geay:paul-ricoeur
PAUL RICOEUR E A DEMITOLOGIZAÇÃO
GEAY, Patrick. Hermès trahi: impostures philosphiques et néo-spiritualisme d'après l'oeuvre de René Guénon. Paris: Ed. Dervy, 1996
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A remodelagem da hermenêutica tradicional pela psicanálise
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A difusão de conceitos psicanalíticos no mundo filosófico remodelou totalmente a hermenêutica tradicional, a qual já havia passado por transformações desde a Reforma e o Romantismo.
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“A difusão dos conceitos psicanalíticos no mundo filosófico teve, notadamente, por consequência o remodelamento total da hermenêutica tradicional.”
A transformação da exegese protestante e romântica-
A exegese protestante engajou-se na busca de um sentido histórico único das Escrituras, em detrimento dos sentidos espirituais reconhecidos pelos Padres da Igreja.
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“a exegese protestante havia-se engajado na pesquisa de um único sentido histórico das Escrituras, e isso em detrimento dos semper mysteria tractat: os sentidos espirituais do texto sagrado, reconhecidos pelo antigo método de leitura dos Padres.”
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O Romantismo, com Schleiermacher, desenvolveu uma técnica de interpretação baseada no estudo psicológico e gramatical, reprimindo a dimensão esotérica de escritos como os da Cabala judaica ou de Platão.
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“o Romantismo, sobretudo com Schleiermacher, desenvolverá uma técnica de interpretação fundada no estudo psicológico e gramatical das obras, reprimindo assim a antiga dimensão esotérica de escritos como os da Cabala judaica ou de Platão.”
O impacto da teoria freudiana e o problema da conciliação hermenêutica-
A teoria freudiana perturbou de forma decisiva os fundamentos da hermenêutica “mística”, levantando para o filósofo Paul Ricœur o problema de conciliar a psicanálise com a fé e a fenomenologia das religiões.
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“é bem a teoria freudiana que viria perturbar de forma decisiva os fundamentos da hermenêutica 'mística', como se constata precisamente na leitura da obra do filósofo calvinista P. Ricœur. Na sequência dessa ruptura maior, um espinhoso problema viria, com efeito, a colocar-se: como poder conciliar o sistema freudiano com os dados da fé, mas também com os da fenomenologia das religiões?”
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Paul Ricœur propôs que a ambiguidade do símbolo permitia interpretá-lo em vários níveis, com métodos diversos, fazendo do símbolo o centro de uma reconciliação entre hermenêuticas.
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“Cumpria, segundo P. Ricœur, deduzir da própria ambiguidade do símbolo a possibilidade de o interpretar em vários níveis, segundo métodos diversos, senão opostos, ainda que coerentes em si mesmos. Responder a essas questões requeria, consequentemente, que se fizesse do símbolo o centro de uma reconciliação das duas hermenêuticas, única ocasião de uma superação da antitética.”
A tentativa de síntese e as suas objeções-
A tentativa de síntese entre psicanálise e fenomenologia religiosa parece suscitar objeções, dado visar uma coexistência difícil entre a concepção freudiana do símbolo e a abordagem do historiador das religiões.
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“convém dizer em que essa tentativa de síntese entre psicanálise e fenomenologia religiosa parece suscitar várias objeções, desde que visa a coexistência difícil, senão impossível, entre a concepção freudiana do símbolo como expressão sistemática de um desejo inconsciente reprimido e a abordagem mais neutra do historiador das religiões, que apresenta o símbolo como a manifestação e a revelação do sagrado.”
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Questiona-se se um equívoco sobre a natureza fundamental do símbolo não teria conduzido a um esforço difícil de conciliação, negligenciando a sua função de transmissão de um conhecimento impessoal.
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“Não se poderia pensar, notadamente, que um certo equívoco quanto à natureza fundamental do símbolo viria justamente acarretar esse esforço difícil de conciliação? Por outras palavras, em que medida as características próprias do símbolo, as suas prerrogativas, a sua função de transmissão de um conhecimento impessoal (e isso em todas as religiões) não estariam a ser deixadas de lado, em benefício de uma concepção nova capaz, nessa ocorrência, de acolher todas as formas 'possíveis' de interpretação?”
