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INTELECTO E RAZÃO
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Na doutrina das correspondências entre macrocosmo e microcosmo, os detentores do poder temporal (o rei) equivalem à razão, enquanto a autoridade espiritual equivale ao Intelecto, sendo a razão dependente da sanção sacerdotal para conhecer os princípios superiores que devem fundamentar seu governo.
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A sanção pode vir externamente, da religião como revelação do Intelecto, ou internamente, da continuidade restabelecida entre a alma e o Espírito, caso em que a razão se torna a projeção do Intelecto, em uma relação de pura visão, como afirmado por uma autoridade espiritual contemporânea.
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A posse de uma “terceira dimensão” da alma, a profundidade ou altura, permite um pensamento tridimensional, que julga as aparências sempre referindo-se a um princípio superior, e é a base da definição de arte sacra como aquela que revela essa dimensão.
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A razão que mantém essa referência ao superior é capaz de explicar o universo ao resto da alma, conferindo-lhe sua verdadeira significação.
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O racionalista é aquele cuja razão recusa a autoridade do que lhe é superior, e essa rebelião, no macrocosmo, acarreta a rebelião dos subordinados contra o poder temporal, assim como no microcosmo, a revolta da razão contra o Intelecto leva à revolta da imaginação e da emoção contra a razão.
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A afirmação do rei Jaime I de que “sem bispo, não há rei” ilustra a percepção dessa verdade, embora sua tolice residisse em não perceber que ele mesmo já havia usurpado a autoridade espiritual.
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A razão do humanista, ao rejeitar o Intelecto, torna-se escrava das impulsões infra-racionais, agindo como um “monarca constitucional” submetido a novos tiranos.
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A religião, ao contrário do que acusam os humanistas, nunca pede que se aceite algo contra a razão, mas fornece bases racionais para a crença, como os “sinais” irrefutáveis da adequação do Fundador à sua função e a estatura de seus santos.
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As explicações humanistas para esses sinais, como as teorias evolucionistas ou psicológicas, são infra-racionais por negligenciarem fatores de primeira importância e insultarem a razão.
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O racionalista, por definição, pensa em apenas duas dimensões, pois seu espírito se “libertou das cadeias da superstição” que o ligavam ao Intelecto, daí seu culto por concepções bidimensionais como as estatísticas e a fragmentação do conhecimento no chamado “ensino superior”.
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O conhecimento, hoje, não se obtém mais pela “multiplicação” (enobrecimento pela altura), mas pela “divisão” infinita de uma superfície plana em fatos insignificantes.
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O simbolismo da árvore, presente em quase todas as religiões, representa o Espírito como raiz, a razão como tronco e as outras faculdades como ramos, e o racionalismo é uma forma agravada do estreitamento das artérias por onde a seiva flui da raiz.
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A falta de seiva vital, além do aspecto intelectual, leva as almas a definharem e se desagregarem, o que explica em parte as diferenças entre as primeiras e as últimas religiões, como a visão “horizontal” mais restrita no Judaísmo, Cristianismo e Islamismo em comparação com o Hinduísmo.
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Essa restrição visava concentrar a energia diminuída do homem na direção “vertical”, já que a divulgação de pequenas verdades poderia distrair a alma das verdades elevadas, um perigo que se concretizou de forma avassaladora na modernidade.
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Segundo as doutrinas hindus, nosso universo é apenas um dos inúmeros mundos sucessivos no ciclo do samsara, e a posição de um ser em cada mundo é determinada pelos méritos e deméritos acumulados, sendo a condição humana central a única oportunidade de escapar do samsara e seguir a “via dos Deuses” em direção ao Centro Divino.
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A doutrina do pecado original, presente no Judaísmo e no Islamismo, aponta para a verdade de que o homem não nasce inocente, implicando estados pré-terrestres do samsara, e os ensinamentos sobre limbo e inferno apontam para seus estados pós-terrestres.
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A perda do senso do ideal humano leva a uma compreensão rasa de virtudes como meras utilidades sociais e da “inocência” como simples ausência de más intenções.
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A história do Ocidente nos últimos séculos justifica a Providência por ter velado certas verdades “horizontais” a uma parte da humanidade, concentrando sua energia na direção “vertical”.
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O humanismo e a perspectiva “horizontal” já existiam no Ocidente pré-cristão e, após serem interrompidos pelo Cristianismo, “renasceram” na Renascença, manifestando uma tendência a se desviar das grandes verdades do Universo pelos fatos bidimensionais da ordem material.
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Forma-se um círculo vicioso em que a “liberdade” de distração confere uma agilidade mental que abre caminho para distrações ainda maiores, como a facilidade de viajar, que é a imagem exterior da superficialidade dos movimentos do mental.
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Expressões como “enriquecer a cultura” ou “alargar o horizonte intelectual” não têm relação com a verdadeira “grandeza de alma” do aristocrata, pois esticar a substância psíquica em comprimento e largura reduz sua terceira dimensão ao mínimo.
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A substância da alma não pode crescer por si mesma, mas apenas através de suas raízes no Espírito, sendo o cumprimento dos ritos e as abstinências que nutrem e podam a árvore.
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A doutrina das ações e reações concordantes, base de todas as práticas religiosas, afirma que cada ação gera uma reação, e os ritos são as instruções para colocar em movimento ondas que, partindo deste mundo, provocam um refluxo do outro mundo, cuja reação desproporcional é reservada para a alma nos tesouros do além.
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A diferença entre esoterismo e exoterismo reside no grau de abertura da alma: o esoterismo pertence, na Idade de Ferro, àqueles que experimentam um relativo afrouxamento das “cadeias da caverna” e um antegozo da liberdade.
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Para a maioria, as cadeias são tão sólidas que a aspiração não pode se manifestar plenamente em vida, e o cumprimento dos ritos gera reações que se acumulam para o momento da morte, dando ao prisioneiro a impulsão para escapar da caverna pela “via dos Deuses” ou, na falta do impulso necessário, pela “via dos ancestrais”.
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A negligência em usar o privilégio da condição humana, o “talento” da parábola, confere um impulso descendente, pois “quem não está comigo é contra mim”.
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No esoterismo, já em vida existe um impulso ascendente de aspiração a “crescer”, que pressupõe o conhecimento da plena grandeza da alma e sua meditação concentrada sobre os grandes protótipos de magnanimidade, como a Virgem Maria ou o Profeta Maomé.
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A segunda condição esotérica é que esses protótipos despertem na alma um eco subjetivo, a impressão de poder verdadeiramente conformar-se a eles, o que é a sensação do “afrouxamento das cadeias”.
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O crescimento da alma é um processo de contração e expansão alternadas, onde o cumprimento do ritual contrai a alma em comprimento e largura para aumentar sua altura, resultando na extensão das três dimensões e na capacidade de lançar vagas de aspiração mais poderosas.
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O cumprimento regular dos ritos é a base da vida espiritual, pois mantém o perpétuo fluxo e refluxo entre os dois mundos, desobstruindo o canal entre a alma e o Espírito.
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