HÁ LUGAR PARA GRAÇA NO BUDISMO?
PALLIS, Marco Alexander. A Buddhist spectrum: contributions to Buddhist-Christian dialogue. Bloomington, Ind: World Wisdom, 2003.
-
Existência de respostas negativas à possibilidade de graça no budismo decorrente de apologéticas neobudistas centradas em um humanismo ocidental que enfatiza o esforço puramente empírico do indivíduo.
-
A caracterização do Buda como mero descobridor da via é válida em contexto tradicional, mas a interpretação da oportunidade como puramente empírica carece de fundamento sólido.
-
A ausência de um Deus pessoal em sistemas não teístas dificulta, para observadores externos, a reconciliação entre um dom imerecido e a inflexibilidade da lei do carma.
-
A função divina traduzida como graça é inteligível no budismo, embora a sabedoria budista não lhe confira a mesma forma encontrada nas doutrinas personalistas de proveniência semítica.
-
Cada forma de sabedoria determina a natureza de seu método correspondente, sendo este um princípio governante da vida espiritual budista.
* Diferenciação necessária entre a revelação cristã, que requer a afirmação da graça desde o princípio, e a abordagem budista, cujas diferenças de método decorrem do desenvolvimento cármico da humanidade.
-
A correspondência do termo graça a uma dimensão universal da experiência espiritual torna impensável sua ausência em uma das grandes religiões mundiais.
-
A expressão dessa dimensão em países tradicionalmente budistas ocorre através de formas apropriadas que carregam ensinamentos explícitos ou latentes.
* Natureza paradoxal da busca pela iluminação que parece exigir o abrangimento do absoluto pelo relativo e do imperecível pelo efêmero, posicionando o homem como sujeito e a iluminação como objeto.
-
Paralelismo nas religiões teístas onde a busca por Deus reconhece que a percepção humana unilateral é inadequada à essência divina.
-
Inadequação intrínseca das potências humanas para igualar a talidade da iluminação, apesar do convite budista ao estado búdico.
-
Acessibilidade do objetivo transcendente a todo ser humano em virtude de sua posição no eixo do estado búdico e, indiretamente, a todos os seres sencientes.
* Distinção terminológica entre a iluminação apresentada como estado no budismo e o objetivo vestido com atributos de personalidade nas religiões semíticas.
-
Permanência da ideia de divindade inqualificável no termo Deus, mesmo em teologias ocidentais com viés antimetafísico.
-
Reconciliação perfeita dos pontos de vista pessoal e impessoal no hinduísmo, fora do mundo semítico.
* Legitimidade do uso de modos de expressão pessoais ou antropomórficos no budismo como meios provisórios ou upayas para evocar uma realidade inexprimível.
-
Importância do contexto e da maneira de utilizar os termos em detrimento das palavras isoladas.
-
Primazia do silêncio sobre a fala, exemplificada pelo silêncio do Buda e a origem do Zen no episódio da flor.
* Identificação da transcendência no Cânone Pali como chave para a compreensão da graça no cenário budista.
-
Afirmação da existência do não nascido e não composto como condição necessária para a escapatória do mundo dos fenômenos compostos.
-
Uso de linguagem de transcendência análoga à de cristãos ou muçulmanos para fundamentar a esperança humana.
* Necessidade de uma ponte ou elo entre o mutável e o eterno, correspondendo esta função à graça divina.
-
Ineficácia de uma busca baseada apenas na visão imperfeita e poderes limitados do buscador diante da incomensurabilidade da iluminação.
-
Caráter ilusório da reivindicação humana de um eu individual, causa de aberrações conceituais.
* Impossibilidade de o homem ser o agente ativo em uma operação onde a iluminação desempenharia papel passivo.
-
Atividade plena da consciência da realidade divina, situada fora de todo o devir.
-
Pertencimento de toda contingência e potencialidade ao samsara, o ciclo da existência composta.
* Reconhecimento da iluminação como o verdadeiro sujeito da busca e do homem como o termo passivo da adequação suprema.
-
Cancelamento da distinção sujeito-objeto na iluminação, conforme intuição metafísica.
-
Perspectiva de Meister Eckhart sobre a prontidão do superior em derramar seu poder sobre o inferior, aplicável à iluminação budista.
* Inversão da percepção da realidade causada por um egocentrismo deslocado e pela ilusão congênita da existência.
-
Coincidência essencial entre os pontos de vista relativo e absoluto, ou samsara e nirvana, conforme o Sutra do Coração.
* Atividade da iluminação como função da graça que condiciona o retorno do homem ao centro.
-
Atração exercida pelo centro como incentivo para iniciar o caminho e energia para superar obstáculos.
-
Fé na iluminação do Buda como lâmpada necessária até o salto final no desconhecido.
* Manifestação da influência atrativa da iluminação na consciência humana através do convite, do acompanhamento e dos lembretes.
-
Correspondência do convite à conversão e ao dom da fé.
