da reencarnação.-
No ciclo dos nascimentos, cada forma de existência condicionada é, de um ponto de vista absoluto, equivalente a outra, assim como em um círculo cada ponto é equidistante do centro.
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A realização metafísica, coroamento de uma existência humana virilmente vivida e asceticamente fortalecida, é uma fratura na série dos estados condicionados: uma abertura sobre uma direção diferente, transcendente, perpendicular.
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Não se chega a ela seguindo o rastro das coisas que se tornam, mas por uma via de introversão, de concentração interior extrema de todos os poderes e de todas as luzes, que torna propícia a iluminação super-racional e permite a integração metafísica do próprio eu, ou seja, a imortalização efetiva da personalidade.
No estado absoluto de autoconsciência, a aparência de exterioridade que as forças divinas podem ter em sua grandeza em relação aos limites da vida psíquica ordinária se dissipa, e essas forças aparecem como os poderes da própria alma glorificada.-
Quem tem a visão penetrante vê o objeto nele mesmo; o possuído de um deus, de Phebo ou de alguma Musa, contempla seu deus em si mesmo assim que tem a força de ver o deus em si.
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Não há então, exterior um ao outro, um ser que vê e um objeto que é visto; há contemplação do que está em si mesmo como sendo o próprio si mesmo.
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Esse é o coroamento da evocação da espiritualidade viril em um dos maiores Mestres de Vida, algo vivo cujo valor não é nem de ontem nem de amanhã, mas de sempre.
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