lings:casm:presente
PRESENTE À LUZ DO PASSADO
-
As tentativas contemporâneas de voo e a escalada do Evereste são impulsionadas não apenas pela curiosidade fútil herdada de Pandora, mas também por um desejo subconsciente de recuperar o que foi perdido na Queda, uma vez que o anseio inerente ao ser humano de transcender sua condição, frustrado no plano da alma, manifesta-se em um plano inferior.
-
O traço característico do Homem Primordial era a posse de uma natureza supra-humana, e o homem conserva virtualmente a necessidade de restabelecer a relação entre a alma e o Coração divino.
-
A frustração desse anseio legítimo no plano da alma força sua manifestação no plano inferior, resultando na superstição do “mais alto” e do “mais longe”, um resquício incompreendido do passado.
-
A doutrina dos três mundos — do Espírito, da alma e do corpo — presente em todas as religiões, situa o mundo do Espírito além do alcance das faculdades humanas, sendo o Coração a porta de acesso a ele por meio do Intelecto, a faculdade supra-humana que permite a ligação da alma com o Espírito.
-
No Hinduísmo, essa faculdade é representada pelo terceiro olho; no Cristianismo e no Islamismo, pelo “Olho do Coração” ou “Fonte do Coração”, de onde a alma bebe o “Elixir da Vida”.
-
A tradição cristã associa ambos os símbolos na lenda da queda de Lúcifer, cujo olho frontal se tornou a esmeralda do Santo Graal.
-
A metafísica, estudo do que está além da natureza, tem por objetivo abrir o espírito à penetração da luz do Intelecto, proporcionando a mais alta elevação de que o homem como tal é capaz, culminando no contato com o supra-humano, estado expresso pelo termo taoista “Homem Verdadeiro”.
-
O humanismo, que passou a dominar o pensamento ocidental nos últimos quatrocentos anos, ao basear-se no homem como mero membro do reino animal e negligenciar o supra-humano, paradoxalmente priva o espírito humano de suas possibilidades ascendentes, confinando-o a uma existência limitada.
-
A filosofia moderna se mostra indiferente aos graus superiores do universo, e termos como intelecto e metafísica são frequentemente usados de forma deturpada, como relíquias de um passado monárquico em uma república.
-
O uso incorreto do termo “intelectual” para designar atividades anti-intelectuais e a manutenção de palavras como “espiritual” na retórica de humanistas ateus ou agnósticos exemplificam a confusão terminológica e a perda do significado original.
-
O mundo que lança foguetes espaciais é, na realidade, desprovido de movimento ascendente em direção aos planos superiores, sendo dominado por uma perspectiva abissal ou, na melhor das hipóteses, totalmente plana.
-
A perspectiva dos antigos, ao contrário da moderna, era “alada”, pois considerava a vida contemplativa, que consiste em fixar os pensamentos no Espírito para elevar-se a ele pela intuição intelectual, como o tipo mais elevado de existência.
-
A crença antiga via a Lua não apenas como um corpo celeste, mas como a sombra do Céu da Lua, o mais baixo dos sete Céus e a primeira etapa espiritual na jornada para o Infinito e o Eterno.
-
Dante, ao descrever sua ascensão ao Céu da Lua no Paraíso, exemplifica essa concepção de viagem espiritual, uma ideia estranha a uma época que raramente considera tal viagem como real.
-
Embora os místicos sempre tenham sido uma minoria, mesmo em épocas mais favoráveis à espiritualidade, eles representavam o ideal mais elevado e exerciam uma influência espiritual sobre a sociedade, situação que se alterou profundamente nos tempos modernos, onde essa influência “oficial” foi destruída.
-
Na Idade das Trevas, o pequeno número de místicos, longe de ser marginalizado, estava em plena concordância com a maioria, representando o ápice da pirâmide social e uma norma respeitada.
-
A sociedade ainda estava sob o ascendente do Cristo e do exemplo de Maria, cuja escolha da “única coisa necessária” era reverenciada.