-
Correspondência do acompanhamento ao estado de graça que permite superar fraquezas ordinárias.
-
Identificação dos lembretes com os meios de graça ou upayas consagrados pela tradição.
* Descrição do convite à iluminação como a primeira experiência clara de um chamado para tornar a vida religiosa uma realidade.
-
Independência do evento em relação a circunstâncias antecedentes ou maturidade intelectual.
* Surgimento do pensamento da iluminação ou bodhi-citta como requisito para o início da jornada no sentido budista.
-
Mistério do despertar da fé e sua concomitante renúncia ao mundo.
-
Perigo da apresentação da não dualidade para iniciantes, podendo gerar inflação do ego.
* Caracterização da urgência espiritual como um dom gratuito onde o indivíduo é o recipiente passivo.
-
Reconhecimento da iluminação como único valor intrínseco e critério de avaliação de todas as outras coisas.
-
Definição da vida espiritual por Frithjof Schuon como o discernimento entre o real e o ilusório.
-
Incisão inicial na casca da ignorância humana operada pela natureza búdica que busca libertação.
* Operação da companhia da iluminação como um fermento que preenche a lacuna entre a incapacidade humana e a tarefa sobre-humana.
-
Repetição do chamado inicial em vários estágios do desenvolvimento espiritual.
-
Função dos obstáculos samsáricos em revelar e velar simultaneamente o cume da iluminação.
-
Distinção fundamental entre o símbolo como chave para o conhecimento e o ídolo como realidade autônoma.
* Necessidade de situar a vida presente no esquema da transmigração para compreender a fluidez do mundo.
-
Correlação entre o conhecimento da natureza do samsara e o conhecimento do nirvana.
-
Dependência mútua entre a opinião sobre o mundo e a opinião sobre a iluminação, conforme paráfrase de São Tomás de Aquino.
* Crítica à visão ocidental da transmigração como uma segunda chance baseada em progresso ou evolução linear.
-
Incompatibilidade da ideia de progresso unidirecional com a indefinitude essencial da transmigração budista.
-
Improbabilidade de renascimento humano imediato dada a natureza trivial das atividades na vida comum.
* Raridade do nascimento humano no budismo e a gravidade das consequências cármicas para uma consciência desperdiçada.
-
Possibilidade de renascimentos em estados inferiores como resultado de uma vontade morna em relação à verdade.
-
Insuficiência da mera ausência de crimes graves para garantir tratamento privilegiado nas escalas cármicas.
* Realismo empírico das escatologias semíticas ao limitar a escolha entre salvação e perdição como meio de urgência espiritual.
-
Substituição do temor da ira divina pelo temor do wandering interminável no samsara para o budista.
-
Rejeição de qualquer tendência otimista uniforme no processo cósmico.
* Alcance da iluminação a partir de uma vida humana particular, como ilustrado pelo Príncipe Siddhartha.
-
Contribuição do bom carma para a iluminação através da disposição para o conhecimento e surgimento em condições favoráveis.
-
Perigo de utilizar a possibilidade de bom carma como desculpa para adiar o esforço espiritual.
-
Identificação do Buda com o coração da causalidade, onde cessa todo movimento do devir.
* Surgimento da iluminação pelo fim do sonho da individualidade e não por uma conquista de um eu particular.
-
Transparência das coisas diante da luz incriada como término do processo de devir.
-
Compreensão da via mostrada pelo Buda para escapar da dominação das contradições internas do dualismo.
* Função dos lembretes de iluminação nas civilizações tradicionais como meios de observar o funcionamento da graça.
-
Destaque especial para a imagem sacramental do Bem-Aventurado presente em todo o mundo budista.
* Papel do guru ou mestre espiritual como representante do espírito e iniciador no caminho para a iluminação.
-
Qualificação do mestre independente de testes determináveis e exigência de comportamento do discípulo como se diante do Buda.
-
Instrução análoga na iniciação cristã centrada na Oração de Jesus.
* Mestre espiritual como essência do Sangha, exemplificado pela relação entre Marpa e Mila Repa.
-
Expressão da graça do guru nos poemas de Mila Repa apesar do esforço pessoal extremo face às provações.
* Existência de um guru interior identificado como o Intelecto ou inteligência intuitiva residente no coração de cada ser.
-
Analogia com o daemon de Sócrates e a afirmação de Cristo sobre o Reino de Deus interior.
-
Função da inteligência em conduzir de volta à luz por participar da substância da iluminação.
* Mensagem positiva do sofrimento e das insatisfações recorrentes como guias para a identificação da causa primária do egocentrismo.
-
Concordância entre essa esperança e a Primeira Verdade do Buda.
* Doutrina Mahayana dos três kayas ou corpos da iluminação como mansões da essência, do usufruto e da projeção no mundo.
-
Função do Nirmana-kaya na manifestação da graça através de milhões de avatares para a conversão dos seres.