O texto «O símbolo dá que pensar» como referência fundamental-
Paul Ricœur anunciou que o último capítulo de “Finitude et culpabilité”, intitulado «O símbolo dá que pensar», constituía a sua “placa giratória”.
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“é o último capítulo desta obra: «o símbolo dá que pensar», que constituía a 'placa giratória'.”
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Este texto representa um dos mais precisos e explícitos que Paul Ricœur escreveu sobre a questão do símbolo e da sua interpretação, sendo tomado como texto de referência.
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“Este texto representa, com efeito, pela sua clareza, um dos mais precisos e mais explícitos que P. Ricœur tenha escrito sobre a questão do símbolo e da sua interpretação. Por isso, tomá-lo-emos como texto de referência, sem todavia excluir outros, igualmente significativos.”
A definição clássica do símbolo e os problemas das precisões posteriores-
Em “O Conflito das Interpretações”, Paul Ricœur deu uma definição clássica do símbolo como uma estrutura de significação onde um sentido direto designa outro sentido indireto.
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“Chamo, diz ele, símbolo a toda estrutura de significação onde um sentido direto, primário, literal, designa por acréscimo um outro sentido indireto, secundário, figurado, que não pode ser apreendido senão através do primeiro.”
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As precisões que ele trará em «O símbolo dá que pensar» parecem colocar mais problemas, sendo indispensável apresentar as suas grandes linhas, dado representarem os fundamentos da sua hermenêutica.
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“as precisões que ele trará em «o símbolo dá que pensar» parecem colocar mais problemas. A fim de se apreender toda a sua amplitude, parece indispensável apresentar as suas grandes linhas, na medida em que, cumpre insistir, todas as concepções desenvolvidas nesta conclusão da Filosofia da Vontade representam os fundamentos verdadeiros da hermenêutica de P. Ricœur, tomada no seu conjunto, donde a sua importância considerável.”
A terceira via da interpretação criadora de sentido-
Paul Ricœur afirma que: “o símbolo não guarda nenhum ensino dissimulado que bastaria desmascarar e que tornaria caduco o vestuário da imagem. Se a filosofia não pode seguir o método platônico que interrompe o discurso para deixar lugar ao mito, não é, por outro lado, mais possível engajar uma 'transcrição filosófica' dos símbolos e dos mitos.”
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Propõe, portanto, explorar uma terceira via: uma interpretação criadora de sentido, uma doação de sentido a partir do símbolo, que “dá que pensar”.
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“Conviria, pois, 'explorar uma terceira via', integralmente filosófica: 'uma interpretação criadora de sentido', e por aí proceder à 'doação de sentido do símbolo'. É nessa perspectiva, segundo P. Ricœur, que 'o símbolo dá que pensar'; de facto, acrescenta ele, dá 'com que pensar'.”
O momento histórico da filosofia do símbolo: o esquecimento e a restauração-
Paul Ricœur sustenta que a tarefa hermenêutica tem um significado preciso no momento histórico do esquecimento dos sinais do sagrado e da perda do homem, exigindo uma restauração.
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“Esta tarefa, sustenta Ricœur, tem um significado preciso agora (…). O momento histórico da filosofia do símbolo, é o do esquecimento e da restauração. Esquecimento dos sinais do sagrado, perda do homem mesmo enquanto pertence ao sagrado.”
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É necessário construir uma interpretação que respeite o enigma original dos símbolos, deixando-se ensinar por eles, mas que, a partir daí, promova o sentido de forma autônoma.
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“É necessário em consequência, segundo ele, 'construir uma interpretação que respeite o enigma originário dos símbolos, que se deixe ensinar por eles, mas que, a partir daí, promova o sentido, forme o sentido na plena responsabilidade de um pensamento autônomo'.”
A dissolução do mito-explicação e a restauração do mito-símbolo-
A ambiguidade desta posição, que recebe e impõe significados, considera que a dissolução do mito-explicação é o caminho necessário para a restauração do mito-símbolo.
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“A ambiguidade desta posição que, ao mesmo tempo, recebe do símbolo uma informação e quer impor-lhe novas significações, considera que 'a dissolução do mito-explicação é o caminho necessário da restauração do mito-símbolo'.”
