DUALIDADE FUNDAMENTAL
Daí resulta, na evolução de toda a sociedade humana, assim como em cada um de nós, uma dualidade fundamental, que nos faz oscilar incessantemente entre o plano inacessível da existência e o plano instável do nada. Impossível alcançar um; impossível nos mantermos no outro. Toda a história, como toda a filosofia, como toda a literatura, como toda a poesia, como todas as artes, como toda a existência humana, se enquadra e se desenrola assim entre essas duas ideias, ou melhor, entre esses dois eventos, que são os dois grandes marcos da filosofia primordial; o recuo mental do primeiro homem, que, ao nos separar do ser, nos transformou em monstros; o restabelecimento da visão original, que nos devolverá nossa forma normal. Todo pensamento humano, de uma forma ou de outra, se depara com o problema: ou consentir com o desnível, ou querer a elevação. E sempre foi assim, para cada um dos bilhões de homens que respiraram sob o sol. Como ensina, de fato, nossa tradição celta, existem atualmente três necessidades para o homem: sofrer, renovar-se, escolher. E é o rigor dessa lei que, apesar de nosso atual estado teratológico, fundamenta nossa incomparável dignidade.