* Revelação do sutra tibetano sobre o Buda Samanta Bhadra como expressão da realidade primordial além de nirvana e samsara.
-
Definição da iluminação como realização da não dualidade e do samsara como sua ausência.
* Introdução do termo vácuo nos sutras budistas para evitar a superposição de conceitos humanos sobre a divindade.
-
Título de Shunya-murti para o Buda como forma do vácuo, sublinhando a verdade que foge à enunciação positiva.
* Manifestação da presença misericordiosa através do fluxo de revelações avatáricas de Budas e Bodisatvas.
-
Outorga da carta da graça e sua operação no mundo para a libertação de todos os seres.
* Presença de uma expressão pessoal do divino no budismo em forma distributiva como o Sangha celestial de Budas e Bodisatvas.
-
Representação do aspecto estático pela figura do Buda e do aspecto dinâmico pela misericórdia projetada no samsara pelos Bodisatvas.
* Excelência da imagem do Buda no gesto de tocar a terra como lembrete supremo da iluminação e meio de graça.
-
Caráter milagroso e simbólico da representação iconográfica compartilhada por Theravada e Mahayana.
* Origem da imagem do Buda como uma projeção milagrosa do próprio Iluminado para servir como verdadeiro símbolo e não mera adulação pessoal.
-
Distinção entre a reprodução de superfícies e a iconografia sagrada que emana do poder sobre-humano.
* Explicação de Titus Burckhardt sobre a inseparabilidade entre a doutrina do carma e a qualidade da graça na imagem sagrada.
-
Função do Buda como uma ruptura no sistema fechado do devir que manifesta estados imutáveis.
* Significado simbólico do episódio em Bodh-gaya onde o Buda desafia Mara ao tocar a terra.
-
Identificação da árvore pipal com o eixo do mundo ou Árvore da Vida.
-
Testemunho da terra sobre o direito do Bodisatva ao trono adamantino contra o príncipe deste mundo.
* Simbolismo do lótus e dos gestos das mãos na imagem clássica do Buda para definir as exigências espirituais humanas.
-
Representação do samsara pelas águas e a postura de superação pela verdadeira natureza.
-
Significado da tigela de esmolas como aceitação passiva da graça celestial como dom gratuito.
* Exigência de uma atitude ativa em relação ao mundo e passiva em relação às dádivas do céu.
-
Crítica ao homem ignorante que inverte essas atitudes ao ser complacente com o mundo e exigente com o espiritual.
-
Transformação do carma em graça e guru quando contemplado como lembrete da necessidade de iluminação.
-
Analogia com Savitri que venceu a morte pela resignação.
* Predominância da ideia de graça na doutrina da Terra Pura baseada no voto do Buda Amitabha e na invocação de seu nome.
-
Atração de europeus por métodos de esforço próprio como Zen ou Theravada humanista em reação ao cristianismo dependente de Deus.
-
Indispensabilidade mútua entre as abordagens de poder próprio e poder do outro.
* Moldagem do praticante de Zen pela disciplina tradicional japonesa, autoridade e aceitação de restrições formais.
-
Influência do xintoísmo na alma japonesa através do culto à natureza e virtudes cavalheirescas.
-
Necessidade de proporção na compreensão do Zen para evitar fascínios por reações contra valores convencionais.
* Presença do elemento de poder do outro no Zen através da figura do mestre ou roshi.
-
Reconhecimento da não dualidade entre esforço pessoal e graça por autoridades do Zen.
* Ilustração da união entre vontade livre e graça na história da travessia de Bodhidharma sobre um junco.
-
Descoberta do veículo no litoral como um dom da graça antes da iniciativa ativa do sábio.
-
Reafirmação da moral da imagem do Buda através do encontro com o meio providencial.
* Natureza tipicamente budista da doutrina da Terra Pura, rejeitando hipóteses de influência nestoriana externa.
-
Fundamentação do ensinamento no voto de compaixão do Bodisatva Dharmakara de não atingir a iluminação sem a libertação de todos os seres.
-
Eficácia da invocação do nome de Amitabha como sinal de rendição incondicional à graça.
* Dialética da Terra Pura sobre o enfraquecimento humano nos dias sombrios que justifica a dependência total da graça.
-
Prioridade da salvação dos pecadores sobre os justos, em paralelo com ensinamentos de Cristo.
* Existência do mantra mani no Tibete como método de invocação reminiscente do nembutsu.
-
Personificação da compaixão por Avalokitesvara como emanação dinâmica do Buda Amitabha.
-
Papel de todo Bodisatva como personificação viva da função da graça.
* Coincidência espiritual entre o budismo e o islã decorrente da natureza das coisas.
-
Paralelismo entre os nomes divinos Ar-Rahman e Ar-Rahim no Alcorão e as figuras de Amitabha e Avalokitesvara.
-
Correspondência entre a clemência intrínseca e a misericórdia projetada para as criaturas.
* Ponto de encontro de todas as vias religiosas na Terra Pura da iluminação.
-