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A hermenêutica moderna pretende assim uma revivificação da filosofia através do contacto com os símbolos fundamentais da consciência.
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“Isso porque 'a hermenêutica moderna prossegue o desígnio de uma revivificação da filosofia ao contacto dos símbolos fundamentais da consciência'.”
A segunda ingenuidade e a doação de sentido-
Paul Ricœur sublinha que: “não pode tratar-se de 'voltar à primeira ingenuidade, de modo algum' na medida em que, como escreve, 'algo está perdido, irremediavelmente perdido: a imediatidade da crença'. A função desta hermenêutica seria assim a de 'tender para uma segunda ingenuidade' graças ao procedimento de 'doação de sentido', a fim de permitir de novo ao homem moderno 'comunicar com o sagrado'.”
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Uma abordagem puramente fenomenológica é insuficiente porque se limita a compreender o símbolo pelo símbolo.
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“Assim, toda a abordagem puramente fenomenológica do símbolo parece insuficiente na medida em que 'se limita a compreender o símbolo pelo símbolo'.”
Pensar a partir dos símbolos e a interpretação criadora-
Paul Ricœur defende que é necessário pensar a partir dos símbolos e não mais nos símbolos, formando o sentido através de uma interpretação criadora.
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“Cumpriria então, segundo Ricœur, 'pensar a partir dos símbolos e não mais nos símbolos', uma vez mais: 'formar o sentido, por uma interpretação criadora'.”
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É necessário retomar, a um nível filosófico, o conteúdo das tradições religiosas, fazendo regressar a filosofia à fonte vivificante dos símbolos tradicionais para o seu rejuvenescer.
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“Numa perspectiva bastante próxima da de Husserl, aparece portanto necessário retomar 'a um nível filosófico' o conteúdo das tradições religiosas. Todavia, segundo Ricœur, a filosofia clássica, porque envelhecida e gasta, devia, para provocar o seu 'rejuvenescimento', regressar à fonte vivificante dos símbolos tradicionais, mas sob a condição de poder jogar livremente, no plano intelectual, com estes últimos.”
O postulado equívoco da interpretação instauradora-
Questiona-se se esta empresa não repousa sobre um postulado equívoco: como conciliar uma interpretação instauradora de sentido com uma leitura que preserve a integridade do relato mítico que contém desde a origem a totalidade dos seus significados?
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“Contudo, esta empresa, por mais instrutiva que seja sobre o estado atual da filosofia, não repousará sobre um postulado cujo caráter equívoco parece ter passado quase totalmente despercebido? Com efeito, como poder concordar, assim como o desejaria P. Ricœur, uma interpretação instauradora de sentido e uma leitura que tenha o cuidado de preservar a integridade do relato mítico que, segundo a tradição, contém desde a origem a totalidade das suas inúmeras significações?”
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Paul Ricœur afirma não se tratar de “pôr o sentido” do símbolo, mas a sua via de interpretação criadora supõe extrair um sentido do símbolo sem pressupor um sentido já lá, oculto.
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“De facto, mesmo se P. Ricœur pôde dizer ao mesmo tempo que não se tratava de 'pôr o sentido' do símbolo que só ele dá, não é, apesar de tudo, possível 'extrair do símbolo um sentido que ponha em movimento o pensamento sem supor um sentido já lá, oculto, dissimulado, recoberto, nem cair no pseudo-saber de uma mitologia dogmática. Gostaria, acrescenta Ricœur, de experimentar uma outra via que seria a de uma interpretação criadora' que 'não abandona de modo algum (…) a tradição da racionalidade que anima a filosofia desde os Gregos'.”
A hermenêutica como desmitologização e redução à alegoria-
Paul Ricœur confirma que o pensamento reflexivo é essencialmente desmitologizante, transpondo e eliminando o mito, reduzindo-o à alegoria.
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“Por aí, confirma ele, 'o pensamento como reflexão é essencialmente desmitologizante; a sua transposição do mito é ao mesmo tempo uma eliminação, não somente da sua função etiológica mas também do seu poder de abrir e de descobrir; ela não interpreta o mito senão ao reduzi-lo à alegoria'.”