-
As antigas ciências médicas, diferentemente da medicina moderna, eram ramificações da religião, baseadas em verdades cosmológicas recebidas por inspiração ou revelação, que estabeleciam correspondências entre o microcosmo, o macrocosmo e o metacosmo.
-
As correspondências incluíam relações entre planetas, metais, pedras, cores, notas musicais, partes do corpo, doenças, temperamentos, virtudes, vícios, os Sete Céus e Potências Angélicas.
-
A prática de uma ciência médica tradicional pressupunha um conhecimento que abarcava desde fisiologia e astrologia até metafísica, teologia e liturgia, aliado a uma aptidão natural para a cura.
-
A medicina moderna, apesar de ser uma invenção puramente humana baseada na experiência prática e de ter um caráter sacro por responder a uma necessidade urgente, não tem qualquer relação com as ciências antigas, cujas curas notáveis, embora sujeitas a exageros, são dignas de crédito.
-
A adoção fragmentária da acupuntura por alguns médicos ocidentais ilustra a incompatibilidade, pois essa técnica se baseia em correspondências que a pesquisa experimental não poderia detectar e que a ciência moderna não pode explicar.
-
A tentativa de explicar a acupuntura como de origem empírica é uma hipótese insustentável diante da natureza radicalmente diferente da abordagem científica antiga e da complexidade de suas correlações.
-
Embora a medicina moderna seja necessária em um mundo superpovoado e doente, onde falta quem pratique a ciência sacra, os antigos provavelmente a considerariam uma consequência do humanismo, que ao mesmo tempo gera muitas doenças que ela precisa tratar.
-
Os antigos notariam o aspecto suicida do humanismo e da medicina moderna, que, ao permitir que o homem desrespeite a lei da seleção natural, tende à degenerescência da espécie e à abolição da saúde.
-
A parábola dos talentos ilustra essa tendência autodestrutiva, em que a ciência, ao fim e ao cabo, vai de encontro às suas próprias intenções, tirando até o que parece ter.
-
O aspecto mais sinistro da situação atual da medicina é sua usurpação do lugar de algo que toca o Absoluto, dedicando ao corpo a energia que outrora era consagrada ao tratamento das almas, numa época em que se considerava que todas as almas estavam doentes, exceto raras exceções.
-
Atualmente, a maioria das almas é considerada sã ou não carente de tratamento, perdendo-se de vista o abismo que separa essa pretensa saúde da perfeita saúde da alma.
-
Os antigos tinham consciência da doença de suas almas porque sua civilização era fundada na ideia da saúde psíquica e dominada pela noção da alma perfeita, noção esta que, baseada em princípios universais, é comum a todas as grandes religiões.
-
Aquele que reintegra o estado do Homem Primordial e recupera a plena saúde da alma distingue-se pela consciência do “Reino dos Céus interior”, sendo capaz de refletir as Qualidades Divinas como um espelho.
-
O ideal mais elevado no plano humano, definido como a majestade e a beleza da alma, acrescidas da santidade e da humildade, é encarnado nas civilizações teocráticas pelo Fundador da religião e por seus primeiros companheiros, sendo perpetuado e glorificado em toda a cultura, dos túmulos dos santos à liturgia, à arte e à arquitetura.
-
A majestade reflete o Rigor Divino e a beleza, a Misericórdia Divina, sendo a santidade fruto do contato com o Espírito e a humildade, a consciência das limitações da alma.
-
A Cruz simboliza essas virtudes: a santidade e a humildade no alto e no baixo; a majestade e a beleza nos lados esquerdo e direito, respectivamente, representando também a unidade e a totalidade da alma perfeita.
-
A etimologia de “santidade”, “integralidade” e “saúde” revela sua origem comum, assim como as virtudes de sinceridade e simplicidade são inseparáveis da indivisibilidade da alma.
-
A causa principal da doença na alma é a perda da relação direta com o Coração, o que a priva do contrapeso divino à tendência extrovertida da criação, levando à desintegração dos elementos psíquicos e à perda da unidade, simplicidade e sinceridade.
