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A ILUSÃO DA "VIDA ORDINÁRIA"
REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS
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A atitude materialista, seja como materialismo explícito e formal ou como materialismo prático, produz modificação profunda na constituição psicofisiológica do ser humano, tornando-o impermeável a influências que não sejam sensíveis e restringindo tanto sua compreensão quanto seu campo de percepção.
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As faculdades de compreensão tornam-se cada vez mais limitadas.
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O campo perceptivo restringe-se ao que cai sob os sentidos.
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O ponto de vista profano é reforçado pela própria limitação que o originou.
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A incapacidade de conceber ou perceber o suprassensível parece justificar sua negação.
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A noção de vida ordinária ou vida corrente exprime exclusão de todo caráter sagrado, ritual ou simbólico, relegando o supra-humano ao domínio do extraordinário e invertendo a ordem normal própria das civilizações tradicionais.
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Nada além do puramente humano é admitido como atuante.
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O que ultrapassa essa concepção é considerado excepcional ou estranho.
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O ponto de vista profano substitui a normalidade tradicional.
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A expressão vida real é empregada ironicamente para designar o domínio mais ilusório.
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A realidade sensível é a mais baixa na ordem da existência manifestada.
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A separação das coisas de qualquer princípio superior retira-lhes sua verdadeira realidade.
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Não existe domínio profano em si, mas apenas ponto de vista profano progressivamente invasivo.
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O termo real torna-se sinônimo de sensível, revelando redução instintiva ao corporal.
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A filosofia moderna acompanhou essa degenerescência ao exaltar o bom senso e evoluir do racionalismo humanista ao materialismo e ao positivismo, cujos resultados práticos coincidem na negação ou desconsideração do suprassensível.
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O bom senso cartesiano caracteriza o domínio da vida ordinária.
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O racionalismo reduz todas as coisas ao ponto de vista exclusivamente humano.
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O materialismo nega explicitamente o que ultrapassa o sensível.
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O positivismo declara o suprassensível inacessível ou incognoscível.
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A consequência efetiva é idêntica nos dois casos.
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O materialismo ou positivismo prático, independente de formulação teórica, é mais grave por sua difusão inconsciente e por impregnar profundamente a natureza individual, enquanto a filosofia desempenha sobretudo papel representativo das tendências da época.
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A maioria adere a atitudes materialistas sem reflexão filosófica.
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O estado mental torna-se mais irreversível quanto menos consciente.
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Indivíduos que se julgam religiosos acomodam-se ao materialismo prático.
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A filosofia só obtém êxito quando corresponde às tendências predominantes.
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O que é mais visível na manifestação costuma ser consequência e não causa profunda.
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O mecanicismo e o materialismo difundiram-se amplamente ao transitar do domínio filosófico para o científico, cuja autoridade prática e utilitária exerce influência superior sobre a mentalidade comum.
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A ciência goza de crença implícita em sua verdade, apesar de seu caráter hipotético.
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A filosofia deixa o público relativamente indiferente.
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A existência de aplicações práticas reforça a autoridade científica.
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A mentalidade pragmática integra a concepção de vida ordinária.
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A utilidade substitui a noção de verdade na decadência intelectual moderna.
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O valor atribuído às coisas mede-se por sua eficácia sensível.
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A ciência, solidária da indústria, torna-se fator central da vida ordinária.
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O sucesso passa a funcionar como critério de verdade para o espírito utilitarista.
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As aplicações práticas não dependem da veracidade das hipóteses científicas.
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Todas essas posições constituem aspectos de uma única tendência estruturante do espírito moderno, incapaz de perceber o plano profundo de desvio em que se insere o materialismo e surpreendido pela existência de homens cuja normalidade transcende a vida ordinária sensível.
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O desenvolvimento dessas tendências não é espontâneo.
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O materialismo ocupa lugar específico no plano geral da perdição moderna.
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Os materialistas não concebem a possibilidade desse plano por estarem presos a preconceitos.
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Para certos homens, a vida ordinária sensível seria algo extraordinário.
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Tais homens representam a verdadeira normalidade.
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O materialismo implica atrofia de faculdades superiores.
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A percepção do mundo sensível como sistema fechado depende dessa atrofia.
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A segurança aparente da vida ordinária constitui equilíbrio instável sujeito a interferências inesperadas.
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