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Questiona-se se esta redução não equivale a uma liquidação pura e simples do mito e do símbolo, dissociando artificialmente o fundo da forma.
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“Mas por que essa 'redução'? Esta não equivalerá na realidade a uma liquidação pura e simples do mito como do símbolo, tomando a forma de um anexionismo cultural visando dissociar artificialmente o fundo de uma forma, só esta a ser conservada?”
O a priori do acesso a um conhecimento verdadeiro-
Esta abordagem, que visa distanciar-se da interioridade do mito, apoia-se no a priori de que a exegese não poderia visar o acesso a um conhecimento verdadeiro.
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“Aparece de facto, mais exatamente, que esta abordagem, cujo objetivo intrínseco reside numa vontade de distanciamento da interioridade do mito, característica da modernidade, apoia-se num a priori segundo o qual a exegese não saberia visar o acesso a um conhecimento verdadeiro.”
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Paul Ricœur escreve que não há mito sem exegese, nem exegese sem contestação, e que o deciframento de enigmas não é uma ciência, ao que se pergunta se isso invalida a existência ou a operatividade de um método exegético de deciframento.
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“P. Ricœur escreve com efeito: 'nenhum mito sem exegese; nenhuma exegese sem contestação. O deciframento dos enigmas não é uma ciência, nem no sentido platónico nem no sentido hegeliano, nem no sentido moderno da palavra ciência'. Deve-se concluir, sob o pretexto de que ela não é efetivamente assimilável ao conceito moderno de ciência, de que se pode aliás contestar a hegemonia, que este método exegético de deciframento não existe, ou que nunca existiu, que é inoperante e que, por consequência, não visa para os seus representantes a obtenção de uma ciência outra mas não obstante verdadeira?”
A opacidade do símbolo e a ignorância dos Mistérios-
“Assim, esta dificuldade em descobrir o sentido do símbolo seria percebida como uma 'deficiência', tal como a sua 'opacidade', a sua 'não-transparência', como se a ligação do simbolismo ao registro dos Mistérios fosse deliberadamente ignorada.”
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O fato de não se encontrarem estudos sobre os místicos em Paul Ricœur implica uma intenção real, ainda que discreta, de eludir um universo exegético sem o qual o simbolismo tradicional permaneceria insondável.
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“Ora, é um fato, como justamente sublinhava P. Colin, 'que não se encontram em Ricœur estudos sobre os místicos' em geral. O que implica uma intenção real, ainda que discreta, de eludir todo um universo exegético sem o qual o simbolismo tradicional permaneceria talvez para sempre insondável.”
A função doutrinal do símbolo e a sua marginalização-
A função normal e universalmente atestada do símbolo, que é transmitir uma doutrina, encontra-se marginalizada na abordagem de Paul Ricœur.
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“Assim, a função normal, universalmente atestada, do símbolo, que é a de transmitir uma doutrina, encontrar-se-ia de algum modo marginalizada.”
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Abandonar o “invólucro mítico”, como preconiza Paul Ricœur, é romper com o que ele chama de “absurdidade” da antiga representação do mundo, uma cosmologia que se tornou incrível para o homem moderno.
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“É por isso que 'abandonar este invólucro mítico' como o preconiza Ricœur, é romper com a 'absurdidade' (sic) da antiga representação do mundo. A saber, 'a forma cosmológica da pregação primitiva', isto é, que 'a concepção de um mundo escalonado entre céu, terra, inferno e povoado de potências sobrenaturais que descem de lá do alto aqui em baixo é pura e simplesmente eliminada como caduca pela ciência e pela técnica moderna (…); Bultmann tem razão, sublinha Ricœur, a este nível, em dizer que a desmitologização deve ser levada sem reserva', porque esta cosmologia 'tornou-se incrível para o homem moderno'.”
A retroprojeção e a desmitologização em São Paulo e São João-
Paul Ricœur justifica este processo com o método da retroprojeção, afirmando que São Paulo e São João teriam iniciado o movimento de desmitologização, que procederia da própria natureza da esperança cristã.