-
O propósito da religião é fornecer um impulso em direção ao centro, recolocando a alma na esfera de atração do Coração, seja por meio de ritos ou de qualquer coisa com função espiritual.
-
A arte sacra, ao ser contemplada, reúne a alma, respondendo a um apelo à unidade, diferentemente da arte profana, que fragmenta.
-
A civilização moderna, ao contrário das sacras, não exige a unidade da alma e, ironicamente, a única civilização que deposita esperança no ambiente é a que não oferece um ambiente digno, cercando o homem de elementos que promovem a doença psíquica.
-
A educação, o trabalho, o lazer e o vestuário modernos são concebidos para sufocar o senso de majestade e beleza e fragmentar a substância psíquica, eliminando as virtudes de unidade, simplicidade e sinceridade.
-
O conhecimento da posição central do Sol e do movimento da Terra ao seu redor, presente em alguns sábios da Antiguidade, foi adquirido pela maioria dos homens a partir de Copérnico, mas essa aquisição de um conhecimento inferior coincidiu com a perda de um conhecimento superior e mais valioso: a certeza de que a alma individual gira em torno do sol interior.
-
Os antigos sabiam que a alma gira em torno do sol interior, apesar da ilusão do ego como centro independente, ilusão a que o homem decaído está sujeito.
-
Hoje, quando o ego humano atinge o limite máximo de separação do Coração, a ilusão da centralidade própria do ego está no auge, e a maioria duvida ou nega a existência do sol interior.
-
A perda do conhecimento superior e a aquisição do inferior são consequências da mudança geral da habilidade humana, antes aplicada ao espiritual e agora ao material.
-
A virtude teologal da esperança consiste em considerar a vida humana como uma viagem que leva à satisfação eterna de todos os desejos, desde que certas condições sejam cumpridas, visando sempre a “remontada” da corrente, embora com diferentes métodos segundo as religiões e os indivíduos.
-
O objetivo final da aspiração religiosa, mesmo em seu nível mais baixo, é o reatamento do contato com o Espírito, por meio da Graça obtida pela adoração.
-
Até recentemente, essa era a orientação universal do homem: todas as “embarcações” remavam, de algum modo, contra a corrente.
-
Nos últimos dois séculos, um número crescente de “embarcações” deixou de lutar contra a corrente e passou a segui-la, proclamando como “progresso” essa inversão de direção e convidando os que ainda resistiam a se “libertar das cadeias da superstição”.
-
O novo credo, raramente examinado em detalhe, implica que os esforços milenares da humanidade para remar contra a corrente foram inúteis e sem objeto.
-
Os revolucionários e até as grandes figuras espirituais, como Buda, Cristo e Maomé, são reivindicados como precursores do progresso, ignorando-se que sua missão era, na verdade, reconduzir os homens à perfeição primordial.
-
A perda da esperança no progresso “vertical” do indivíduo para o Eterno levou os homens a depositar suas esperanças em um vago progresso “horizontal” da humanidade para um bem-estar terrestre, de gozo breve e duvidoso.
-
A incredulidade no Transcendente não elimina os elementos psíquicos cuja função é aspirar a Ele, e essa substância psíquica “inutilizada”, especialmente nos líderes do mundo moderno, torna-se perigosa e geradora de absurdos.
-
A religião semi-religiosa e tíbia dos “mestres pensadores” modernos é impotente para abrir caminho às mais altas aspirações da alma, que, invertidas, caem ao nível das aspirações terrestres, gerando deformações e caos.
-
A fé, a esperança e a caridade, asas da alma, quando não cumprem sua função, degeneram em fanatismo pela pseudorreligião do progresso e em um otimismo grotesco que ignora a realidade.
-
O entusiasmo apaixonado, fruto da queda da mais alta faculdade da alma, que deseja o Divino, dissipa-se na busca vã por um Absoluto terrestre.
-
/home/mccastro/public_html/perenialistas/data/pages/lings/casm/presente.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