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“Este processo será mesmo justificado por meio do método clássico da retroprojeção, por outro lado felizmente denunciado por A. Koyré. Com efeito, 'é São Paulo, sustenta Ricœur, que inicia aqui o movimento de desmitologização. Quanto às representações escatológicas propriamente ditas, é João que vai mais longe no sentido da desmitologização'. Esta última, não hesita ele em escrever, 'procede da própria natureza da esperança cristã'.”
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Argumenta-se que esta cosmologia não se tornou “incrível”, mas sim incompreensível para a mentalidade moderna, e que o hermeneuta contemporâneo, sem meios doutrinais, a considera inaceitável.
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“Sem dúvida que esta cosmologia não se terá tornado tanto 'incrível' quanto incompreensível para a mentalidade moderna, o que é bem diferente. Como situar, com efeito, no universo, os sete Céus que a perceção ordinária não consegue localizar? Como admitir a descida, anunciada por São João no Apocalipse, de uma Jerusalém celeste toda realçada de ouro e de pedrarias? O hermeneuta contemporâneo, não podendo responder a estas questões, por falta de meios doutrinais, julga esta visão do mundo inaceitável e escandalosa.”
A responsabilidade do judaico-cristianismo no afastamento do mito-
A hipótese de tornar o judaico-cristianismo responsável por um afastamento do mito parece estar em desacordo com os textos e não é claramente demonstrada por Paul Ricœur.
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“Quanto ao facto de tornar o judaico-cristianismo em parte responsável por um afastamento em relação ao mito, esta hipótese, ver-se-á, parece estar em desacordo com os textos. Ela não é aliás claramente demonstrada por Ricœur, que afirma apenas que o Novo Testamento 'inicia a redução das imagens que lhe servem de veículo' sem dar nenhum exemplo suscetível de justificar a sua leitura dos Evangelhos.”
A crítica a uma antropologia positivista do símbolo-
A hermenêutica de Paul Ricœur apoia-se numa antropologia positivista do símbolo e do mito que separa esquematicamente a história humana em dois períodos: um pré-lógico e arcaico, e outro científico e racional.
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“Convém determinar presentemente por que razões esta hermenêutica, no seu conjunto, parece dever ser efetivamente posta em causa. Em primeiro lugar, porque se apoia numa antropologia positivista do símbolo e do mito que separa esquematicamente a história humana em dois períodos: um pré-lógico, arcaico, dominado pela crença e outro 'científico', fundado sobre a razão.”
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Esta oposição é considerada inoperante e não correspondente às informações fornecidas por um estudo aprofundado das religiões.
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“Esta oposição parece-nos de facto inoperante e sobretudo não corresponder às informações que fornece um estudo aprofundado das religiões. Existe bem, como diz Ricœur, esta 'distância' entre o mundo tradicional e o pensamento crítico moderno, mas a definição que ele dá deste mundo não parece conforme à realidade.”
A natureza complexa do corpus simbólico-
O corpus simbólico não releva de uma mentalidade pré-lógica ou antirracional, mas é a expressão formal de um pensamento complexo, com um pano de fundo esotérico e místico que explica a sua dupla natureza de velar e desvelar.
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“O corpus simbólico não releva, no fundo, de uma mentalidade pré-lógica ou antirracional; ele é na realidade antes a expressão formal de um pensamento particularmente complexo, cujo fundo esotérico e místico permite compreender melhor esta dupla natureza do símbolo, que é a de velar e de desvelar simultaneamente.”
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O símbolo só parecerá ambíguo para quem rejeita a hermenêutica metafísica, sem a qual o símbolo se torna uma forma vazia para significações novas e exógenas.
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“Por outras palavras, de transmitir — preservando-o — um segredo. Assim, o símbolo só parecerá ambíguo para aquele que, deliberadamente ou não, rejeita toda esta hermenêutica metafísica sem a qual talvez não seja permitido entrar mais avante na compreensão do texto sagrado. Sem ela, com efeito, o símbolo não seria mais do que uma forma vazia capaz de receber uma pluralidade de 'significações' novas mas exógenas; expressões de uma multitude de opiniões individuais e subjetivas.”
O exemplo de São Dionísio Areopagita e a exegese anagógica-
São Dionísio Areopagita foi uma referência incontestada na Idade Média, e na sua “Hierarquia Celeste”, R. Roques escreve que uma exegese anagógica apropriada deve extrair o ensino inteligível de cada símbolo.
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“Evocaremos num primeiro tempo o de São Dionísio Areopagita, que foi, na Idade Média, tanto entre os dominicanos (São Tomás) como entre os franciscanos (São Boaventura), uma referência incontestada. Na sua introdução à A Hierarquia Celeste, R. Roques escreve: 'de cada símbolo, uma exegese anagógica apropriada extrairá o ensino inteligível e as virtudes de unidade que ele nos deve entregar'.”
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Trata-se não de fabricar um sentido aleatório, mas de descobrir os diferentes níveis de significação que o símbolo contém, pois este é uma expressão direta do Verbo.
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“Não se trata portanto de fabricar um sentido aleatório, mas de descobrir os diferentes níveis de significação que ele contém. Isso supõe evidentemente que o símbolo tenha sido estabelecido, ab origine, a fim de representar de maneira adequada uma soma de ideias e de ensinamentos. Por este motivo, o símbolo é com efeito uma expressão direta do Verbo como fonte última de inteligibilidade, enquanto meio de comunicação da verdade pode portanto ser aparentado a uma 'linguagem divina', seguindo a expressão de R. Guénon.”
A intuição espiritual e a razão discursiva na compreensão do símbolo-
O sentido do símbolo é verdadeiramente descoberto por meio de uma intuição espiritual, dado o seu caráter sintético, e só depois pode ser explicado pela razão discursiva.
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“Mas este sentido não é verdadeiramente descoberto senão por meio de uma intuição espiritual, dado o caráter sintético do símbolo. Só é depois da obtenção deste conhecimento que uma explicação pode ser dada, por meio da razão discursiva que decompõe e analisa no tempo, a fins de exposição, o que só uma visão interior, um desvelamento pode inicialmente transmitir.”
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O homo religiosus não é desprovido de razão, mas utiliza-a ao serviço de uma revelação que o filósofo recusa.
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“Neste sentido, o homo religiosus não é desprovido de razão, ele utiliza-a de facto igualmente à maneira de um instrumento, mas pondo-a ao serviço de uma revelação que recusa, por princípio, o filósofo.”
A lectio divina e a posição histórico-crítica-
A antiga lectio divina supunha uma homogeneidade espiritual entre o texto bíblico e o seu leitor, exigindo uma “co-inspiração”, em oposição à posição histórico-crítica que trata o texto bíblico como qualquer outro.
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“A este respeito, P. Colin teve bem razão em insistir sobre o facto de que, para Ricœur, a filosofia reflexiva não é nem uma 'intuição intelectual' nem uma 'visão mística'. A antiga lectio divina supunha, como nota P.C. Bori, uma homogeneidade espiritual entre o texto bíblico e aquele que o perscruta. Donde a necessidade 'de uma espécie de co-inspiração', permitindo eventualmente, se o leitor é qualificado, o que M. Chodkiewicz nomeia: 'uma viagem na palavra de Deus'. Mas este procedimento, por assim dizer iniciático, de leitura está nos antípodas da 'posição histórico-crítica' que implica, segundo Bori, 'que o texto bíblico seja tratado à igualdade de qualquer outro texto'.”
A origem do pensamento positivo na Grécia e a secularização-
Jean-Pierre Vernant assinalou que, ao levar o “mistério” para a ágora, o filósofo grego o tornou objeto de debate público, onde a argumentação dialética suplantou a iluminação sobrenatural.
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“Como tinha por seu lado assinalado de maneira notável J.-P. Vernant, a propósito do auge do pensamento positivo na Grécia do século VI: 'ao levar o 'mistério' para a praça, em plena ágora, ele (o filósofo) faz dele o objeto de um debate público e contraditório, onde a argumentação dialética acabará por tomar a dianteira sobre a iluminação sobrenatural'.”
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Esta atitude, que ignora sistematicamente a existência de uma ciência oculta nos símbolos, é o fundamento do pensamento positivo que prefigura a secularização moderna.
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“Esta recusa que, assim como se vê, não é apanágio do hermeneuta contemporâneo, aparece antes como sendo o fundamento mesmo deste pensamento positivo, nascido na Grécia e que prefigura assim o processo de secularização engajado desde os inícios do mundo moderno. Longe de ter feito a 'descoberta' da razão, inaugura antes uma utilização nova desta última: como instrumento posto ao serviço de uma crítica inédita do pensamento místico. Ora, a atitude primeira desta crítica é a de ignorar sistematicamente a existência de uma ciência oculta nos símbolos.”
A solidariedade entre símbolo e doutrina em São Dionísio Areopagita-
Uma citação de São Dionísio Areopagita, citada por J. Richer, mostra a profunda solidariedade entre símbolo e doutrina, pois as providências inteligíveis de Deus são representadas por uma variedade de figuras.
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“Contudo, esta frase de São Dionísio Areopagita que cita bem oportunamente J. Richer permite ver até que ponto a solidariedade entre símbolo e doutrina é profunda: 'No que concerne, escreve Dionísio, as Providências inteligíveis de Deus, os seus dons, as suas aparições, as suas potências, as suas propriedades, os seus repousos, as suas moradas, os seus processos, as suas distinções, as suas uniões, representam-se por uma variedade de figuras, seja antropomórficas, seja animais (trate-se de bestas selvagens ou domésticas), seja vegetais, seja minerais'.”
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O símbolo expressa processos metafísicos devido à sua estrutura polissêmica e porque a sua morfologia traduz necessariamente o sentido que veicula, sendo a manifestação exterior de realidades interiores.
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“De tal sorte que, se o símbolo está em medida de exprimir estes processos metafísicos e cosmológicos eminentemente ricos e variados, é em virtude da sua estrutura polissêmica e também porque a sua morfologia traduz necessariamente o sentido que veicula. Quer se trate de um relato, de um rito ou de um traçado, o símbolo é a manifestação exterior de realidades interiores. Assim, o externo é o interno à mesma medida que o interno é o externo.”
A unidade do símbolo como teofania direta-
O princípio da fisiognomonia antiga ou da metafísica judaica do Corpo Divino (Shi'ur Qomah) mostra que a oposição entre a circunferência e o centro do símbolo pode ser superada quando este aparece como uma teofania direta do sentido.
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“É aí notadamente o princípio da fisiognomonia antiga, ou ainda da metafísica judaica do Corpo divino (Chi'our Qomah). A oposição — legítima — entre a circunferência do círculo e o seu centro, indispensável para que se possa conceber a existência de um sentido oculto (o símbolo como reflexo de um além-de-si-mesmo), pode aqui ser 'superada' desde que ele (o símbolo) aparece como uma teofania direta deste sentido.”
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Na tradição islâmica, por exemplo, Ibn Arabi recorda que a Lei (Shari'a) não deve ser distinguida da Verdade essencial (haqiqa).
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“É por isso que, na tradição islâmica por exemplo, o exoterismo, a Lei (Sharî'a) não deve segundo Ibn Arabi ser distinguida da Verdade essencial, 'ela é a haqiqa' recorda judiciosamente M. Chodkiewicz.”
A crítica ao método de Paul Ricœur como truncamento do símbolo-
O método proposto por Paul Ricœur, dado o vínculo do símbolo com a sua raiz doutrinal e metafísica, só pode construir um novo sentido truncando ou aniquilando o símbolo.
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“Desde então, o método proposto por Ricœur, tendo em conta o laço que une o símbolo à sua raiz doutrinal e metafísica, não pode decentemente 'construir' um novo sentido senão sob a condição de truncar o símbolo, senão de o aniquilar.”
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A ideia de “criação” de sentido integra-se numa lógica interpretativa “proto-romântica” que visa compreender um texto melhor do que o seu autor, reduzindo a Escritura a uma pura potencialidade semântica.
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“A ideia mesma de 'criação' de sentido integra-se no fundo numa lógica interpretativa 'proto-romântica' segundo a qual, segundo P.C. Bori, trata-se de 'compreender um texto melhor do que o seu autor o fez a si mesmo'. O que coloca para a Escritura um problema no mínimo considerável, pois ela encontrar-se-ia assim reduzida ao estado de pura potencialidade semântica, desprovida de todo o conteúdo pré-estabelecido.”
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